27/06/2016

Nelson Zagalo sobre Não É Meia Noite Quem Quer (blog Virtual Illusion)

Li centenas de crónicas de António Lobo Antunes (ALA), contudo este é o seu primeiro romance que termino. Não que me tenha esforçado por ler outros, confesso que outros antes não me motivaram suficientemente, nomeadamente pelo surgimento constante do tema da guerra colonial, que me provoca algum distanciamento. Este perseguia-me quase desde que saiu, pois gostei imenso das primeiras páginas, o retrato que ALA ali desenha abre para uma espécie de cenário tipo do cinema português dos anos 1990: urbano, melancólico, pausado, reflexivo, e profundamente introspectivo.

“Não É Meia Noite Quem Quer” vem dividido em três grandes capítulos, por sua vez divididos em 10 secções cada, em que cada capítulo representa um dia, sendo que a acção decorre de sexta a domingo, tudo distribuído por 450 páginas. A escrita de ALA não é simples, desde logo porque trabalha em fluxo de consciência, estamos todo o tempo dentro da cabeça da protagonista, com excepção apenas para duas secções, em que somos convidados a entrar na mente de uma amiga e noutra vez do irmão que tinha ido para a guerra. Deste modo temos uma escrita entrecortada e fragmentada, sem contudo deixar de nos seduzir pela beleza do ritmo e texto, quase por vezes a roçar o poético.

A acção decorre nos anos 1990, a protagonista tem 52 anos e é professora, ao longo do livro vamos ficar a conhecer os seus três irmãos: o irmão que foi para a guerra e voltou louco; o mais velho que se suicidou; e o irmão surdo que vive revoltado. A mãe e vizinhas, o pai e seus vícios, a sua infância e amigas, o encontro do marido, a perda de uma filha que não chega a nascer nem permite que outras nasçam, a perda do marido que se deixa levar por outra, até à perda de uma parte do seu corpo levada por uma mastectomia.

Se o primeiro capítulo (sexta-feira) nos leva como uma onda, parecendo difícil parar de ler, queremos não apenas conhecer mais quem nos fala, mas também deleitar-nos com a escrita do autor, no segundo capítulo (sábado) muito disto perde-se, voltando apenas a reencontrar-se no terceiro momento (domingo). Deste modo fica-me uma sensação, no final da leitura, de falta de edição, o que havia para contar, para nos fazer sentir, podia ter sido conseguido em muito menos páginas, nomeadamente obliterando muito daquilo que está no segundo capítulo, e algumas partes do terceiro e até primeiro.

São vários os momentos que perturbam a leitura, e criam distanciamento, por serem extemporâneos, dos quais o mais saliente acontece o final do segundo capítulo, com toda uma secção a ser ditada pelo irmão que foi para a guerra em África, na primeira pessoa. Passamos do universo que acima defini, para outro completamente distinto, não apenas porque em termos de cenário é tão longíquo, mas porque o tom se transforma radicalmente, passando da melancolia à violência brutal, sem que isso tenha uma implicação directa na personagem principal. Ou seja, a manutenção deste todo, aparentemente sem edição, resulta tão pouco homogéneo acabando por retirar força à obra.

Efeitos desta falta de coerência acabam por resvalar e contaminar outros elementos, tais como a progressão narrativa, que se vai desvelando simplista porque previsível, nomeadamente dados os clichés que vão surgindo aqui e ali. Se a protagonista se caracteriza por via da caracterização dos demais, esses são por vezes tão óbvios que incomodam, como o irmão ensandecido que trouxe traumas da guerra, ou a mãe que engana o marido com o canalizador! Não se percebe a lógica de tão pobres construções, que acabam por se misturar e intensificar com o tom muitas vezes altivo, elitista, com que se vai descrevendo a “gentinha” ou os “pretos”, mesmo que sendo pela boca de personagens na primeira pessoa.

“Não É Meia Noite Quem Quer” acaba sendo uma obra a considerar, por ter o autor que tem, e consequentemente apresentar por várias vezes rasgos de escrita magistral, como a última secção do primeiro capítulo, toda num parágrafo que se prolonga por 15 páginas, que nos dá vontade de ler num único trago. Por outro lado, toda esta genialidade artística acaba por conferir toda uma dimensão de respeitabilidade que parece ter impedido a quem devia ter exercido o seu trabalho criticamente e assim contribuir para que o bom pudesse ter chegado a ser excelente.


por Nelson Zagalo
07.11.2015

26/06/2016

Emanuel Moreira sobre Que Farei Quando Tude Arde? (em Goodreads)

Dezarrezoado amor, dentro em meu peito
tem guerra com a razão. Amor, que jaz
e já de muitos dias, manda e faz
tudo o que quer, a torto e a direito.

Não espera razões, tudo é despeito,
tudo soberba e força, faz, desfaz,
sem respeito nenhum; e quando em paz
cuidais que sois, então tudo é desfeito.

Doutra parte, a razão tempos espia,
espia ocasiões de tarde em tarde,
que ajunta o tempo; em fim vem o seu dia:

Então não tem lugar certo onde aguarde
Amor; trata traições, que não confia
nem dos seus. Que farei quando tudo arde?

Sá de Miranda

O soneto de Sá de Miranda resume bem a situação de Carlos quando confrontado com as questões "o que sou, quem é que sou". Até então se diria masculino mas na realidade pouco do que é se enquadra nesse padrão, descobre que[,] afinal, [é] Soraia. Este despertar ocorre talvez inevitavelmente tarde; Carlos já era casado com Judite, uma professora que posteriormente deixa de exercer a profissão e dedica-se ao alcool e à prostituição. E tarde também porque da relação já existe Paulo, filho do casal e a personagem central do livro.

Esta é a premissa de uma obra inspirada na vida de Ruth Bryden, aquela que foi uma das mais icónicas figuras do show travesti em Portugal. Ruth/Joaquim após o divórcio namorava com um rapaz quinze anos mais novo, Paulo (no livro Rui) que morre por overdose (suícidio) após a morte de Ruth (Soraia). Do casamento de Joaquim (Carlos) com Maria (Judite) há um filho, Rui (no livro Paulo).

A partir destas semelhanças a viagem vai muito além da realidade, levantando importantes questões sobre a identidade de género que[,] primariamente notórias em Carlos, são também vividas por Paulo. Quando Carlos já a entregar-se à Soraia a sua relação com a mulher muda, o tratamento, o respeito, finalmente começa a sentir na pele os avessos da condição feminina, num permanente faz, desfaz.

"uma filha não há-de passar o que passei, as mulheres são capazes do que eu não sou capaz, acostumam-se ao passado, vivem nele, respiram-no, distinguem-no, distinguem pela orientação do vento as sepulturas que habitam, uma filha não haveria de sentir o que sinto, estas mão que me puxam, me arrepelam, me prendem, as mulheres bebem o sofrimento como as plantas ou as éguas ou a terra ou as árvores, as mulheres são éguas e mantêm com a morte um diálogo secreto, conhecem as trevas do seu corpo onde me desloco às cegas e a direcção da paz, uma filha poderia fazer o que eu não"

Como se isto não fosse complicado o bastante Paulo e outras personagens consomem heroína, proporcionando momentos realmente complexos e obscuros. A partir do momento que o núcleo familiar se desintegra, Paulo não fica com nenhum dos pais. Assim seguimos os três percursos e de todas as novas personagens que fazem parte das suas vidas. Todos têm algo a dizer, modificar, deturpar, as pontas são lançadas e ficam soltas.

Ao longo do livro dei especial atenção às personagens enquanto crianças, nenhum daqueles adultos pediu para nascer e por inconsequências nasceram, e sofreram, nasceram como nascem os coelhos, são coelhos. A infância não é feliz, há antes uma sede de um ideal da infância, o que qualquer criança deveria ter, e estas não tiveram. 

O final é aberto, o leitor escolhe. Este livro devolve uma admirável dignidade à condição feminina, o também ser-se Soraia. Como um produto de tudo que ardeu, podem dois seres distintos ter a mesma identidade? 


por Emanuel Moreira
30.05.2016

19/06/2016

Melina Balcazar Moreno sur De la Nature des Dieux

Antonio Lobo Antunes ou le noyau de ténèbres

«Le monde a été fait à l’envers», a dit un jour un vieil homme dans un hôpital psychiatrique à António Lobo Antunes. Un homme que «les médecins appelaient schizophrène» et qui, en proie à ces mots qui le torturaient, a donné au jeune écrivain la plus simple leçon d’écriture qui soit: on ne peut écrire qu’à partir de ce qui précède les mots. C’est-à-dire les émotions, les pulsions qui lui donnent forme et, en même temps, déforment la mémoire. Ainsi, dans «Recette pour me lire»: «les mots ne sont que les signes de nos émotions, et les personnages, les situations et les intrigues, des prétextes apparents pour atteindre l’envers caché de l’âme. La véritable aventure que je poursuis est celle que le narrateur et le lecteur partagent dans les tréfonds de l’inconscient, siège de l’âme humaine» (Livre des chroniques III). Car, comme Lobo Antunes veut nous le rappeler, rien n’est plus incertain, plus imprévisible, que le passé.

Dans De la nature des dieux, son dernier roman – ou devrait-on plutôt dire son long poème, tant la frontière entre les genres semble fragile –, l’écrivain aborde le destin d’une grande famille portugaise, étroitement liée au pouvoir et à l’argent. Une histoire pleine d’incertitudes, de lacunes, de zones d’ombre, racontée de manière fragmentaire par un entrelacement de voix, de temps et de niveaux de conscience. Le lecteur se trouve ainsi confronté à une phrase syncopée, sans virgule ni majuscule, emportée par cette succession de voix, hantées par d’autres voix, qui s’interrompent et demeurent souvent en suspens. Ces monologues tendent pourtant vers la figure d’un homme, qui ne sera jamais désigné autrement que comme «Monsieur», mais détenant un pouvoir de décision sur leur vie, en tant que patron, maître, époux, amant ou père. D’ailleurs, Monsieur lui-même finit par prendre à son tour la parole, laissant paraître sa profonde angoisse de la solitude et de la mort: «si en plus des banques j’avais aussi la main sur la vie des gens, je leur interdirais de mourir». Plutôt qu’une réflexion sur les mécanismes du pouvoir, Lobo Antunes explore bien ici son envers, sa fragilité, voire son impuissance.

De l’enfance et de la peur du noir

L’écriture de Lobo Antunes cherche donc à se situer au-delà du récit, pour se concentrer sur la manière dont les souvenirs, particulièrement ceux de l’enfance, s’emparent du présent, jusqu’à le faire vaciller: «voyez un peu le pouvoir qu’a l’enfance, elle se niche au fond de nous et, sans qu’on s’y attende, paf, elle rejaillit». De la nature des dieux se présente ainsi comme «un miroir dans lequel on se voit tel qu’on est, nu et sans défense». C’est sans doute le défi le plus important lancé par ce roman au lecteur, qui se trouve sans cesse ramené à ses souvenirs, à son propre «noyau de ténèbres», à sa solitude: ce qui se trouve au cœur des personnages, au cœur de leur parole, c’est bien l’empreinte que l’enfance a laissé en eux et qui se prolonge dans leur vie adulte. Malgré les conflits et la violence de leurs relations, la hiérarchie qui régit leur existence, cette enfance continue à fermenter, à mûrir en eux et finit même par les rassembler. Les joies et les blessures de l’enfance ressurgissent et minent silencieusement le rôle qu’ils occupent dans les représentations sociales. Tel est le cas de Monsieur qui, dans l’intimité, auprès de sa femme, redevient un enfant :

«se déshabillant à l’autre bout de la chambre et moi surprise que les hommes ainsi, je ne les imaginais pas à ce point sans défense, je les croyais plus forts et je me suis alors rendu compte que ce n’est pas avec nous qu’il sont, c’est avec l’enfant qu’ils ont été, allongé à mes côtés sans oser me saisir
— Tu ne vas pas me faire de mal pas vrai ?
je suis si petit, protège-moi, prends soin de moi, mon mari, propriétaire de banques, de sociétés, de toutes les entreprises du monde
— Je n’ai pas grandi
[…] et mon mari progressivement mon mari à mesure qu’il se rhabillait, lorsqu’il a serré sa cravate autoritaire, féroce»

La puissance des douleurs de l’enfance et de la peur du noir est en effet immense. Elle assaillit le sujet, le ramenant à la vulnérabilité propre à cet âge : des enfants soumis à la domination des adultes, victimes de leur indifférence, de leur violence, témoins silencieux de leurs échecs.

L’enfance est aussi un rapport unique au langage, qui travaille en profondeur la matière mémorielle dont sont constitués les personnages. Ce sont des mots qui «collent à la peau, qui s’incrustent et qui ne vous lâchent plus», comme celui que le père de Monsieur lui adressait, «pendard», et qui revient sans cesse, ponctuant l’injustice et la violence de ses actes, commis presque malgré lui, comme s’il ne faisait que se soumettre en quelque sorte à l’infamie du monde.

De la blessure secrète de tout être

Lors d’un entretien, António Lobo Antunes évoque un dialogue chez Dickens qui a provoqué une forte impression en lui: un homme demande à sa mère mourante, «as-tu mal maman?»; ce à quoi elle répond: «j’ai l’impression qu’il y a une douleur dans la chambre mais je ne sais pas si c’est moi qui l’ai». Telle semble être aussi une des questions principales qui traverse ce roman. À qui appartient finalement la douleur que l’on ressent? Car il s’agit d’une douleur qui dépasse le sujet, une douleur qui s’étend aux lieux, aux animaux, et dont la présence est si prégnante tout au long du livre: “il y a des bestioles qui pleurent énormément, elles se brisent en faisant le même bruit que les pierres, agonisent en silence”. Hommes, animaux, enfants se rejoignent ainsi par leur vulnérabilité, par l’abandon et l’indifférence qu’ils subissent: “la mouette sur la route sans une âme pour la sauver”.

Les flux de parole des personnages se cristallise alors autour d’un noyau de douleur, dont l’origine remonte à un temps ancestral que l’on pourrait décrire, avec Georges Didi-Huberman, en tant que «ce jeu impur, tensif, ce débat de latences et de violences» qui mine dès l’intérieur la tyrannie de l’ordre social. Et c’est sans doute ce que la figure silencieuse, mais persistante, du sans-abri qui traverse les récits des personnages essaie de nous faire comprendre. Il paraît nous rappeler cette solitude, cette détresse originaires que, à l’instar de ces voix du roman, nous essayons d’occulter par des faux-semblants: «je n’aurais pas pu toucher le sans-abri si d’aventure il était passé devant moi ni vérifier s’il était un ange comme Monsieur l’avait suggéré une fois, examinant son dos à la recherche d’ailes même s’il ne s’approchait jamais de quiconque, il se détournait toujours, de la même façon que Dieu jamais auprès de moi à aucun moment de ma vie, en voilà un autre dont je me demande bien ce que je Lui ai fait pour qu’Il se fiche de moi à ce point. »

Que reste-t-il donc dans ce monde déserté par les dieux ?

Il reste malgré tout ce livre, qu’il nous est pourtant conseillé de jeter, de «balancer à la poubelle» car il a été obscurci par «l’ombre du vol des oiseaux au-dehors». C’est certainement une grande leçon de ténèbres que Lobo Antunes nous offre ici, et qui nous fait enfin entendre la rumeur des morts.


par Melina Balcazar Moreno
en Diacritik
16.06.2016

04/06/2016

antonioloboantunes.pt em outros idiomas




Olá!

Estamos a publicar vários textos no blog e facebook - artigos de opinião, crítica, entrevistas, etc - em outros idiomas, nomeadamente em castelhano, francês e inglês (também iremos publicar em italiano mais tarde) como o primeiro passo para a internacionalização do site antonioloboantunes.pt. Por favor espalhem a notícia!


¡Hola!

Estamos publicando varios textos en el blog y facebook - artículos de opinión, críticas, entrevistas, etc. - en otros idiomas, particularmente en castellano, francés e inglés (también vamos a publicar en italiano más adelante) como el primer paso hacia la internacionalización del sitio antonioloboantunes.pt. ¡Pasa la voz!


Salut!

Nous publions dans le blog et facebook divers textes - articles d'opinion, critiques, interviews, etc. - dans d'autres langues, notamment en espagnol, en français et en anglais (nous allons également publier en italien plus tard) comme la première étape vers l'internationalisation du site antonioloboantunes.pt. S'il vous plaît passez le mot!


Hello!

We are posting several texts on the blog and facebook - opinion articles, critics, interviews, etc. - in other languages, particularly in Spanish, French and English (we will also post in Italian later) as the first step towards the internationalization of the site antonioloboantunes.pt. Please spread the word!


Ciao!

Pubblichiamo alcuni testi sul blog e facebook - articoli d'opinione, critici, interviste, etc. - in altre lingue, in particolare in spagnolo, francese e inglese (ci sarà anche inviare in italiano più tardi) come il primo passo verso l'internazionalizzazione del sito antonioloboantunes.pt. Si prega di diffondere la parola!

02/06/2016

Antoine Perraud, "Les voix du silence" (sur De la nature des dieux / Da Natureza Dos Deuses)

edition Christian Bourgois
L’enthousiasme désabusé, l’ironie macabre et le rythme envoûtant de l’immense écrivain portugais António Lobo Antunes, né en 1942, font merveille dans ce vingt-cinquième roman, annoncé comme le dernier par un prosateur qui ne résiste pas à jouer, entre autres, avec sa propre disparition. Voici, admirablement traduit par Dominique Nédellec, un magnifique da capo – mais l’auteur de Mon nom est légion, La Nébuleuse de l’insomnie, ou Quels sont ces chevaux qui jettent leur ombre sur la mer ?, a-t-il jamais cessé de ressasser en pure poésie ?

Son écriture organise un réseau d’obsessions. Des soliloques se tressent. Impression de choralité. Polyphonie mais cohérence, en dépit d’une écriture multipliant les embardées, les tonneaux, ou les marches arrière. Une écriture hoquetant langoureusement le temps de phrases privées de ponctuation, grinçantes et douces à la fois, vibrantes de l’énergie du désespoir.

Une écriture contagieuse : les plus fervents lecteurs d’António Lobo Antunes se reconnaîtront peut-être un jour à psalmodier sur les places et sur les parvis ! Ils ne craindront plus d’entendre des voix ; à l’instar du romancier, jadis psychiatre, qui réverbère au long de son œuvre des récitatifs avec une technique de chef d’orchestre.

Cette musicalité radicalement énigmatique prend aux tripes, après un premier temps d’égarement face à la ronde carnavalesque ainsi instituée par un conteur hypnotique dans le sillage de Conrad. Et qui reprend, où Céline les avait laissées, des fulgurances chargées d’échos électrisants. Voici donc une houle de littérature nobélisable, on vous aura prévenus !

Splendide cantate éruptive d’impressions et de mots

Impossible à résumer, De la nature des dieux a pour épicentre, à Cascais, sur l’Atlantique, non loin de Lisbonne, une propriété entraînée dans une fin de cycle. Le roman compte quatre parties labyrinthiques. Il y a d’abord les visites de Fatima, chargée de livres que ne lira jamais Madame, qui se débat avec l’ombre du richissime Monsieur, son père hégémonique, dont nous découvrons ensuite les ravages, restitués par bribes, dans la bouche de ceux qui eurent à en souffrir, avant que Monsieur soi-même ne prenne part au débat, que viendra clore la parole d’une chanteuse populaire.

Le dispositif d’une telle répartition des voix évoque le Tuba mirum du Requiem de Mozart, où quatre chanteurs se passent le relais. Mais ici s’échappe, avec une puissance stylistique irrésistible, un monde chaotiquement cadenassé : ce qui pousse et tombe en ruine, les arbres et les oiseaux, le silence et le bruit du jardin, le craquement d’une marche d’escalier et le froid du marbre sous les pieds, les corps qui se déforment « avec une malveillance subtile », la mer dévorant les dunes, un désir de bleu inassouvi, les rencontres clandestines et les dominations officielles, « les douleurs de l’enfance et la peur du noir », le sans-abri lancinant comme un reproche, l’ombre de l’Afrique et les horloges omniprésentes comme toujours chez Lobo Antunes, les sourires qui se dissipent et les rictus qui se figent, la poussière qui nous guette tandis que nous hante « l’espoir de sentir un être vivant dans les parages »…

Splendide cantate éruptive d’impressions et de mots, témoignage des bouillonnements affranchissants de la langue qui travaille en chacun de nous, parti pris en faveur des femmes qu’il faudrait tout de même un jour décoloniser, réquisitoire contre la rapacité des rapports sociaux ou familiaux : ce roman, dont l’auteur sait s’effacer au profit de l’écriture, sème à foison des messages à première vue indéchiffrables.

De bout en bout, par exemple, un tournis de tours de clés compose une étrange et brutale poétique des battants qui s’ouvrent et se ferment. Comme si, par-delà Cicéron ­­ – auquel est emprunté le titre, De natura deorum –, António Lobo Antunes rendait hommage à Lucrèce. Lucrèce qui, dans son poème épique pionnier, De rerum natura, honorait Épicure pour avoir « désiré, le premier, forcer les verrous des portes de la nature ».

Voilà pourquoi le romancier portugais jamais ne capitule : toujours il récapitule !


par Antoine Perraud
en La Croix
02.06.2016

(merci a Dominique Nédellec pour la référence!)

Crónica «Nós» com reflexão sobre a sua leitura por Olga Fonseca

Nós Não precisávamos de falar. Como ele dizia – Tu sabes sempre o que eu estou a pensar e eu sei sempre o que tu estás a pensar ...