23/05/2015

Denis Leandro - dissertação sobre Que Farei Quando Tudo Arde?


“Quis escrever um livro sobre a identidade, fazendo várias interrogações que se colocam de um modo especial num travesti.”[1] Assim António Lobo Antunes resume [o] seu 15º romance, Que farei quando tudo arde?, publicado em 2001 [...]. O livro é, de facto, uma narrativa sobre a identidade e, sendo sobre a identidade, é também sobre o passado, sobre a origem e todo o emaranhado inextrincável que essa questão arrasta consigo.

Sobre o abismo da origem lança-se Paulo, narrador privilegiado no texto, que elege como pai um travesti de nome Soraia – que quando livre das plumas, lantejoulas e cabeleira postiça, dos enchumaços nas nádegas e no peito e da boca pintada, chama-se Carlos. A origem está já rasurada, tão indefinida e insondável, tão improvável como a sexualidade de Carlos/Soraia, a origem “suposta”.

O romance conta a conturbada história da personagem-narradora, atravessada por uma infância caótica, marcada pela indiferença paterna, pela dor e revolta de aperceber-se filho de um pai desajustado a este papel. Filho de um “palhaço” – como ele próprio afirma – sempre a remexer estojos e frascos de silicone, atormentado por uma sexualidade imprecisa, e de uma mãe ausente, aprisionada pela memória de um marido que nunca teve: Carlos casou-se com Judite, uma ex-professora primária que, no presente da enunciação, é uma decaída prostituta de 44 anos, alcoólatra e solitária. A infância surge, pois, em imagens dialéticas: é o lugar da perda e da morte – da negatividade, portanto –, mas também único espaço possível de retorno, sem, contudo, apontar para uma tentativa de recuperação, de plenitude do passado ou do que quer que seja. Como positividade, a infância é, aqui, um “desejo da infância”, muito mais que a sua idealização enquanto um “paraíso perdido”.

As histórias apresentadas no romance passam-se em espaços nunca pacíficos: o Bico da Areia é o lugar da saudade, mas também da ruptura, de onde Paulo foi tirado dos pais e levado ao casal de velhos que o criou, nos Anjos, e com o qual estabelece uma relação ambivalente, de amor e de resistência a este amor; o Príncipe Real – onde o pai passa a viver após embarcar na camioneta de Lisboa e abandonar a família, levando consigo no braço apenas o que se afigurou um casaco de mulher – é o local no qual Carlos atende seus clientes e recebe seus amantes: em sua casa não há lugar para Paulo e nela este será sempre um intruso. Espaços, portanto, profundamente marcados pela perda e morte dos mitos e afectos do passado ou pelos desencontros, incompatibilidades e cortes nas relações do presente.

O romance é a história dessa família lacerada, mas é também a história de diversas outras personagens que caminham, igualmente, por esse universo esfacelado pela dor e pela ausência: é a história de Gabriela, jovem namorada de Paulo, que perde o pai e se sente eternamente desamparada por essa perda; de Rui, órfão de pai e mãe, tratado com indiferença pela tia e que procura repouso no vício da heroína; ou a de Dona Amélia, velha de 73 anos que gasta os dias a vender [rebuçados] e cigarros na casa nocturna onde Soraia se apresenta; é também a história de um jornalista decadente de 62 anos, que todas as noites põe o prato de sua ex-mulher à mesa e se põe, igualmente, a sua espera, à espera do que não virá; é ainda a história de Luciano, médico lumbago e hipertenso que vê todos à sua volta como caveiras ambulantes e cuja amante, bem mais jovem que ele, nunca responde a seus gestos de carinho e atenção; ou ainda a história de Dona Helena e de seu marido – pais adoptivos de Paulo –, cuja filha, Noémia, morta aos onze anos de meningite, acaba por morrer uma segunda vez quando aquele que seria seu substituto – substituto para a dor trazida pela sua morte – vai-se embora de casa.

Em todos esses excertos de histórias, as personagens, as relações interpessoais e os espaços – notadamente as casas, esse locus familiar por excelência – são inscritos sob o signo da finitude e do precário: ao que parece, os anti-heróis de Lobo Antunes, não somente quando morrem, mas ainda e principalmente quando vivem, é pelo espaço da morte que transitam e é nele que cumprem suas atitudes, é ao tempo indefinido do morrer que eles pertencem.

Configurando-se como uma espécie de não-romance ou um romance às avessas, o livro divide-se em 32 capítulos não enumerados ou intitulados, compostos de fragmentos de histórias e suas variadas versões apresentadas fora de qualquer lógica convencional de cronologia, histórias repletas de avanços e recuos no tempo, numa torrente vertiginosa que desconhece pontuação, sintaxe ou paragrafação, valendo-se, inclusive, de procedimentos típicos da linguagem poética, como a metáfora e a metonímia, fazendo com que a narrativa esteja sempre a meio caminho entre a prosa e a poesia.

O livro obriga o leitor a uma revisão dos procedimentos de leitura empregados [n]um romance convencional: nada é aqui claramente determinado, nem o tempo, nem o espaço, nem as próprias histórias que apresentam, quase todas, versões diferentes e mesmo antagónicas sobre os destinos das personagens – que podem, com a mesma plausibilidade, ter morrido de [SIDA], ou se afogado, ou ainda se suicidado nas águas escuras do Tejo. Assim, a fragmentação do sujeito ocorre no texto – que não responde a um projecto totalizante, não havendo, pois, uma solução narrativa para tantas versões inconciliáveis e dispersas dos fragmentos de histórias apresentadas – e se dá, também, na própria superfície da página, com frases interrompidas e inacabadas e as intromissões constantes de vozes narrativas sem qualquer demarcação.

A literatura contemporânea, sem dúvida, tem aqui um d[os] seus representantes mais audaciosos e competentes no que concerne aos procedimentos de referencialização e construção textual, como talvez nunca antes se viu na história da  literatura de Língua Portuguesa. Estamos, sim, diante de uma outra forma de narrar, muito diferente daquela do romance tradicional do século XIX: uma narrativa que parece supor, em si mesma, uma certa conivência com a morte e o efémero, uma escrita que tem sua morada, paciente e perseverante, no desmoronamento. Narra-se contra a verossimilhança e a representação, num esvaziamento da mimese que parece instar por uma “apresentação” das coisas.

Mesmo com toda a subversão do realismo tradicional que o texto  opera, fisga-se ainda, como não poderia deixar de ser, alguns alinhavos de real: o romance teria sido escrito a partir da história de Ruth Bryden – grande ícone do travesti em Portugal que, semelhantemente à personagem Carlos, casou-se, teve um filho, separou-se e morreu tragicamente em 1999. O nome do narrador é o mesmo do namorado de Ruth, Paulo Oliveira, que se suicidou na praia da Fonte da Telha, aliás, mesmo lugar onde Rui, namorado de Soraia e quinze anos mais jovem que ela, é encontrado morto pela polícia. Mas o romance de Lobo Antunes afirma-se como ficção e os fragmentos de histórias nele narrados não adentram trilhas biográficas.

No “último” capítulo do livro – espécie de epílogo para todas as  histórias –, o leitor reencontra em Paulo a figura do pai, numa identificação que parece revelar uma certa dimensão cíclica das coisas ou, mais ainda, a sua permanência desde o início: as coisas não exactamente retornam porque, na verdade, nunca saíram de lá, permanecem sempre presentes, em profundidade, algumas vezes diluídas e apagadas, quase esquecidas, outras absurdamente pesadas e visíveis. A escolha de Paulo pelo nome Soraia é sua derradeira homenagem ao pai, cujo lugar passa a ocupar, numa transformação/revelação anunciada, em verso, desde a epígrafe do livro: 

Eu sou tu e tu és eu; onde estás eu estou e em todas as coisas me acho disperso. Seja o que for que encontres é a mim que encontras: e, ao encontrares-me, encontras-te a ti mesmo.[2]

As indagações que as personagens lançam, incansavelmente, a si mesmas e ao Outro em seus imensos monólogos permanecem, quase sempre, sem resposta, ecoando, incessantemente, pelo texto. Talvez porque, nesse universo de Lobo Antunes, nesse mundo de órfãos irredimidos onde absolutamente tudo arde, não há verdade alguma possível e perguntar seja, em si mesmo, um acto inacabado e sem pouso. À belíssima pergunta-título do livro segue-se, em 637 páginas, uma única certificação: de que “passamos a vida a fazer perguntas. E vamos morrer sem saber as respostas” [3].


[1] Entrevista concedida por António Lobo Antunes à revista Visão, n. 450, 18 Out. 2001.
[2] ANTUNES, 2001. p. 9. 
[3] Entrevista concedida por António Lobo Antunes à revista Visão, n. 450, 18 Out. 2001.

Referências bibliográficas

ANTUNES, António Lobo. Que farei quando tudo arde? Lisboa: Dom Quixote, 2001.
Visão, Lisboa, n. 450, 18 Out. 2001.


por Denis Leandro
em Revista do Centro de Estudos Portugueses
2005

[revisão do texto por José Alexandre Ramos]

Mário Santos - crítica a Não Entres Tão Depressa Nessa Noite Escura

A água nas trevas


António Lobo Antunes tem toda a razão ao chamar "poema" a este romance. "Não Entres Tão Depressa Nessa Noite Escura" não só é um poema, um longo, longuíssimo poema, como é um poema para ser lido em voz alta. Obra de um virtuoso, e dos mais extraordinários.

O mais difícil é começar. "Não Entres Tão Depressa Nessa Noite Escura"[...] , começa assim: "O meu pai nunca me deixou entrar aqui. Devia sentar-se na cadeira de baloiço e olhar do postigo o jardim lá em baixo, o portão, a rua, eu pequena a brincar às fadas com a minha irmã no rebordo do lago" (p. 15). O mais difícil é acabar. Mais de 500 páginas depois, o 14º romance de António Lobo Antunes acaba assim: "Ir-me embora é como tapar os espelhos todos sobre mim. [...] À falta de melhor toco-me com o dedo no vidro." (pp. 550/551). 

À sombra, ou à luz, destas duas citações podia instalar-se  talvez, sem dúvida, má iluminada, precária, sombriamente redutora  uma leitura deste livro. Falar-se-ia então de todas aquelas imagens que o percorrem, remetendo para o campo metafórico do olhar, dos espelhos, dos reflexos: "lagoa de sombras" (p. 293), "ovo de penumbra" (p. 327), "a luz acesa no espelho antes de se acender na parede" (p. 400), " a chaminé não completa, quebrada como um lápis na água" (p. 428), "quando os reflexos na janela eram mais nítidos que nós" (p. 515), "os três espelhos do toucador perguntando ao mesmo tempo, uma mãe de frente, duas mães de perfil e nenhuma / que estranho / parecida com as restantes" (p. 532), "cada vez que um peixe à superfície mil pedaços de jardineiro numa tremura de água" (p. 533). O espelho em que a narradora protagonista deste livro, Maria Clara, tenta rever-se estilhaçou-se (como terá acontecido com todos nós). O que sobra é um "puzzle" de reflexos para sempre fragmentários, um labirinto de vozes que se disputam, sobrepõem e se calam. Para sempre. Mas é preciso, e é quase sempre vital, não acreditar nisso. À tentativa apaixonantemente pueril de harmonizar esses ruídos nocturnos costuma chamar-se vida. Ou ficção. Por isso, Maria Clara convoca o bafo de outras vozes, que vem embaciar o que ela vai escrevendo (talvez com o dedo sujo de investigar a vertigem da vida) na "tremura de água" da memória. Nas migalhas do espelho.

O método, cremos que se diz polifónico (sendo que neste livro a tonalidade é dada pela voz de Maria Clara), não é novo em Lobo Antunes. Não é novo, pura e simplesmente. Outra coisa é reconhecer que Lobo Antunes o executa com raríssima afinação, donde a alegada vaidade do autor, não sendo pecado algum, é ainda inteiramente justificada.Mas tudo isto, que daqui já nos parece muito, não chega para explicar por que é que este livro  esta escrita  é viciante, perigosamente viciante, fazendo de António Lobo Antunes um virtuoso, e dos mais extraordinários. Busquemos então outro sentido, que não ecoando com a mesma variedade metafórica, não é menos estruturante (perdão?) e decisivo: a audição. 

No mar oceano de palavras que é qualquer livro de António Lobo Antunes (que é sempre, mais do que um rio ou um lago, um mar, uma praia, onde morrem e renascem sucessivas ondas de palavras faiscando minúsculos relâmpagos na areia das páginas), nós somos peixes cativos daquela encantatória "vozinha em anzol" (p. 314) que nos pesca a atenção como se pingasse, profana litania, "uma torneira nas trevas" (p. 307). E é por isso, sonoramente por isso, que tem toda a razão o autor, ao chamar "poema" a este romance. "Não Entres Tão Depressa Nessa Noite Escura" não só é um poema, um longo, longuíssimo poema, como é um poema para ser lido em voz alta. Ou melhor: a várias vozes altas. É um livro para ler com os ouvidos (arte em desuso), com orelhas que olham, com "olhos de quem escuta" (p. 342). Mais do que invenção ao nível das figuras de linguagem, trata-se de uma forte e belíssima (ou seja: eficaz) estrutura poética. Coisa desusada, portanto.

Maria Clara, um nome que é claramente obscuramente simbólico, revê o passado no Estoril. E o passado, já se sabe, tem muitos nomes presentes. Nomes que recordam nomes, ou pensam recordar, ou pensamos que recordam. Por vezes com uma nostalgia pungente, "como se tivesse saudades de haver sido árvore" (p. 437), tudo "tão frágil, tão de ossos tenros sob a pele" (p. 543). "Escrever frases umas sobre as outras na esperança que ninguém compreendesse o que sinto" (p. 442), diz a voz obscura de Maria Clara. E isto não é só um resumo da poética de António Lobo Antunes, mestre (citemos o dicionário: "o artífice que era dado como apto em algum ofício e só depois o podia exercer publicamente") na arte de "calibrar palavras"  "horas e horas de trabalho a calibrar palavras" (p. 297). É o resumo de uma ética. Que por vezes incomoda "como um cisco na pálpebra" (p. 305). Para que serve um romance? Para que serve perguntar? Para que serve uma mãe que "apenas nos retratos nos pegava ao colo" (p. 181)? Um romance é o único sítio onde podemos avistar um "pássaro de rio saltitando em seixos de palavras sem se molhar nunca" (p. 534).

Frases que se esfumam numa vírgula, ou nem isso. Ecos sem saída. Vozes como nuvens "sem contornos, mudando de forma" (p. 365). Mudando de voz na mesma frase, na mesma voz. Ou nem isso. E nenhuma capaz de "distrair a dor" (p. 411), esse "vazio de bolor com que as casas [...] lentamente, morrem" (p. 364). E nós lá dentro. Dentro do livro. Personagens "doentes / de desilusão" (p. 313), habitando "um passado defunto onde um piano desafinava episódios e vozes" (p. 407). Que guardamos como aquela roupa antiga que deixou de servir e não deitamos fora. A memória nunca deixa de servir, nunca deixa de se servir de nós. E atordoa. E confunde. Como aquele "caramanchão impresso ao contrário no lago atordoava os peixes" (p. 147). E eis outra figuração do espelho.

Entre a dor e o nada, os personagens de António Lobo Antunes escolhem o ardor sem remédio da infância, desse tempo em que se adivinhavam as tardes "pela cor do limoeiro" (p. 440). Sim, "embalem-me mais depressa para o caso de eu chorar" (p. 369). A vida uma doença que se não pode prevenir. "Rage, rage against the dying of the light", diz um verso de Dylan Thomas, de quem procede o título deste livro. Agora que "o coração do linho" já não afasta "os animais de sombra" da infância, e disso fala o poema de Eugénio de Andrade no limiar do poema (em prosa?) de António Lobo Antunes. A infância, os nomes da infância dos nomes. Sim, somos todos desde sempre suficientemente idosos para morrer. Sim, como aquela a quem António Lobo Antunes dedica "Não Entres Tão Depressa Nessa Noite Escura", também o leitor "há-de encontrar maneira de ler este livro". Que a leitura não é tarefa que se possa delegar sem prejuízo próprio e vaidade alheia. Como o não é a morte. Nem a vida. O mais difícil não é acabar.


por Mário Santos
04.11.2000

[nota: as citações do livro são da sua primeira edição em 2000, sendo que as páginas referidas não estão de acordo com a (1º) edição ne varietur]

Emanuel Moreira - opinião sobre Não Entres Tão Depressa Nessa Noite Escura

Em sete actos Deus criou o Universo e a Terra, e nesses sete actos criativos o autor criou a Maria Clara. Maria Clara, o homem da casa, Clarinha, menina, e tudo menos Clara.

Ao longo do livro há toda uma sucessão de criação e destruição, cenários idílicos de um universo de fadas que alberga uma quantidade imensa de fotões no meio de uma real noite escura, onde manchas de óleo, que não óleo, impregnam o universo da narradora. Falar do enredo pouco importa em Lobo Antunes, Maria Clara, entre o psicólogo e o seu diário dá espaço a que toda a sua história tome lugar nas mais variadas perspectivas, e no balanço do enleio fica difícil perceber até que ponto a Clarinha não é apenas louca. Um sotão com um passado supostamente fechado. Um pai no hospital em que vai ser operado ao coração, acordando, uma lâmpada no tecto. A irmã, Ana Maria, que tão bela, loira, e ao contrário da Clarinha, tão filha de sua mãe. Uma avó que se perde no vício do jogo e do álcool e que para a empregada Adelaide, menina, ao contrário da sua filha, mãe de Maria Clara, que Senhora, não suporta o cheiro da pobreza. O avô a cegar, com uma bengala que quase varinha de condão. Tudo isto são meros traços, não necessariamente verdadeiros. 

Afinal, como é habitual em ALA o leitor é que tem de usar a sua chave para aceder às respostas. Tal como a Maria Clara contava as voltas na fechadura do sotão, no fim é díficil não sermos nós também a tocarmo-nos no vidro.


por Emanuel Moreira
23.04.2015

16/05/2015

Sinopse de Comissão das Lágrimas (para a edição brasileira Alfaguara)


Tido como o maior autor vivo na literatura de Portugal, António Lobo Antunes tem uma abordagem detalhada, em diversos de seus romances, sobre factos marcantes na década de 1970. Em seu (...) romance, Comissão das Lágrimas, ele utiliza a história verídica de uma guerrilheira presa e executada em Angola como ponto de partida para uma narrativa sobre dor, memória e identidade.

Nascida no país africano e paciente de uma clínica psiquiátrica em Lisboa, Cristina é uma mulher cuja história é repleta de sofrimento. Afastada de Luanda aos cinco anos, ela tem vagas lembranças de seus pais na infância: a mãe, portuguesa, havia partido para a turbulenta Angola como dançarina. Ela se relacionara com um homem local, ex-padre e membro do emancipatório Movimento Popular pela Libertação de Angola.

O envolvimento do pai de Cristina com a Comissão das Lágrimas - tribunal responsável pela execução sumária dos que haviam supostamente ajudado na tentativa de derrubar o governo revolucionário do MPLA - revela à moça os horrores da família e de um país que tanto lutara pela independência. Lobo Antunes entrelaça as vozes da protagonista, da mãe e do pai, revelando o retrato de um país fraturado pela guerra.

Tomada por uma angústia que mistura passagens omníricas, realidade e memória, Cristina busca recordar o que a levou à sua condição actual, deitada na clínica lisboeta. Ao costurar factos históricos e uma inventividade ficcional, Lobo Antunes constrói um romance denso, mesclando diferentes personagens e camadas narrativas, sobre um período marcante - e sombrio - da recente história africana.


[autor desconhecido]
2013

07/05/2015

PÚBLICO: Lobo Antunes, autor de adolescência de Maria Rueff | ANTÓNIO E MARIA NO CCB


Levando para palco a sua gratidão por um livro que lhe abriu o mundo, Maria Rueff atira-se para o palco do CCB com palavras de António Lobo Antunes. António e Maria estreia-se esta quinta, assente num universo feminino e numa heroicidade doméstica.
António e Maria. António é António Lobo Antunes. Maria é Maria Rueff. A peça que se estreia esta quinta-feira no Centro Cultural de Belém é um encontro entre os dois, nascido da relação da actriz com o seu autor de adolescência.
“Não sou uma especialista, sou uma daquelas fãs tipo dos Beatles”, confessa Rueff. E, por essa mesma razão, por estar longe de quaisquer tentações académicas, propôs-se entrar no mundo do seu autor através do olhar de leitora, de uma leitora atraída “pelas vozes das mulheres e pelo humor” que encontra na escrita de Lobo Antunes. “Profundo conhecedor da alma feminina”, chama-lhe; “uma mão na tragicomédia que me encanta especialmente”, gaba-lhe.
Ainda hoje, muitos anos depois, se lhe pedem que nomeie o livro da sua vida, é fácil a Rueff colocar Memória de Elefante à frente de todos os outros. Foi um livro que lhe “abriu o mundo”. “O mundo”, concretiza, “no sentido de como a dor se pode transformar em acidez, ironia, de como se pode focar aquilo que nos interessa.” O que a interessou, desde então, não foi tanto a Guerra Colonial que parece estar sempre apensa ao nome do escritor, mas antes a forma como Lobo Antunes “dá heroicidade aos aparentemente simples e pouco importantes”. E lista, de cor e sem ordem particular: “a porteira, o taxista, a amante do capitão, a donazinha de boutique”. António e Maria é, por isso, uma peça de teatro real, uma confluência de vozes femininas que se instalam no corpo de Maria Rueff, mas também uma peça de teatro camuflada, uma forma menos evidente de a actriz manifestar a sua gratidão.
Rueff fala da passagem para o palco de um universo “doméstico”. Sentado à mesma mesa, o escritor Rui Cardoso Martins acrescenta-lhe um ponto: “doméstico sublime”. E o encenador Miguel Seabra, do outro lado da mesmíssima mesa, contribui com a ideia de que “Lobo Antunes mostra as feridas, as evidências – algumas incómodas – em que reparamos mas não vemos”. “Ou seja, põe a nu o macaco no nariz, aponta a remela, mas ao mesmo tempo diz que isso não é mais do que uma remela.” “Todos temos remelas”, desvaloriza Rueff. “Todos temos um armário cheio de pó e insectos mortos”, diz ainda Cardoso Martins.
Escrita com tesoura
Há cinco anos que Maria Rueff falara originalmente ao encenador do Teatro Meridional, Miguel Seabra, nesta sua vontade de se lançar para dentro dos livros de Lobo Antunes. Mas o projecto foi ficando no frigorífico. “Neste momento de vida em que tenho o caminho feito, como mulher e criadora”, justifica, “apeteceu-me voltar ao ringue, à escola, procurar que cordas não toquei até hoje. Uma das coisas que me assusta profundamente é a ideia de cristalizar e fazer mais do mesmo. E encontrei no Miguel um apoiante a este voo às estranhas.” O desafio respondia em pleno às características das produções do Meridional, cuja actividade se centra no recurso a textos de autores lusófonos, preferencialmente não teatrais e com uma forte ênfase na interpretação do actor.
O outro apoiante de Maria Rueff seria o autor Rui Cardoso Martins, amigo próximo de Lobo Antunes e a quem foi pedido que criasse um texto de teatro a partir daquela vastíssima escrita romanesca e cronista. Assim fez, declarando que escreveu este espectáculo com uma tesoura. “Peguei nos livros todos dele, num trabalho que se pode dizer que é mais ou menos a maneira como ele trabalha, coisas que saltam de um lado para o outro, numa linguagem muito simples.” E foi recortando as frases do mestre, até encontrar “uma única voz múltipla” que misturasse António e Maria “numa construção do mundo que tem muito que ver com Portugal, com os modestos, com os pobres”. Eis António e Maria. Ou António em Maria.

06.05.2015
texto de Gonçalo Frota
fotografia Público

06/05/2015

António e Maria pelo Teatro Meridional - a partir da obra de António Lobo Antunes



Centro Cultural de Belém, Pequeno Auditório

Para os dias 7, 8, 9, 11, 14, 15 e 16 de Maio às 21h e no dia 10 às 16h

Monólogo de Maria Rueff a partir da obra de António Lobo Antunes

Encenação - Miguel Seabra
Interpretação - Maria Rueff

Autor - António Lobo Antunes
Dramaturgia e adaptação - Rui Cardoso Martins

Espaço cénico e figurinos - Marta Carreiras
Música original e espaço sonoro - Rui Rebelo
Assistência de encenação e direcção de cena - Vítor Alves da Silva
Assistência de cenografia - Marco Fonseca
Operação técnica - Rafael Freire
Produção executiva - Natália Alves
Assessoria de gestão - Mónica Almeida
Direcção artística do Teatro Meridional - Miguel Seabra e Natália Luiza

Co-produção | CCB | Teatro Meridional

03/05/2015

Silvie Špánková - dissertação sobre Auto dos Danados

Edição comemorativa 30 anos
1985-2015
PEREGRINATIO AD LOCA INFECTA: CONFIGURAÇÃO DO ESPAÇO EM AUTO DOS DANADOS DE ANTÓNIO LOBO ANTUNES

da Introdução:

O romance Auto dos Danados de António Lobo Antunes foi publicado em 1985 e[,] como a primeira obra deste autor[,] foi aplaudido em unanimidade pela crítica, sendo galardoado com o Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores. O júri da APE, ao defender a escolha do livro de Lobo Antunes, afirmou que se tratava de um romance que abria novas perspectivas e inaugurava, no contexto da obra do autor, os processos de escrita inovadores.

Na realidade, o romance Auto dos Danados mantém muitas características da escrita prévia do autor, sobretudo no que diz respeito, tematicamente, à observação minuciosa da sociedade portuguesa, focada nos seus aspectos mais desagradáveis e vulneráveis. Quanto ao tratamento formal, o presente romance revela inovações a nível da estrutura narrativa, em que assistimos a uma maior objectivação do mundo ficcional, conseguida pela técnica da multiplicação de perspectivas.

Para captar devidamente a mensagem deste romance de uma mundividência catastrófica que apresenta um mundo ficcional deformado e hiperbolizado, torna-se necessário decifrar os indícios que apontam para uma crítica mordaz, um ataque violento aos males e excessos da sociedade portuguesa pré-25 de Abril. Tais indícios formam uma rede de signos distribuídos pelos planos da história e do discurso da narrativa. Uma possibilidade da sua detecção poderia passar, segundo a nossa percepção, pela análise da categoria do espaço e das suas relações com a acção e personagens do romance.

Carlos Reis, no Dicionário da Narratologia, divide o espaço em físico, social e psicológico, em que o primeiro é definido pelas coordenadas espaciais estáticas, o segundo é configurado em função de tipos e figurantes, descrevendo ambientes que ilustram “vícios e deformações da sociedade” e o terceiro é constituído em função de “evidenciar atmosferas densas e perturbantes, projectadas sobre o comportamento das personagens”. A nossa análise leva em consideração esta divisão, embora não seja possível restringir toda a matéria a estudar a uma classificação tão limitada. Certo desequilíbrio existe na concepção do espaço psicológico que diz respeito, simultaneamente, a dois planos completamente diferentes: ao plano do discurso, em que o espaço psicológico é manifestado pelo monólogo (interior), e ao plano da história em que se movimentam as personagens nos ambientes que desta vez se projectam sobre os seus comportamentos e sensações.

Uma classificação satisfatória em relação à problemática da categoria do espaço na literatura foi oferecida por Janusz Sławiński que usa o termo de espaciologia literária, decomposta em vários tipos de reflexão (estudo da morfologia da obra literária, das relações semióticas entre literatura e cultura, do estudo dos arquétipos colocados na subconsciência colectiva humana etc.). Dentro desta problemática, Sławiński delimita uma área da reflexão sobre o espaço como um fenómeno que poderia ser explicado pela morfologia da obra literária e que compreende um dos princípios do plano de composição e da temática da obra literária. Consequentemente, Sławiński demarca uma subdivisão em descrição, cenário e valores adicionais. Para o nosso estudo será fundamental a categoria do cenário que adopta, na concepção de Sławiński, três funções: 1. Demarca e classifica a área de extensão da rede de personagens, 2. É um conjunto de localizações – de acontecimentos, situações, em que participam as personagens, 3. Representa um indicador de certa estratégia de comunicação no âmbito da obra. Nesta classificação, a primeira e segunda função pertencem, então, à problemática do espaço representado na obra (plano da história), enquanto a terceira aponta para as relações entre o espaço representado e a sua representação (plano do discurso). Tal distinção servirá de apoio metodológico para as nossas reflexões sobre o romance de Lobo Antunes, a fim de podermos verificar, em linhas gerais, como a configuração do espaço determina a interpretação da obra.


por Silvie Špánková
Universidade de Brno 
Studia Minora Facultatis Philosophicae Universitatis Brunensis
2006

02/05/2015

Cannibale Claro sur Au bord des fleuves qui vont

Christian Bourgois (2015)
Une exaltation inédite

Dans Au bord des fleuves qui vont, le dernier roman d'António Lobo Antunes paru récemment en traduction, le lecteur est confronté à une défragmentation du récit d'une impressionnante subtilité. Le dispositif est le suivant: un homme, qui porte le nom de l'auteur, est traité à l'hôpital suite à la découverte d'une grosseur possiblement maligne – une "bogue". Abruti par les médicaments, éprouvé par l'opération, hanté par la peur de mourir, l'esprit du narrateur va alors se changer en kaléidoscope, et toutes les couleurs et nuances du passé – le sien, celui des siens, de ses ancêtres – seront projetés à même la page selon une alternance surprenante: à un paragraphe où les souvenirs s'enchâssent et se bousculent succède une phrase prononcée, dans le présent ou le passé, instaurant un rythme de contraction et de dilatation. Bien sûr, dit comme ça, on pourrait avoir l'impression d'une immense confusion. Mais précisément, c'est la confusion qui est ici au cœur du livre. Et c'est, pour un écrivain, un sacré défi: comment écrire la confusion sans qu'elle contamine jusqu'à la lecture elle-même? 

Plutôt qu'un flux de conscience, António Lobo Antunes travaille la pensée erratique de son double comme un mécanisme récepteur, qui capte des bribes, et dans le même temps s'interroge sur leur pertinence, la raison de leur surgissement, etc. Au fil des pages, des motifs se dessinent, qui reviennent, de plus en en plus net ou entêtant. Travail de précision qui permet au lecteur de discerner, dans la trame en apparence floue des souvenirs, les différents fils de la mémoire et de l'expérience. Ainsi de ce paragraphe qui contient en germe nombre des motifs récurrents:

"et on ne s'est pas soucié de sa souffrance ni de ses joues mouillées, il se souvenait du bruit de la terre sur le tambour de l'échine, d'un lombric devenu deux d'un coup de sarcloir et les deux se dévorant goulûment et du lézard apprenant à être pierre dans une brèche du mur et sur ce son père jouant au tennis à l'hôtel où logeaient les Anglais du wolfram et lui courant pour attraper les balles qui rebondissaient par-dessus le grillage, il a ramassé la dernière à côté de la piscine où se séchait une étrangère blonde et il est resté la balle contre la poitrine à apprendre à être pierre lui aussi dans une exaltation inédite"

Au bord des fleuves qui vont travaille le délitement de la conscience pour mieux explorer la magie des souvenirs, qui passent d'une génération à l'autre et tissent des toiles que le temps n'a de cesse de déchirer. On songe souvent à l'œuvre de Claude Simon, à cette façon de tâter la fragile couture entre les choses vécues et le souvenir des choses vécues, cette obsession pour la persistance des formes au cœur du chaos. La confusion comme forme d'exaltation: cela n'était possible, bien sûr, qu'au prix d'un travail patient et discret d'agencements, où fluidité et rupture sont les véritables protagonistes de ce voyage dans les limbes – voyage que la traduction  – magnifique – intense – précise – empathique – de Dominique Nédellec rend non seulement possible mais précieux, indispensable.


par Cannibale Claro
12.03.2015

Crónica «Nós» com reflexão sobre a sua leitura por Olga Fonseca

Nós Não precisávamos de falar. Como ele dizia – Tu sabes sempre o que eu estou a pensar e eu sei sempre o que tu estás a pensar ...