28/02/2015

«O prodígio do prodígio», opinião sobre Eu Hei-de Amar Uma Pedra

António Lobo Antunes: Eu Hei-de Amar Uma Pedra  - O prodígio do progídio

Precisamente quando eu achava que "O Manual dos Inquisidores" seria sempre o meu romance preferido de António Lobo Antunes, "Eu Hei-de Amar Uma Pedra" vem contrariar-me. "Eu Hei-de Amar Uma Pedra" é, desde logo, um romance diferente no processo de escrita. Em vez de uma história imaginada, tem como enredo uma história verídica. António Lobo Antunes encontrava-se a escrever num gabinete de hospital, quando um colega seu, psiquiatra o chamou para ouvir o relato da bizarra história de amor de uma mulher. Descrita no livro como

"Doente de 82 anos, sexo feminino, idade aparente coincidindo com a real, Orientada no tempo e no espaço, alo e heteropsiquicamente, memória conservada de acordo com os parâmetros etários, contacto adequado, sintónico embora retraído, com dificuldade em verbalizar o motivo da consulta"
é a sua história que faz "Eu Hei-de Amar Uma Pedra".

A mulher, cujo nome nunca sabemos, conhece o homem, de quem também não conheceremos o nome, quando ambos são ainda jovens. Posteriormente, ela é internada num sanatório em Coimbra. Ele escreve-lhe, ela responde-lhe, mas as cartas não são enviadas. Ele deduz que ela morrera.

Casa. Tem duas filhas. Vive em Lisboa, com a família, quando reencontra a mulher, que saíra do Sanatório, e era agora costureira. Iniciam uma bizarra relação.

Durante as férias de Verão que o homem passa em Tavira, Algarve, a mulher está sentada dois toldos adiante, tapada com um interminável crochet. Olham ocasionalmente um para o outro. Ás quartas feiras encontram-se numa pensão rasca na Graça, e, na Primavera, encontram-se por vezes num hotel em Sintra, de onde observam as acácias em flor.

Depois, o homem morre, e a mulher decide consultar um psiquiatra, dado o estado de perfeita melancolia em que mergulha.

É o tipo de história bonita que nunca pensei que António Lobo Antunes fosse escrever. Não me interpretem mal, a dureza e crueza e realismo que são a imagem de marca deste escritor continuam lá, mas agora inseridos numa comovente história de amor.

Analisando as situações através de fotografias, consultas (no psiquiatra), visitas e narrativas, vai modelando os seus personagens, cada um com o seu lado bom, e com o seu lado negro.

A personagem da mulher da praia, é introduzida de uma forma tão discreta que, mais tarde, quando percebemos que se trata da protagonista, é difícil acreditar.

O último capítulo, e o único em que a narradora é essa mulher, é de uma beleza tocante, poética mesmo, e única no contexto dos romances de António Lobo Antunes.

Não é um livro perfeito apenas por perder demasiado tempo com a vida do psiquiatra, que, para o enredo, não interessa rigorosamente nada, mas essa é uma marca a que Lobo Antunes há muito nos habituou, e, devo dizer, não é de todo mau, uma vez que descentraliza o romance, e torna-o mais vívido, mais real, por explorar também a vida de uma pessoa que não está directamente envolvida na intriga principal.

É bonito ver uma relação que durou sessenta anos, que vivia destas pessoas se olharem as tardes que passavam na praia nas férias, e as tardes de quarta-feira numa pensão perdida na capital. Quantos de nós poderiam ter uma relação assim, tão forte, tão estoica? Era verdade que, com tão pouco tempo juntos, acabavam por disfrutar apenas do bom lado da relação, uma vez que não tinham sequer tempo para discutir; mas se virmos bem, esta mulher deu a sua vida toda a este homem, não casou com outro, nunca aceitou dinheiro deste "porque o amava", ou seja, arriscou tudo por ele.

E, sinceramente, não resisto em transcrever apenas um pouquinho do final, como se um poema fosse, porque se não é, poderia ser...

"Se calhar Tavira já não existe. Nem Sintra. Há quanto tempo isto foi? Terei inventado tudo? Sonhado tudo? Demoro na resposta, mas penso que não..."

por Supermassive Black-Hole
20.05.2006

27/02/2015

Ana Paula Arnaut disserta sobre O Arquipélago da Insónia

O Arquipélago da Insónia: litanias do silêncio


[...]

As páginas de O Arquipélago da Insónia não ecoam só personagens, temas e motivos dos romances anteriores; nelas, António Lobo Antunes parece ter conseguido o silêncio, o intimismo, (quase) completo, absoluto, que, em diversas ocasiões, disse querer alcançar. Esta sensação não decorre apenas do facto de as personagens parecerem falar para dentro de si mesmas, ou de os substantivos “silêncio” e “fantasmas” percorrerem todo o romance, ou, ainda, de a determinado momento, pela voz do autista, ficarmos a saber que “isto não é um livro, é um sonho”... e os sonhos não têm sons. Para o silêncio a que nos referimos concorre, ainda, o uso de uma linguagem substancialmente despojada do que muitos leitores classificam como ruído e que o próprio Lobo Antunes designa por “gordura” ou “banha”, referindo-se à excessiva utilização do palavrão, de metáforas, comparações, adjectivos, advérbios de modo, etc. Ao contrário dos livros anteriores, principalmente daqueles publicados até A Morte de Carlos Gardel (1994), onde proliferam imagens de variável ousadia linguística e semântica, este romance mostra um autor que, finalmente, parece ter conseguido alcançar o desejo de reduzir o livro ao osso.

[...]

Ler a dissertação completa descarregando o ficheiro pdf no seguinte link: Ana Paula Arnaut, O Arquipélago da Insónia: litanias do silêncio.


por Ana Paula Arnaut
Faculdade de Letras /
Centro de Literatura Portuguesa
Universidade de Coimbra

[não datado]
do site: Plural Pluriel

25/02/2015

Ana Fernandes sobre Caminho Como Uma Casa Em Chamas (blog Delfos)

Até a pedra mais pequena encerra um mundo em si. Até a mais corroída pela erosão, até a mais invisível. Ver o que está para lá dessa pedra desgastada, observar os seus mundos em conflito, saber que esses mundos existem, é o que a literatura nos pode ensinar. A partir daí, para mim, todas as discussões sobre o que a literatura pode ou não pode, deve ou não deve, não têm importância nenhuma.

Se para João Botelho o cinema se resume “a luzes e sombras e seres-humanos aflitos no meio”, a literatura não é muito diferente uma vez que todas as personagens procuram um lugar ao sol para se aquecerem. Mesmo as mais comuns, mesmo as que vivem no mais banal dos prédios no mais banal dos bairros. Ir além da aparente erosão dos rostos, além do que transbordam para fora, significa encontrar um mundo não menos verdadeiro nem menos válido. Só alguém com mestria é que o consegue descrever com uma tal sensibilidade que põe tudo a descoberto e desarma. A literatura também é isso, desarmar e ganhar o péssimo vício de se ver tudo de todos os ângulos. Olhar para alguém, virá-lo do avesso, desarrumá-lo e ver o seu todo. Presas entre o desencanto, o passado e o presente, entre a solidão e as desilusões, entre os desejos e ilusões, as personagens que se dão a conhecer na primeira pessoa em ‘Caminho como uma casa em chamas’, de António Lobo Antunes, reflectem isso mesmo – mundos desfragmentados que pertencem a um quotidiano demasiado perto de nós. Mundos demasiado fortes a oscilarem pelo tempo desconexo sem, no entanto, deixarem de ser comuns e palpáveis. Mundos que poderiam, muito bem, habitar no prédio em que vivo. Este é um dos livros em que, estranhamente, há uma familiaridade que fala mais alto, uma acessibilidade que o leitor sente quase de forma invasiva porque todos nós cabemos ali. Se as personagens têm um lado pitoresco e se escondem na sua sombra e ilusão? Claro que sim. O que temos são mundos fechados em si mesmos, afastados do seu presente e quotidiano, afastados do que já não podem ter. Não deixa de ser curioso, no entanto, que seja um pouco desse lado pitoresco que nos aproxima delas. Somos nós, enquanto sociedade portuguesa, que ali estamos. Desde a juíza, passando  pelo combatente da  Guerra Colonial, até ao simples bêbado (este último protagonista da melhor e mais comovente narrativa que já li), estas pessoas, embora perdidas na sua sombra, carregam consigo o desejo mais democrático, humano, concreto e palpável que há — a necessidade de amor. Por instantes, é como se estivéssemos a olhar para crianças grandes e desajeitadas, com os braços no ar, a pedir da melhor forma que sabem, ‘ama-me, fica comigo’. É o reconhecimento dessa necessidade que não escolhe formas nem feitios e a mestria em descrevê-la que torna A.L.A um escritor da humanidade, de toda a humanidade, daquela palpável e banal que se cruza connosco nas ruas de todos os dias.


por Ana Fernandes
23.01.2015

22/02/2015

António Carinha - O Manual dos Inquisidores: a escrita com música, a casa sem telhado

Há uma família rica. O pai é ministro, recebe a visita do professor Salazar, que o ouve para decidir os destinos do país, têm criadas e uma governanta, uma quinta com boa casa, jardins cuidados, uma boa vida.

Há uma família pobre. O filho vive numa casa destelhada, com janelas sem vidraças, recebe a visita da filha para ralhar com ele, nos jardins cresce capim, as cuecas misturam-se com os talheres na gaveta da cozinha.

A família é a mesma. A casa também. Os tempos é que mudaram. A família rica vivia no tempo da ditadura. A família pobre surgiu com a revolução que, em Portugal, no dia 25 de abril de 1974, tornou os portugueses livres.

- Livres de quê?
já que a miséria permanecia a mesma só que com mais gritaria, mais bêbedos e mais desordem por não haver polícia
[…], cansaram-se de besuntar os muros a giz, o do café desistiu do acordeão, os doentes do hospital continuavam na cerca a sua procissão de agonizantes […]

Nesta obra, António Lobo Antunes expõe as glórias e as misérias de uma família que conheceu a degradação em proporção inversa ao poder do passado. Poder que fazia com que o senhor doutor, ministro de Salazar, mandasse prender ou colocar em liberdade, com um rápido telefonema, quem o seu humor do momento indicasse. Mas que também o levavam a ter atitudes de afirmação bacoca, no íntimo do seu lar e, muitas vezes, no íntimo da servidão e dos corpos das suas empregadas.

O meu pai de mão aberta na nuca da filha do caseiro, uma adolescente descalça, suja, ruiva, suspensa das tetas das vacas acocorada num banquinho de pau, a filar-lhe o cachaço e a obrigá-la a dobrar-se para a manjedoura sem largar os baldes de leite, o meu pai outra vez escarlate a esmagar-lhe o umbigo nas nádegas, de cigarrilha acesa apontada às vigas do tecto sem que a filha do caseiro protestasse, sem que o caseiro protestasse, sem que ninguém protestasse ou imaginasse protestar, o meu pai tirando a mão da minha nuca e designando com desprezo a cozinha, os quartos das criadas, o pomar, a quinta inteira, o mundo
– Faço tudo o que elas querem, mas nunca tiro o chapéu da cabeça para que se saiba quem é o patrão.

O poder no seu lado mais obscuro, o poder das atitudes no recanto do lar, o poder que ninguém ousava contestar, é aqui muito trabalhado e alcança mais profundidade do que o poder da governação, mau grado os anseios do senhor doutor, que desejava ter sido ele a substituir Salazar. Quando recebe Caetano, que ocupou o lugar do velho ditador, trata-o com desprezo.

o senhor doutor numa cadeira de braços apontando ao professor Caetano uma cadeira sem braços, e se eu rodava a maçaneta a aparecia com o tabuleiro do bule e das chávenas e o prato das torradas afastava-me com as costas da mão antes de o professor Caetano poder abrir a boca
– Este Presidente do Conselho não bebe chá Titina

É o desprezo de que também irá sofrer, causado pelo filho, que também será desprezado, pela vida, que não lhe reconhece o estatuto de antigo ministro, pelas ordens que deixa de dar, essencialmente na privacidade das suas empregadas, na cozinha da casa, na urgência de uma vaca que quer parir.

Titina é a velha governanta que lamenta nunca ter sido assediada pelo patrão. Mais tarde, esquecida num lar da Misericórdia de Alverca, também desprezada, aguarda o dia em que o filho do senhor doutor chegará para levá-la.

[…] um destes dias vem a Alverca buscar-me, entra pela Misericórdia dentro com aquela segurança, aquela majestade, aquela autoridade, afastando a terapeuta ocupacional como se afasta um moscardo aborrecido

A terapeuta ocupacional é uma das vozes que contribuem para a riqueza polifónica de O Manual dos Inquisidores. Comentando a sua vida pessoal e profissional para o autor de um livro, explica o seu processo de divórcio e propõe uma obra ao autor que a escuta. Com ironia, Lobo Antunes brinca com a peculiar fama dos advogados, com a vizinha, médica, que fazia muito barulho nas suas brincadeiras sexuais num prédio onde tudo se ouvia, e com a proposta aparentemente ingénua da terapeuta que quer fazer relatos da sua vida numa «estalagenzinha no norte».

a médica que o ano passado acabou por engravidar, calar-se e trazer paz a Odivelas que os restantes condóminos são normaizinhos benza-os Deus, dois ou três impulsos a despachar que já não é nada mau e chega, e só tornei à cama derivado ao Adérito se embeiçar por uma rapariga lá da agência de viagens […], ainda me foram ambos a Odivelas na esperança de levarem metade da mobília e as prendas de casamento da família dele e eu acompanhada pelo advogado, a erguer a ceifeira
– Tira daí o sentido
o advogado que esse sim me ficou com a mobília e as prendas de casamento na conta que me apresentou a seguir ao divórcio, se quando terminar este livro lhe apetecer escrever um romance de advogados traga o gravador, vamos para um sítio calmo, uma estalagenzinha no norte, eu dito-lhe num fim-de-semana do primeiro ao último capítulo
[…]

Lobo Antunes usa a carnavalização para acentuar caraterísticas ou até para, embora com menos frequência, provocar o leitor, ou melhor, provocar no leitor a sensação de que cada pessoa tem, não o seu mundo, mas os seus mundos, construídos com as vicissitudes da vida, com as revoluções, com as surpresas, com monstros, com as vontades e os telefonemas do senhor ministro.

Quando o senhor ministro ligou às sete da manhã a mandar-me ir à quinta por ter uma vitela a parir, a minha mulher, acordada pelo telefone que atirei ao chão ao estender o braço para o aparelho, acendeu o candeeiro do lado dela, começou a fazer-me sinais para tapar o bocal
– Quem é Luís?
e de repente dei conta que vivia há trinta e cinco anos com um monstro
[…] o sapato vazio à espera de um Natal que não havia e se houvesse a melhor prenda que me podia dar era tornar-me viúvo, eu para a inquietação da fronha
– O ministro por causa de uma vaca ainda não foi a tua mãe descansa
a claridade de Setúbal nos estores igual ao âmbar da morgue onde o Cristo com cara de passador de droga, falecido de overdose, aguardava a autópsia na parede, as cortinas semelhantes a toalhas mortuárias
[…], a minha mulher a amainar devagarinho como um polvo adormece, mergulhando os tentáculos na areia do lençol
– Que alívio

Quem se confronta, pela primeira vez, com a escrita de António Lobo Antunes pode ficar admirado com a pontuação. Mas quando se entra na história parece inconcebível que a mesma pudesse ter sido pontuada de outra forma. É toda uma cadência e uma musicalidade que encaixam nas palavras que vão e vêm e nos tempos que se alternam. Noutros romances do autor acrescentar-se-ia a polifonia a este encaixe musical. Em O Manual dos Inquisidores a polifonia é extremamente forte mas, por outro lado, está muito bem organizada. As diferentes vozes estão muito mais claras e definidas do que em outras obras de Lobo Antunes. Mas a atenção continua a ser tão necessária para a leitura deste romance como de outros do escritor. «Faço tudo o que elas querem mas nunca tiro o chapéu da cabeça para que se saiba quem é o patrão» é uma frase repetida algumas vezes. O leitor desatento julgará estar a repetir a página lida. O leitor concentrado sabe que é o senhor ministro que talvez tenha regressado ao estábulo. Ou, desta vez, talvez à cozinha.

– A gente tem instruções do tribunal para selarmos tudo
para selar os corvos, o vento, as rãs, os eucaliptos, os murmúrios e as vozes do passado, selar a cozinheira estatelada de costas no altar e o meu pai de calças pelos tornozelos
– Faço tudo o que elas querem mas nunca tiro o chapéu da cabeça para que se saiba quem é o patrão

«Selar os corvos, o vento, as rãs, os eucaliptos» e tudo o mais até ao ministro com as calças pelos tornozelos, era selar um passado. Mas selar o passado não é possível. O passado pode ser desprezado, pode ser reconstruído, pode ser maltratado. Mas não pode ser banido. E chega ao presente muito mais do que em simples memórias. Lobo Antunes exibe de maneira magistral este entrelaçado de tempos. A narrativa não apresenta um tempo linear. Vai e vem. Não encerra nenhum período de forma estanque. É aberta. E é de forma aberta que termina o romance. Sem final. Sem, sequer, ponto final.
   
como hei-de explicar-lhe, como hei-de tornar isto claro, dizer ao pateta do meu filho que posso não ter sido mas que, posso ter falhado mas que, dizer ao pateta do meu filho, você compreende, dizer ao pateta do meu filho
peço-lhe que não se esqueça de dizer ao pateta do meu filho que apesar de tudo eu


por António Carinha
21.02.2013

21/02/2015

Alice Ferney em Le Figaro - «Ser e ter sido» crítica a tradução francesa de Sôbolos Rios Que Vão

Ser e ter sido

António Lobo Antunes - O escritor conta a sua estadia no hospital durante o tratamento de um cancro. Desconcertante e sublime.

capa da tradução francesa (por Dominique
Nédellec), publicada pela editora
Christian Bourgois em 19.02.2015
As obras-primas, disse Proust, são escritas numa língua estrangeira. Falam a língua de uma forma como nunca se havia entendido. Constroem no centro da sintaxe contradições, combinações, silêncios, que despertam os nossos olhos para um nunca visto. Como Céline, a quem escrevera na sua juventude, o escritor português António Lobo Antunes pertence a essa espécie de criadores da escrita. Ninguém escreve como ele, e ele não escreve como ninguém.

Resumir este grande livro é quase um ultrage: Sôbolos Rios Que Vão [Au bord des fleuves qui vont] (os rios míticos, os rios de Portugal, as torrentes de emoções que em nós fluem, os rios da memória e do tempo) relata os quinze dias do Senhor Antunes num hospital de Lisboa, onde é operado a um cancro, «o ouriço». Sendo nada mais que isso, é contudo dentro de um oceano, de um abismo, de uma floresta densa ou, na realidade, dentro da mente de um homem onde o leitor se entranha.

Desde o início, a ubiquidade do doente, da qual permite o seu livre espírito de estar em todos os lugares ao mesmo tempo, é-nos anunciada: o Senhor Antunes não está na sua cama de doente, ele está na serra, onde em criança pode ver sua avó. O corredor do hospital é como na aldeia, o enfermeiro deita o olho ao quarto como outrora o fazia a mãe... Os momentos, os lugares, os rostos que se cruzaram na sua vida misturam-se num mesmo instante. A memória toma conta do tempo, anula-o, deixa de existir passado, presente e futuro, tudo está concentrado na alma do Senhor Antunes. E este romance da sua agonia acaba por ser o romance da própria vida. A aventura cirúrgica, a dor, a angústia, as palavras do médico, cortam o fio condutor destas recordações às portas da consciência. O diagnóstico sibilado por frases no meio de uma profusão de sons, de cheiros, de gestos, de fantasmas em torno do doente, somente observando. Ele delira, afirma o enfermeiro, e o leitor sorve esse delírio.

É preciso dar conta da nossa perturbação. Para além das suas deslumbrantes elegâncias, a escrita de Lobo Antunes torna real essa ideia de que somos a cada instante todos aqueles que já fomos. O Senhor Antunes é, ao mesmo tempo, o adulto doente, o filho e o neto, Antoninho. A vida que tivemos não se perde, permanece em nós até ao final. E nós somos espíritos eternos, dizem os últimos capítulos, em que a morte do doente, incerta, não suspende o fluxo das imagens. Seja claro que se trata de uma prosa desconcertante, literalmente: não existe fio narrativo, que se dispersa num labirinto de memórias. A oração, a lógica, a habitual lineariedade resultam fracassadas. Como nos sonhos, o espaço e o tempo já não se impõem. O discernimento impacienta-se: de que estamos a falar? O que o inquieta? Onde estamos agora?

Tudo se move. Da mesma forma excitante e desgastante como o Guignol's Band de Céline, Lobo Antunes se afirma. Ele é um artista, não um contador de histórias. A sua matéria de escrita não é uma ideia da vida, antes das suas sensações, percepções, terrores e apetites. Se a concentração do leitor se mantiver, libertando o raciocínio, e se deixar levar-se pelas palavras, então a emoção atingirá o seu auge.


por Alice Ferney
19.02.2015
[traduzido do francês por Joana de Paulo Diniz]

14/02/2015

Entrevista de 2001, ao El Cultural - «Em literatura gosto de sentir o sangue»

Uma entrevista com treze anos, dada a um jornal espanhol, nunca publicada aqui, mas que agora passa a fazer parte do nosso acervo. António Lobo Antunes falava de temas de que viria a voltar em entrevistas posteriores (até mesmo nas mais recentes), mas é curioso ler da sua posição iberista versus a europeísta; da sua parca experiência como candidato comunista; da sua conhecida obsessão em desmitificar o papel do escritor, e também dos prémios literários, como o Nobel; da sua paixão pelos clássicos; e, enfim, da sua irreverência em pequenos detalhes que muito gostaríamos de ver reunidos num suposto livro de memórias suas. Posições e afirmações em (quase) oposição ao que tem proferido em entrevistas recentes. 



«Em literatura gosto de sentir o sangue»

El Cultural
Entrevista de Martín López-Veja
07.11.2001


Lobo Antunes escreve com esferográfica. Pousa-a no papel e pelo rio de tinta navegam as personagens de um mundo ora real, ora ficcional, um mundo de trágicos dias em Angola e nos trilhos de Benfica que levam sempre às mesmas pessoas.

Deixou a psiquiatria (sua anterior ocupação principal) a partir do momento em que pode viver da literatura. No entanto, continua passando pelo seu consultório de um hospital lisboeta onde trabalhou. Foi ali que conversámos com ele, interrompidos apenas pela sua filha. «Nunca cá vem, mas viu o meu carro estacionado e veio dar-me um beijo». Em Portugal publica agora o seu romance Que Farei Quando Tudo Arde? e, em Espanha, na semana que vem, será publicado o livro de entrevistas de María Luisa Blanco, Conversas com António Lobo Antunes.


O seu novo romance acrescenta certas novidades à sua obra.
Acha? Aprofunda o trabalho com a prosa que tenho vindo a fazer com os anteriores. É o livro que me parece mais bem acabado, o que mais gosto até hoje. Este mês comecei outro romance, que continua nessa procura da linguagem. Talvez seja novidade pelo tema em si, pelas personagens (trata do tema do travestismo), mas é a mesma procura.

O título vem do verso de um soneto de Sá de Miranda, que falava de um amor contrário à razão.
Nunca tenho um título antes de terminar um livro, e ao terminar este apareceu o maravilhoso soneto de Sá de Miranda. A ideia é: não somos mais do que um desejo intenso. Desde que o homem existe, as perguntas, os problemas, são sempre os mesmos. Por isso são tão actuais Quevedo, Cervantes, Camões.

As perguntas são as mesmas mas, de vez em quando, somos sacudidos com acontecimentos como o atentado em Nova Iorque.
Um acontecimento trágico, sem dúvida, mas enquanto vivemos, os bombardeamentos continuam, e tão violentos que de alguma forma nos afectam. Tudo isto é extremamente complexo para nós, ibéricos, que tanto devemos aos árabes. Exerce em nós uma terrível divisão interior. Não é agradável ver bombardear um país onde quase todos são inocentes.

Homens à medida de Deus

Tudo isto tornou necessária a reposição do papel do escritor na sociedade actual?
O escritor deve dar a sua opinião como cidadão, e escrever.

Há uma dimensão ética na sua literatura.
Sim, claro. Faz uns dois anos, na Feira do Livro de Madrid, que veio ter comigo um homem para que lhe autografasse um livro. Quando lhe perguntei o nome, disse: «Miguel de Unamuno». Fiquei perplexo, claro. Era um neto. Unamuno é o melhor exemplo de dimensão ética da literatura. Não apenas os seus livros, também a sua vida. O seu discurso em Salamanca perante Millán Astray é um grande exemplo. De vez em quando, Deus faz homens à sua medida.
Se fores um bom escritor deves ensinar os teus leitores a ler; se dizes algo novo, ao princípio vai haver uma resistência natural por parte do leitor, o que é preciso é vencê-la, é preciso seduzir o leitor: a literatura é a arte do rigor. Pouca vezes falei mal de outros escritores: quando o fiz foi porque lhes senti uma ausência de sentido ético na sua forma de escrever. Não podes dedicar-te a repetir uma fórmula de êxito: cada novo livro deve ser um desafio novo. É a única maneira de seres honesto para contigo mesmo, e para com os leitores.

Portugal  é sempre o cenário da sua obra: a Revolução dos Cravos, a Guerra de Angola, a história íntima do bairro de Benfica… Mas sempre com uma perspectiva crítica. Até mesmo o título de O Esplendor de Portugal é muito irónico. O que entende por ser português?
Precisava de um cenário para ambientar os meus livros, inventar uma língua. O meu país não é esse chamado Portugal. O meu país é o país de Tchékov, de Beethoven. Em Angola, na guerra, senti na minha pele todos esses substantivos elevadíssimos, Pátria, Honra, Identidade… Merda, esse é que é o verdadeiro sentido dos nacionalismos. Não acredito em nacionalismos. Amigos meus espanhóis vêm a Portugal e dizem: «É igual a Espanha». A mim também me parece. Torga, de quem tenho imenso respeito, insistia nessa ideia: eu sinto-me, como ele, ibérico. Em Madrid, na Galiza, sinto-me como que em casa. São bairros da minha cidade. Mas já não sinto o mesmo na Alemanha ou em Inglaterra. Por essa razão me inquietava o fraco êxito dos meus livros em Espanha; porque sempre me pareceu que o público espanhol faz parte do meu público natural.
Graças a Deus que não sou político. Só posso dizer uma coisa: do mesmo modo que afirmo que me sinto ibérico, posso afirmar que não me sinto europeu. Quando estive em África, sentia-me mais próximo daquelas gentes do que quando estive na Suécia. No europeísmo há uma certa tendência de menorizar o que fazemos. Iremos falar todos inglês daqui a 50 anos? Soa a exagero, mas quem sabe… Da mesma forma que há que evitar os nacionalismos estéreis, há também que saber valorizar o que fazemos. Creio que o nível médio da poesia e romance que se escrevem em Espanha está acima do que tem vindo a ser feito no resto da Europa, qualquer país gostaria de ter um Javier Marías, um Marsé, uma Ana María Moix. E tem excelentes pintores, arquitectos. Eu sinto-me como parte disso, muito mais do que se passa em outros países.

Antes africano que europeu.
Dumas questionava por que é que há tantas crianças inteligentes que acabam por se converter em adultos imbecis. É o resultado de uma castração educativa tipicamente europeia que impõe tantas proibições que acaba por fazer paralisar.

A dignidade e a guerra

As suas personagens vêem-se enredadas nos becos da História portuguesa.
Sim… Mas eu escrevo romances, “epopeias líricas”, como alguém disse. Os meus romances estão cheios de erros, de lapsos históricos, mas isso não me importa. Dá-me medo cair no documentário, na reportagem: isso é coisa para gente sem talento.

Não gosta de falar da sua experiência na guerra de Angola.
Sabe o que é que mais me espanta? Não ter qualquer sentimento de culpa pelas coisas horríveis em que participei. Questiono-me muitas vezes e não o entendo. Uma vez, na Alemanha, um jornalista perguntou-me o que tinha sentido ao matar gente e se não sentia vergonha por isso. Nessa noite tive pesadelos. Mas só nessa. Gostava daquele povo, não entendo por que é que não sentia algo de mal.

Uma vez referiu-se à sua relação com Ernesto [Melo Antunes], o seu capitão em Angola, de que a filha dele vos dizia: «Como podem dois amigos passar o dia sem dizerem nada um ao outro?»
O Ernesto era um homem realmente admirável, o mais corajoso que vi debaixo de fogo, o único capitão que era contra a guerra, o único que foi candidato contra as listas da União Nacional. «A revolução faz-se por dentro», dizia. Partilhámos muitas coisas, entre elas o amor pela literatura. Era um modelo de coragem, de dignidade. Pouco antes de morrer, disse-me: «Esta noite acordei mijado. Não me deixes morrer sem dignidade».

Nunca falavam da guerra?
Nunca, jamais depois de regressar de Angola.

Nunca?
Mais só no fim, quando o cancro já o tinha tomado. Mas depois vinha a sua mulher e então dizia: «Não falemos mais». Jogávamos xadrez, conseguíamos passar muitas horas sem trocar uma só palavra. Às vezes a amizade é tão perfeita que não faz falta falar para que se diga tudo.

Outro grande amigo seu era o escritor José Cardoso Pires.
Outro homem duro, que sofreu muito durante o fascismo. Ligava-me todas as manhãs e passados cinco minutos voltava a ligar e dizia-me: «Que se passa contigo? Pareces-me triste». Eram homens muito másculos sem vergonha de mostrar o seu lado feminino, o seu lado maternal. Na amizade não há ciúmes, não há inveja, não é como no amor. Aceito a infidelidade no amor, mas nunca a aceitaria na amizade.

O poder e a literatura

Esteve metido na política, inclusive foi candidato pelo Partido Comunista.
Sofri uma grande desilusão. O Partido Comunista carecia de democracia interna, havia por todo o lado um certo espírito conspirativo. Foi como com a literatura: tinha uma ideia muito romântica e descobri que, por dentro, todos os partidos são execráveis. Só existem projectos de poder pessoal, um jogo de partidas e contrapartidas. Chegaram a dizer-me: se ajudares o partido, o partido apoiará a tua carreira literária. Mas o escritor deve ser sempre um contrapoder. Gostava de ser do Partido Comunista, mas para mim era impossível. Há um lado eclesiástico no partido que me repugna.

Parece muito empenhado em desmistificar a figura do escritor.
Sim, desde cedo. Repugna-me a ideia do escritor como entidade superiora, por muito talento que tenha. Conta-se da actriz Sarah Bernhard que ia certo dia pela rua e um homem a interpela. «Você é Sarah Bernhard?», ao  que ela terá respondido: «Serei esta noite, quando subir ao palco». Celaya dizia num poema da importância que é estar no meio das pessoas, mas também só às vezes.  Eu sou António, e, somente nos livros, Lobo Antunes. Claro que nem sempre são maus os efeitos secundários de ser-se um escritor. Um amigo meu dizia: fiz-me escritor para estar rodeado de mulheres bonitas. Porém, as mulheres bonitas acabam sempre preferindo os banqueiros ricos e barrigudos.

Converteu Lisboa, nos seus romances e nas suas crónicas, num “território literário”: Lisboa aparece muito diferente depois de lê-lo, mais verdadeira, mesmo que, se calhar, a sua opinião seja diferente.
[Risos] Bem, as ruas existem, não lhes mudei o nome, e aparecem tal como são, não mudei as casas de sítio. Há uns anos, apareceu na Alemanha um livro intitulado Geografia de Lisboa no qual se reconstruia, através dos meus romances, a cidade. Já lhe disse, ruas, casas, tudo é, geograficamente falando, precisamente igual, nos meus livros. Outra coisa é o que ocorre nesses ambientes, inclusive que o espírito das minhas personagens seja realmente o da cidade. Mesmo assim, é claro, tudo isso, sendo talvez ficcionado, não é mais que o resultado do que a vida  deixou em mim, a vida em Lisboa.

Mas você conhece bem Lisboa.
Não, não acredite nisso. Eu cresci em Benfica, uma bairro periférico que no tempo dos meus pais nem sequer fazia parte de Lisboa. Eu ia estudar para a cidade. Benfica era um microcosmos diferente. Ia-se ao cinema a Lisboa, à discoteca com os amigos quando havia dinheiro, às livrarias… Em Benfica conhecia-se toda a gente. Passava a linha do comboio e parecia que se encontravam as mesmas pessoas. Como se fosse um cenário, seguindo um caminho circular onde estavam os mesmos actores ou figurantes. Lisboa é uma palavra muito grande. Prefiro falar de algumas ruas, de algumas esquinas…

Portugal visto por um português

Disse que detesta o fado, que não gosta de Pessoa… Não deixa um símbolo português de pé.
Estou farto do fado. Cansa-me o seu saudosismo, é reacionário. Era a canção do regime, e ainda é. Quanto a Pessoa, não negaria que é um grande poeta, mas não me maravilha. Prefiro Drummond de Andrade, João Cabral de Melo Neto. Na literatura (e na arte em geral), gosto de sentir o sangue, e Pessoa era muito intelectual. A arte que é somente trabalho cerebral não consegue apaixonar-me.
Portugal é injusto. Cada século vão encontrando um poeta melhor que Camões.  Mas todos passam e Camões fica. Foi ele que inventou o nosso idioma, tal como o falamos hoje. Ele é o grande poeta português.

Às vezes dá a impressão de que fala mais de futebolistas portugueses do que de escritores.
O desporto sempre foi muito importante para mim. Tinha um colega no liceu (hoje prestigiado crítico literário) a quem eu via com os seus amigos, muito inchados, falar de literatura enquanto eu jogava hóquei. Não faziam desporto, não iam a putas. Tinham uma vida asséptica. Não sujavam as mãos de merda, de esperma. Esse modo de vida nunca me interessou.
Lembro-me de ir patinar para o Jardim Zoológico, todas aquelas miúdas vestidas de branco, fazendo piruetas debaixo das árvores… Pareciam anjos.

Muitos defendem que o Nobel português devia ter sido seu.
Bom, há que desmitificar um pouco esse prémio. Não é Deus quem o atribui, mas uns quantos senhores que se reúnem uma vez por ano. Há tantos escritores de quem gosto (Tolstói!) que nunca o receberam… e depois há casos absolutamente ridículos, como o de Cela. Os prémios são agradáveis e aleatórios. Antes a minha vida era um tormento a partir de Setembro. Depois ficou mais sossegada, quando o deram ao Saramago, mas agora está a voltar o tormento. Não penso nisso. Foi divertido há três ou quatro anos, na Holanda. Estavam todos convencidos que me seria dado, e estava rodeado de jornalistas. Assim que se desfez o engano, desapareceram. Divertido e absurdo. Continuamos a ser o mesmo escritor com ou sem o prémio, não? Naipaul conheci em Londres. Não o admiro especialmente, na verdade. Mas o prémios… Coisas como o tema dos prémios Planeta, que levantam muitas reservas não só intelectuais, mas também morais.

Não se pode queixar, o seu êxito em Portugal foi rápido, mesmo sendo um romancista tardio.
Publiquei o primeiro romance tinha eu 37 anos, mas na altura já o haviam recusado vários editores e eu estava a escrever o terceiro. Após a queda da ditadura, toda a gente esperava a publicação das obras-primas que até então se julgava estarem escondias nas gavetas; mas essas obras nunca existiram. E depois, aqueles que escreviam submetidos à censura não superaram os vícios que foram adquirindo: narrativas situadas na antiguidade, em países imaginários. Não conseguiam falar sobre a actualidade. Penso que essa foi uma das razões para o meu êxito. Houve quem me elogiasse mas também quem me insultasse frontalmente, o que me pareceu bastante estranho. Era apenas um romance!

Mesmo assim, hoje existe unanimidade sobre a sua obra.
Em Portugal agora há um certo sentimento de má consciência a meu respeito, por certas atitudes do passado. Agora sou qualquer coisa assim como “o escritor”. Publicam-se estudos sobre mim, este ano sairá uma fotobiografia… Acaba por ser divertido, porque eu não mudei. No princípio, a minha atitude chocava. Lembro-me de uma entrevista na televisão. O apresentador dizia-me: «Natália Correia disse que a poesia serve para comer», ao que eu respondi: «Por isso ela está tão gorda». Coisas assim. Não era caso para tanto, mas vieram pedir-me contas. O meu prestígio em Portugal vem do meu prestígio lá fora. Nunca aceitei jogos com o poder, como os aceitou, e os aceita, Saramago…

Agora vai a Espanha para participar nas jornadas “Perfil de Portugal”, sobre o seu país. Parece-lhe necessário este tipo de jornadas?
Não. Aos escritores é preciso lê-los, não ouvi-los. A reputação de um escritor consegue-se publicando-o, lendo-o… Vou porque gosto de Espanha, porque me sinto como que em casa, porque sempre me receberam muito bem. Quem são os outros escritores? Carlos Reis é um pesado. E mais que escritores, há portugueses que apenas escrevem livros… Bom, será divertido.

Ainda se lembra daquele poema de Drummond que fala do envelhecimento?
Sim. Conhece-o?


«Talvez uma sensibilidade maior ao frio,
«Desejo de voltar mais cedo para casa». É muito bonito esse poema. A única coisa que me dá medo é não ter tempo para escrever o que quero escrever. Somente mais dois romances, dois, e estará tudo feito. Um sobre seitas religiosas e, finalmente, outro autobiográfico… E então partirei a esferográfica. Espero que pelo menos tenha tempo para isso…


07.11.2001
[traduzido do castelhano por Joana de Paulo Diniz]


nota de edição: apesar de estarmos a partilhar a entrevista após treze anos da sua publicação original, ela será indexada no nosso acervo de acordo com a ordem cronológica: portanto, entre as entrevistas que disponibilizamos do ano de 2001.

01/02/2015

Entrevista à LER Dezembro 2014 «O que importa é que a gente escreva»

Revista LER
Entrevista de Francisco José Viegas
Dezembro de 2014

Pouco importa que o tempo julgue. O que importa é que a gente escreva.

Depois da publicação de Caminho Como Uma Casa Em Chamas, António Lobo Antunes já terminou um novo romance, A Natureza dos Deuses, e está a escrever outro. No entanto, diz, não há «sentimento de urgência» - pelo contrário, trata-se de serenidade e plenitude.



Veio agora da Holanda e da Bélgica, onde foram lançados livros seus em festivais literários. Li uma entrevista sua ao Diário de Notícias, na qual diz que queria regressar a Lisboa porque precisava de continuar a escrever o livro, esse que está aí. É como se tivesse um sentimento de urgência em relação ao livro que está a escrever. Isso é de agora ou é de sempre?
É de sempre. Porque já me aconteceu, por exemplo, interromper um livro por 15 dias e não ser capaz de retomá-lo. Tive de atirar o material todo fora. É que já tinha perdido o ritmo… No fundo, tinha perdido o livro. Porque eu não escrevo com um plano muito detalhado,  às vezes é uma coisa muito vaga, dispersa… E tinha perdido o livro, estava com medo. Em relação a este, que provavelmente não vai ser publicado, estou cheio de dúvidas e de reticências. Um livro precisa de atenção permanente, precisa de que o seu autor esteja ali, dedicado, à espreita, de sentinela. Enfim, é preciso escrevê-lo todos os dias.

Uma dedicação permanente.
Sim, mas eu penso que isso acontece com todos.

É por isso que tem esse método mais ou menos rígido, de escrever das dez à uma, das duas às seis, das dez à meia-noite? É uma dedicação inteira.
Sim. Tem de ser. Eu não sei muito bem como é que as outras pessoas trabalham, mas aqueles escritores que eu conheço melhor trabalham assim. Até me aconteceu estar em aviões com escritores, em viagem, e um deles virar-se para mim e dizer «agora tenho de trabalhar», voltar-se para o lado e começar a escrever. O García Márquez escrevia nos aviões.

O António precisa estar em casa?
Não, não. Escrevo em qualquer lado.

Mas reparei que esse sentimento de urgência não o angustia nada. Pelo contrário, deixa-o com um sentimento de plenitude…
E de culpabilidade também. Sinto-me culpado quando não o estou a fazer. O que é estranho, porque eu não sei  em relação a que é que me sinto culpado, mas sinto-me culpado. A sensação que eu tenho é a de me terem dado uma tarefa, de me terem dado um compromisso para assumir, e eu tenho de cumprir. Porque um livro é dado. E eu não posso falhar esse compromisso.

Quem é que dá?
Não sei.

O António dizia, numa entrevista magnífica à Isabel Lucas, que os livros nascem dentro de si, acontecem, é como se os tivesse guardado lá dentro. Isso é um pouco aquela ideia muito romântica de que o escritor transporta um génio, uma voz, um certo número de livros…
Eu acho que todos nós sentimos a mesma coisa. Que temos uma coisa dentro de nós. O meu problema é para começar a escrever. Por exemplo: eu sento-me a este mesa, preparado para escrever, mas é preciso que uma parte da cabeça se feche para abrir uma outra parte que, normalmente, nunca está aberta, e que só se abre para escrever. E julgo que isso se passa, mais ou menos, com quase todos.

Acho que isso explica que, desde os seus livros da década anterior se tenha aproximado cada vez mais da poesia e da linguagem da poesia…
Acha? Eu não sou poeta, infelizmente.

Este último livro é muito marcado pela linguagem poética. Ou pela procura de expressão poética…
Se disser «pela procura de uma expressão», estou de acordo. Mas «expressão poética», não tenho. Não posso ter essa pretensão, porque eu até aos 19 anos só escrevia poesia. E então descobri que era má, muito má. E não imagina o sofrimento que isso foi para mim. Sentia-me completamente perdido, era um miúdo que estava na faculdade, completamente perdido e depois, eu tinha para aí vinte, vinte e um… não sei que idade é que eu tinha, quando o Almeida Feria publicou o primeiro livro. Que era muito melhor do que aquilo que eu fazia. Todos eram melhores do que eu. E então comecei a tentar escrever outras coisas. Não sei se é um vício, se o que é, mas depois já não era capaz de largá-lo. Eu escrevia todos os dias desde os 12 ou 13 anos. Nunca pensei em publicar. Foi tudo por acaso, como sabe… Claro que na vida de um autor há também um compromisso com o editor, como aquele que eu tive a certa altura, ainda no princípio: tantos livros para escrever, uma pessoa recebe dinheiro por isso, o que me permitiu deixar a medicina bastante cedo. Esse até pode ser um motivo…

É o seu motivo?
Não. Eu vivo com muito pouco.

Eu queria dizer que a obrigação de escrever não tem a ver com a existência de um contrato…
Claro que não, eu escreveria de qualquer maneira, mesmo sem publicar. Aliás, é uma coisa em que penso muitas vezes. Escrever, escrever, e não publicar. Guardar.

Mas consegue planear os livros que tem que escrever durante os próximos anos?
Ah, isso não. Neste momento, só tenho este. Há pessoas que têm dois ou três livros na cabeça mas isso nunca me aconteceu, nunca tive nenhum na cabeça. Eu acabo e fico sem nada. Normalmente fico dois ou três meses à espera. Leio, leio para aí oito ou nove horas por dia, suponhamos, mas, ao fim de uma semana, uma pessoa está farta de ler oito horas. E fico à espera. Faço exactamente a mesma vida que fazia antes, sento-me à mesa, e fico à espera.

Fica à espera. Mas precisa ter companheiros par ao ajudarem a esperar. Antigamente tinha o José Cardoso Pires, por exemplo. Ele era uma presença quase diária na sua vida.
Saíamos todos os dias… O Zé era muito generoso. Nunca se falou de livros, é engraçado. Nunca. Só no fim, ele dava-me para eu ler e corrigir, digamos assim, e eu dava-lhe a ele. Ele entregava-me páginas e páginas com sugestões e… Faz-me muita falta. Tinha um outro amigo, precioso, que era o Eugénio [de Andrade], que dizia que não gostava de prosa mas que era um óptimo leitor. Óptimo. O meu mal, foi gostar sempre de homens vais velhos. E o Zé não morreu velho. Tenho muitas saudades dele… Ainda hoje, quando toca o telefone às 10 da manhã, penso que é o Zé, porque era a hora a que ele ligava. O Zé, você conheceu-o, era um homem muito rugoso… Difícil. Mas nunca discutimos, nunca discuti com um amigo, nunca tivemos uma desavença, nada, nunca. Foi uma amizade extraordinária. Andávamos de braço dado, ele dava-me o braço, ele que era um homem duro e pouco demonstrativo. Só de vez em quando falávamos sobre os outros escritores. Uma vez mostrou-me uma coisa muito íntima, pessoal: ele tinha uma grande admiração pelo Redol, uma grande admiração e amizade pelo Redol. Aliás, ele nunca dizia «Redol», dizia sempre «o António». E o António morreu com 59 anos numa cama do Hospital de Santa Maria, com um cancro. Eu vi-o lá. Estava a acabar o curso e a fazer o estágio. E ver o Redol numa cama de hospital fez-me muita impressão. Senti aquilo de uma maneira tão injusta. E é engraçado, porque toda a gente conheceu o Redol. O Eugénio falava dele com uma admiração extraordinária. E o Zé falava-me muito de um romance que ele achava muito bom, que era o Barranco de Cegos, e depois dizia-me «mas há outros livros, enfim». Aí temos opiniões diferentes, o problema do António era que ele documentava-se tanto que ficava atolado debaixo da documentação e não conseguia voa com aquele ciclo «Port Wine». Ficava atolado. E então o Zé mostra-me uma carta. Na altura ele estava em Londres, no King’s College, tinha fugido à polícia, e o Redol escreveu-lhe uma carta de despedida porque ia morrer. A carta era em papel timbrado de um hotel, com uma coisa muito barroca, e na carta ele despede-se do amigo. «Zé, vou morrer, queria dizer-te o quanto, o quanto gosto de ti…» e por aí fora. A carta é comovente. E depois, no fim, uma coisa assim: «PS: já viste papel de carta com mais mania?» Isto é extraordinário, não é? Eu nunca o conheci, nunca falei com ele. Só vi ali deitado. Mas pela forma como as pessoas falavam dele… Só ouvi dizer bem desse homem. E como escritor não acho que ele seja mau, como as pessoas estão sempre a dizer. Longe disso.

Há uma série de autores que desapareceram das livrarias, das escolas. Fala do Alves Redol, mas há outros, como o Soeiro Pereira Gomes, Namora, Ferreira de Castro, uma série de autores… Mas agora a responsabilidade é usa. A figura do cânone é sua. Já imaginou que tem essa responsabilidade?
Nunca pensei nisso. Mas às vezes falam-me de escritores que me imitam. Não sei se é verdade ou não. Não é só em Portugal. Em França, um bocado por todo o lado. Agora há Antunes por todo o lado. Isso não é bom. A gente tem que escrever contra o escritores de quem gosta.

Sente essa responsabilidade?
Não, só tenho que fazer aquilo que consigo fazer, e fazê-lo o melhor que posso. Não, não sinto nada disso, responsabilidade e isso. Por exemplo, esse Ricardo Adolfo, não tem nada a ver, e parece-me que esse rapaz, se fosse editado… Ele precisava era de um editor, que é uma coisa que não há cá e faz muita falta. Nunca tive um editor. Nunca tive. Por exemplo, na Alemanha, a editora faz um editing com a tradutora. E corrige o alemão e muda… Aqui, os escritores precisam disso. Qualquer escritor precisa. Há ali um livro espantoso chamado The Sons of Maxwell Perkins, que é a correspondência entre o Maxwell Perkins e três dos seus «filhos», Hemingway, Scott Fitzgerald e o Thomas Wolfe. As cartas dele são de uma delicadeza espantosa. Como ele consegue modificar o Great Gatsby sem nunca magoar o autor, é extraordinário… Vale a pena ler esse livro, não sei se conhece…

Não, não conheço.
The Sons of Maxwell Perkins, vale a pena ler.

E o António aceitaria esse trabalho de editor?
Claro que aceito. Tomara eu. Estou sempre à procura.

É nisso que penso quando vejo os seus manuscritos… Como é que se passa desta folha minúscula, que não consigo ler, até à folha impressa? É um trabalho de minúcia. Como é que lê esta folha pequena, de um bloco do hospital?
Com uma lupa. Tem de ser com uma lupa, às vezes, mas foi assim que eu a escrevi. Depois vou trabalhar sobre esta [formato A4], não é? Normalmente, faço 10 revisões. Depois da prova ter sido passada à máquina, quando vem assim, direitinha, parece uma coisa escrita por outro, é mais fácil continuar a corrigir. E vou corrigindo e corrigindo. Depois entrego, e não vejo mais, nem provas, nem nada.

Há uma certa impiedade nisso, de não ler mais o livro. O António estava a dizer que não está a gostar do que está, neste momento, a escrever, e colocou a hipótese de deitar tudo fora…
É sempre uma a primeira hipótese que eu ponho, mas depois desisto da ideia e passo para a fase de corrigir tudo. E, finalmente, voltar a escrever tudo.

Essa ideia de deitar tudo fora não é demasiado cruel?
Se o livro não presta, não. Mas é sempre preciso voltar a escrever, uma e outra vez, e depois outra. Quando a gente pensa que só primeiro capítulo de Guerra e Paz tem 14 versões… É extraordinário. Uma editora espanhola publicou duas versões de Guerra e Paz, versões intermédias, que nada têm que ver com a versão definitiva. Estas versões já são muito boas, e o homem continuava a corrigir, a corrigir. E é um livro que ele publica aos 40 anos, sem parar de corrigir. Tenho ali fotocópias de páginas de Tchekhóv, e não há uma linha que não esteja corrigida. Uma linha.

Continua a apreciar Tolstói, os russos, Tchekhóv, o Turguenév… Balzac, também. Já o ouvi dizer coisas maravilhosas sobre Balzac. Mas, por outro lado, isso também é um pouco amargo. É como se tivéssemos perdido a grandeza do grande romance do princípio do século XX. Pelo menos em duas ou três entrevistas declarou uma grande saudade desse tempo, do tempo literário de Tolstói.
Isto não é um desporto de competição. E um bom livro é uma alegria enorme, venha de quem vier. Mesmo de uma pessoa com quem eu não simpatizo. Há escritores com quem não simpatizo e gosto da obra deles. E escritores de quem gosto muito – e não gosto da obra. Gosto da pessoa e não dos livros. Sabe, às vezes uma pessoa sente-se muito sozinha, e eu precisava de alguém que lesse os meus livros, que ajudasse a melhorar os livros. Tive a Tereza Coelho, que foi extraordinária e muito importante para mim. Ela dizia-me: «Isto não está bem, você pode melhorar aqui, você pode fazer isso de outra maneira». E tinha razão, normalmente. Enquanto trabalhámos juntos, ela foi extraordinariamente importante, ajudou-me muito a fazer coisas melhores e tinha razão nas coisas que dizia. Nós, às vezes, ficamos magoados, mas acho que aceito bem as críticas. Não gosto das críticas de jornal, que têm muito mais a ver com a simpatia e a não simpatia.

Mas o António tem dois bons leitores, o Steiner e o Bloom, por exemplo. Quem tem essa sorte não pode queixar-se de mais nada.
O Steiner era terrível, tivemos duas conversas, estávamos a falar de literatura inglesa. A certa altura eu disse que gostava de Emily Brontë [ou do seu único romance O Monte dos Vendavais], ele fez um silêncio muito comprido… Eu não sei se o conhece pessoalmente, mas estar com ele é espantoso, é um homem muito amável, um homem único, tudo o que faz é bom. Bom, menos os romances. Bom, eu digo isto da Emily Brontë, ele faz um silêncio comprido e pergunta: «Não acha que é um bocadinho histérico, o livro?» Isto nunca me tinha ocorrido. Então eu dei por mim a olhar para a Emily Brontë com os olhos do Steiner. Porque é um grande crítico. E, de facto, ele tem razão, o livro é um bocado histérico.

Por acaso, quando falou de literatura inglesa pensei que ia gostar mais de Orgulho e Preconceito
E gosto. Da Jane Austen eu gosto muito mas não sei porquê falou-se de Emily Brontë, e eu disse: «Olha, era uma mulher com quem eu nunca me casava.»

Mas ter dois leitores tão extraordinários, como Steiner e Bloom, isso não o deixa contente?
Deixa. Sobretudo o Steiner porque o conheço. Foi na LER que saiu uma entrevista. A cara dele, a maneira como ele se comportou comigo. Depois, chegar lá, olhá-lo… ele tinha um piano na sala: «Este piano era do Darwin.» Fiquei a olhar para o piano. A serenidade dele. A humildade. Aquele homem, eu sou só um postino, um carteiro… Ele é muito mais do que isso.

Mas é engraçado, porque tanto o Steiner como o Bloom, que não são amigos…
… O Bloom sente uma grande competição em relação ao Steiner. O Steiner provoca muita inveja.

Porque o Steiner é brilhante na capacidade de relacionar a literatura com outras coisas. Com a matemática, com a música…
E é um homem pequenino e aleijado. O braço direito dele é deste tamanho [metade do braço esquerdo]. E a mãe, que detestava a auto-piedade, obrigava-o, em criança, a escrever com a mão direita.

Bom, mas apesar de eles não se darem, não se conhecerem, tanto um como outro partilham a noção de que o romance de hoje tem pouca consistência.
E nós temos de concordar com eles.

Que a velocidade e o ressentimento têm destruído o próprio juízo sobre a literatura.
Qual dos dois?

Bloom…
Ah, logo vi. Essa é mesmo à Bloom. Bom, mas havia um crítico que eu prezava muito, um tipo espanhol, que morreu novo, e que escreveu algumas coisas maravilhosas, Rafael Conte. Em Itália, há um homem que escreveu sobre mim coisas extraordinárias, um tipo que eu admirava já há muito e nunca imaginei que ele pensava aquilo de mim: Claudio Magris. O tipo escreveu umartigo, no Corriere della Sera, tão inteligente e generoso. Tive essa sorte. Isto deixou-me um bocado aflito. Tenho um medo de os desiludir.

O António é o nosso decano?
Está a chamar-me velho?

Não. Estou a dizê-lo porque é um «autor forte» no sentido em que Bloom usa essa noção…
Eu não conheço muito bem a obra de Bloom. Do Steiner conheço toda, do Bloom dois ou três livros. E têm visões muito diferentes sobre a literatura.

Vamos então entrar neste livro…
Eu preferia que entrasse no que vem a seguir a este, e que está pronto. Julgo que é a melhor coisa que eu já fiz. Sairá talvez para o ano, no fim do ano que vem.

E já tem título?
Tem. A Natureza dos Deuses.

Como é que chega aos títulos?
Normalmente, chego ao fim e não tenho nenhum. Normalmente, é já no fim, mesmo no fim. Nunca comecei pelo título, mas gostava de começar. Este que estou agora a escrever, se chegar a ser livro, tinha pensado numa homenagem ao Bartók e ia chamar-lhe A Última Porta Antes da Noite. Não sei se é um bocadinho policial. Que é um dos meus sonhos, escrever um livro policial. Aliás, tinha combinado escrever um policial a meias com o Zé [Cardoso Pires], cada um com capítulos alternados. Não foi possível.

A certa altura, no meio das entrevistas que deu agora, disse uma coisa que me surpreendeu. Que foi, a certa altura da sua vida…
Posso só interromper? Eu queria que esta fosse a última e depois não houvesse mais entrevistas na minha vida. Em Portugal. Porque não faz sentido. As pessoas têm direito aos livros, mas aquilo que eu digo são banalidades.

Isso é diferente, um bocadinho, das apresentações. Já disse que não deve haver sessões de lançamento de livros, apresentações…
Sim, nunca mais fiz…

Mas há pessoas que querem falar consigo, ouvi-lo falar.
As pessoas têm direito aos livros, não têm direito a nós. Nós somos sempre uma desilusão. As pessoas esperam de nós coisas bestiais, que a gente diga coisas muito inteligentes. A maior parte das vezes não diz. Uma vez, um homem encontrou a Sarah Bernhardt na rua, reconheceu-a e perguntou: «Ah, Vossa Excelência é a Sarah Bernhardt?» Resposta: «Vou ser esta noite.» Quando nos pedem que digamos coisas inteligentes é como pedir a um acrobata para dar saltos mortais no meio da rua.

Ou que estejam sempre a falar dos seus livros. E que estejam sempre a falar de livros. Esta ideia de que os escritores só falam de livros é um bocadinho cansativa, também.
Com o Zé, nunca falávamos de livros. Às vezes, falávamos de outras pessoas, do género «gosto, não gosto». Não passávamos daqui. Por exemplo, ele não gostava do Scott Fitzgerald. Pronto. Dizia que não gostava, e acabou. Eu dizia que gostava e pronto, não andávamos muito mais do que isso. Eu gostava do Hemingway, mas eu não tenho, de maneira nenhuma, a paixão que ele tinha.

E gostava de Mailer.
O [Norman] Mailer é uma pessoa extraordinária. Estive uma semana em Gotemburgo com o Mailer e com o [Günter] Grass. Tinha um humor, aquele homem… O Mailer era engraçadíssimo e tinha um sentido de humor lixado. Eles não percebiam francês e o Mailer não falava francês, mas só discursava em francês. Um francês inventado por ele que ninguém percebia, e ficava tudo ali quieto, durante um quarto de hora, enquanto ele discursava, e no fim aplaudiam. E ele piscava o olhos para nós. Piscava o olho para nós e continuava. E os discursos eram todos assim, num francês que não existia, e depois vinha nos jornais suecos que ele tinha feito um discurso interessantíssimo sobre literatura. Ele não sabia dizer uma frase em francês.

Os Duros Não Dançam é um grande livro. Curiosamente, acho um livro muito contaminado pela poesia. É uma tentação em Mailer. Até naquele livro sobre a CIA, Harlot’s Ghost, 1400 páginas, há essa contaminação em muitas páginas… Sempre achei que as pessoas que não liam Mailer é que achavam que ele era o rei da insensibilidade.
Ele ficava muito contente, se tivesse ouvido isso. Estou a falar a sério. Ele vivia amargurado porque não era muito considerado por certa crítica poderosa, com razão ou sem ela. É difícil fazer juízos de valor sobre pessoas de que a gente gosta. Agora, um escritor é um escritor, e ele é muito bom. Essa questão da insensibilidade é muito interessante… Olhe, uma vez fui dar uma entrevista, daquelas que fazem na Public Library, em Nova Iorque. Era com duplas, éramos dois. E foi considerada a melhor entrevista do ano, fiquei todo contente. O meu parceiro era o Mike Tyson. Ganhámos os dois. Ele deu uma entrevista brilhante. A gente pensa que o Mike Tyson é uma besta, um monte de músculo e indiferença. Mas é de uma candura notável. Uma inteligência cândida. Mas é como os grandes jogadores de futebol: cândido mas não é ingénuo.

A Joyce Carol Oates gostava dele.
Por causa do boxe. Mas eu para o boxe já não tenho muita paciência.

O Normam Mailer tinha aqueles textos sobre o boxe…
Ah, esse livro é fundamental, extraordinário. Aquele sobre o combate em África [The Fight]. É um grande livro.

Não gostava de fazer uma grande reportagem? Um livro-reportagem.
Andei a pensar nisso, sobre a Volta a Portugal. Mas há um livro do Dino Buzzati sobre o Giro, e acho que já não vale apena. Era no tempo do [Gino] Bartali e do [Fausto] Coppi. E tenho ali um livro também sobre a primeira Volta à França que é muito bom, muito bem feito. Uma reportagem feita por um escritor. Isso tinha vontade de fazer. O problema é que eu escrevo muito devagar. Quem escreveu maravilhosamente sobre isso foi o [Antoine] Blondin, que é um autor que está agora a ser recuperado, de repente. É um francês a quem ninguém liga. E sem o Blondin não tinha havido Memória de Elefante nenhuma. As pessoas apontam grandes nomes como influências para esses meus primeiros livros, andam à procura não sei de quê, mas eu acho que é o Blondin. Tenho dificuldade em distinguir qual dos livros dele me marcou mais, tenho para ali o Blondin todo porque foi muito importante para mim. Na adolescência e ainda hoje. Foi uma porta tão feliz.

Lembro-me dele, muito envelhecido, de boina…
Ah, horrível e feio…

… e lembro-me de uma entrevista. Uma conversa fantástica.
Uma grande facilidade de expressão, quando falava e quando escrevia. Mas estava tão alcoolizado e destruído… Morreu novo. Viu fotografias dele em novo? Era de uma grande beleza física. É um homem bonito. Os seus últimos anos foram vividos com o cancro, até já não dizer coisa com coisa. Mas este homem para mim, foi decisivo. A gente pensa que são os Shakespeares que são importantes para nós… Para mim foram estes escritores que eu ia descobrindo com 14, 15 anos.

Quem são esses escritores? Além de Blondin.
O Blondin foi decisivo. Ninguém falou do Blondin porque não o lêem, nem aqui nem em França. Um outro livro que foi decisivo para mim, e que se nota é de um autor de quem estão a fazer a reedição da obra, e estão a sair biografias: foi o A Queda, do [Albert] Camus. Esse livro foi muito importante para mim, lido para aí com 15 anos. E continua a ser importante.

Passados estes livros todos, o António não pode dizer que escreve porque não pode dançar como o Fred Astaire…
Isso é evidente.

Então para que serve tudo isto?
Cada vez para menos. Eu tive três cancros nos últimos sete anos. Tive um há sete anos. Nos intestinos. Cheguei lá e perguntei: «Que chances é que eu tenho? Trinta, quarenta por cento?» O meu sentimento era de espanto. Nesse mesmo dia, disseram-me que tinha ganho o Camões. Eu queria lá saber do Camões para alguma coisa. Foi uma operação complicada. Estive 18 dias em Santa Maria. Era horrível. E era exactamente como Proust contava: passava as noites à espera da manhã. Como se a manhã me fosse salvar de qualquer coisa. Não me salvou de nada. E depois a quimio. Tudo aquilo. Há um ano e tal, dois anos, um cancro em cada pulmão. Um tinha cinco milímetros e o outro oito. Foi a minha sorte. Falei com o oncologista, que é um professor da faculdade, que é muito bom. Segundo o Professor Sobrinho Simões, é o nosso melhor oncologista, Luís Costa. Um homem novo, com 50 anos. Fui operado. Tiraram-me os dois tumores. Ele disse: «Vou fazer-lhe uma quimioterapia muito dura. Que pode dar barraca. Se não der barraca, você fica curado.» Então, os meses de Junho, Julho, Agosto e Setembro do ano passado foram quatro meses a fazer quimioterapia. Depois daquilo, eu não podia sequer mexer-me. E fiquei curado. Agora estou à espera da próxima. Isto tudo relativizou muito a importância da literatura. Percebi que, sim senhor, ia haver imortalidade, mas que eu ia morrer como um cão. E vou morrer como um cão, como toda a gente. E eu pensava sempre: «Vão ficar os livros, vou ficar vivo através dos livros.» Mas ninguém fica vivo através dos livros. Os livros podem ficar mas são independentes de nós. Oxalá fiquem. Mas os livros não ficam o tempo todo. Dos grandes dramaturgos de que Aristóteles fala, não sobra nada. E não estão lá o Sófocles, nem o Ésquilo, nem o Eurípedes, nem outros nomes que se perderam completamente entretanto. Mesmo do Ésquilo restam fragmentos. Vai desaparecer, enquanto o Euclides vai continuar vivo. De qualquer forma, por muito bom que seja o nosso trabalho, ele vai acabar por desaparecer. É uma questão de tempo.

Neste livro há uma personagem que diz: «Não aguento a ideia do fim.» Todas as suas personagens temem a ideia do fim?
Como toda a gente. Estou a lembrar-me do Professor Luís Sobrinho, da Faculdade de Medicina, que me disse várias vezes: «Ninguém está preparado para morrer.» Ninguém. E se nós pensarmos um bocadinho, é verdade. Nós vivemos pequenas eternidades. E pensamos que não vamos morrer nunca. Estamos certos de que não vamos morrer nunca. Mas vamos morrer. E o que vai acontecer à nossa obra? Por outro lado: isso será importante? Quando eu estava doente não era importante.

O que era importante?
Viver. Olhar, ver o sol, andar. A primeira vez que saí, que fui à rua. Mal podia andar, amparado às duas miúdas. Mas andava. E depois, a humilhação da doença. Por exemplo, estarmos numa cama de hospital e vir a enfermeira e levantar-me as partes para limpar o rabo. Eu estava com fraldas. Como se fosse uma coisa qualquer. E era uma coisa qualquer. Isso mudou muito a minha maneira de olhar para as coisas.

Mudou muito a sua forma de escrever?
Isso eu não sei dizer. Acha que também mudou?

Mudou. Por isso é que falei desta ideia. Não queria falar da sua doença, mas há um crescimento na direcção da poesia. Muito mais na direcção da poesia.
Das coisas anteriores às palavras?

E aparece Deus, curiosamente. Nessa altura, o António disse que não queria que Deus o salvasse da morte. E eu pensei: «Ele não quer que Deus o salve da morte porque não quer ficar a dever-lhe nada.»
Isso é maldoso, porque é verdadeiro. Sabe como me aproximei de Deus? Foi através dos físicos. Dos grandes físicos, matemáticos, etc. Eram homens profundamente crentes. Simplesmente, o Einstein dizia: «É completamente estúpido, porque temos a ideia de um deus  vertebrado e gasoso» - o que eu acho uma definição espantosa. Que é uma coisa que Deus não é. E também não temos o direito de pedir a Deus, porque Deus tem mais do que fazer do que ocupar-se de nós. Há um provérbio húngaro, que diz que «na cova de um lobo não há ateus». E quando perguntaram a Hemingway se ele acreditava em Deus, lembra-se da resposta dele? «Às vezes, à noite.» Não tem necessariamente que ver com a morte, mas todas as religiões, mesmo as religiões sem Deus, garantem a vida eterna. A gente não consegue viver sem o corpo, sem os sentidos. Como será isso? Não sei. Lembre-se de Tolstói, no diário: «Lutei para ser melhor do que Moliére. E sou. E depois?» O que há de angústia naquele homem, que era tão vaidoso… O Gorki conta, nas recordações sobre escritores, que estava em Yasnaya Polyana para passear com o Tolstói; a certa altura aproximaram-se de um bando de cavalos selvagens e o Tolstói continuava a aproximar-se dos animais, e o outro disse: «Leon Nikoláievich, pára aí!» Mas não: «Os cavalos afastam-se para Tolstói passar». Ele tinha perfeita consciência do que estava a fazer. No fundo, não há ninguém que escreva, que não ache que é o melhor do mundo. Tem que achar que é o melhor, senão não escrevia. É inevitável. Tem de ser. Senão, para quê este trabalho todo?

E com quem é que, nessa altura, se vai comparar?
Com ninguém, porque nessa altura se percebe melhor aquilo que eu dizia: isto não é desporto de alta competição. E há muitas maneiras diferentes de se ser muito bom. Isso tudo (a doença, a angústia desse período, mas também a sensação de liberdade) foi óptimo para mim, porque me deu uma coisa boa, um sentimento que eu cada vez acho melhor em mim: a capacidade de admirar pessoas diferentes de mim, que não têm nada que ver com o que eu faço, ou comigo. De perceber que escritores de que eu não gosto, são bons. Por exemplo, o [Robert] Musil chateia-me de morte, mas é bom; o Thomas Mann chateia-me de morte, mas é bom. E há escritores de quem eu gosto, e que são maus. Eu não tenho dificuldade, agora, em dizer isso. E faz-nos ganhar, ao mesmo tempo, uma humildade, uma distância, uma vaidade diferente – porque não vai ficar nada. Ficar nos livros, de que é que serve?

Não vai ficar nada? Acho que não pensa mesmo isso…
De nós ficam as saudades dos amigos. Como eu sinto do Melo Antunes, do José Cardoso Pires, por aí fora, dos poucos amigos que tive. A morte de um amigo é uma perda tão grande. E que um amigo não seja lido também é uma dor enorme. Quem é que lê o Zé agora? E os livros do Zé são fantásticos. Há um de que gosto muito: a Balada da Praia dos Cães. É muito bem montado. Muito bem construído. Ele não merecia estar tão esquecido. Ele e outros.

E esse novo livro, aquele que já terminou e que vai sair no próximo ano… Que inquietações é que o levaram a escrevê-lo?
Foi um livro que veio. Podia ter feito aquilo de forma diferente. E gostava de continuar naquele tema. É  um livro acerca de uma grande família, muito poderosa, cheia de ramificações… Acho que é uma coisa bem feita. O melhor livro que escrevi, para ser honesto. Deixo as máscaras, para quê? Acho que é um livro do caraças.

Porque é que esse livro é tão maravilhoso? Porque é que vai ser tão bom? Porque é a melhor coisa que já escreveu?
Ao nível da escrita. Acho que consegui ir mais longe do que das outras vezes. Faz-me lembrar um crítico francês muito maldoso que, quando o Malraux publicou Les Noyers de l’Altenburg, disse: «Malraux está, finalmente, na plena posse de todos os seus defeitos.»

Quer isso dizer que é um «livro definitivo»?
Que é uma coisa a que eu cheguei muito tarde. Eu andei anos, e anos, e anos a dizerem-me que toda a gente andava a fazer coisas melhor do que eu. Levei anos até ganhar confiança. E foi tudo à custa de trabalho. No Scott Fitzgerald aquilo parece cristal de rocha. E eu tenho que conquistar isso. Consegui isto. No caso de Fitzgerald os livros estão trabalhados porque o Malcolm Cowley o obrigava a trabalhar e a trabalhar, mas ele tinha 29 anos quando do seu melhor livro. Era uma criança, quase. Não tinha atingido a maturidade. E há outra coisa de que eu tenho medo, que é o declínio, os últimos livros, as últimas tentações. Já falei do Tolstói, mas angustia-me aquela período de Ressureição e todos os textos finais. E a gente não ter consciência disso. Como o Jorge Amado não tinha. O Amado era um homem maravilhoso e a quem devo muito, muito, pessoalmente. Dava-me beijos. E a mulher perguntava-lhe: «Porque estás sempre a beijá-lo?» ‘Eu gosto de lamber os meus filhotinhos.» E depois tinha frases extraordinárias, assim em conversa… Estávamos a falar de mulheres e lembro-me de ele dizer: «A última mulher que andou na linha, o trem matou.» Era um homem alegre.

Na sua «galeria de personagens», o António tem uma grande ternura para com os derrotados da História. Aqueles que perderam os combates.
Mas não é esse o nosso destino? Encaminharmo-nos para a derrota. Havia um mestre de psiquiatria francês, que nunca conheci, mas tive que estudar pelo tratado dele. Chamava-se Henry Ey, e dizia que nós triunfamos na derrota. Nas nossas vidas não podemos triunfar na vitória. Triunfamos na derrota. Porque vem sempre o fim, a ameaça do fim. Não estou a ser pessimista, e acho que estar vivo é um privilégio tão grande, podermos estar aqui a conversar. Só o facto de estar sentado passou a ser uma alegria na minha vida. E comecei a ter pequenas alegrias que não tinha. E que são tão grandes. Um dia de sol. Um dia tão grande para mim. E eu não tinha estes prazeres. Antes de ter estado doente, não tinha. E julgo que isso me ajudou a escrever. Por exemplo, o sentimento da inveja, aquele sentimento tão rasca, julgo que deixei de ter, e fiquei melhor pessoa. Não se podia dizer mal em casa do meu pai, fosse de quem fosse, mesmo de pessoas de quem ele não gostava. Não se podai falar da vida dos outros. «Quem és tu para julgar?», perguntava ele. Eu, realmente, não sou ninguém. Que direito tenho eu de julgar? E, então, em literatura, que é a nossa vida… Sem a literatura nós não vivíamos. Não vivia bem. E a literatura não é uma coisa de gente que viveu bem, porque a angústia é permanente. E o sofrimento é permanente. E está cá sempre dentro.

Mas diz que a doença…
… me tornou mais alegre. É a primeira vez que eu estou a falar nisto. Se um dia for comigo à sala de quimioterapia do Hospital de Santa Maria, não vê uma pessoa a chorar. É um hospital do Estado, há pessoas pobres, mas as pessoas sorriem, dizem «boa tarde», conversam, têm esperança. Devem sofrer muito, mas não são tristes. Nunca ouvi uma queixa. Foi uma grande lição. Quando estava a fazer radioterapia, no primeiro cancro (aquilo é uma sala enorme com gente à espera), estava lá um homem, vindo da província. Naquela altura ainda os podiam trazer de ambulância, agora não podem porque as câmaras não têm dinheiro, e as pessoas morrem… Era um senhor de oitenta e tal anos, de fatinho de vir ao médico, de uma ladeia do Alentejo. O fato estava cheio de nódoas, muito velho, não tinha gravata, e quando chamavam o nome dele, avançava como um príncipe. E eu nunca vi uma gravata tão bonita como aquele que ele não tinha. E a gente fica com uma admiração pelas pessoas, pelos portugueses. As pessoas são extraordinárias. A coragem, a dignidade. Sentia-me rodeado de príncipes quando lá estava, e pensava: «Eu não chego aos calcanhares destes tipos.» Então, comecei a pensar que não podia esmorecer, nem que seja em nome desta dignidade, desta coragem. Quando lá vou, vejo pessoas que não conheço de parte alguma, pessoas que ficam tão contentes com uma palavra. Sabe, antes de ser operado da primeira vez (foi uma operação muito comprida, de bastantes horas, porque tiraram o intestino e também o apêndice, a vesícula, aquilo já tinha apanhado várias coisas, bexiga e por aí fora), eu estava na sala para entrar, na maca, à espera da anestesia final e, de repente, sinto que me estão a dar a mão. Era o cirurgião. Não imagina como foi importante para mim. Ele ficou de mão dada comigo até eu adormecer. E, então, pensei: «Bolas, a função da literatura é esta: estar ali com uma mão apertada na nossa.» Um bom livro é isso. É uma coisa que nos dá a mão. E é uma fonte de alegria, de prazer. Há uma frase do Faulkner de que gosto muito. É quando ele diz: «Descobri que escrever é uma coisa extremamente nobre, faz-nos levantar sobre as patas de trás, e projectar uma enorme sombra.» É tão bonito, isto. E tão verdadeiro. Quando nós lemos um escritor de que gostamos, um livro de que gostamos, é isto que a gente sente. Ou ouvimos um músico. Ou vemos um quadro. Quando eu vejo um quadro de Rothko fico logo mais importente. E é isso que a literatura me tem dado nestes últimos tempos. Depois da doença, esta frase do Faulkner começou a fazer muito sentido para mim. «Faz-nos levantar sobre as patas de trás, e projectar uma enorme sombra.» É preciso admirar os escritores, é preciso amá-los. Eu teria imensa dificuldade em fazer crítica, porque, acho que não era capaz de dizer mal de um livro. Porque nós nos confundimos com o livro. Porque nós escrevemos para ser amados.

Mas é como se me dissesse que a doença e o confronto com a morte nos podem tornar melhores – mas, provavelmente, não o amor…
Ainda não tínhamos falado do amor. O amor é uma coisa tão privada… É muito diferente da literatura.

No seu plano, nunca pensou em escrever as memórias?
A minha vida não tem nada. Quando a Tereza estava a fazer aquela fotobiografia foi falar com o meu pai. Falar com a família e tal… Então apanhou o meu pai. «Vai fazer uma coisa sobre o António? Mas ele não tem nada. São só livros e a guerra. O resto, não lhe aconteceu mais nada, passou o tempo todo a escrever.» E tem uma certa razão.

Conheceu pessoas. Tem a memória destes anos todos, desde 1979 até agora, como autor. Ainda sente alguma tensão quando fala da guerra?
Não falo da guerra. Mas, por exemplo, a minha mãe morreu há um mês, e voltaram-me os sonhos da guerra. Tudo misturado com muito remorso. Nunca tive uma relação muito quente com ela. Achava que não gostava muito dela. Pus ali o retrato dela, na sala. Afinal, gostava dela.

E, portanto, nunca pensou em escrever as memórias?
Não, não tenho nada para contar. É isto. É estar sentado a uma mesa a fazer isto. De onde é que vem, aquilo que acontece nos livros? Não sei. Este livro [em manuscrito] é sobre gente muito pobre. Uma aldeia qualquer que nem tem nome. De onde é que eles vêm? De que parte de nós? Não sei. E também não sou um bom entrevistado, não digo coisas muito interessantes. Este livro comecei-o a 15 de Maio. Ainda falta tanto. Esse é o problema, não tenho tempo. Não tenho tempo. Não tenho tempo. Tal como o Mozart escrevia no Requiem, à margem: não tenho tempo, não tenho tempo. E o Évariste Galois, o prodígio da matemática, que passou a noite antes do duelo em que morreu, a escrever, a escrever. Escreveu as descobertas dele, que levaram a dividir a matemática entre antes de Galois e depois de Galois. Com 19 anos e aquele tipo morre. E é assim. A vida é uma coisa, os comentários sobre ela são sempre tão imperfeitos.

Por isso eu achei extraordinária essa urgência, aquela coisa de dizer: «Quero voltar para casa, quero voltar hoje, quero ir-me embora porque quero escrever…»
Eu costumo levar o livro quando é mais tempo. Mas era pouco tempo e ia com a Cristina. É difícil. Quando viajo sozinho, é mais fácil, peço sempre ao editor que me dê quatro horas para escrever…

Mas essa ideia, essa tranquilidade, esse gosto em andar, o gosto em ver a manhã, acho-o numa espécie de plenitude sem mágoa.
Eu fui muito afortunado. Até na doença. Tive doenças muito graves. Tive uma meningite, tuberculose, três cancros. E fui muito afortunado. E tenho amigos, poucos. A gente dá-se cada vez com menos gente, o nosso universo parece ficar cada vez mais pequeno. E fazer novos amigos é muito difícil. Embora a amizade seja como o amor: é instantânea e absoluta. É do Faulkner, também. Que é um belo escritor. Como diz o Steiner, «quem não é influenciável pelo Faulkner»?

E dos seus livros, quais são aqueles de que mais gosta?
Sinceramente, não tenho nenhum…. Eu não os li.

Contou-me que, outro dia, releu o Memória de Elefante
Não foi reler… Vi assim, a correr, enquanto almoçava. É curioso como foi um livro importante, porque veio a Revolução e a gente estava à espera das obras-primas que estavam nas gavetas e que os autores não podiam publicar (e depois apareceu quase nada…). Mas nessa altura os cenários eram coisas distantes, países da Antiguidade, imaginários, tudo de ficção pura. Como Walt, do Fernando Assis Pacheco. E aquilo foi, praticamente, um primeiro livro. Tinha havido antes O Que Diz Molero, que é um livro de que eu continuo a gostar. E era muito amigo do Dinis [Machado], como sabe. Que era um homem extraordinário, espertíssimo. O Molero continua um belo livro. E nós ficámos sem amigos porque, quando o livro saiu, em 1979, convidaram-me para ir à Associação Portuguesa de Escritores, que era ali na Rua do Loreto. Aquilo estava cheio, tudo queria conhecer o António Lobo Antunes. Para mim foi importante também porque estava lá o Dinis. E ficámos amigos para a vida. Estavam lá todos.

Como recorda agora esses momentos? Qual era a sensação? O António era muito tímido mas, por outro lado, estava na força da idade…
E sou, sou tímido na mesma, sou mais ainda. Não me vê em parte nenhuma. Na altura tinha 30 anos, saía, andava, escrevia… E apaixonava-me. Saía à noite. Depois tive uma altura muito difícil, que foi o vício do jogo. Aí, durante um ano não escrevi. Tinha muitos doentes, tinha 30 anos mas tive a sorte de ter professores que gostavam de mim e me mandavam os doentes que não queriam. Então, eu saía do consultório e, como nessa altura morava no Monte Estoril, passava pelo Casino. Todas as noites ficava ali. Para largar aquilo foi horrível. Eu tinha lido O Jogador [Dostoiévski], mas não acreditava que fosse tão difícil sair daquilo. Eu vi-me à brocha para sair daquela merda. E agora não entro.

Eram conhecidos os seus jantares desse tempo…
Nessa altura morava num apartamento pequenino, que tinha uma sala e um quarto. Sozinho. Não tinha telefone. E atravessar gripes sozinho era uma chatice. Depois, jantávamos à sexta ou ao sábado. Era com o Zé, com o Dinis e com o Artur Semedo. Nunca conheci muitos escritores, quer dizer, conhecia-os todos de apertar a mão. Eu ria-me o tempo inteiro porque eles tinham muita graça. O Artur tinha imenso humor. O Zé tinha um humor frio mas às vezes tinha mau vinho, era uma chatice. Ele era muito corajoso e era valente. O Artur chamava ao Dinis «o magala». «Dinis, és um magala, filho. És um magala.» Isto num bar que estava muito na moda – porque eles bebiam e eu não – que era o Procópio. E o Artur era um bonito homem, com uma voz tonitruante, às vezes alta demais. «O minete é uma coisa muito difícil, toda a gente fala em boas fodas, quem fala em bons minetes?» Tudo a olhar. «É uma coisa como uma concha, pões as mãos nas nádegas e bebes». E no entanto, era um homem que vivia para a mulher, só para a mulher. Interrompia as filmagens para ir dar o almoço à mulher. A mulher morreu, ele meteu-se na cama e morreu passados meses. E foi assim desde que a conheceu: até ao fim da vida, o Artur nunca mais dormiu com mulher nenhuma. Eu tinha uma inveja daquilo. Tinha uma tuberculose, estava em casa, e era o Artur que tomava conta dela. E aquele homem que dormiu com toda a gente, com a Amália Rodrigues, com actrizes do seu tempo, que teve para aí romances tórridos com senhoras da sociedade, em barda, ficou rendido à Pilar até ao fim da vida. Lia muito. Parecia inculto, mas não era nada. Espertíssimo.

Ainda se lembra dessa sessão na Associação Portuguesa de Escritores?
Lembro-me muito bem. Estava tanta gente, tanta gente. E eu muito espantado, porque não conhecia ninguém. Não conhecia escritores. Ficava ali a olhar para eles, na Cervejaria Coral, quando vinha do liceu para casa, e lembro-me de ver lá o David Mourão-Ferreira, que era um homem de quem gostei muito. Era um homem bom, generoso, extraordinariamente sedutor. Ele fez bem a tanta gente, foi generoso para tanta gente, desde o Urbano à Maria Alzira Seixo, sei lá, tanta gente. Depois em 1985 deram-me aquele prémio que, na altura, fazia vender muito, o prémio da APE – e eu disse que não havia crítica em Portugal, aquelas coisas… Estava ali cheio de tesão, a querer afirmar-me, coisas da época… E o David disse: «O António, ao dizer isso, já está a tomar uma posição crítica…» Tinha toda a razão. Ele sabia dizer as coisas, nunca era agressivo. Era um senhor, uma cavalheiro, e um bom poeta.

Fala cada vez mais de poetas…
Sempre foi a minha fixação. Aquela estante [aponta] é só poesia. A poesia continua a ser, para mim, uma fonte de prazer. A quantidade de poemas que eu sei de cor. E depois descobri umas coisas. O João Luís Barreto Guimarães é muito bom. E nós temos grandes poetas. Agora, grandes ficcionistas já é outra conversa. Mas isto é um problema mundial. Os editores perguntam-me: «Diz lá alguém que valha a pena editar, para a gente comprar.» E um gajo vê-se à rasca para dizer um nome.

A que atribui essa falência na ficção?
Não sei. Não percebo. Será o computador? Já viu como é dramático? Porque, dantes, a gente sabe a visa do século XVIII, XIX, pelas cartas. Os diários. Aquelas cartas intermináveis que eles escreviam uns aos outros. A correspondência do Balzac, isto e aquilo. O que vestiam, o que comiam. Agora são e-mails, que são coisas mais orais. Ninguém vai saber nada de nós. Bom, há as entrevistas… Agora estou a ler as entrevistas da Paris Review. Quase todos eles são muito melhores a escrever do que a responder às perguntas. As respostas são muito mais pobres do que os livros deles. Eles entrevistaram centenas de escritores. Não há um que me tenha enchido de entusiasmo. Há coisas pequeninas que eles contam. Mas, de resto, são fracas. Mesmo quando eles as revêem, como a do Saul Bellow. Eu não sou grande fã do Bellow, mas os seus livros são muito superiores. E há uma, a do Borges… Olhe, aí está. É um bom escritor. Eu não gosto, mas ele é bom. O cabrão é bom. Há uns anos, eu diria «não presta». Mas é bom.

O que se alterou na sua leitura de Borges?

Deve ter sido a minha experiência como leitor. E perceber como é difícil fazer aquilo que ele faz, e que parece tão simples na mão dele. Eu acho que o tempo nos traz uma disponibilidade muito maior. Ficamos mais selectivos, mas ficamos mais humildes. E, sobretudo, uma coisa óptima, que é perceber que não estamos sozinhos. Que há pessoas a fazer o mesmo trabalho. Com o mesmo sofrimento, com as mesmas dores, com resultados diferentes. Que o tempo julgará. Mas pouco importa que o tempo julgue. O que importa é que a gente escreva.



Revista LER
nº 136 - Dezembro 2014

transcição e revisão do texto original por José Alexandre Ramos
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Crónica «Nós» com reflexão sobre a sua leitura por Olga Fonseca

Nós Não precisávamos de falar. Como ele dizia – Tu sabes sempre o que eu estou a pensar e eu sei sempre o que tu estás a pensar ...