25/01/2015

Claudio Magris disserta sobre a obra de António Lobo Antunes (Il Corriere della Sera)

António Lobo Antunes: o Minotauro no seu labirinto

Claudio Magris, ensaísta e escritor italiano
sugerido para o Prémio Nobel
As grandes ficções do séc. XX, escreveu Raffaele La Capria, são "obras falhadas". Não por culpa dos seus autores, certamente - em que se encontram o maiores escritores de cada época - Musil, Kafka, Faulkner, Joyce, Svevo e muitos outros mais, entre eles alguns latino-americanos -, mas precisamente pela grandeza e verdade de tais obras. São essas grandes narrativas que têm enfrentado, narrado e assumido, na sua própria estrutura, a verdade da sua época e da nossa, a degradação do mundo, o eclipse de um signo central capaz de dar unidade e racionalidade às vicissitudes individuais e colectivas, a desconstrução linear do tempo. O romance da nossa vida é um vasto oceano conradiano; um redemoinho que absorve, separa e dispersa as histórias e do eu que as vive. Abriu-se um abismo entre a História e escrever histórias. O historiador e as pessoas comuns, quando se trata de entender o que lhes sucedeu e vai-lhes sucedendo, mais não pode fazer que tentar ordenar os factos e o seu significado; mas quando se narra como o faz o sujeito individual - de acordo com as palavras de Manzoni -, o eu vive esses acontecimentos e acaba ou integrado ou desagragado por eles. O narrador não é capaz por narrar a História vivida senão através desse pesadelo a que Joyce se refereria ou como na inconexa série de acontecimentos de O Tambor [de Günter Grass].

A linguagem racional com que devemos tentar falar, por exemplo, da crise económica, não pode ser a mesma com a que se narra a história de um indivíduo aniquilado por tal crise, tendo em conta a sua angústia e os seus delírios. No romance do séc. XIX, maior ou menor, a acção do indivíduo era narrada numa história difícil mas não absurda; e o escritor novecentista, quando criava as suas histórias, confiava numa escrita semelhante à que com a qual travava as suas batalhas políticas. A escrita de Victor Hugo em Os Miseráveis não é muito diferente da que usava nas suas querelas com Napoleão III. Contrariamente, Kafka não teria escrito A Metamorfose ou O Processo com o mesmo estilo de uma comunicação quotidiana ou de qualquer declaração política. A história de Elsa Morante é apenas a grande e irrepetível excepção. Este contraste é, ainda hoje, e até cada vez mais, a nossa verdade, que reencontramos, não obstante a distância de quase um século, em O Homem Sem Qualidades [Musil] ou em Absalão, Absalão! [Faulkner], e certamente não a vemos na retrógada restauração do romance bem feito, que tende ir ao encontro do leitor em vez de desafiá-lo, em pé de igualdade, no conflito com o mundo. Actualmente, citando, num outro sentido, o título de um livro de Corrado Stajano, os mestres só podem ser mestres do dilúvio, esse dilúvio universal no qual, observava perspicazmente Santo António de Pádua, unicamente os peixes estão a salvo da morte. António Lobo Antunes é, na actualidade, um desses prodigiosos e fascinantes mestres.

Psiquiatra nascido em Lisboa no ano de 1942, Lobo Antunes conheceu, viveu, e da sua própria experiência, das suas reacções sentimentais conscientes e inconscientes, e, por fim, da sua escrita, o coração das tenebrosas últimas guerras coloniais portuguesas em África, redemoinho de uma História como uma artéria obstruída pelo seu próprio sangue, proliferação cancerígena de tragédias, violências, dores, doces sentimentos perdidos, personagens, paixões e pensamentos narrados com uma poderosa força fantástica, que emergem de uma confusa noite à qual se voltam a fundir. A guerra em África influi numa trilogia que vai desde Memória de Elefante (1979) a Conhecimento do Inferno (1980) e várias outras obras posteriores como Boa Tarde Às Coisas Aqui Em Baixo (2003), sendo um pano de fundo obscuro sempre presente mesmo não sendo formalmente evocada. Como um antigo clássico, Lobo Antunes reune e dita a memória histórica do seu país, Portugal: Explicação dos Pássaros (1981) e O Esplendor de Portugal (1997) ilustram, num outro registo, os anos entre a queda da ditadura de Salazar e uma nova realidade ainda por se valorizar. Na História se fundem também as histórias das personagens de As Naus (1988) ou de O Manual dos Inquisidores (1996). Porém, esta memória, total e por sua vez dispersa num pó composto de detalhes, ferozes e dolorosamente insensatos, é como que areia movediça, ou quase como uma monstruosa planta carnívora, engolindo acontecimentos, homens e palavras.

Entusiasta comunista durante algum tempo, Lobo Antunes conheceu o protesto desperado, não a esperança da redenção. História e sociedade tragam os indivíduos, empuram-nos para a inexistência ou para um delírio autista como sucede ao protagonista de Explicação dos Pássaros; a denúncia dos maus tratos nos hospitais psiquiátricos é, sem dúvida, uma implacável denúnica politico-social mas também a denúnica do viver. Para Lobo Antunes, a escrita é um rio que transborda, uma agitação de tantas obras que é quase impossível enumerá-las ao lado da lista de todos os seus tradutores. Memória de Elefante, a par da sua obra-prima O Arquipélago da Insónia (2008), é uma surrealista e perturbadora abolição do tempo. As personagens não se distinguem dos seus retratos; as gerações convivem, para além da casualidade da vida e da morte, numa co-presença atemporal: todas as palavras proferidas ao longo de anos e décadas, as acções e as violências cometidas por um patriarca e por demais senhores contra os oprmidos, irrepetíveis na sua dor mas idênticas como que folhas caídas e putrefactas, eternamente presentes como se contam os anos pelos círculos dos troncos das árvores.

Lobo Antunes leva quase ao extremo a dilatação e a contracção do tempo, foice inexorável e oxidada, o redemoinho do monólogo interior e do fluxo de consciência que tudo absorve e avassala. A perspectiva narrativa, a pontuação, a unidade da frase, a sintaxe, o mesmo espaço gráfico, tudo colocado numa diferente ordem dessa nova argamassa que é a vida inteira. Tudo é uma aglomeração de fragmentos nos quais está sempre presente o todo; não existe diferença entre vivos e mortos, como no romance Pedro Páramos do grande mexicano Juan Rulfo e, quem sabe, na mente de Deus, na qual não há diferença entre ontem e amanhã. Antunes é um grande épico uma vez que apanha o pleno, a totalidade. Sejam dadas graças a tradutores como Vittoria Martinero e Rita Desti, sempre culpavel e ignorantemente esquecidos - como acontece com todos os tradutores da nossa incultura -, que nos permitem ler em toda a sua força um grande escritor visionário; tradutores que demosntram uma criatividade linguística tão digna como a do escritor.

ALA, duque de Crocodilos
do Reino de Rendonda
Apenas por uma vez, em Barcelona, me encontrei fugazmente com Lobo Antunes, apesar de sermos ambos duques do fantástico Reino de Redonda em cujo trono se senta Javier Marías; [Lobo Antunes] o duque de Crocodilos, e eu duque de Segunda Mão. Creio que para ele, viver é escrever, só escrever, sempre escrever, tecer uma enorme teia de palavras esperando nunca poder sair dela; viver para escrever e escrever para não viver, construir labirintos sem necessidade de um minotauro no centro, já que a vida está cheia de minotauros; estão por todos os lados prontos a devorar as suas vítimas. Talvez o escritor, dentro do labirinto das suas palavras, seja, precisamente, o Minotauro.


artigo de Claudio Magris
22.01.2014

traduzido do italiano para castelhano por María Teresa Meneses
traduzido do castelhano para português por Joana de Paulo Diniz

ligações e fotos resultantes da tradução para português


Agradecemos a Cristina Ferreira de Almeida e Maria da Piedade Ferreira pela notificação a este artigo na versão em castelhano de Maria Teresa Meneses no site Milenio

17/01/2015

Daniel Osiecki - Sôbolos Rios Que Vão: emparedamento metafísico

edição brasileira Alfaguara
A polifonia não é novidade nos romances de António Lobo Antunes que, através de painéis narrativos intrincados, se desenvolve nos segmentos da prosa poética  e de fluxos de consciência extremamente precisos. O estilo não linear de Lobo Antunes passou a se evidenciar a partir de romances como As Naus (1988), Tratado das paixões da alma (1990), A ordem natural das coisas (1992), O manual dos inquisidores (1996), O esplendor de Portugal (1997) e tantos outros.

Com o passar do tempo a desconstrução da forma romanesca tradicional e a ruptura de elementos sintáticos em suas narrativas se tornaram mais evidentes, como a ausência de diálogos estanques em um plano temporal objetivo que dá lugar a devaneios, delírios e lembranças. As narrativas mais recentes de Lobo Antunes são compostas por solilóquios e monólogos irredutíveis sob perspectivas variáveis de personagens repletos por neuroses e obsessões.

As experiências na guerra colonial em Angola serviram como pano de fundo para vários romances de Lobo Antunes evidenciando um tom autobiográfico, mas em toda sua trajetória ele nunca foi tão direto e desprovido de amarras como no livro Sôbolos rios que vão (2010). Lobo Antunes teve câncer há sete anos atrás e depois de lidar (mais uma vez) com a experiência da morte iminente, fez uma espécie de balanço de sua vida. No romance, lembranças se misturam com delírios  e acontecimentos nebulosos envoltos numa atmosfera onírica e soturna.

A ação de Sôbolos rios que vão é bastante fragmentada, como é recorrente em livros anteriores de Lobo Antunes, mas nessa breve, mas densa, narrativa, os estilhaços polifônicos assumem proporções maiores que em outras obras; há, assim, vozes distintas de um mesmo narrador, como a voz do protagonista ainda na infância em sua aldeia natal e a voz do protagonista delirando em um leito num hospital em Lisboa. A doença submete o indivíduo à mais humilhante derrota, que é tornar-se vítima ou prisioneiro do próprio corpo. Os embates metafísicos são intensos durante toda narrativa. 

Vale ressaltar que o brainstorm que de certa forma aprisiona e liberta o narrador, que é o próprio António Lobo Antunes, se mistura frequentemente ao plano do delírio. A voz do avô é recorrente durante todo o romance, como um eco do fundo das eras que se repete durante várias passagens da vida de António. A voz do avô une-se à sua e vários labirintos estilísticos e narrativos começam e acabam no mesmo parágrafo. E em momento algum o narrador se assume como ele próprio, ou seja, não assume ser ele mesmo porque não há referência ao fazer literário ou a qualquer indício de que um texto de fato esteja sendo escrito. Mas há a autocitação, ou seja, António Lobo Antunes além de autor modelo é personagem, mas não vem a ser autor empírico.

António Lobo Antunes deixa bastante claro durante todo o romance uma das máximas do existencialismo, que é tentar explicar a inverossimilhança da vida diante do absurdo da morte. A morte não pode ter mais sentido do que a vida. Isso acontece quando a memória, que é o único e último recurso do protagonista, começa a falhar. Essa falha simbólica é o primeiro indício claro da finitude e da fragilidade humana. 

...e a ausência de memória a apequená-la de angústia, a sua voz de súbito numa energia que a espantou... (p. 184)

Ao passo em que a narrativa (ou as narrativas) vai chegando ao fim, Lobo Antunes evidencia ainda mais uma espécie de tragédia iminente, como um momento nevrálgico inevitável. Nota-se que há a preparação de um acerto de contas com a vida. Há um tom de prenúncio de tragédia que permeia seus últimos dias no hospital.

- Ninguém quer saber de nós
dias a fio sozinho tal como eu nesta cama com a mesma fúria de partir e incapaz de partir, partem as visitas pela gente, se tivesse um filho podia ser que, não, se tivesse um filho ia-se embora com os outros, o que vale este pai e talvez fosse o que meu pai queria dizer fitando o balanceio dos líquenes ou o avô a atravessar o jornal na varanda não se importando com as notícias, a minha avó
- Foi sempre distraído
e não era distracção, era a falta de coerência da vida...

(p. 168)

António Lobo Antunes leva muito a sério o fato de não contar uma história. Ele tenta reproduzir na escrita a angústia de seres, em sua maioria, decadentes. Decadentes se não moralmente, fisicamente. O que é relatado acaba por ficar em um segundo plano, evidenciando-se mais como relatar, como contar, como inventar. Esses artifícios experimentados por Lobo Antunes são compostos em uma prosa poética labiríntica, ou seja, as angústias e devaneios dos personagens sofrem uma espécie de emparedamento metafísico. No caso do protagonista, além do emparedamento metafísico, há também um emparedamento físico, pois está preso à cama de um hospital. A forma romanesca de Lobo Antunes é um labirinto que deve ser penetrado pelo leitor com argúcia, com cuidado mas com audácia. Sôbolos rios que vão é um belo exemplo da densidade e do experimentalismo praticados por Lobo Antunes como se fosse uma síntese de toda sua obra.


por Daniel Osiecki
01.06.2014

Gonçalo Mira opina sobre Não É Meia Noite Quem Quer, em Fragmagens

Uma mulher regressa à casa onde cresceu, entretanto abandonada e prestes a ser vendida, para uma última visita. E é nessa casa abandonada que as recordações de infância a assaltam, remexendo no passado e questionando o presente. Estas são as linhas gerais da história de uma professora com um casamento desgastado e sem filhos, mas não é aqui que Não é meia noite quem quer se esgota. Pelo contrário. Com António Lobo Antunes a regra é quase sempre essa, a estrutura a fazer de acessório ao que realmente importa, ao que as personagens sentem, pensam e sofrem. Quando a personagem principal do romance explora a casa, o que interessa é que o leitor explore a personagem. Tem três dias para o fazer, que é o tempo em que a narrativa (nunca fico satisfeito com a aplicação deste termo a livros de Lobo Antunes) se desenrola. A escrita é a de sempre, de frases que pedem contemplação e de metáforas que fazem pensar. Não é meia noite quem quer não é muito diferente de outros livros de Lobo Antunes, mas é mais uma oportunidade de sentir a prosa de um autor incomum.



por Gonçalo Mira
02.04.2014

11/01/2015

João Tunes - opinião de leitura sobre Caminho Como Uma Casa Em Chamas

Mais Lobo Antunes e nós

No último romance de Lobo Antunes ("Caminho como uma casa em chamas", Dom Quixote), o seu sempre igual olhar pessimista de lucidez que primeiro dói e depois nos envolve e aquece porque somos animais de carne quente mas, no caso, com o culminar da maturidade feita obra maior. E tal como aos velhos e aos camponeses, aos escritores maduros também se lhes topam as manhas desde que se saiba dar-lhes a volta ou perceber essas neles. Assim, Lobo Antunes, com a sua cena pessimista, já a poucos "enganará". Ele vai por aí, pelo descarnar das nossas misérias e descrenças, para nos chegar ao osso e ao nervo. E depois, sabichão é o tipo, sabe bem que não temos outro remédio que para sairmos daquele mau estado na fotografia do que voltarmos a nós, que se temos sombras (e temo-las, é claro) é porque não nos falta luz. E, no final (não do livro, mas de cada parágrafo, senão não sobrava fôlego), recompomos as coisas dizendo para nós (e para o escritor): «pois, dás-me um lado porque sabemos, nós e tu, que há outro, o que achas desnecessário mostrar».

Neste romance, obra de mais velho, Lobo Antunes repete o estilo da "escrita incompleta" pronta para ser feita a quatro mãos, ele e o leitor. E só assim se consegue lê-lo. Ou seja, ele como que come nas palavras (aparentemente, sim) para que nós, os leitores, possamos também completar-lhe o livro. Em resultado, ler Lobo Antunes dá trabalho mas premeia, e que bem, o esforço em o ler, levando-nos para dentro do acto literário. Ele não nos dá leituras grátis. Só lhe podemos agradecer por isso. A quem quiser leitura sossegada deixo-lhe uma dica de amigo: parece que o Miguelito (também conhecido como MST) pariu mais um livrito para vender como prendinha de natal.


por João Tunes
13.12.2014

09/01/2015

Ecos de silêncio numa casa em chamas - artigo de Agripina Vieira no Jornal de Letras

Que melhor maneira poderia um escritor ter de comemorar a atribuição de um doutoramento honoris causa (mais um), neste caso pela Universidade Babes-Bolyai de Cluj, na Roménia, e o Grande Prémio de Excelência do Salão do Livro da Transilvânia, de que oferecer aos seus leitores mais um dos seus admiráveis textos? Foi exactamente isso que António Lobo Antunes fez, dando-nos a oportunidade de mergulhar novamente no mundo ficcional, intenso e envolvente, por ele criado.

Com Caminho como uma Casa em Chamas, [...] o autor propõe-nos uma visita guiada aos diferentes apartamentos de um prédio com quatro andares e um sótão, levando-nos a descobrir a existência dos vários inquilinos (dois em cada piso), que em discurso na primeira pessoa desvendam não só as suas angústias, medos e emoções, mas igualmente a percepção que têm da vida dos seus vizinhos. Desta visita fica arredado o ocupante do sótão que, apesar de diversas vezes referido (a vizinha do primeiro direito diz ouvir passos mesmo não acreditando numa presença, o militar do terceiro esquerdo percebe uma tosse e um cochicho, enquanto o irmão da criada da actriz do terceiro direito fala em “sonzinhos mínimos”), só se faz ouvir no derradeiro capítulo.

Desta breve apresentação ressalta desde logo a presença de ecos inter-textuais com a obra excepcional de Georges Perec, La vie mode d’emploi, com a qual Caminho como uma Casa em Chamas tece indeléveis ligações, ao nível da arquitetura da diegese e também da construção das personagens.

A partir desses espaços fechados (o prédio; os apartamentos) e pelo poder da memória, a efabulação alarga-se a tempos anteriores e a espaços outros, convocando acontecimentos, objectos e indivíduos que marcaram decisivamente as existências dos habitantes do prédio. A importância da memória para a economia da narrativa está espelhada em inúmeros trechos, como na seguinte constatação do judeu do rés-do-chão direito: “Que curioso o tempo, volta e meia marcha ao contrário recuperando cenas perdidas”.

São, pois, essas cenas perdidas, que se apresentam como fragmentos de uma vida passada, peças de puzzle de um mosaico que na narrativa vai tomando forma, que as personagens vão recordando. Embora estejamos em presença de histórias individuais, a efabulação ganha um sentido mais preciso através do diálogo que entre si entretecem, já que a narrativa da história individual se completa e consolida através do olhar e da percepção que os outros dela têm.

A construção da diegese alicerça-se, assim, numa alternância de vozes que, sucessivamente, vão relatando os acontecimentos à luz das suas vivências, dando corpo a uma narração fragmentada e polifónica. Neste jogo de vozes e de olhares sobre o mundo, somos guiados de apartamento em apartamento, o mesmo é dizer de vida em vida, por uma entidade que apenas surge mencionada pontualmente pelo viés da referência à sua actividade, a de estar a registar as falas das personagens ou de pedir para que façam o seu registo, patente como nos seguintes excertos: “ponham anuir que impressiona”; “não escrevo que uma gargalhada, escrevo que divertido”; “não arranjei  maneira de escrever isto bem mas espero que entendam”; “ia escrever violência e acertou em cheio”; “não me obriguem a escrever isso”.

Lobo Antunes recupera deste modo a composição discursiva já utilizada em O Manual dos Inquisidores, que decorre de um processo de questionamento ou inquirição, o qual dá azo a que as diferentes narrativas apareçam como testemunhos ou respostas a uma voz que não se faz ouvir, mas cuja existência está implícita nas respostas obtidas pelas outras personagens, que deste modo revivem um passado, que muitas vezes prefeririam esquecer ou calar.

Cada um dos moradores dos oito apartamentos, a que se associa uma panóplia de personagens ímpares que com eles (con)vivem ou (con)viveram, traz para o presente da narração recordações obsidiantes, nas quais reencontramos os grandes temas que marcam o universo ficcional do escritor; a guerra colonial, o processo de descolonização, o governo do Estado Novo, a desagregação da família, a solidão. A estes junta-se uma temática menos presente no universo romanesco antuneano: a II Guerra Mundial e o seu cortejo de horrores e perseguições, que surge associada à história dos ocupantes do rés-do-chão direito.

Apesar de terem tido percursos de vida assaz diferenciados, o homem doente do segundo direito, a juíza do segundo esquerdo, o ex-militar do terceiro esquerdo, o bêbedo do primeiro esquerdo, os dois irmãos judeus do rés-do-chão direito, o comunista forçado a colaborar com a polícia do rés-do-chão esquerdo, a funcionária das finanças do primeiro direito, a velha actriz do terceiro direito e até “o eco atenuado de uma autoridade extinta, no caixote do sótão” (no qual reconhecemos a representação da figura de Salazar) partilham uma semelhante angústia e uma igual dor, a solidão, que leva o bêbado a afirmar: “caminha-se como uma casa em chamas, caminhamos todos como casa em chamas e o telhado do cérebro a arder”. 

É porque “as vozes do silêncio [a] inquietam”, que a juíza se deixa explorar por um jovem funcionário do tribunal a troco de uma ilusão de sedução e carinho, depois de ter sido abandonada pelo marido e pelos filhos. Também o inquilino do rés-do-chão esquerdo, o comunista/colaborador, prefere “as censuras ao silêncio da ausência, ligo o aspirador, deixo-o trabalhar para me sentir acompanhado”. Se todos padecem de igual temor, é pela voz da velha e louca actriz que encontramos a mais pungente constatação do tormento que a solidão causa: “ - Só necessito de um bocadinho de companhia amigo / não palavras, não comida, não conforto, uma presença apenas, outros passos além dos seus no soalho e outra voz mesmo que eu não falasse consigo, um estar ali que parecendo que não tranquiliza”.

A clausura que determina e condiciona a existência destas personagens é tanto mais ampla quanto diferenciada, já que sendo antes de mais física (os moradores estão confinados ao espaço fechado do prédio) é também, e sobretudo, emocional. Cada um dos indivíduos que habita o prédio (“que prédio este caminhando como uma casa em chamas”) vive enclausurado na solidão, nos segredos e nas recordações que incessantemente presentificam um passado.

Particularmente expressiva é a “presença atenuada de uma autoridade extinta” que se adivinha no sótão do prédio. Apesar de encontrarmos referências subtis e dúbias a essa figura ao longo de toda a obra, a sua identidade apenas toma contornos mais definidos nos dois últimos capítulos do romance, revelando-nos um Salazar decrépito, pobre e só, que vive da benevolência da criada da actriz louca do terceiro direito que lhe leva todos os dias um prato de sopa. Na construção desta personagem perpassa uma trágica ironia, confinando a um espaço que é por excelência de clausura e de isolamento quem pautou as suas atitudes e decisões por ideários de conservadorismos e pequenez, condenando um país a um enclausuramento político, social e até cultural.

Com Caminho como uma Casa em Chamas, António Lobo Antunes propõe aos seus leitores mais uma viagem aos sótãos das (nossas) existências, oferecendo-nos um texto que se abre à complexidade identitária do indivíduo, numa efabulação que se constitui como uma interrogação da nossa vida, uma inquirição das nossas práticas enquanto indivíduos mas sobretudo enquanto sociedade.


por Agripina Vieira
15 a 28.10.2014

texto do artigo disponibilizado por cortesia do Jornal de Letras (na pessoa de Leonor Nunes) e de Agripina Vieira.

[revisão do texto por José Alaexandre Ramos]

03/01/2015

Milu Pereira: "A todo o tempo dar tempo", reflexão de uma leitora de António Lobo Antunes

“A única pessoa que pode mudar de opinião é aquela que tem alguma.”
EDWARD WESTCOTT

A singela e despretensiosa abordagem que efectuei acerca do livro “O Esplendor de Portugal” de António Lobo Antunes, [...] suscitou alguns comentários que considero bastante interessantes, na medida em que representam o importante universo das pessoas que fazem da leitura um hábito salutar nas suas vidas. E como gosto de dizer coisas, decidi aproveitar esta oportunidade inesperada, para fazer o gosto ao dedo e vir para aqui escrevinhar sobre os meus pensamentos, tal como já vem sendo habitual.

Ora bem, o que tenho hoje para dizer?:

Muito se tem escrito sobre António Lobo Antunes e acerca do seu talento como escritor. É uma verdade insofismável, já que reúne o consenso de todos, que as suas crónicas são francamente apaixonantes e que nos enlevam a alma tão alto que quase deixamos de respirar, enquanto as lemos extasiados. Contudo, as opiniões exteriorizadas a respeito dos seus livros são controversas, algumas pouco abonatórias. No meu simples e modesto jeito de ver as coisas, julgo que podem ser destacados diferentes tipos de reacção perante a alusão à densa e labiríntica prosa que caracteriza o escritor. Há quem demonstre conviver grandemente com a obra do escritor, daí o notável à-vontade na elaboração do comentário. No lado oposto estão os que nada querem com a escrita de António Lobo Antunes, que consideram enfadonha e nada estimulante. No ponto intermédio, encontram-se todos aqueles que já tiveram um qualquer desencanto com o estilo literário deste autor, do qual até certo ponto se mantiveram arredios, mas que, ainda assim, estão na disposição de mudar drasticamente de ideias. É neste ponto que eu própria me encontro, embora esta minha postura seja devida a um recente acontecimento que me levou a essa conclusão. Eis então:

O primeiro livro do autor que li sem esforço foi “As Naus”, se digo que foi sem esforço é porque disso tenho a certeza, se não tê-lo-ia posto de lado, tão certo como dois mais dois serem quatro. O segundo livro que li, vorazmente, que disso também tenho a certeza, porque me escangalhei a rir com ele, foi “Memória de Elefante". Quanto ao terceiro “O Meu Nome é Legião”, simplesmente não fui capaz de o ler. Ao cabo de algumas páginas fiquei com a sensação de que andava por ali a patinar sempre no mesmo, ainda para mais o livro é um autêntico calhamaço, o que além de não acrescentar qualquer entusiasmo, ainda acabou mas foi por tirar o pouco que ainda restava para poder prosseguir. Por fim desisti de uma vez e fiquei sem vontade de tentar ler mais algum livro do mesmo autor. Até que um dia destes, alguém me emprestou “O Esplendor de Portugal”, a cuja leitura dei início, até porque sou uma pessoa que nunca toma decisões definitivas praticamente acerca de nada. Quanto a mim é sempre tempo de arrepiar caminho, quando se trata de mudar de ideias. Escusado será dizer que mais uma vez pensei desistir, principalmente no início, mas como não havia por que ter pressa, fui lendo sempre mais um pouco, até que me adaptei a este estilo de escrita densa e pesada que é a do escritor António Lobo Antunes. E acabei a leitura deste livro com a sensação que travei uma dura batalha mas da qual saí vencedora. Mas a noção de que verdadeiramente tinha terminado de ler “um peso pesado” da literatura mundial contemporânea, foi-me dada sentir quando constatei por estes dias, que ao folhear uns quantos livros relativamente recentes, de outros autores, muitos deles assomaram-se-me aos olhos como uns livrinhos de histórias de cacaracá! Histórias sem grande substância e nem sempre muito bem escritas! É que isto de escrever bem, é exactamente como diz o autor aqui citado – “É preciso ter sofrido muito”! Faço minhas estas palavras, porque na verdade, é preciso levar muita lambada da vida e muito pontapé, uns daqui e outros dacolá, para ganhar alma e assim ter algo que dizer ao Mundo! E foi nesses instantes que me ocorreu à ideia, que terei muito a ganhar se continuar a ler António Lobo Antunes, embora ainda não me sinta suficientemente segura para afirmar, que tornarei a tentar ler “O Meu Nome é Legião”. Mas há mais livros deste escritor! Muitos mais! Quando hoje me aprestei aqui a contar esta minha experiência foi no intuito de incentivar outras pessoas a desejar sentir o mesmo que eu! É que depois de lermos uns quantos livros de António Lobo Antunes, não há mais livro nem autor que meta medo!


por Milu Pereira
16.01.2010

[links nossos]

01/01/2015

Rui Fonseca: "Um país como uma casa em chamas"

Há neste 25º. romance de A Lobo Antunes uma casa habitada por personagens condenados à amargura das suas vidas desesperadas. Conversas dispersas, suspensas, cruzadas, no tempo e no espaço, interrompidas, inacabadas, compõem uma colagem que obriga o leitor a uma identificação, frequentemente labiríntica, dos fios com que o autor tece um texto amargo do princípio ao fim ainda que pontuado por notas de humor cáustico, por vezes divertido. 

É uma metáfora do país que habitamos neste final de 2014? 
Em certo sentido sim. Mas não me parece que essa identificação, que já vi referida numa ou outra apreciação crítica, possa ser transposta do tempo do romance (meados do século passado) para o Portugal de hoje sem alguma ressalva. Certamente que aqueles personagens enclausurados num espaço comum repartido caracterizam uma sociedade que subsiste ainda que os fantasmas que as habitam tenham mudado de pele e de nome. Mas não são estes os personagens que ocupam a cena deste país em chamas que habitamos hoje, não são estes zombies que atearam o fogo e colocaram uma parte da população em fuga. 

"Caminho como uma casa em chamas", repete obsessivamente o autor, num quadro onde as alusões, os traumas dos residentes da casa (Quem manda, quem manda, quem manda, Salazar, Salazar, Salazar, repetições que lhe retiram intemporalidade) não remetem para o Portugal actual, saqueado por políticos sem escrúpulos, banqueiros gananciosos, crápulas com máscaras que ninguém, por mais que o deteste, confundirá com o ditador de Santa Comba.

Portugal caminha como uma casa em chamas. É do título que destaco a maior actualidade desta obra de A Lobo Antunes.


por Rui Fonseca
31.12.2014

Crónica «Nós» com reflexão sobre a sua leitura por Olga Fonseca

Nós Não precisávamos de falar. Como ele dizia – Tu sabes sempre o que eu estou a pensar e eu sei sempre o que tu estás a pensar ...