Avançar para o conteúdo principal

Público: «Tenho um medo permanente de isto ter acabado»

Público/Ipsilon
Entrevista de Isabel Lucas
07.11.2014

António Lobo Antunes escreve Caminho como uma Casa em Chamas, um livro com cenário num prédio de quatro andares e um sótão. O amor, a morte, o tempo, o envelhecimento e o que cada um faz da sua vida são o pretexto para muitas interrogações. Algumas estão nesta conversa meio vadia.

O sol bate nas cortinas e é entre elas que a conversa começa na casa onde vive na Rua do Conde de Redondo, em Lisboa, um antigo café. A olhar para uma fotografia nova na sala. A mãe. “Era muito bonita. Foi embora há menos de um mês.” Que idade na foto? “A gente tem a idade com que nasce. Dez, setenta. Ela era muito nova”.

A conversa alonga-se, uma tarde inteira. Pede algumas reservas. Vai sendo assim. Com interrupções e alguns entusiasmos sobre si enquanto protagonista de uma escrita que diz não controlar, rodeado pelos livros dos outros, por frases e palavras escritas a marcador nas paredes, como fazia em criança no quarto em casa dos pais, em Benfica. Essa casa que se fechou agora e pode voltar a abrir-se como museu, ou fundação. Não quer falar disso.


Estamos no espaço onde António Lobo Antunes lê e onde escreve o tempo todo entre cigarros e a certeza de que quer escrever até morrer. Parece ser a única num homem que diz não ter um discurso sobre a sua literatura quando completa 35 anos de escrita publicada. A outra foi queimada na figueira do quintal porque era má e íntima. “Não falo de livros, falo do que me vem à cabeça…” É mais ou menos assim…

Vamos falar deste livro?
Não me lembro de nada. Já escrevi um a seguir que talvez seja a coisa melhor que fiz. E agora estou com outro que está complicado.  

Numa das suas crónicas, disse que ele nasceu quando começou a desenhar uma casa.
Sim, era o plano. Mas foi só isso. Não sei o que me passou pela cabeça porque escrevo sem plano, é o livro que se faz a ele mesmo. Mas para este desenhei várias casas, a ver quem punha aqui e ali, no rés-do-chão, no primeiro andar… [faz no ar o movimento da caneta no papel].

Em 25 romances tem ideia de quantas personagens já criou?
Eu não tenho personagens.

Mas tem gente, vozes
Não faço a menor ideia. Só aparecem quando estou a escrever. Depois calam-se e só voltam com a caneta na mão, quando estou sentado. De resto, não penso nas vozes. Ao princípio ficava a pensar no livro, agora só quando me voltar a sentar àquela mesa, daqui a nada. 

Tem horas para isso?
Tenho. É o tempo todo. 

Diz que não gosta de chamar romances aos seus livros. O que são?
É, não sei se são romances. Tenho tantas dúvidas em classificar aquilo. Para mim são livros. Não há histórias. Acho que tive muita sorte. A Memória de Elefante sai por acaso, ninguém sabia que eu escrevia, e um amigo meu, o Daniel Sampaio, andou com aquilo pelas editoras e ninguém queria. A Bertrand, onde estava a minha actual editora, a Maria da Piedade Ferreira, recusou o livro. Acabou por sair numa editora pequenina chamada Vega, em 1979, e vendeu loucamente. Percebo porquê. Nos escritores antes do 25 de Abril a acção passava-se em países imaginários, ou na antiguidade; a seguir ao 25 de Abril ficámos à espera dos romances que estavam na gaveta, já escritos e não podiam ser publicados, e não saiu nada. Aparece em 1977 o livro do Dinis Machado, O Que Diz Molero?. E foi só. O Memória de Elefante já estava escrito nessa altura. Três meses depois sai Os Cus de Judas, que estava pronto havia tempo, e chega uma carta da América de um agente…

Nestes 35 anos que passaram escreveu-se muito sobre si, deu muitas entrevistas. Como constrói ainda o seu discurso sobre a literatura que faz? 
Eu não falo dos livros. Falo do que me vem à cabeça, mas não falo dos livros.

Porquê?
Tenho muito pudor, tenho vergonha.

Não acha que os livros são a sua maior exposição?
Acha? Talvez seja então por isso. Eu mostrava os livros ao Zé [Cardoso Pires], fazíamos editing um ao outro. Ele dava-me páginas e páginas com sugestões que eu não seguia. Era a única pessoa que lia os meus livros antes de saírem. Sempre escrevi e ninguém lia. Eu não mostrava a ninguém. Queimava tudo na figueira do quintal. 

Porquê?
Porque era íntimo e porque era mau. 

Mas, o que o inibe a falar deles, é o medo da crítica, o julgamento do leitor?
Não tenho nenhum medo da crítica porque sei o que eles valem. Não sou parvo. Mas acho que não tenho direito de estar a maçar as pessoas. Está a fazer-me pensar em coisas sobre as quais não sei bem o que dizer. Por exemplo, esta pilha [aponta para um monte de folhas A4]. É o que estou a fazer agora e acho que está tudo mal. Os últimos livros têm saído exactamente como eu queria e este não, este foge-me. Não nos estamos a dar bem, não me sinto confortável com ele e se calhar ele não se sente confortável comigo. 

E o modo como escreve, tem mudando?
Normalmente cada vez escrevo mais depressa. O problema são as correcções. Aí perco muito tempo. Mas a primeira versão sai-me mais depressa. Antes, trabalhando o dia inteiro, saía-me meia página por dia. Continuo a escrever à mão. Começo por escrever em folhas pequenas, depois passo para folhas A4 em letra maior e começo a corrigir. Faço umas dez correcções e mando dactilografar. Quando vem já não parece escrito por mim e há muito menos narcisismo nessa leitura, sacode a água a mais.
[Olha para a capa do livro] Esta capa… Não sei se gosto se não gosto. Não folheei o livro, sequer. Mas não escolho as capas. É a editora.

Mas lembra-se da dedicatória, “Ao Zé Manel, com amorzade”?
Lembro-me. Gosto do amorzade, que não é meu. É uma dedicatória do Valerio Adami. Ele vive em Paris na casa do Dali, mesmo diante da igreja em Montmartre. Escreveu-me num desenho: “para o António com amorzade”. E eu gostei tanto daquela fórmula e acho-a tão verdadeira e tenho amorzade por esse homem.

Este livro está cheio de perguntas sobre a vida, o amor, a morte, o tempo. Tem dito que há mais perguntas que respostas. Continua a ser assim, um inquiridor…?
Acha que sou? Não faço muitas perguntas. Talvez seja uma das técnicas da análise, nunca fazer uma pergunta com ponto de interrogação. Se quer saber qualquer coisa, aprendi quando era médico, é repetir a última frase da pessoa que está a falar. Por exemplo, a pessoa diz: “hoje estou muito nervosa”, e em vez de perguntar porquê, dizer: “estou muito nervosa…” Isso obriga o outro a transformar a linguagem noutra linguagem.

Mas há alguns pontos de interrogação. Quando um dos inquilinos do prédio fala sobre a relação com o divino, “o que sente um judeu?”, a tal pergunta mais íntima. Como vai a sua relação com o sagrado?
Uma vez perguntaram ao Voltaire como era a relação dele com Deus: “cumprimentamo-nos mas não nos falamos”. É uma relação ao mesmo tempo complicada e simples. A minha relação com Deus modificou-se desde que estreitei amizade com [Frei] Bento Domingues. Ele diz, por exemplo: “eu não vou ao cemitério porque não está lá ninguém”. Eu faço perguntas como estas: “E os que morrem, onde é que estão?”; “Andam por aí”, reponde ele.

Não sei, houve uma altura da minha vida em que lia muito os físicos… Porque é que os grandes físicos, e grandes matemáticos, eram quase todos profundamente crentes? O Einstein dizia “esta coisa de Deus, por exemplo, os meus filhos têm de Deus a ideia de um vertebrado gasoso”. É a ideia que nós temos todos, e que a catequese nos dá. E Deus não é um vertebrado gasoso, como é evidente. Começamos a perceber que é qualquer coisa muito para lá disso. Passei por coisas difíceis nestes últimos anos em que tinha muitas probabilidades de morrer e o que é engraçado é que não tinha medo. Estava tão espantado e indiferente, demasiado absorvido pelo sofrimento físico, que foi brutal. Passei por uma quimioterapia de grande violência. Não sabia se ia viver ou morrer. Só gostava de viver mais uns tempos porque tinha mais uns livros dentro de mim  e sinto que ainda tenho – e queria escrevê-los. Mas não queria que Deus me salvasse da morte. As noites nos hospitais são tremendas. É um bocado como conta o Proust, ficar à espera da manhã como se a manhã salvasse de alguma coisa e não salva de nada. E depois pensava: tenho vivido tão mal...

Porquê?
Porque havia uma data de coisas para as quais eu tinha os olhos fechados. E porque procuramos a porta nas paredes em que sabemos que não há porta, quase nos sentimos culpados de ser felizes, se é que isso existe… Mas estar aqui sentado já é uma vitória do caraças, sair para a rua, ver o sol.

Disse que não queria morrer porque sentia que tinha mais livros para escrever. Os livros são a sua vida?
Há uma serie de anos o Libération ressuscitou aquele inquérito dos surrealistas, Porquoi écrivez-vous? Havia pessoas que respondiam uma página inteira. A resposta mais curta era a do Beckett, Bon qu’à ça. Eu digo que escrevo porque não sei dançar como o Fred Astaire. Se soubesse dançar como ele escusava de escrever. Não quer dizer que trabalhasse menos. Escrever é a mesma coisa. O Renoir sustentava que não há talentos, há bois. Mas há muito poucas pessoas com talento. Já reparou no deserto? Compare com o século XIX em que tinha 30 génios ao mesmo tempo. Na Rússia, de repente, Tolstoi, Dostoiesvki, Gogol, Pushkin, Lermontov, podemos continuar… Em França uma data deles, em Inglaterra… Agora não há. 

Quem é que o António lê?
Gosto muito de ler, sempre foi um prazer enorme. Há livros bons de que a gente não gosta e outros de que gostamos e não são tão bons. Por exemplo, o Thomas Mann é bom mas não gosto, chateia-me. O Musil é bom, mas não gosto. O Broch já gosto, o primeiro capítulo de A Morte de Virgílio é espantoso.

É a experiência de vida a ditar o gosto?
Claro. Se tivesse de falar assim de repente em escritores de que gosto, o Conrad, o Tolstoi… já reparou o que ele faz com frases tão simples? “Está frio, a cerejeira floriu, amanhã vamos à cidade”, com frases destas ele consegue exprimir tudo, filho da puta. Os manuscritos dele estão cheios de emendas. O que aquele homem trabalhava os textos… Só d’A Morte de Ivan Ilitch, do primeiro capítulo, há catorze versões conhecidas. Em Portugal nunca tivemos grandes escritores, ao nível destes. Quem é que o nosso século XIX tem para apresentar? O Eça e o Camilo. Uma vez vi uma crítica inglesa ao Eça que o destruía por completo porque o comparava com escritores de quem ele era contemporâneo. São estes nomes de que falámos. E de facto ao pé deles ele é um pigmeu. Temos óptimos poetas. Há poetas vivos muito bons. Mandaram-me um livro do José Luís Barreto Guimarães e gostei imenso daquilo. É bom. O José Tolentino Mendonça é bom. Mas em prosa não consigo. O problema pode estar em mim.

O que falta?
O meu pai tinha uma expressão para isso: falta faísca. Quando aparecia um bom artista ele dizia “tem faísca”. É um não sei o quê. Não sei o que faz com que o Proust seja o Proust ou o Céline seja o Céline. Noutro dia pus-me a reler o Céline e não tem uma prega. O Sartre tinha consciência disso porque quando lhe diziam: “este é o século do Sartre”, ele dizia: “não este é o século do Céline”. E ninguém lê o Sartre, já o Céline continua vivo da Costa. Aquilo não tem uma prega.

Isto leva-nos também para o escritor e a sua biografia.
Mas repare, quem são os dois escritores franceses do século XX? Este não é um desporto de competição, mas os nomes que me vêm à cabeça são os de Céline e o Proust, que tiveram histórias pessoais completamente diferentes. Homens tão diferentes, que escreviam de formas tão diferentes. Uma vez estava a falar com o meu editor francês e quando lhe perguntei “mas tu gostas do Beckett?” Ele respondeu: “Je respecte”. É o que eu sinto em relação ao Beckett. Mais respeito do que gosto. Gosto do Molloy (1951), mas o resto acho chato. É o meu gosto pessoal. O Ulisses… às vezes irrita-me por sentir a proeza pela proeza. No Faulkner aquilo está ao serviço do texto. Mas depois vai ler o Nabokov que diz mal desta gente toda. Para ele o Conrad era um escritor para crianças, o Faulkner escrevia histórias de plantadores de milho. Então de quem é que gosta? Updike e Robbe Grillet… ou seja aqueles que não lhe podem fazer sombra.

O que acha do Nabokov?
Não gosto. Uma vez estava a falar disto com o [George] Steiner quando fui a Cambridge para estar com ele. Nós temos sempre medo que a pessoa que a gente admira nos desiluda e ele, o Steiner, não me desiludiu nada. É um homem excepcional, com uma apreensão do fenómeno literário… A certa altura falei na Emily Bronte…

O Monte dos Vendavais?
Sim, dizendo que tinha gostado muito. Ele fez uma pausa comprida e disse-me: “mas não acha o livro um bocado histérico?” Eu nunca tinha pensado nisso e, de repente, dei por mim a olhar para aquele livro com os olhos dele.

E conseguiu ver histeria?
Sim, ele tinha razão. Ele preferia a Jane Austen, que é uma grande escritora, de facto. Ou a George Eliot. Tenho tanto respeito pelos escritores, gente que… como é que o Apollinaire diz no verso? “Pitié pour nous qui combattons toujours aux frontières. De l’illimité et de l’avenir…

É o trabalho condenado a não estar inacabado?
Pois é. Essa frase que disse o Marcel Duchamp, que um quadro nunca está inacabado, está definitivamente inacabado. Porque é sempre possível melhorar.

Permanece um “e se…”?
Claro. Acho que está acabado quando o livro está farto de mim, não quer mais emendas… é como quando deixamos de gostar de uma pessoa e se dorme num cantinho da cama que pode ser que ela não nos toque, quando já qualquer toque nos irrita. É tão triste o fim de uma relação…

Com o livro também?
Também. Sinto que já não querem que lhes toque. Não sei explicar isto. Passa-se a numa espécie de estado segundo que não consigo traduzir em palavras. Sei lá porque é que escrevo estas coisas. Não sei. 

Muita gente já lhe disse que a sua escrita é muito marcada, reconhecível. Entra-se num livro seu e percebe-se logo a autoria…
É isso que me chateia.

A marca?
Estava a escrever a Explicação dos Pássaros [1981] na Alemanha em casa da tradutora e do marido, e mostrei-lhe, dizendo que era diferente dos outros. Ela respondeu que lhe bastava ler três linhas e percebia que era meu. Tenho uma maneira de escrever muito marcada e isto dá para a malta imitar. É como a caricatura. Há imitadores por todos os cantos e não me refiro a Portugal.

E porque acha que o imitam?
Não sei. Não sei porque é que escrevo assim. Isto foi a pouco e pouco. Acho que só comecei a fazer livros como deve ser para aí no sétimo ou oitavo. A Memória de Elefante é claramente um primeiro livro cheio de incorrecções. Noutro dia recebi uma edição nova, já vai em mais de trinta edições – e continua a vender  e fiquei espantado porque o livro está cheio de erros de principiante, mas tem uma força… Os erros, já os esperava, mas a força do livro é que me espantou. 

Como é que lida com o seu erro?
Em que sentido?

No sentido em que sempre que um livro é lançado diz que faz o melhor que pode, mas…
Acho que faço, mas posso estar enganado. Acho que o livro a seguir a este é a melhor coisa que já escrevi na vida. Deste não me lembro mesmo. Não sei porquê, ficou apagado em mim. Tanto assim que eu não queria publicá-lo. Mas acho que uma parte da obra, aquela mais experimental, em que tento algumas coisas novas para mim como na Exortação aos Crocodilos (1999), Não Entres tão depressa Nessa Noite Escura (2000), Eu Hei-de Amar uma Pedra (2004)… Aqueles calhamaços são difíceis de ler como o caraças e eu achava aquilo claro e estava todo contente. Com a vida que há agora é muito difícil ler aqueles livros. Não dá para estar sempre a interromper. A vida não é assim, as pessoas têm de trabalhar no dia seguinte. Isto devia apanhar-se com uma doença.

Falava nas conversas com escritores. O que há de fantástico nelas, o chegar perto do enigma, do enigma do talento?
Talvez. Não sei. Ainda vou à feira do livro e fico a olhar para a fila dos autógrafos dos outros e a olhá-los porque eles escrevem. Os autores. E volto a ser o miúdo que era quando vinha do liceu e passava ao pé do Jardim Zoológico. Havia ali uma cervejaria chamada Coral onde comiam grandes génios à quinta-feira, a Natália Correia, o David Mourão-Ferreira, e eu ficava do lado de fora, com 14 ou 15 anos, fascinado a olhar para aquela gente. Atraem-me os escritores. Parece que têm contacto com outra instância qualquer. 

Também lhe acontece, ver alguém olhar para si com esse fascínio?
Talvez, mas não é a mesma coisa. Se vou a um restaurante as pessoas reconhecem-me, algumas começam com o telemóvel a tirar fotografias e a pôr no facebook. Eu não sei, não tenho computador nem telemóvel, mas acontece. Ontem fui ao dentista e estava a comer numa tasquinha ali na Avenida de Roma e umas pessoas vieram falar-me: “Não ganhámos este ano”.

Referiam-se ao Nobel?
Sim. Não percebo porquê, mas as pessoas vêm. Parecem que as pessoas lêem. E não me lêem só a mim, como é evidente. Mas eu olho para os escritores como alguém com acesso a instâncias que nós não temos…

O António é escritor. Há esse acesso?
Não sei… Estou a olhar ali para baixo (estante em frente) e a ver o Stendhal de que gosto muito. A pensar que ele faz O Vermelho e o Negro em 54 dias, a maior parte ditado, e sai aquela obra-prima e passa dois anos com o Lucien Leuwen, que é o pior livro dele. 

Então, existe génio?
Não sei como lhe chamar, mas existe qualquer coisa porque há pessoas que produzem estas coisas. A gente fica com uma inveja saudável, como é que isto se faz? Acho que isto é feito numa espécie de inocência, se calhar. Todo o escritor se acha o melhor senão não vale a pena escrever. Para não ser o melhor não vale a pena, mas acho que depois quando estão a escrever têm uma dimensão angélica… e a sensação de que escrevem só para mim.

Quando era miúdo, no liceu, se alguém falava de um escritor de que eu gostava ficava furioso porque o homem só escrevia para mim e aqueles livros eram feitos de propósito para mim. Tenho uma relação pessoal com os escritores de que gosto e tenho ciúmes dos outros leitores. Isto às vezes é carnal, tem uma dimensão física evidente. Não sei se gostava de viver com uma escritora [pausa]. O facto é que sabemos mais do que sabemos. Ontem estava a ler as entrevistas da Paris Review e há uma com o Nabokov. A certa altura há um adulto que pergunta à criança o que está a desenhar. Ela responde que está a desenhar Deus, “mas ninguém sabe como é Deus”, diz-lhe o mais velho. “Quando acabar o desenho já sabem”, responde a criança. Isto tocou-me imenso, e o Nabokov que me irrita, aquela vaidade, em pose constante, a agressividade inútil. Não lhe serviu para nada, para quê? Dizer mal de toda a gente, o azedume… Mas lá veio o Steiner outra vez pôr-me no lugar: “ele é que inventou as Lolitas e agora há-as por todos os lados”. E tem razão. Antes não havia Lolitas. Tecnicamente tem coisas boas, sem dúvida. Mas as nossas ideias misturam-se tanto com as nossas paixões. Eu gosto, logo é bom; eu não gosto, logo é mau. A crítica é sempre muito emocional. E depois as pessoas começam a dar estrelinhas que é a coisa mais cretina que há no mundo. Eu não daria estrelinhas a ninguém. Se fosse crítico fazia como o Truffaut nos Cahiers du Cinèma, só dizia bem porque só escrevia sobre os filmes de que gostava. Eu só falava dos livros de que gosto. O problema é como é que vou partilhar o meu gosto com as outras pessoas, com os leitores, que muitas vezes lêem apressados, que saltam parágrafos.

Enquanto escritor fala muitas vezes do bom leitor. Acha que tem bons leitores?
Não sei. Tenho bons editores e tenho uma coisa que me ajudaria muito se eu fosse inseguro: pessoas que respeito muito a porem-me nos cornos da lua. Há uma citação que me tem ajudado imenso que é do general Montecuccoli [século XVII]: “é preciso agarrar a oportunidade pelos cabelos mas não esquecer que ela é careca.” É tão verdade. Mas eu não sou os livros… Ou sou? E daí.. Sei lá. 

Há uma pergunta explícita no livro, a da sobrinha da velha actriz no terceiro andar: “o que é ser eu?” O que é ser António Lobo Antunes?
Nunca me fiz essa pergunta. Nos dias mais negros acho que só sirvo para fazer livros e que não sei fazer mais nada de jeito. Não me tenho em grande conta. Sou tão comum. Quer dizer… agora estou a ser parvo. Há um lado de insatisfação. Com os livros nem tanto. Acho que fiz o que devia fazer, mas gostava era de ser poeta. Até aos 18 anos não escrevi outra coisa. Depois um tio, irmão da minha mãe, meu padrinho, fez-me uma assinatura da Nouvelles Littéraires quanto eu tinha 13 anos e logo no primeiro número vinha o poema do [Blaise] Cendrars, Les Pâques à New York. Fiquei varado, o que se pode fazer com as palavras! E achei-me uma merda. Tive tanto desprezo por mim. Agora tenho andado amargo porque não estou a gostar do que estou a fazer. Tenho um medo permanente de isto ter acabado. Se isto seca é uma gaita. O que é que eu faço? Não gosto de ir a bares, não gosto de estar com muita gente. Posso ler. Às vezes nos intervalos dos livros, são três, quatro meses; a gente lê oito horas por dia, mas ao fim de uma semana já está um bocado farta desse ritmo. Mesmo que só se leia o que se goste. Porque é que a literatura portuguesa é tão má?

É?
Não é? Acho que a Ana Margarida Carvalho fez um livro bom.

Antes do gravador estar ligado falava de amigos felizes com o que fazem. Sente isso?
Não.

Nunca?
Lembro O Diário de Tolstoi, quando ele escreve: lutei para ser melhor que o Shakespeare. E sou e depois? E para ser que o Molière e sou e depois? O que é ganho com isto? O Mozart com cinco anos tocou para a Maria Antonieta e acabou o concerto com toda a gente a aplaudir. Ele correu, sentou-se ao colo dela e disse: âimez-moi.

Usa-se o talento que se tem para se ser amado?
Para se ser amado? Que amor é que se recebe com os livros? Estou a ser injusto. Ganhei amigos, ganhei pessoas, ganhei a vida, ganhei muita coisa e acho que tive sorte e quando estou alegre sou divertido.

Tem saudades de ser médico?
Gostei muito de ser médico. O que eu gostava mais era quando as pessoas melhoravam. Eu não era um grande médico, mas acho que era um médico honesto. Era bom na cirurgia, tinha boas mãos, mas na cirurgia o principal é a capacidade de decisão não são as mãos. Nunca cheguei a estar numa posição de dirigir uma equipa. Não tinha de tomar decisões, tinha de receber ordens e sente-se a impaciência e a aflição deles muitas vezes. As pessoas sofrem tanto e sofremos por nadas tantas vezes. Agora vem o inverno que eu detesto. Tenho saudades do sol. Este bairro é feio como a gaita. 

Contava que o seu pai disse que gostava de passar aos filhos o gosto pelas coisas belas. 
E passou. Obrigava-nos a ouvir sinfonias, a ler, mesmo em férias, a fazer resumos de capítulos. Começava por escritores que ele achava mais fáceis. Ler um capítulo da Bovary e fazer um resumo. Vivíamos no meio disso. Mas foi enquanto médico que ouvi as frases mais extraordinárias. Uma vez numa aula de neurologia, onde se apresentavam com casos clínicos, estava uma mulher com uma doença neurológica que mal se conseguia mexer com dores horríveis, uma mulher analfabeta. O professor perguntou-lhe como é que conseguia fazer as coisas da casa e ela teve a definição da dor mais extraordinária que alguma vez ouvi: “é tudo a poder de lágrimas e ais…” Às vezes ouvia frases destas. Já era médico, uma senhora pediu-me para passar só uma embalagem em cada receita porque não tinha dinheiro para tudo e depois chegou-se a mim e disse: “sabe, é que quem não tem dinheiro não tem alma”. 

Este livro está cheio dessas frases que não são bem as de um rapaz de Lisboa, que cresceu e viveu na cidade, num ambiente protegido.
Pois, mas é que a parte mais importante da minha infância foi na Beira Alta e não aqui. Foi o sítio onde fui mais feliz, em Nelas. Podia andar por todo o lado. Gostava da burra, da carroça, daquilo tudo. Era a família do lado da minha mãe. Venho de gente muito humilde. Não na geração do meu pai nem da do meu avô, mas nas anteriores. O meu brasão só tem enxadas.

É a ideia de belo que o persegue quando faz um livro?
Não. É a de fazer bons livros.

O que é um bom livro?
É aquele sobre o qual penso: bolas, gostava imenso de ter escrito isto. Não sei fazer mais nada, não faço mais nada. 

Outro dos seus temas é a memória.
A minha memória e terrível. Tenho uma memória péssima, lembro-me de tudo. Parece aqueles tecidos a que se pega tudo. Então a poesia, como gosto muito de poesia. Olhe, o Appolinaire. Gosto tanto, o Auden, o Yates. Tantos, tão variados. 

Consegue eleger o seu livro, entre os que escreveu?
Gosto deles todos. Acho que tenho orgulho no meu trabalho, não me apetece morrer mas acho que já morria em paz.

Como, se ainda diz que tem livros para escrever?
Mas há-de sempre ficar incompleto.


fonte: Público
08.11.214

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Crónica «Nós» com reflexão sobre a sua leitura por Olga Fonseca

Nós Não precisávamos de falar. Como ele dizia
– Tu sabes sempre o que eu estou a pensar e eu sei sempre o que tu estás a pensar
mas muito pouco tempo antes de morrer veio ter comigo e passámos a tarde juntos, sentados lado a lado no sofá. Foi ele quem falou quase sempre, eu pouco abri a boca.
Mostrou-me os braços, o corpo
– Estou miserável
sabia que ia morrer dali a nada e comportou-se com a extraordinária coragem do costume. Coragem, dignidade e pudor. A certa altura
– Para onde queres ir quando morreres?
respondi
– Para os Jerónimos, naturalmente.
Ficou uns minutos calado e depois
– Tu acreditas na eternidade.
Disse-lhe
– Tu também.
Novo silêncio.
– Eu quero ser cremado e que ponham as cinzas na serra, voltado para a Praia das Maçãs.
Novo silêncio. A seguir
– Vou morrer primeiro que tu. Vou morrer agora.
Mais silêncio. Eu
– Ganhei-te outra vez.
ele
– É.
Ele
Ganhamos sempre os dois.
Eu
– Porque é que a gente gosta tanto um do outro?
Ele silêncio antes de
– Se me voltas a falar de amo…

«Até que as pedras se tornem mais leves que a água»

O meu trabalho é escrever até que as pedras se tornem mais leves que a água. Não são romances o que faço, não conto histórias, não pretendo entreter, nem ser divertido, nem ser interessante: só quero que as pedras se tornem mais leves que a água. Em pequeno, à noite, no verão, de luz apagada, ouvia o mar na cama: a mesma onda sempre, ainda hoje a mesma onda a trazer a praia e a levar a praia e, ao levar a praia, eu suspenso do nada sem tocar nos lençóis. A cómoda do quarto estalava de vez em quando, perto do vidro da janela um pinheiro sem fim. Durante o dia tornava-se outra árvore mas conhecia melhor a do escuro, que me interrogava, interrogava
– Tu
até a primeira nuvem cor de laranja do nascimento do dia lhe selar os lábios. Nenhum melro ainda, nem um passo lá fora, o mundo desabitado de gente, o primeiro cão daqui a nada, rente ao muro, a tossir, com um fio de saliva pendurado do queixo. Um desses pobres cães que comem restos de bichos mortos, coçam uma orelha com a pata, vão-se em…

Bia Couto sobre Da Natureza Dos Deuses

Da natureza humana e das suas misérias. Uma leitura das nossas vidas tão desencantada e triste que impressiona.
A vida dos ricos e a vida dos pobres. Em comum, as mesmas angústias e a falta de alegria. Tudo cru, com as cores que se vêem nos talhos. Ninguém é feliz.
No mundo dos ricos, que tudo podem comprar, incluindo homens e mulheres que os servem submissos ou com a astúcia de lhes sacar o máximo possível, falta-lhes ter paz. Não têm. Tentam ajustar contas com o passado mas nunca as acertam porque não dominam a ganância que sentem nem as memórias que lhes criaram essa dureza implacável.
Nos pobres, a mesma miséria. As mulheres novas, ambiciosas, a desperdiçarem a exuberância e a energia dos vinte anos com velhos com dinheiro, a troco de uns fios, sapatos, brincos, vestidos, jantares e carros que lhes podem ser retirados em qualquer altura, porque eles fazem questão de lhes mostrar quem é que manda. Tudo se passa com a bênção dos pais e restante família, aproveitando também eles alg…