31/10/2014

Isabel Lucas: crítica a Caminho Como Uma Casa Em Chamas

Contra mim eu escrevo

Quatro andares, oito inquilinos mais um, num romance com os elementos de Lobo Antunes: o tempo, a velhice, a morte, um país às voltas com a sua identidade e o delírio de existir

António Lobo Antunes (Lisboa, 1942) contou numa crónica como lhe surgiu este romance: a desenhar uma casa na página que tinha em frente, incapaz de escrever uma frase. A casa ganhou pisos, que o escritor dividiu em esquerdo e direito, e tornou-se um prédio, um “edifício a um canto da cidade, longe do rio, com um salão de cabeleireiro à esquerda”. Depois foi arranjar inquilinos para esse prédio, dar-lhes um quotidiano e uma relação de vizinhança, paredes que deixam passar falas e com elas a hipótese, quase sempre fracassada, de adivinhar cada existência interpretando sinais. É uma tarefa semelhante à do leitor do romance, alguém que neste caso tem mais acesso a cada habitante do que a um seu vizinho, mas que nunca está na posse de todos os elementos para resolver o enigma de cada vida, apesar de ela lhe ir sendo narrada na primeira pessoa.

O “eu” de Lobo Antunes constrói-se do mesmo elemento de que é feita a memória, pouco cronológica, por vezes de uma precisão avassaladora, outras difusa, alterada por estados de alma, dispersa, múltipla. Entre o delírio e a visitação de outras vozes, todas as que compõem cada vida, num puzzle que cabe ao leitor ir montando com a sensação de que está a partilhar o ritmo e o fôlego do escritor, a seguir as pistas que este lhe vai dando, com a certeza (intuída) de que no fim vão faltar peças e o enigma há-de persistir.

Apesar de se tratar de um romance polifónico — uma característica dos livros de António Lobo Antunes (e mesmo das crónicas) —, da leitura subsiste a sensação de que podia ser apenas a uma voz, a história de gente que vive num prédio com quatro andares mais sótão numa rua de Lisboa contada por um habitante imaginário que tem acesso a quase tudo. Cada capítulo, um andar, direito e esquerdo, com quem o habita. O viúvo de uma mulher que nunca o amou e a quem o filho mais velho pede dinheiro; uma juíza solitária angustiada com o envelhecimento e as memórias; dois irmãos judeus fugidos do Holocausto; uma velha actriz ex-amante de Salazar; um bêbado sempre a gritar pela filha; o ex-combatente em Angola, racista, às voltas com o amor de uma mulata que lá deixou e com uma guerra que não o deixa; a gorda do primeiro direito que demorou anos a perceber que existiam “arrepios sem gripe”; o velho à espera de morrer, como afinal todos os outros.

Essa é a única certeza da existência humana, parece querer escrever o escritor, que tem sempre muito próxima (pelo lado essencial) a sabedoria popular como guia, do que resulta uma paródia de sentidos, uma lengalenga, uma cantilena tantas vezes alucinante. “Rei capitão soldado ladrão”, entoa uma personagem que diz ter “miolos de ferro velho”. Não se cala: “Dança o cão dança o gato dança o feijão carrapato.” O escritor pega em cada frase como numa ideia e desconstrói-a, seja mudando-lhe a perspectiva, alterando-lhe o contexto, ou repetindo-a até se tornar numa quase abstracção: o que é estar aqui e envelhecer até a morte chegar? No fundo tudo se resume a isto. Neste e em cada um dos 25 romances de António Lobo Antunes. Uma interrogação-síntese onde cabem um país e os seus fantasmas, uma memória recente doída, cada vez mais sentida do que a dor que a foi alimentando.

Mas nada é só passado. As percepções são presentes, só que quem é que as agarra? Caminhar como uma casa em chamas é andar nesse desequilíbrio existencial. Seja um indivíduo, um prédio ou um país. “Caminho como uma casa em chamas, reparem nas minhas empenas, nos meus algerozes e nas minhas paredes a arderem, somos todos irmãos”: é a voz da juíza com medo do fim aos 59 anos, a ouvir o bêbado gritar “Alexandra”, o nome da filha, “dobrando o cinto no pulso”, com medo de acordar sem companhia e também a caminhar como uma casa em chamas. Como todos. A frase repete-se como o coro numa tragédia. Um baralhar de sentidos sem sair do mesmo em que o escritor se tornou exímio — e a pergunta que se faz é: até que ponto, sem cansar, sem soar a já visto? No dosear está muita da sua arte de manipular emoções. Não revela cartas, mas sempre que elas vão a jogo são reconhecíveis como suas. Sempre a loucura de estar aqui num sem-sentido. Quem não se reconhece? É vertiginoso.

Já se percebeu que estamos perante todos os ingredientes de Lobo Antunes nesse tratar o delírio existencial que, mais uma vez, nos coloca perante a sua capacidade de trabalhar a língua, captando-lhe tiques, socorrendo-se de cada um dos seus utensílios, da fala de rua ou da erudição, para criar um universo onde a ironia entra em doses curtas mas letais e a angústia do fim surge no seu peso eterno. Onde vive isso neste prédio? Em cada um dos que o habitam, mas sobretudo no sótão, onde mora a “presença atenuada de uma autoridade extinta”, um Salazar tornado divindade, porque “infinito”, que décadas depois continua a achar que comanda o país.

E o país ainda a tentar perceber o que é depois dele, com ele “no sótão” — pese todo o facilitismo da expressão. Fascistas, comunistas e outra geração, a que nasceu depois da memória do fascismo, sem identidade. “O que é ser eu?”, interroga-se a sobrinha da actriz do terceiro direito, e a pergunta é um espelho para quem a lê. Para os vizinhos, ela é “a criada da maluca”, sem saberem que ela é também a que leva a “sopinha” ao sótão.

Ao [25].º romance, António Lobo Antunes toma um tema batido na literatura — um prédio e os seus habitantes — para mostrar o que se pode fazer com ele. E é muito bom. Mas António Lobo Antunes tem-se a si mesmo como termo de comparação. Caminho Como uma Casa em Chamas é um excelentíssimo livro, mas a memória traz outros onde foi capaz do tal arrebatamento, da surpresa maior. Estarão os grandes escritores sempre a escrever contra si mesmos?


por Isabel Lucas
31.10.2014

25/10/2014

Revista SÁBADO: António Lobo Antunes na Roménia (reportagem)

REVISTA SÁBADO
nº 546 16 a 22 Outubro 2014

Reportagem de Marco Alves


A poucos dias de ser lançado um novo livro, a SÁBADO foi com António Lobo Antunes até à Transilvânia, na Roménia, onde durante três dias o escritor mostrou um lado surpreendente. Chorou, riu, cantou e confessou-se.


Assim que termina a conferência na Faculdade de Letras da Universidade Babes-Bolyai de Cluj, António Lobo Antunes tem o impulso de sempre: vai ao bolso das calças, tira um maço de Marlboro e acende um cigarro. Uma mão apoiada na perna, a outra na mesa, é notório que fumar lhe dá prazer.
No corpo de 72 anos, que agora se move pesadamente, tinha já ratado (a expressão é sua) um cancro nos intestinos. Mais tarde, apareceria outro cancro no pulmão direito, e ainda veio mais outro, que se dedicou ao pulmão esquerdo. "Tive três cancros e sobrevivi. Tive imensa sorte", diz-nos. "As doenças estão todas curadas, mas saíram-me do pêlo. Foi duro..." Fumava quanto? "Quase dois maços [por dia]. Estou a tentar reduzir... Mas não se preocupe, não tem nada a ver com isso."
Não é a única vez nestes três dias que passou na Roménia que Lobo Antunes fuma sem se importar se o podia fazer ou se dava uma boa imagem. Ali, na faculdade, fá-lo perante um auditório de estudantes e professores - em Portugal, por exemplo, já fumou numa entrevista na televisão.
Na Roménia, nunca lhe disseram nada sobre os cigarros - só numa biblioteca no interior da Transilvânia é que não pôde fumar, mas só por causa dos alarmes. A reverência com que foi tratado pelos romenos incluia essa tolerância. Percebia-se o entusiasmo perante um homem que dali a umas horas poderia estar nos jornais do mundo inteiro como novo Nobel da Literatura, mas que antes disso, agora mesmo, está a passar uns dias em Cluj a apertar-lhes as mãos, a autografar-lhes os livros e a encher-lhes a sala de fumo.
A palavra Nobel aparecia em todo o lado: nos artigos que os jornalistas romenos fizeram da sua visita, nos cartazes do Festival Internacional do Livro da Transilvânia, nas perguntas que lhe faziam e nos discursos oficiais. O rótulo Nobel, o estatuto de celebridade, parecia valer mais do que a obra - na Roménia, apenas seis dos seus livros estão traduzidos. Tudo o oposto do que Lobo Antunes defende, ele que gosta de dizer que "o que interessa são os livros, não é o autor".
Na véspera da atribuição do prémio encontramo-nos com Lobo Antunes a jantar no hotel. A dada altura, a mulher, Cristina Ferreira de Almeida, levanta-se. "Vou ao quarto buscar o telefone, deixei-o a carregar. Just in case [para o caso de]..."
A razão é simples: Lobo Antunes não tem telemóvel. "Nunca tive. Também nunca tive computador. Não sei mexer naquilo." E segundo ele, a Academia sueca liga na véspera. "Não ganho... se ganhasse já tinham telefonado. Vão dar ao queniano [Ngugi wa Thiong'o]. Ligam na véspera porque têm de dar ao tradutor o discurso. Por acaso o Mario Vargas [Llosa] só soube uma hora antes. Ele telefonou-me logo."
Perguntamos-lhe se ficaria contente por receber o Nobel. "Sei lá..." Pela cara que faz percebe-se que não é um "sei lá" dissimulado, é um "sei lá" que quer dizer "como posso saber a minha reacção a um acontecimento se ainda não passei por ele?". Mas deixa uma pista: "Até agora não tenho sido uma pessoa especialmente alegre."
Lobo Antunes viria a saber da atribuição do prémio ao francês Patrick Modiano quando já estava em viagem para Lisboa.


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11/10/2014

Revista Estante: «E a mão começa a andar sozinha»

Revista Estante
Entrevista de Ana Sousa Dias
Outubro 2014


Caminho Como Uma Casa Em Chamas é o título do romance de António Lobo Antunes que a Dom Quixote vai publicar em breve. Já concluiu outro e está a escrever um novo. Trabalha à mesa, primeiro em letra tão miudinha que só ele sabe desvendar. Só depois vem a versão em letra maior, redonda e certinha. À mão, porque desenhar as letras faz falta à escrita.


*

Quando será posto à venda Caminho como Uma Casa em Chamas?
Ainda não sei, talvez em Novembro. O primeiro país onde sai é a Holanda.

Porquê?
Porque me apeteceu. Porque gosto do tradutor. É um homem que aprendeu português para me ler e é muito bom tradutor. Julgo que cada vez mais os livros vão sair primeiro no estrangeiro, e resta saber se sairão em Portugal. Este sairá cá quando eu cá não estiver, porque tenho que ir à Roménia, e depois à França e à Bélgica. Já não faço viagens compridas, não estou para isso. Uma vez fiz uma viagem do México, a Buenos Aires, por Santiago, foram tantas horas que só me apetecia sair do avião.

Já não gosta de estar nos aeroportos?
Continuo a gostar muito dos aeroportos, de olhar as pessoas. Apanhei isso com o Christian Bourgois, viajávamos muito dentro da França por causa dos livros. Ele explicava: como dizia o meu mestre Julliard — com quem tinha aprendido edição — é preciso chegar ao aeroporto com meia hora de atraso sobre o avião precedente. De maneira que às vezes chegávamos com cinco horas de avanço. Ele divertia-se imenso. Entretinha-se, comprava os jornais todos e eu ficava ali sentado ao lado até que começava a interessar-me, a ver as pessoas. Distrai-me. Uma vez na Suécia tinha o avião às oito da noite e ao meio-dia já estava no aeroporto. Foi óptimo porque vi chegar a equipa de hóquei no gelo da Suécia que vinha de um jogo qualquer na Noruega. Nunca vi homens tão grandes, muito maiores que os tipos do râguebi ou de outro desporto.

Gosta de hóquei?
Eu só tenho a experiência do hóquei em patins, primeiro no Futebol Benfica e depois no Benfica, e era um miúdo. Nas tabelas, quando estão dois, batem com o cabo do stick uns nos outros, aquilo é muito bruto. E o árbitro não vê, está atrás. Isto no meio de insultos. É como na guerra. O que me surpreendia mais nas emboscadas não eram os tiros, era a gritaria. Ninguém dispara calado, é tudo a gritar, isso é que me ficou mais nos ouvidos. As pessoas pensam que se dá tiros calado mas é a gritar constantemente insultos, palavrões. É um ambiente de tensão extrema, os berros são constantes. No entanto aquilo acaba e o tipo para quem disparou já lhe estanca o sangue para não morrer. Nós portugueses somos extraordinários, e os nossos soldados eram bestiais.

Ainda pensa muito na guerra? Aparece-lhe nos sonhos, na memória?
Conscientemente não, não penso nisso. Mas não se desce vivo de uma cruz, aquilo fica sempre. Uma vez por ano costumo ir ao almoço da Companhia e depois tenho uma ou duas noites más. Mas tenho muitos camaradas que não saíram de lá. Ainda há milhares de pessoas com neuroses e síndromes pós-traumáticos. Se visse fotografias nossas quando lá estávamos, éramos crianças. A maior parte dos soldados era a primeira vez que tinha sapatos. Mas já eram homens, com 10 anos já andavam com as cabras nas serras. Tinham uma maturidade muito maior que a maior parte dos oficiais que eram rapazes universitários, como eu. Sobretudo tinham uma grande experiência do sofrimento, da fome, do frio, e eram muito modestos. Os rapazes eram extraordinários. Aquilo que mais me orgulha nesta vida é ter o amor deles.

Neste livro volta a falar em Angola e em guerra…
Não me lembro nada do livro.

Não se lembra?
Cada vez mais escrevo sem plano. Sento-me e fico à espera de começar a ouvir a voz. Tenho de fechar uma parte da cabeça para que a outra funcione. E a mão começa a andar sozinha.

Acontece que neste livro a morte está muito presente. Porquê?
Este livro está pronto há muito tempo. Não sei, não me lembro. Só escrevi. Não me lembro de nenhum, mesmo deste que estou a escrever. Leio a última linha e continuo. Depois estou mais com ele quando são as correcções. Mas não vejo provas, dou à editora e a minha relação com ele acabou. Mas neste sei que tive de desenhar uma casa e mudei várias vezes os inquilinos. Lembro-me que há uns refugiados judeus, lembro-me do Salazar que está no sótão e que só me aparece no fim da escrita. Havia um sótão mas eu não sabia quem é que lá estava.

Acha que nós temos o Salazar no sótão?
Não lhe sei dizer. Eu não tenho. Em todo o caso ele devia ser um homem impressionante. Quando ele adoeceu chamaram o meu pai para o ver como médico, já depois do ataque, e lembro-me de o meu pai chegar a casa e dizer: eu sempre desejei a morte do homem e fiquei muito impressionado com ele. Foi a única frase, depois calou-se, como ninguém lhe perguntava nada a conversa ficou aqui. Em relação ao livro, lembro-me desse casal de velhos judeus, de uma rapariga que vai para a cama com o instrutor de condução…

E da actriz que dizia que recebia cartões do Salazar?
Agora que fala nisso, sim, uma actriz velha que sonhava que tinha um romance com ele. É que depois disso já houve outro livro. Há um pronto que sai aqui em Portugal em 2015 e outro que estou a fazer. Provavelmente de livro em livro repito coisas, como nunca os li… Isto acaba por ser um paradoxo, porque eu escrevo os livros que gostava de ler e depois não os leio. Lembro-me da primeira frase da Memória de Elefante, é a única que eu sei de cor. Eu que sei de cor tantos bocados dos livros dos outros, dos que eu escrevi não me lembro.

Mas se olhar para um texto reconhece que é seu?
Ah, qualquer pessoa reconhece. Eu vejo uma linha do António Lobo Antunes e percebo que é do António Lobo Antunes. Quando comecei Explicação dos Pássaros estava a escrever na Alemanha em casa da minha tradutora, em Bad Homburg, ao pé de Frankfurt. Comecei em 1980, o livro saiu em 1981. E ela disse: “Leio três linhas e vejo logo que és tu.” E era um dos primeiros livros, eu fiquei ofendidíssimo como aquilo, queria que ela percebesse que aquilo era uma coisa completamente nova. Eu julgo que este é um dos problemas. É que eu tenho uma maneira de dizer muito marcada, percebe-se logo.

Sim, mas não acha que domina muito melhor isso hoje?
Escrevo com mais facilidade agora e, durante muito tempo, tive dúvidas quanto àquilo que fazia. Mas agora não tenho nenhumas, sei perfeitamente o que aquilo vale. Eu tinha a paixão do Steiner, tinha lido todos os livros dele e ele disse numa entrevista que tinha vergonha de me conhecer porque era pequeno de mais ao pé de mim. Fui a Cambridge e estivemos juntos. O homem mais fascinante que já vi. Tem o piano do Darwin em casa. Tinha manuscritos, a biblioteca, a simpatia dele, a inteligência… estivemos ali uma tarde inteira. A Faculdade de Letras deles publicou uma separata com essa conversa. Ele tem um gosto tão seguro. Estávamos a conversar sobre livros e, a certa altura, eu comecei a falar de O Monte dos Vendavais, disse que gostava muito da Emily Brontë. E ele olhou para mim e disse: “Mas não acha o livro um bocadinho histérico? Não acha que a mulher é uma histérica?” E de repente dei por mim a olhar para O Monte dos Vendavais e para a Emily Brontë com os olhos dele. Ele tinha razão: o livro é completamente histérico. Ele achava que não havia escritor nenhum em Inglaterra. Aliás, isso é uma coisa dramática que se passa hoje: não há grandes escritores em parte nenhuma. As editoras estão sempre a perguntar-me se conheço alguém. Em França não têm um único. Julgo que os computadores… Escrevo com mais facilidade agora e, durante muito tempo, tive dúvidas em relação àquilo que fazia.

Qual é o papel dos computadores nisso?
Primeiro, escrever num computador. Se está a escrever à mão, cada letra exige um esforço. Desenhar um L, um M, um N, um E. No computador basta carregar com um dedo. O que sai dali é uma coisa meio escrita, meio oral, repare nos e-mails. E depois há outra coisa que se vai perder: nós conhecemos o século XVIII, o século XIX, pela correspondência dos escritores. Contavam a vida toda, os costumes, a comida.

Sabe-se de outra maneira, há imensos registos de som e imagem.
Não se sabe o que comíamos, vestíamos, como é que amávamos, como era a nossa relação. Ao passo que nestes escritores, olha para trás e estão para aí correspondências completas de não sei quantos deles. A correspondência do Flaubert é o melhor da obra dele. As correspondências do Proust, as cartas do Balzac à madame Hanska… Fica-se a saber imensas coisas sobre os costumes, os hábitos, a vida. Todos eles escreveram muito.

Escreve cartas?
Escrevi na guerra para a Zé, foi a única vez.

As cartas que foram publicadas em D’este viver aqui neste papel descripto?
Não li o livro. As miúdas [as filhas] quiseram publicar, não conheciam a existência daquilo. Embora o livro lhes pertença, o conteúdo é meu e pedi-lhes que esperassem que eu morresse mas acabei por deixar. Não sei o que lá está, não sei o que escrevi. Porque rasgava todas as cartas que recebia, de toda a gente. Até as do Melo Antunes.

Nunca teve correspondência com outro escritor?
Não, eles escreviam-me e eu telefonava. Só para o Jorge Amado. Tenho muitas cartas do Jorge. Ele estava em Paris na altura e era mais velho que o meu pai, nasceu em 1911. E gostava muito de mim, achava que eu era um génio e ia fazer coisas maravilhosas, e tal. Cada vez que saía uma crítica, ele mandava-ma. Escrevia as cartas numa máquina muito velha e não havia uma linha que não estivesse corrigida à mão, é muito engraçado. Tive várias aventuras com o Jorge, contei isso numa crónica a propósito do João Ubaldo que era amigo. Fizemos uma volta a França com a Gisele Freund, uma mulher por quem eu tinha uma admiração imensa, tinha fotografado a Virginia Woolf, o Joyce, aquilo tudo. Já estava muito velhinha, tirou-me montes de fotografi as e eu perdi-as todas. Tinha fotografias do Cartier-Bresson porque me pediu para escrever um livro para um álbum de fotografi as dele. Perdi tudo. As cartas normalmente rasgo porque ninguém tem direito a ler, aquilo é íntimo.

E no entanto gosta de ler a correspondência dos outros.
Gosto muito. Como gosto de ler biografi as. Vou logo ver como é que eles morreram, é por onde eu começo. Gosto imenso de biografias, nisso sou muito inglês, tenho para aí montes de biografias.


citado de Estante (Fnac)
Outubro de 2014

texto revisto por José Alexandre Ramos

Crónica «Nós» com reflexão sobre a sua leitura por Olga Fonseca

Nós Não precisávamos de falar. Como ele dizia – Tu sabes sempre o que eu estou a pensar e eu sei sempre o que tu estás a pensar ...