31/05/2014

Sessões de autógrafos na 84ª Feira do Livro de Lisboa, Praça LeYa


Segundo a informação recolhida aqui, prevê-se que António Lobo Antunes visite a Feira do Livro de Lisboa, para as sessões de autógrafos na Praça LeYa, entre as 15H00 e as 19H00 dos sábados dias 7 e 14 de Junho. Se outra informação nos chegar, logo divulgaremos.

30/05/2014

Crónica de quando começou a escrever Caminho Como Uma Casa Em Chamas, em 2012

Crónica sobre a angústia de não conseguir avançar depois de Não É Meia Noite Quem Quer, e o resultado da espera que vem a ser o novo livro já pronto a publicar em Outubro próximo:


Caminho como uma casa em chamas
Passei meses muito difíceis entre agosto e metade de dezembro: não era capaz de escrever uma linha que fosse e o desespero e a falta de sentido da minha vida aumentavam quase hora a hora. Tinha acabado um livro muito bom, composto em meia dúzia de meses com uma facilidade pasmosa, coisa que desde a Explicação dos Pássaros não me acontecia, um milagre e um mistério cujo mecanismo desconheço, pensava
- Agora sei como se faz um livro
e, ao tentar recomeçar, nem uma palavra. Conseguia compor as crónicas da Visão, a tropeçar em cada linha, mas, assim que puxava o bloco do livro, tudo me desaparecia da cabeça e da mão. Pensava
- Sequei
em certo sentido alegrava-me que tivesse acabado bem, pensava
- Se calhar pus tudo neste último texto e acabou-se
mas o facto de não me sair nem uma letra começava a dar cabo de mim. Para quem, desde que se conhece, joga a sua vida neste tabuleiro e sempre cortou todos os pescoços que se interpunham entre si e o seu trabalho, sem culpabilidade nem hesitações, era uma situação muito complicada. Todas as manhãs me sentava disciplinadamente à mesa, todas as noites me levantava dela com a página em branco. Não há aqui o menor exagero: com a página literalmente em branco. De longe em longe conseguia umas frases, animava-me
- Se calhar encontrei
e não encontrava fosse o que fosse: as minhas pobres tentativas acabavam no lixo. Nunca me ralei com aquilo que os outros pensam do que ponho no papel, a certeza da importância do que produzo é inabalável, disse exactamente o que queria dizer e como queria dizer, chegando ao que pretendo após múltiplas versões. Não redijo com facilidade, é-me muito penoso alcançar o que tenho de alcançar para me sentir em paz, mas jamais me sucedera não lograr uma linha que fosse, um esboço de texto sem possibilidades internas, um oco de banalidades, uma ausência de alma. Imaginava
- Vou escrever crónicas só, não dou para mais nada
embora a minha atitude, em relação às crónicas, se haja alterado. Parece-me poder utilizá-las como laboratório ou itinerário paralelo, colocar nelas o que os livros rejeitam, exercitar a mão. Estou muito grato à Visão pelo espaço que me dá e pela delicadeza e elegância com que sempre me tratou e sinto-me, também, a pagar uma dívida de reconhecimento. Enquanto me quiserem ter-me-ão com eles. A não ser, claro, que a capacidade de construir crónicas desapareça, conforme desapareceu, durante meses, a capacidade de construir livros, o que é menos provável dado que as crónicas se movem à superfície das coisas e os livros são peixes de águas profundas, às quais não possuo um acesso consciente: numa crónica eu sei o que vou escrever. Num livro escrevo, cada vez mais, o que o próprio livro me dita ou, expresso de outra maneira, nas crónicas falo e nos livros escuto. Por isso cada vez mais se me afigura que um livro é precário, depende de factores não relacionados com a minha vontade consciente, regidos por princípios e leis a que não tenho acesso. Para criar torna-se necessário que estejamos, ao mesmo tempo, por fora e por dentro do texto, como acontece com os bons leitores, infelizmente tão raros. Eu pasmo com as senhoras e os senhores que alinham resenhas críticas nos jornais, pasmo com a sua petulância e a sua patetice e, sobretudo, com o profundo desconhecimento da coisa literária, expresso em afirmações absurdas. Mas nada disso me parece significativo diante do mistério da arte, que requer humildade, atenção e amor. O que é importante para mim é que eu escreva, porque, se for capaz de escrever, tenho sempre razão.
Portanto, voltando ao princípio, aguentei cerca de seis meses horríveis, na certeza de haver perdido a capacidade de escutar vozes secretas e não me sobrar fosse o que fosse. Os meus amigos continuavam a viver e eu parado. Um dia, a meio de dezembro, comecei a desenhar uma casa e percebi que era o início do livro. Uma casa com telhado, chaminé, uma antena de televisão. Era o início do livro mas ainda não era o livro. Desenhei mais quatro ou cinco casas, com inquilinos de um lado e do outro, até ao quarto andar. A seguir entendi que lhe faltava o sótão e desenhei o sótão. Depois, a pouco e pouco, os diversos apartamentos foram sendo habitados. Depois, a pouco e pouco, os habitantes principiaram a mudar. Depois apareceu uma frase, Caminho como uma casa em chamas, e dei-me conta de ser o título, mas continuava a não acreditar muito naquilo. Depois ensaiei o primeiro borrão do primeiro capítulo, cheio de medo e dúvidas: lixo. Um segundo borrão: lixo. Um terceiro: lixo. Depois recuperei o terceiro borrão do lixo e comecei a refazê-lo, uma, duas, três vezes, a perguntar-me
- Será isto?
a responder-me
- Não deve ser isto mas vou continuar
sem que a qualidade do texto me interessasse: a única coisa que me interessava era se haveria ali a espessura que queria. O capítulo número dois passou pelos mesmos tratos de polé e, a meio de uma correção pareceu-me que a obra tinha, finalmente, chegado. Fiz o primeiro borrão do capítulo número três e acabei, há horas, o primeiro borrão do capítulo número quatro. E vou continuar até ao fim com um borrão apenas, para refundir tudo a seguir, caminhando como uma casa em chamas num nevoeiro ardente de palavras. É capaz de ser o livro, meu Deus, daqui a sei lá quantos meses saberei se é o livro, saberei se sequei ou ainda tenho vida em mim. Até essa altura a incerteza, o cagaço. Esta crónica não deve ser muito interessante para o leitor, trata-se do mero relato de um homem às aranhas com o seu trabalho. Achei que tinha obrigação de o partilhar com vocês: afinal de contas são os meus cúmplices e têm o direito de saber o que se passa na oficina, como dizia o Zé Cardoso.
- É preciso que a gente sofra para o leitor ter prazer
insistia ele
- É preciso que a gente sofra para o leitor ter prazer
e, como em muitas outras coisas, é capaz de estar certo, o sacana. Aqui entre nós faz-me uma falta do caneco. Tenho saudades tuas que me farto, meu malandro.

Visão
23.02.2012

24/05/2014

Béatrice Putégnat sobre Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra No Mar?

Leitura em apneia

Ao orquestrar o seu romance como uma tourada, António Lobo Antunes disseca o ritual da tradição portuguesa para contar a decadência e ruína de uma família de criadores de touros de lide. Os filhos aguardam a morte da mãe; vão abordando memórias. O desafio do presente? Saber do passado, talvez...

A princípio, abrir [este] romance de António Lobo Antunes é um pouco como mergulhar em apneia tendo como reserva de oxigénio apenas palavras, a escrita. Uma verdadeira experiência de leitura que nos leva ao profundo da mente humana, além da temporalidade, por lugares quase assombrados, povoados por objectos quotidianos aflorados como restos de vidas. Dito assim, o leitor suspirá dizendo para si mesmo: mais um romance ilegível ... Nada disso! A partir do momento em que mergulha de cabeça no livro, não mais o deixará. As vozes assombrosas das personagens levá-lo-ão por toda a parte. A construção é rigorosa. Assenta-se sobre a estrutura de uma tourada com sete capítulos: Antes da Corrida, Tércio de Capote, Tércio de Varas, Tércio de Bandarilhas, A Faena, A Sorte Suprema... Depois da Corrida. E, como nas touradas, tudo se resume a ferimentos, agonia e morte. Como a da mãe que se prevê na narrativa: num domingo de Páscoa, chuvoso, brevemente serão as seis horas, brevemente teremos a estocada final. Os seus filhos zelam, vigiam e dissecam interiormente os seus passados. As falhas, os segredos, vão sendo revelados manchando este fim da vida, o fim do reinado de uma família próspera feito por suas ganadarias. Até que tudo acaba e, em redundância, "como é triste esta casa às três horas da tarde". Ascensão e queda ... Por sua vez, durante cada fase da tourada, as personagens vão dedicando-se, por cada uma, de forma pratiamente ritualizada, aos seus motivos obsessivos. Como o ‘refrão infantil’ que dá título ao romance: "que cavalos são aqueles que fazem sombra no mar?". Ele assombra o discurso de Beatriz, a infeliz nos casamentos, a da incerteza e do pânico. Francisco, o filho rabugento, atormentado pela frustração e pelo ressentimento. Amaldiçoou o pai por desperdiçar a fortuna da família no casino. 17, número fetiche desse pai obcecado. Ana, a mais feia, vagueia pelos baldios em busca de sua dose de pó. João é consumido pela doença do amor por jovens rapazes. Finalmente, pouco a pouco, é revelado o segredo de Mercilia. Fruto do abuso sofrido pela sua mãe com o bisavô Marques. Tratada como criada, é ela quem conhece a intimidade das pessoas e dos lugares. Arrasta-se pela casa como uma sombra incómoda e indesejável. As narrativas sucedem-se dentro de um mesmo capítulo. Cada um dá livre curso ao seu delírio interior, aos meandros da sua memória. Como um marionetista, António Lobo Antunes agita os fios sob os olhos do leitor. Introduz-se no mesmo processo de escrita. Malicioso, conhece as personagens assim como estas o conhecem... Então deixo a Mercilia a palavra final desta história e deste artigo. Como um tributo ao seu criador ou provacação do autor para consigo mesmo: "o António Lobo Antunes esperando que as cheias do Tejo nos cobrissem a todos, sem ânimo de ler estas frases".


por Béatrice Putégnat
30.03.2014
Librairie Pages après Pages
Page
[traduzido do francês por Joana de Paulo Diniz]

19/05/2014

Sílvia Andrade: António Lobo Antunes e As Naus – Um olhar autocrítico para o redescobrimento de si mesmo

No romance estão presentes dois posicionamentos: a pátria do tempo dos descobrimentos e a pátria contemporânea. O autor busca no passado explicações para a condição actual de Portugal.

António Lobo Antunes é um escritor lisbonense nascido no ano de 1942. Filho primogênito, advindo de uma família burguesa, foi criticado na juventude pelo pai ao manifestar sua vontade em se graduar em Letras. O pai pensava que a vida do filho seria difícil, pois provavelmente actuaria como mestre, sendo mal remunerado em algum liceu. Assim, Lobo Antunes resolve ingressar no curso de Medicina, especializando-se em psiquiatria.

Durante a Guerra Colonial (período de 1961 a 1974), António vai clinicar em Angola e lá se depara com imagens degradantes da guerra. O médico, então, começa a escrever; a literatura surge como um modo de o escritor se distanciar de uma possível depressão. Em 1979, publica dois livros: Memória de Elefante e Os Cus de Judas. Após esses lançamentos, o autor não parou de escrever, totalizando mais de 20 títulos publicados. António Lobo Antunes é vencedor de vários prêmios literários, entre eles estão: Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores; Prêmio de Literatura Europeia do Estado Austríaco, Prêmio Camões entre outros. Os temas mais recorrentes de sua literatura são a solidão, a vida, a morte, a guerra, a crítica à sociedade e  a presença e a ausência do amor. Para muitos leitores, Lobo Antunes não é um autor palatável, pois sua escrita é, muitas vezes, labiríntica, hermética e densa.

Em 1988, António Antunes publica um livro de teor crítico e labiríntico: As Naus. A história é uma narrativa de regresso à pátria, no caso, Portugal. Nesse texto, há inúmeras observações e constatações sobre o passado “vitorioso” do país. No romance estão presentes dois posicionamentos: a pátria do tempo dos descobrimentos e a pátria contemporânea. O autor busca no passado explicações para a condição actual de Portugal.

Sobre esse prisma, a narrativa vai tecendo-se através de um narrador que não é fixo, às vezes está em primeira pessoa e, em outras, em terceira pessoa. O tempo narrativo é uma combinação entre passado e presente; ao passo que há ilustrações pretéritas, há, como contraponto, imagens actuais.

De forma bastante original, o escritor utiliza como personagens “celebridades” históricas de Portugal: Luís de Camões, Pedro Álvares Cabral, D. Sebastião entre outros. Dessa maneira,  Antunes faz um resgate do passado dito glorioso e o compara ao resultado actual: uma pátria que vive de histórias idas e que está estagnada. Isso se atribui ao que o escritor José Mattoso escreve em A Identidade Nacional:
 “A transposição da História para a epopeia deu-lhe, porém, a força do mito, não só para a gente pouco instruída, mas também para muitos dos autores mais cultos do século XIX, que continuaram a imaginar a gesta dos Descobrimentos a partir de “Os Lusíadas”. A sobreposição da História e do mito agravou o sentimento da decadência nacional”. (página 283)
A população portuguesa, vivendo desse passado mítico, é chamada à realidade em As Naus. O processo de decadência nacional é representado através da parodização. Lobo Antunes sugere a queda dos mitos, tornando-os seres sem nenhum vestígio de glória. Sobre a função da parodização, Affonso Romano de Sant’Anna escreve:
 “A paródia é um efeito de deslocamento. Há uma deformação. É de caráter contestador. A paródia foge ao jogo de espelhos denunciando o próprio jogo e colocando as coisas fora de seu lugar ‘certo’.” (página 28)
O autor faz esse jogo como forma de reinterpretar o passado, criticar tantas “vitórias” e chegar ao resultado de tudo isso: um novo meio de conscientização nacional. A colonização portuguesa na África, pois, é condição crucial em As Naus. O livro é  narrativa de retorno, retorno de portugueses que vivem no continente africano e regressam à pátria mãe. Lobo Antunes inicia seu relato nos prelúdios da história lusa e chega até a pós-Revolução dos Cravos, período no qual se inicia o processo de descolonização do continente Africano. A pátria mantinha, nessa época, a política colonialista representada por Salazar, última resistência aos movimentos liberais africanos. Muitos portugueses, que discordavam da ditadura, foram exilados na África e lá viveram muitos anos. De certa forma, As Naus é um relato pessoal, pois o próprio autor Lobo Antunes viveu tal experiência.

Todo esse processo histórico custou um preço alto. Muitos negros foram mortos e explorados. Os rendimentos dos países africanos eram destinados aos cofres portugueses, assim como, em suas terras, começaram a imigrar vários europeus estimulando a segregação racial. Em A Descolonização Tardia, de Maria Yedda Linhares, lemos:
 “Um certo boom econômico, estimulado pela conjuntura internacional, favoreceu a imigração branca e a urbanização onde se acentuava a demarcação pela cor, entre os habitantes da cidade e os da periferia, entre europeus e africanos. As cidades cresciam e eram embelezadas. Portugal se orgulhava do dinamismo de suas províncias ultramarinas.” (página 101)
A descolonização, obviamente, gera ao povo, até então colonizado, uma satisfação inigualável de independência, mas, ao povo colonizador, obriga-o a rever seu significado de nação.

Questionamentos importantes como: quem fomos?, quem somos?, quem seremos? são abordados nas entrelinhas de As Naus: essa necessidade de um olhar autocrítico para um redescobrimento de si mesmo.


por Sílvia Andrade
17.05.2014

18/05/2014

Pedro Fernandes: opinião sobre Fado Alexandrino

Uma coisa é certa: essas notas aqui dispostas sobre este romance de António Lobo Antunes são falhas. Elas não conseguirão dizer, no total, o que é este livro; elas não conseguirão fazer entendê-lo. A razão disso é simples, há que lê-lo para ter essa totalidade; há que relê-lo para se fazer entender. E as notas são recolhas para uma primeira impressão sobre o romance.

1. Este é na linha horizontal da obra do escritor português o seu quinto romance; vem depois da trilogia Memória de elefante, Os cusde Judas e Conhecimento do infernoe de A explicação dos pássaros. Se sobre o último romance arrisquei-me dizer que estava diante de novo lugar temático na literatura de Lobo Antunes, reafirmo esta visão, agora ainda mais acesa, diante do quinto romance. Estamos aqui situados no tempo imperfeito – não no sentido do modo verbal e sim na já característica superposição dos tempos que nos romances antunianos compõe uma amálgama de acontecimentos reinventando um estágio temporal outro, alheio ao tempo comum e muito próximo do movimento de rememoração. Sabe-se apenas que estamos numa situação: um grupo de amigos retornados há pouco mais de dez anos da África sentam-se num jantar e vão, cada um à sua maneira, segurado pelo braço da memória dá contas de como foi esse retorno e o que se sucedeu a eles no correr da última década. Fora o retorno do continente africano outro fato histórico que tem servido de lugar comum à literatura portuguesa de depois da década de 1970, a Revolução dos Cravos, ponto culminante da derrocada do Estado Novo.

2. As cinco personagens são representativas dos dois principais momentos da história portuguesa – são todas militares: um tentente-coronel, um alferes, um comandante, um soldado e um tenente, este que pouco aparece na narrativa e está mais como um sujeito ouvinte.  Todas as personagens estão em declínio, não apenas porque o tempo do militarismo está em falta, mas porque o destino pelo qual lutaram parece não tê-los convencidos tampouco lhes dado razões para o triunfalismo prometido. É, pois, um encontro de desilusões, de reflexões sobre um fim e uma glória perdida num lugar empoeirado qualquer da memória.

3. Dividido em três partes – “Antes da Revolução”, “A Revolução” e “Depois da Revolução” – o livro é uma multiperspectiva sobre os mesmos acontecimentos. Muito embora seja esta uma leitura do próprio Lobo Antunes, o leitor, alheio a esta informação só tomará consciência exata desse movimento da narrativa na segunda parte, na qual os acontecimentos são descritos em sua grande parte na terceira pessoa e com poucos desvios da linearidade. Na primeira parte o leitor é confrontado com um intercâmbio de fatos e uma oscilação entre a primeira e a terceira pessoa que dá uma confusão mental custosa de resolução: até mesmo para encontrar o lugar das vozes das personagens é coisa que só conseguirá, parcialmente, já na segunda parte do romance. Num primeiro momento todos relembram o retorno de África, no segundo o que foi/como foi a Revolução dos Cravos e no terceiro momento, todos estarão confrontados com um acontecimento que mudará os seus futuros, no fim do jantar, entre prostitutas, ocorre um assassinato.

4. Aclamado como um dos mais brilhantes livros do escritor, Fado alexandrino merece, sim, o epíteto: não apenas porque os modos de experimentação do autor são aí utilizados em sua plenitude, como não deixa de existir o rumorejar reinventivo em torno da linguagem do romance como vimos notando nos quatro primeiros romances. Tenho comigo que uma das perguntas mais irresponsáveis a se fazer a um escritor é “qual o seu processo de criação”, mas como incipiente nos jogos de narrar desenhados por Lobo Antunes, se me fosse dada a oportunidade, não hesitaria em fazê-la. Sim, porque é um projeto de engenharia muito bem desenhado: e surpresa maior é que, do caos narrativo, todos não saem ilesos, mas conseguem no fim, ter um suspiro sobre os acontecimentos. Digo isto porque mesmo em Proust, em Virginia Woolf, em Joyce, escritores que são utilizados para aproximar como ilustradores do arquitetado por Lobo Antunes, apenas se assemelham, pelas breves leituras que já fiz desses escritores. No fim, o escritor português é qualquer coisa de novo pela capacidade reinventiva da própria forma narrativa.

5. Fado alexandrinoé o romance de um tempo parado. Todo volteio dado em torno do mesmo ponto, e sempre pela matéria do caótico – até o desfecho, com o crime e seu ocultamento – dão notas de que o tempo de fezes (para reproduzir uma expressão do poema de Carlos Drummond de Andrade) não está no passado, mas prolonga-se num presente que não consegue se desvencilhar do peso desse tempo nele incrustado. Está implícita aí uma ausência de alegria, porque toda vez que colocado diante da reflexão acerca de si e do que está a sua volta as personagens dão sempre com uma paralisia que as sufoca, corrói-lhes as perspectivas e no fim de tudo não há outro sentimento sobre o mundo do que a mágoa, o ponto de uma revolta.


por Pedro Fernandes
em Letras in.verso e re.verso
28.12.2012

09/05/2014

PRÉ-PUBLICAÇÃO: CAMINHO COMO UMA CASA EM CHAMAS


O novo livro de António Lobo Antunes, Caminho Como Uma Casa Em Chamas, será publicado em Outubro deste ano pela Dom Quixote, duas semanas após a sua «estreia mundial», com a publicação pela editora holandesa AMBOS ANTHOS (com tradução de Harrie Lemmens). O livro, segundo havia adiantado o DN em 28.10.2013 (pela altura do dia do escritor no Centro Cultural de Belém - ler artigo), «passa-se num prédio onde os moradores, narradores solitários de si mesmos, são incapazes de compreender e de ser compreendidos».

O livro, o 25.º romance do autor, tem como fio condutor um prédio algures em Lisboa e as vidas das pessoas que nele vivem, mas este é apenas um pretexto para António Lobo Antunes nos maravilhar com a sua escrita única e a sua descida cada vez mais fundo ao que de mais íntimo há em cada um de nós.

Por sugestão e cortesia de António Lobo Antunes e da sua editora Maria da Piedade Ferreira (LeYa), foi-nos cedido o texto que abaixo citamos, como pré-publicação das primeiras páginas do primeiro capítulo deste novo título, o 30ª na bibliografia oficial.

* * * * * * * * * * * * 
ANTÓNIO LOBO ANTUNES | CAMINHO COMO UMA CASA EM CHAMAS


Segundo Direito

     Não gosto do apartamento porque não me encontro, pequeno,a brincar na marquise, alugámo-lo ao casar e o resultado estes filhos, a tua asma, sobretudo eu tão desajeitado, tão fraco, em solteiro a minha mãe protegia-me não do meu pai que nem me via, das minhas irmãs e do meu irmão, gabava-me às visitas
     – Tira os óculos para a dona Adelaide reparar nesses olhos azuis
     o mundo uma névoa difusa, a dona Adelaide surpreendida
     – Quem havia de dizer que são lindos?
     e logo a seguir com dó
     – Que pena tantas dioptrias
     não gosto do apartamento nem dos móveis, a água da jarra mais murcha que as flores, gritos de obrancelhas rápidas na janela a que chamam andorinhas, a minha mãe de súbito nova
     – Primavera miúdo
     como se a primavera se visse, talvez um tinir de faiança nas folhas ou mais raparigas lá fora e eu inexistente para elas, as sobrancelhas do professor subiam do caderno até à minha cara sumindo-se a desprezarem-me nos telhados
     – Em cada frase três asneiras
     não gosto do quarto de que não tirei a poltrona na qual te sentavam com a máscara de oxigénio, um chinelo num pé, o segundo perdido, eram as tuas pálpebras que respiravam sobre a máscara, não os pulmões, as tuas pálpebras dois sapos com barrigas de pregas zangados comigo
     – Nunca valeste nada
     sob o cabelo também mais murcho que as flores, uns caulezitos cinzentos, umas pétalas húmidas, o pé do chinelo teu, o pé sem chinelo de uma estranha, durante meses a fio devolveste-me as cartas onde em cada frase três asneiras
     – Que teimosia escrever-me
     o pé sem chinelo desconhecido, vermelho, inchando e desinchando igualmente ao ritmo das pálpebras, o que não inchava e desinchava aqui, as paredes, a cama, os trinta anos que passámos juntos, escrevo-lhe porque aprecio a menina e não fui capaz de melhor que esta prosa idiota, não desejava ofendê-la, não gosto do quarto consoante não gosto do quarto dos meus filhos, foram-se embora e o contorno dos armários permanece no reboco, sinto-lhes e não lhes sinto a falta, não lhes sinto a falta, a janela deles para as traseiras, outrora um descampado com cordeiros a mastigarem o som dos badalos e agora um largo, a farmácia, Farmácia Salutar que nome, uma agência de viagens, o teu ombro num sorriso de troça
     – Se lhe apetece continuar a escrever é consigo
     de óculos como eu, nem sequer bonita, nem sequer simpática, o que achei em ti, não gosto do cão de loiça comprado num armazém de velharias no meio de estribos, lanternas, aparadores, foste direitinha ao animal
     – Que giro
     e embora não fosse giro calei-me, calei-me sempre, a cabeça do bicho a acenar
     – Palerma
     desde o primeiro dia até hoje
     – Palerma
     um buldogue com as bochechas pendentes da dona Adelaide, no caso de lhe perguntar
     – Disseste o quê?
     uma pausa perplexa, o queixo que hesita, reflecte, se decide por fim
     – Palerma
     sacudia-se a barriga oca e um parafuso a tilintar enquanto a água da jarra murchava, animava-se com o sol e tornava a murchar, não gosto do apartamento à noite porque tenho a certeza de ir morrer sozinho, o meu filho mais velho exige dinheiro que não há, a impressão que a minha mãe a chamar-me num agosto de outrora, no norte
     – Joaquim
     os meus cunhados na varanda, depois da varanda a vinha a descer, troçavam-me
     – Tótó
     e o meu pai não os desmentia, nos bolsos dele dúzias de palitos, a minha mãe indignada
     – Qualquer dia não te sobra um dente na boca
     e não me recordo de lhe assistir a um sorriso, lia o jornal o tempo inteiro ou seja na minha opinião não lia nada, não conversávamos ele e eu, a vinha e sem neblina os candeeiros de Manteigas ao longe, conversar de quê, tão parecidos, desajeitados, fracos, o que fez você de útil pai, o que se aproveita, o que fiz eu de útil pai, o que se aproveita, fitamo-nos e vazio, se ao menos a gente, para quê dizer, não interessa, moro neste segundo direito desde que casámos, a minha mulher sem óculos a descer as escadas da igreja agarrada ao meu braço
     – Há mais algum degrau?
     na sala o tapete que vai perdendo a cor, o sofá que me crava molas nas costas e a bandeja de cobre para o correio na arca da entrada, a lua de mel numa hospedaria em Sintra com estrangeiros para cá e para lá no corredor, a vergonha dos meus ossos saídos
     – Não repares em mim
     Sintra à noite, Manteigas à noite, o meu cunhado arquitecto
     – Não é Manteigas é Seia
     a minha mulher admirada
     – Afinal é só isto?
     apanhando os óculos da mesinha de cabeceira
     – Só isto?
     a camisa de dormir com laçarotes e rendas que a tua mãe te obrigou a dobrar na bagagem
     – Os homens pescam-se com truques assim
     e pescar-me-ias se eu um homem a sério, pernas em excesso que me embaraçavam, um botão solto
     – Só isto?
     pronto a esconder-se numa frincha e uma lasca de madeira a enterrar-se-me na palma, tiraste-a com a pinça dos pêlos
     – Não sejas maricas não dói
     de mistura com o
     – Não sejas maricas
     os estrangeiros sem descanso no corredor, Seia ou Gouveia, o meu cunhado médico
     – Pelos meus cálculos Gouveia
     e tu
     – Não pode ser só isto
     a cuba puxada do poço junto à cozinha, o bule de prata com pega de mogno e três malmequeres em relevo por cima, a minha mãe de mão na pega e o indicador da outra mão na tampa
     – Mais chá senhor Fonseca?
     chá para eles, leite para mim, o pires de biscoitos
     – Não te sirvas antes dos crescidos
     a minha palma
     – Uma lasca que mal se nota não sejas maricas
     a retirar-se amuada, quando segredos com as amigas e eu entrava a minha mulher
     – Vamos mudar de conversa
     e soslaios de escárnio
     – Não é homem não é homem
     a água, então viva na jarra, a espreitar-me como elas, ao despedirem-se gargalhadinhas no patamar, suspiros da minha mulher antes de mais gargalhadinhas
     – Tomara eu
     a minha mãe pronta a pegar-me ao colo salvando-me
     – Joaquim
     dizer
     – Mãe
     e continuar a dizer
     – Mãe
     até adormecer num divãzito que não existe mais, abraçado a um leão de pano a que faltava uma orelha e mesmo sem orelha me defendia do mundo, o meu cunhado médico para o meu cunhado arquitecto
     – É capaz de ser Seia
     candeeiros não fixos, indo e vindo, como o norte respira, uma via láctea de grilos campos fora cada qual com uma lanterna invisível de som, Gouveia ou Seia, grilos ou ralos, os sons alcançam distâncias infinitas nas trevas, olha a Beira Alta inteira a cantar, olha o cajado do louco de capote a quem os cães ladravam mais escanzelados que eu, comem galinhas, coelhos, Salazar não foi um ditador, foi, no vestíbulo um par de apliques de velas tortas, endireitava-as e inclinavam-se de novo, foi um patriota que pôs este país na ordem, em Portugal precisamos de um governo firme, não se tratava de eu haver perdido o emprego, com os funcionários do ministério a insultarem‑me
     – Fascista fascista
     tratava-se do abandono de África entregue de mão beijada aos comunistas, o teu pé sem chinelo de outra pessoa, a ausência de patriotismo, o desrespeito, a anarquia, por sorte os meus pais não assistiram
     – Porque teima em escrever-me?
     quando em cada frase três asneiras, aquilo em que esta terra se tornou, a tua família mais modesta que a minha, um dos meus avôs general, os teus não me contaste, a tua mãe a que a minha chamava senhoreca, mínimos em argola encaracolando-lhe os gestos, instalava‑se na borda das cadeiras cerimoniosa, lenta, a escolher palavras difíceis, os meus cunhados em coro Susana se sair saia só sim? Sou só seu Serafim Sá Sousa e eu envergonhadíssimo, a dona Susana numa amabilidade furibunda
     – Que divertido
     enquanto pelo ângulo da boca
     – Parvalhões
     idêntica ao meu filho mais velho se não lhe dou dinheiro
     – Parvalhão
     de modo que eu não em Lisboa com vocês, na varanda do norte agarrado ao leão, o marido da dona Susana de chapéu com peninha, palavra de honra, a partir de certa altura as árvores não verdes, azuis e após a linha do comboio, no início da encosta, quase negras, o café num cruzamento, a merceariazita, a estação e de repente surgiu-me
     na cabeça o setembro das gralhas, não supunha que os eucaliptos, a minha mãe para a tua, não uma senhora, uma senhoreca e a filha daqui a vinte anos a mãe chapadinha
     – Os meus genros adoram brincar conhece algum homem que tenha crescido não ligue
     não supunha que os eucaliptos, o avô general de condecorações na moldura, importantíssimo
     – Uma senhoreca sem cura e a tua noiva uma senhoreca também
     aguentassem dúzias de gralhas, centenas, milhares que não imitam só os outros pássaros, nos imitam a nós, no setembro das gralhas eu ainda mais desajeitado e elas a macaquearem-me
     – Mamã
     não
     – Mãe
     como as minhas irmãs e o meu irmão
     – Mamã
     um senhoreco perfeito, de quem foste herdar isso, moro num segundo andar pretensioso, sem gosto, os azulejos da cozinha atrozes, por baixo um casal de judeus emigrados não sei de que sítio de um lado e um bêbedo com a família do outro, no terceiro uma actriz idosa, de que lugar vieram as gralhas expliquem-me, um prédio sem
     elevador nem garagem e a minha mãe obrigada a subir aquilo aos setenta e seis anos no seu luto de viúva
     – Dão-me setenta e seis anos vocês?
     implorando que lhe adiássemos a morte
     – Não aguento a ideia do fim
     o lábio a tremer, as pupilas misturadas, a mão das alianças corrigindo as feições conforme corrigia os retratos dos netos na camilha, Irina Jorge Sebastião e o abajur de pergaminho contra a parede de modo a que se notasse menos o buraco do cigarro
     – Dão-me setenta e seis anos a sério?
     que preferíamos nem sonhar quem o fez, não gosto do apartamento, gralhas a espiarem os sermões do senhor vigário e o chiar das carroças a espiarem a minha mãe
     – Dão-me setenta e seis anos?
     na hospedaria em Sintra a semana inteira o mesmo arroz de pato e o mesmo pudim servidos pela mesma empregada de alpercatas estalando contra os calcanhares, as almofadas húmidas, um cinzento constante, no caso de avançar a perna o teu tornozelo inerte nos lençóis fingindo que dormia e eu a sabê-lo desperto, se me aproximava um protesto na fronha
     – Queres que eu caia no chão?
     e o vento mudando o sentido da chuva, uma tarde uma gaivota num feto, a gerente com uma mancha vermelha na bochecha
     – Tiveram azar com o tempo
     
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04/05/2014

Jorge Adelar Finatto: As breves eternidades do senhor Lobo Antunes

«Não sou especialmente simpático também, falo pouco, custa-me exprimir o amor que sinto, envergonho-me de, em certas alturas, me apetecer chorar. Claro que não choro: fico bravio, brusco, irónico, a liquefazer-me de afecto por dentro.»
António Lobo Antunes, O António a dar corda à esperança em Quarto Livro de Crónicas

Às três horas dessa madrugada ventou forte. Tremeram as folhas dos plátanos e pinheiros em volta da casa. Eu estava recostado na poltrona do escritório, naquele instante de neblina entre o sono e a vigília. 

Começaram uns trovões pros lados do Contraforte dos Capuchinhos. O som vinha de longe. Relâmpagos riscavam o ar sobre as montanhas. Agora chovia.

Na mesa estão os livros que leio nessas horas perdidas que me custam o peso de diamantes. As horas de lume intenso. As imperdíveis. Nos volumes está a vida inventada, concentrada, sem desperdícios, sem cinzas.

Entre o raio e o trovão, peguei o António Lobo Antunes pra ler. Nos últimos dias tenho lido crônicas, dando um tempo aos textos maçudos. Aproveitei a passagem por Lisboa, antes de voltar ao Brasil, em fevereiro, pra comprar livros de autores portugueses. Nessa leva vieram os volumes quatro e cinco das crônicas do romancista Lobo Antunes (escritor e psiquiatra, nascido em Lisboa em 1942), reconhecido em Portugal e no estrangeiro, lembrado para o Nobel.

Os textos curtos têm de ter a essência do relâmpago. Devem iluminar de súbito a escuridão, sem demora, afastando-se dos truques dos ilusionistas, porque o tempo urge, o do raro leitor em especial. 

(Não sou nem tenho pretensão a ser crítico literário, Deus me livre. Mas também não sou um leitor vadio. Arrisco uns bacorejos de vez em quando.)

Os pequenos textos precisam pegar o coração do leitor de forma ágil e inesperada, com simplicidade e energia.

O senhor António é um lobo solitário na sua arte. Não existem muitos de sua espécie na natureza.

Pelo jeito que escreve, é um sujeito recolhido, de pouca fala, algo nele permanece ausente de si e dos outros. Está sempre noutro lugar. A sua medida no mundo é a escrita, esta é sua aldeia, ali estão tudo e todos. 

O tempo do escritor se desdobra em muitos tempos, em vidas inumeráveis. 

O senhor Antunes tem urgência de escrever, aflige-se no intervalo entre um romance e outro. Tamanho desconforto semelha-se a uma combustão espiritual na ausência da palavra criadora. Talvez nesse interstício habite o cronista. 

O senhor Lobo é um animal ferido, sofrido, esquivo, como o são de resto os de sua estirpe, escritores que trabalham enfurnados no sofrimento feliz que é escrever, e daí afloram diamantes. Esses que, uma vez descobertos, não paramos mais de olhar. Não há embromações na sua prosa nem maneirismos de estilo. 

Diz direto e concreto, mas sem perder a poesia. Coisa difícil. As possíveis levezas estão envoltas na bruma da condição humana, na cerração da circunstância que recorta o indivíduo, todo indivíduo, no tecido da realidade.

Enquanto escreve, o senhor António vai matando a sua e a nossa morte, criando territórios de eternidade, efêmeros embora, para suportar o deserto, desde que fomos expulsos do Paraíso.

Falei aqui, mais de uma vez, da mala de livros que trouxe, do peso e da trabalheira de andar com ela em trens, táxis, hotéis e aeroportos. Mas eu afinal estava certo ao sofrer assim. No frio dos quartos de hotel, antecipava já a espécie particular de felicidade que é ler o Lobo.

António Lobo Antunes é dessa família de escritores que nos fazem varar madrugadas de chuva e relâmpago em busca de suas pegadas na areia da praia ventosa. Ele nos deixa a sensação de que podemos ser e sentir sempre mais. A seu lado, vivemos um tempo que não nos destrói.

A breve eternidade das palavras.


por Jorge Adelar Finatto
01.05.2014

Notícias ao Minuto: CCB Wagner e Lobo Antunes inspiram Côrte-Real para os Dias da Música

A Orquestra Sinfónica Portuguesa estreou ontem, sábado, dia 3 de Maio, nos Dias da Música no Centro Cultural de Belém (CCB), uma obra escrita pelo compositor Nuno Côrte-Real, inspirada nas obras do compositor alemão Wagner e do escritor António Lobo Antunes.

foto: Lusa
"Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra no Mar?", o mesmo título de um romance de António Lobo Antunes, é a composição escrita por Nuno Côrte-Real que vai ser interpretada pela Orquestra Sinfónica Portuguesa, sob a direcção artística de Rui Pinheiro.

Seguindo a tradição europeia do poema sinfónico, trata-se de um instrumental para orquestra, a maior de sempre para quem Côrte-Real diz ter escrito, com cerca de 90 elementos.

"É uma espécie de poema sinfónico para levar quem está a ouvir a pensar num acontecimento que é narrado. A música tem esse poder narrativo" adianta Nuno Côrte-Real, à agência Lusa, acrescentando que quis incutir na sua composição a emoção dos romances de António Lobo Antunes.

A obra foi encomendada pelo Centro Cultural de Belém para integrar o programa do bicentenário do nascimento de Wagner, em 2013, mas acabou por não ser estreada nessa altura.

"A ideia inicial foi pegar numa música original de Wagner e incorporar essa música dentro da minha própria música. O trecho escolhido foi a Cavalgada das Valquírias. Quando comecei a trabalhar a peça, uma das coisas que me veio imediatamente à cabeça foi a obra de Lobo Antunes Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra No Mar?. É uma dupla homenagem", explica o compositor de Torres Vedras, que não esconde o gosto literário pelos romances de António Lobo Antunes.

O compositor refere que quis juntar as heroínas de Wagner, as valquírias que eram guerreiras armadas e montadas em cavalos, às de Lobo Antunes, mulheres do quotidiano. [...]


03/05/2014

Três artigos de opinião sobre Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra No Mar?

A tradução em francês, por Dominique Nedellec, de Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra No Mar?, foi publicada há pouco mais de um mês pela editora Christian Bourgois. Em Março, para assinalar a saída do novo livro naquela língua, António Lobo Antunes esteve em Paris onde falou sobre a sua escrita e pouco mais, uma vez que se recusa a falar dos livros que publica.Foi renitente em dar entrevistas, pelo menos uma entrevista no modo formal.

Sugeridos pela sua editora na Dom Quixote - LeYa, Maria da Piedade Ferreira, os três artigos que se seguem são desta ocasião e opinam sobre o mais recente livro do escritor em francês, Quels Sont Ces Chevaux Qui Jettent Leur Ombre Sur La Mer?. Os dois primeiros foram já aqui anteriormente publicados em posts separados, mas juntamos agora com o último, sendo essas anteriores publicações eliminadas.



1. Artigo publicado em Les Temps


Os gritos silenciosos das personagens de António Lobo Antunes

António Lobo Antunes tem o génio dos títulos. O romance mais recente já escrito mas ainda não publicado, o qual ele declara ser o último, tem como título em português "Caminho como uma casa em chamas". O anterior, publicado em 2012, vem de um enigmático verso de René Char: "Não é meia noite quem quer." Em Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra No Mar? não é meia-noite, mas seis da tarde, a hora em que a mãe irá morrer. São também as três horas da tarde, essa terrível hora em que as casas são tristes. Estes dois momentos marcam como leitmotiv esse muito chuvoso domingo de Páscoa, 23 de Março, numa quinta do Alentejo. 

Era uma vez uma propriedade próspera nessa grande planície ao sul do Tejo: uma ganadaria com cavalos, gado, servos fiéis, um poder feudal seguro de si. Hoje, o filho mais velho tenta salvar a carne que resta dos ossos de uma fortuna arruinada. O pai desperdiçou tudo nos casinos da costa, a apostar teimosamente no número dezessete; agora ele está morto. Restam Francisco, cheio de rancor, "nascido sem alma", ansioso por saquear seus irmãos e irmãs e expulsá-los da propriedade em ruínas; Beatriz cujos maridos a abandonaram, sozinha com uma criança não muito talentosa; Ana vagabundeando como uma assombração por Lisboa em busca de drogas que a matam; João, o consolo de sua mãe, implorando por um pouco de amor dos rapazes no Parque Eduardo VII, onde contacta com "a doença" ("Quanto levas menino?" ). E era uma vez Rita, a quem um cancro levou ainda muito jovem. Finalmente, aqui está a mãe, cuja morte é esperada. E Mercília, a criada sem idade, fruto de amores auxiliares e ancestrais, que Francisco se prepara para enxotar colocando-a num autocarro rumo a um lugar qualquer a partir das seis da tarde. Bem como a um bastardo que surge mais tarde neste concerto de vozes.

Essas vozes que são, talvez, uma única, pois, como em todos os romances de Lobo Antunes, elas aparecem como variações de um mesmo canto que se vão cruzando, respondendo, contradizendo e, às vezes, emaranhando-se , e que se rebelam contra "aquele que faz o livro" quem as obriga a agir, falar e sentir contra a sua vontade: "[...] serei uma criatura a sério ou uma invenção de quem escreve, uma marioneta, se calhar pensou 
– Preciso de uma mulher aqui 
e construi-me capítulo a capítulo aborrecendo-se comigo, talvez esperasse outra pessoa, palavras que o contentassem mais [... ]".

Se o autor "construiu" as suas criaturas por sua vontade, também edificou a estrutura de acordo com as regras da tourada, em cinco partes – “Tércio de Capote”, “Tércio de Varas”, “Tércio de Bandarilhas”, “A Faena” e “A Sorte Suprema” – emolduradas pela voz de Beatriz, “Antes da corrida" e "Depois da corrida”. Quatro vozes compartilham cada uma dessas partes, e outras se vão misturando, num queixume desafinado, o canto eterno do desamor e da solidão. 

Crianças perdidas
Lobo Antunes foi médico psiquiatra e conhece o ponto em que os homens são todos iguais, filhos perdidos no medo. Faz a interpretação dessa experiência num pico estreito entre o sublime e o cliché. No auge da sua obra abole a fronteira entre as coisas, os animais, as plantas e as pessoas, tudo se afogando na mesma angústia, soltando "gritos silenciosos" antes de desaparecer. Os corpos desfazem-se, as mãos já não agarram coisa alguma, perdem os dedos, aparecidos sob o olhar entediado de um "Deus mesquinho".

Os cavalos misteriosos do título provêem de um antigo cantar alentejano. É a sua sombra que Beatriz vê sobre o mar enquanto é deflorada sem ternura num carro à beira-mar. Este refrão magnífico, selvagem, de galope sobre os juncos, ritma a melopeia de que os leitores de Lobo Antunes reconhecem a cadência (actualmente muito bem traduzida por Dominique Nedellec): frases quebradas por linhas curtas, sem verbos, deslizando de uma voz a outra, perguntas sem resposta, regressos posteriores, recorrência a palavras padrão. É necessário deixar-se ir nesse enrolar das ondas sem o qual a exasperação espia diante tanto da tristeza acumulada, tanto das febres, das fotos dos antepassados, da água e das lágrimas (“e eu ao ponto de chover igualmente”). Mas se experimentada, ela traga-nos até ao mais profundo.

por Isabelle Rüf
em Les Temps

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2. Artigo publicado em Le Figaro

As sombras furtivas de António Lobo Antunes

Romance polifónico hipnotizante sobre a morte de uma mãe em Lisboa no dia de Páscoa.

Como há três anos, quando do nosso último encontro, tomou lugar no mesmo sofá verde do hotel na rua Vaneau, onde já é habitual e onde os seus livros entronizam uma vitrina no salão. Aos 71 anos de idade, António Lobo Antunes continua a não querer entrar nas regras de uma entrevista normal. "Por que me fazem perguntas? Eu não li os meus livros, apenas os escrevi. "

António Lobo Antunes: «Por que me fazem perguntas? Eu não li os meus livros, apenas os escrevi» - foto de François Bouchon / Le Figaro
Durante a conversa informal entre um cigarro na calçada e a chegada de um velho amigo que veio para almoçar com ele, deixa aqui e ali um pouco de si. Sobre este romance com um título tão antuniano, Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra No Mar?, afirma: “Certo dia assisti a uma tourada em Barcelona, tinha eu sete anos. Fiquei com uma impressão ... vomitei, e uma marca foi permanecendo em mim”. Mais de seis décadas se passaram, mas para falar de quatro irmãos que prestam contas perante a morte da mãe, num Domingo de Páscoa em Lisboa, foi na dramaturgia tauromáquica que se baseou. Sete partes principais de quatro capítulos, em que os principais actores tomam a palavra, compõem este romance. E dentro deste quadro se desenrola a magia de um estilo como nenhum outro.

Após uma dezena de títulos, Lobo Antunes utiliza a forma de um puzzle feito de vozes que entre si se alternam, gritam, perdendo-se no limbo das memórias e que se apegam a motivos recorrentes. Francisco, João, Ana, Beatriz, quatro filhos, cada um vivendo à sua maneira a agonia da mãe. Até à sua morte (estocada final), cada um deixa falar as suas emoções, confessando a sua dor e gritando a sua raiva. Ou balbuciam, incapazes de dizer as coisas. A família está em destroços, arruinada por causa do pai. A doença e as neuroses corroem-na. Chove sem cessar, mas o escritor, que se faz convidado dentro da história, demiurgo provocador, adverte: "Não é a chuva que cai (...) São pessoas, os seus episódios, memórias, o sótão empoeirado que representa uma existência ".

João, o filho favorito, o filho maldito, paga com a carne a procura de rapazes do parque. Ana, por sua vez, não deixou o terreno baldio onde a esperam os traficantes e a sua próxima dose. Francisco amaldiçoa todos, pais, irmãos, culpados segundo ele por ter sido lesado, menosprezado. E Beatriz, pobre Beatriz em pânico, ela que continua a ver a sombra que os cavalos fazem no mar.

Como ex-psiquiatra, Lobo Antunes conhece as neuroses, as cismas infinitas, a impossibilidade de dizer e fazer. Ele conhece "o que nos mói, sem ninguém saber, o que nos custa sem que ninguém perceba e não me refiro aos nossos segredos encobertos, nem à nossa miséria consciente, todas esses bonecos mortos, todos esses olhos que nos esmagam de censura."

Ler a prosa do maior escritor português - que é também um dos melhores escritores do seu tempo - trazida pela tradução magnífica de Dominique Nedellec, é uma rara experiência, perturbadora e fascinante ao mesmo tempo. Como um sonho revelador. Como entrar nas sombras de Faulkner ou Virginia Woolf.

por Bruno Corty
16.04.2014

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3. Artigo publicado em Télérama


Lisboa, num dia chuvoso. Uma família analisa o auge do seu esplendor passado, e se desmorona de neurose. Uma obra electrizante.


foto Télérama
Ler António Lobo Antunes é como fazer um desporto radical, uma experiência ao limite cada vez mais emocionante. Apegamos-nos a cada palavra, como às grades instáveis de uma ponte improvisada, esticada entre dois picos. Avançamos passo a passo, sobre o vazio, sem um arnês narrativo, sem personagens de segurança. Tudo o que temos é apenas um relógio para nos aguentarmos. Em breve serão seis horas da tarde, e essa perspectiva parece tranquilizar as personagens, se é que podemos chamá-las assim, porque são mortos-vivos, entre duas águas, entre duas memórias, entre dois medos, e a sua noção de tempo é divergente da nossa.

A hora das três da tarde, a pior das horas, insuportável de tão triste, desde sempre lida no ângulo recto dos ponteiros, eis que se deixa discorrer numa verticalidade do tempo, num domingo de Páscoa, pelas agulhas da chuva. "(Se fosse livre para escrever sobre a chuva, vocês entenderiam tudo)", solta o autor entre parênteses, dando assim uma pista para avançar no seu romance: é preciso ver todas as gotas para se passar entre elas, colher todas as palavras para reconstruir os discursos. António Lobo Antunes gosta de conjugar o verbo chover com vivas pessoas: os seres chovem em cada virar de página, chovem de suor, de febre, de lágrimas. Quem são os habitantes deste livro feito de teias? Membros de uma mesma família, em diferentes regiões de uma nodosa árvore genealógica, alguns sob a terra, comendo raízes, outros sobre ramos frágeis quase separados do tronco.

Não têm nomes, não conseguem impôr a sua identidade, esmagados sob o peso das neuroses familiares. Todos têm um pensamento fragmentado, sofrendo entre a renúncia e a súplica, balbuciando como recém-nascidos ou moribundos. Apegam-se a imagens obsessivas, um travessão de cabelo ornado de pequenas rosas, um carrinho de criança no lixo, uma fruteira cheia de maçãs, a asa quebrada de um pássaro, e essas ideias fixas são centelhas na escrita eléctrica de António Lobo Antunes, pontos de luz brilhante dentro de uma verborreia inquieta. Muitos se refugiam no silêncio, cismarentos, para se tornarem estranhos a si próprios, desligados dos seus corpos, ao ponto de darem a mão a si mesmos, e ver os seus próprios dedos em segredo: "Parecem os meus, mas são os meus ? Eu sou um, eu sou dois, encontro-me a mim mesmo por caridade ... " Alguns, por fim, resistem contra o seu destino, e apanham António Lobo Antunes ao virar das páginas. Uma praga contra esse escritor que "salta frases sem me deixar chegar à seguinte e afoga num tanque gatinhos que eu sei que é para se livrar de mim", e um outro alerta: "Isto é um livro ? Se for um livro, eu não falo. " Em cólera contra o demiurgo, que os empurra para fora de si mesmos, quando tanto querem se refugiar, ocultar, desaparecer para sempre. Com raiva a esse mistificador que lhes corta o pio quando querem gritar. Vá embora, volte. Ajude-me, deixe-me em paz ...

O autor baseia-se nas suas memórias de ex-psiquiatra para alimentar o seu trabalho centrado no socorro. Como proteger os outros? Como se proteger dos outros? Entre estas duas perguntas, ele dança, recolhe-se, eleva-se e faz cantar o silêncio, porque "quase tudo acontece em silêncio, na vida, até mesmo os gritos."

por Marine Landrot
12.04.2014
Télérama n° 3352

[os três artigos foram traduzidos do francês por Joana de Paulo Diniz]

Crónica «Nós» com reflexão sobre a sua leitura por Olga Fonseca

Nós Não precisávamos de falar. Como ele dizia – Tu sabes sempre o que eu estou a pensar e eu sei sempre o que tu estás a pensar ...