25/02/2014

Luís Osório: «Tudo arde desde o princípio» (opinião no Jornal SOL14.02.2011)

caricatura por Luis Levy Lima
Apaixona-se pelas suas personagens, desespera com o seu sofrimento, exalta-se com as suas conquistas.
É uma memória difícil.

Foram poucas as conversas, pelo menos não as suficientes para agora me custar a elas regressar. É curioso: ele dizia-me que há pessoas que nos tocam com um dedo e fica uma nódoa negra que não passa. E o António deixou-me uma nódoa negra que desvalorizei com zelo e constância.

De vez em quando falo sobre o assunto com Daniel Sampaio, seu amigo íntimo. Ainda na passada semana contava-me da sua felicidade ao ser reconhecido em Paris, mais uma vez, como um dos melhores escritores da história da literatura.

António Lobo Antunes. O que direi das suas palavras, ou do seu efeito em mim, é de pura memória. Tenho poucas certezas sobre a sua verdade, mas absoluta convicção de que se tornaram o espelho de si quando dele me recordo.

Tivemos um pequeno desentendimento e nunca nos encontrámos para o esclarecer. Isso tem hoje pouca importância. Acontece-nos muitas vezes, não é? Passamos pela vida, abrem-se e fecham-se portas, e vamos calando o que devíamos gritar e gritando o que calado deveria estar.

Ele não gosta de falar da guerra. Mas, do que me contou, recordo a lembrança de Ernesto Melo Antunes. As noitadas que passavam a discutir poesia ou em silêncio após os bombardeamentos. Os jogos de xadrez. E uma ou outra vez, no rescaldo dos confrontos, António via-o a passar nas trincheiras com uma lanterna na mão e a servir de alvo. Perguntou-lhe por que o fazia – e Melo Antunes ofereceu-lhe uma resposta que o marcou profundamente: «Sabes, António, é que às vezes me apetece tanto morrer».

As suas personagens estão vivas. Mesmo as dos livros mais antigos falam com ele quando tem o aparelho dos ouvidos desligado. Então, na escrita de um novo livro, o exercício transforma-se na própria vida. Apaixona-se por personagens, desespera com o seu sofrimento, exalta-se com as suas conquistas, torna-as vivas em si. Elas crescem e tornam-se a sua companhia, a sua obsessão.

Quando escreve desliga o aparelho e abandona-se a elas. E elas parecem gostar da exclusividade e detestam partilhar atenções. Há momentos em que desliga o aparelho mesmo quando sai do escritório onde escreve. E nos jantares incómodos utiliza o seu truque preferido: é um verdadeiro especialista naquilo que baptizou ser a técnica do ‘sorriso ausente’. Posso comprovar o quanto resulta… As pessoas a dizerem--lhe coisas – «Dr. António, como está hoje?, gosto muito de si, os seus livros isto e aquilo, vi-o na revista ou na televisão» – e ele a sorrir e a não fazer a mais pequena ideia do que lhe dizem.

Também por isso o intervalo dos livros costuma ser penoso. Não sabia o que fazer com o aparelho a funcionar, perdia-se nas ruas à procura de um sinal para um novo livro ou para, de uma vez por todas, deixar de escrever e poder ser como os outros.

É esse o seu grande paradoxo: deseja matar as personagens e libertar-se das páginas dos livros onde muitas vezes se sente aprisionado, mas não consegue viver fora deles. O que fazer? «Por vezes sinto-me a rapar o tacho, percebes? Os escritores apodrecem com o tempo e o melhor é parar porque o mais certo é destruírem tudo o que conquistaram antes. Mas como fazer isso? Sinto-me culpado e infiel quando não escrevo».

Compreendia-o. Como não? Um dia, um doente no Miguel Bombarda quis contar-lhe um segredo. E só o fez quando percebeu que estavam sós e não havia perigo. Com enorme solenidade, confessou-lhe que o mundo fora feito por trás, pediu-lhe para pensar no assunto, mas que não contasse o segredo a ninguém.

António não lhe ligou nenhuma. Só que o segredo ficou – e passou a ser uma tábua de sabedoria. A partir daquele momento percebeu que a sua escrita tinha de levar uma volta. Começou a escrever por trás para deixarem de estar visíveis os pregos e as costuras: a sua tentação de mostrar tudo pela frente, a tentação de mostrar o quanto era talentoso e genial passou a ser vista como uma ridicularia.

Falámos de loucura, claro. Que para ele se resume às nossas características, amplificadas por defeito ou por excesso. Mais uma vez as conversas comuns com o Daniel que nunca utiliza o termo ‘normalidade’ para definir o que quer que seja. Há remédios para rir e chorar, há médicos que colocam limites mais largos ou estreitos para definir a loucura, há médicos que se tornam psiquiatras para perceber as suas próprias fronteiras e fantasmas.

Há tudo e não há nada. António sabe--o e pressente-o nas entrelinhas.

Recordo o que dizia das suas filhas e da morte.

Das três filhas, confessou-me que desejava deixar-lhes um vinco na alma. Não uma nódoa negra. Isso aparece na pele mas não tem grandes consequências, por serem centenas e indiscriminadas. Um vinco na alma é diferente – é uma ligação inexplicável, é amor verdadeiro e mais forte do que os livros e a própria vida.

Da morte, houve várias que o transformaram (que nos transformaram) numa espécie de cemitério privativo aberto 24 horas por dia. Recordo-me de me ter falado da Margarida, a mãe da sua mãe, e do quanto se arrependeu de a ter visto morta no caixão. Arrependeu-se muito porque agora, quando fecha os olhos, é morta que a vê; e há dias em que lhe é impossível recordá-la viva. «Deitados e mortos parece que nada nos assenta bem, não achas?».

Acho que não, António. Nada nos assenta bem. Na escrita é, apesar de tudo, mais fácil. Tudo depende da habilidade com que falamos aos que fazemos nascer. Alexandre Herculano dizia de Almeida Garrett que este era capaz de todas as porcarias menos de uma frase mal escrita.

Lobo Antunes citava esta frase ao falar do amigo Reinaldo Arenas – grande escritor cubano que se suicidou depois de escrever o premiado Antes que Anoiteça. Falaram ao telefone nos dias que antecederam a sua partida – e Reinaldo, angustiado, contou-lhe o que ia fazer.

António não lhe ligou nenhuma. Julgou que Arenas estava numa fase de ‘fúria dramática’, uma fase que encontrava a muitos no hospital, na vida e nos romances. Mas enganou-se: Arenas, em Nova Iorque, partiu como prometera. António ficou sem palavras – sem palavras e sem uma palavra.

O que farei quando tudo arde? Pergunta que, estou certo, nunca terá feito. António Lobo Antunes sabe que tudo arde desde o princípio.


por Luís Osório
fonte: Jornal Sol
14.02.2011
[a caricatura de Luis Levy Lima não acompanha o texto na fonte citada]

18/02/2014

Raquel Ribeiro: crítica a Não É Meia Noite Quem Quer

A cerimónia do adeus


Uma mulher, uma longa despedida, triste, sem uma réstia de esperança ou de consolo

Onze romances nos últimos doze anos, mais os livros de crónicas: é este o saldo da produção literária de António Lobo Antunes que agora publica Não é Meia Noite Quem Quer, o seu vigésimo quarto romance.

Se no romance anterior, Comissão das Lágrimas, mergulhava no horror e na violência das purgas do MPLA e do 27 de Maio de 1977, em Angola, neste, o autor regressa a temas que lhe são caros: a doença, a morte e a família (dis)funcional tão portuguesa, tão comezinha, pretexto para mergulhar num romance quase-polifónico que percorre os últimos 60 anos de uma família que é também um micro-retrato do país. Aqui, o autor regressa a tipos-de-personagens que já são comuns no seu imaginário: um pai bêbado, uma mãe semi-histérica (“já viu a minha cruz?”), um “irmão mais velho” que não queria ir à guerra (“que se atirou às ondas para não gramar este frete”), um “irmão surdo” a tentar falar (“o silêncio como o meu irmão surdo silêncio e no fim do silêncio a gravidade com que se encerra um discurso”: “ata titi ata”), e um “irmão não surdo” que veio louco da guerra (“deixávamos-lhe a travessa na mesa onde vinha comer quando ninguém na sala, não podíamos falar-lhe nem vê-lo, tapou a fechadura com papel, não respondia à gente”). Ou seja: histórias em continuum, como se de um romance para o outro pouco se perdesse (ou se ganhasse) com as circunstâncias de cada personagem, histórias de desconforto, confortáveis para o autor (que está no seu elemento, sempre), confortáveis para o leitor que o conhece (porque não o defrauda), desconfortáveis para quem esperava sempre mais.

O romance é dominado por um narrador principal, feminino, uma professora de 52 anos (“se espreito para trás vejo pouquíssimos, espalhados na memória entre triciclos e doenças”), que teve um cancro na mama, perdeu um filho, vive um casamento falhado, refugia-se numa relação lésbica com uma colega na escola e enceta uma longa cerimónia do adeus em três dias, numa casa de praia da família, revivendo a infância, os falhanços, as amizades perdidas e os amores frustrados: “Vim despedir-me da casa ou do meu irmão mais velho e, através dele, de mim mesma, não sei.” É uma mulher a jogar com a memória (a esquecer, a lembrar) e o pai a chamar-lhe “Menina”, como o outro dizia “voar, Celina, voar” (em “Exortação aos Crocodilos”). Nesta despedida, triste, sem uma réstia de esperança (desde o início, o texto empurra-nos para aquele abismo do Alto da Vigia: será que também vai cair?), sem sequer um pequeno consolo, nem no presente, nem no passado, tudo se desfaz, sem consistência, como o pão esfarelado em migalhas pelo pai bêbado à mesa.

Os narradores são quase todos femininos (a mãe, a colega lésbica, a amiga de infância), confundem-se e intrometem-se no discurso da narradora principal. Apenas os narradores de capítulo têm marcas discursivas muito fortes, seja a colega lésbica cujo pai esteve preso durante o fascismo, seja o irmão “não surdo” que tem um discurso corrosivo sobre a sua experiência em África e fala com a velocidade de uma uzi: “Já mamei as duas grades, não mamei e, daí em diante, a pessoa do costume, só que mais feliz, passando a mão cuidadosa no camuflado, gosto deste fatinho, e amarrando um lenço ao pescoço porque lhe faltava a gravata, interrogava em torno quando é que vamos aos pretos, numa das últimas saídas uma metralhadora pôs-lhe as tripas de fora.”

No entanto, no meio de tanto ruído de vozes que se sobrepõem e se obliteram (“se pudesse comunicar em quantas vozes a minha voz se dividia”), é nisto que Lobo Antunes consegue ser igual a si mesmo, e isso é tão bom, arrastando o leitor por uma cacofonia incómoda e depois confortando-o com imagens belíssimas: “No quarto de banho, em bicos de pés para diante, a estender o beiço ao vidro embaciado com uma toalha que prejudicava a nitidez, quando chove durante a noite não apenas um cheiro diferente, a casa diferente perdendo ecos e sons, a chuva entre no sono mudando o argumento dos sonhos, regressamos à superfície e damos conta das persianas, a certeza que nos chamam numa harpa de gotas e afundamo-nos de novo transportando um rastro de música connosco.”

E esta: “ - Como está o rim flutuante do seu sobrinho dona Alice? / a dona Alice com a almofada metade ao léu e metade no interior da fronha / - Uns dias melhor outros pior querem operá-lo de barriga aberta”. E só mais esta: “Morrer é quando há um espaço a mais na mesa afastando as cadeiras para disfarçar.”

Isto é Lobo Antunes em “piloto automático” e é (só) por isso que é bom. Por vezes, sente-se que o que aqui está em causa, nestes “estados de consciência”, é, apenas, a imagem pela imagem a assomar-se, a intrometer-se, a aludir ao passado, às ligações do corpo e da memória, mas, por vezes também, repetitiva, entediante, a arrastar as pantufas no quarto da escrita.

Conclusão: o leitor fiel reconhecerá neste romance o imaginário caro a Lobo Antunes e não ficará a perder. Mas ao leitor que ainda não provou deste arquipélago da insónia aconselha-se que comece em 1979 e não pare até ao Esplendor de Portugal. De facto, não é escritor assim quem quer, mas por ser Lobo Antunes não só se poderia exigir mais, mas também melhor.


Raquel Ribeiro
[não datado]

16/02/2014

As capas dos livros - várias edições em Portugal e estrangeiro

Caros Leitores:

Estamos a mostrar as capas das várias edições portuguesas e estrangeiras dos livros de António Lobo Antunes, através de álbuns de fotografias na nossa página do facebook - um álbum para cada título. De algumas edições ainda não foi possível obter imagem, e outras nem conseguimos saber ou a editora ou o ano de edição. Quem quiser colaborar nesta mostra, pode colocar na página a imagem de uma qualquer edição que tenham ou conheçam e que não conste dos álbuns criados. Adiconem toda a informação que tenham da edição que estão a mostar.  Essa imagem irá constar do álbum referente ao título do livro. 


Isto para dizer que os álbuns sobre as capas dos livros que acabamos de colocar até ao último título publicado por ALA não são estanques. Quem quiser acrescentar pode "postar" a imagem da capa que tenham na página ou enviar para jalexramos@gmail.com

Já agora, outras fotos e matérias serão também bem vindas, sempre. E de maior relevo as vossas opiniões de leitura.

Obrigado.

José Alexandre Ramos - António Lobo Antunes na Web

09/02/2014

Leandro Oliveira: «O gesto de António Lobo Antunes»

Lobo Antunes procura construir sua obra tendo como pilar a proposital e complexa incompletude narrativa

foto de David Clifford

A pedagogia literária clássica dos séculos XIX e XX ensinou o leitor a caminhar pelo enredo do romance, acompanhando o desenvolvimento de personagens, reconhecendo as fronteiras do espaço na acção, percebendo as nuances na configuração de um drama até [à] sua conclusão chave. O legado deixado é o do leitor que erroneamente vê como sinónimos romance e narrativa. Portanto, nesses tempos em que tanto se discute o fim do romance, é um prazer descobrir a obra de António Lobo Antunes, um escritor que tenta através de sua obra fundar uma nova maneira de percepção do texto em prosa. Isso porque ela representa a mais radical experiência de ruptura dessa estrutura clássica do romance, através do caos de um texto que procurar apresentar uma noção de sujeito na pós-modernidade, tendo como insumo à impossibilidade objectiva de instaurar valores e perpetuar tradições, a angústia do mundo interior do indivíduo e a desagregação de toda ordem – inclusive literária. Nessa tentativa de explorar novas formas do texto literário há ainda um esforço de abolir a expectativa de linearidade, herdada pelo leitor, por meio da polifonia e esse é um dos motivos de seus livros serem classificados como difíceis. Para Mallarmé, “nomear um objecto equivale a suprimir os três quartos de prazer da poesia, que é feito de adivinhar pouco a pouco”. Em Lobo Antunes, o recurso de adivinhar pouco a pouco é evidente, os sentidos são encontrados pela combinação das diversas vozes e pelo modo como são apresentadas, por exemplo quando a repetição circular de uma afirmação traz em si o sentido exactamente oposto, como se o enunciador tentasse convencer a si mesmo daquilo que diz.

A poesia também está presente nos livros de Lobo Antunes pelo modo como a linguagem é utilizada pelo escritor. Tal qual a poesia, a obra de Lobo Antunes parece colocar em primeiro plano a linguagem, tornando-a estranha, e sem, contudo, transformá-la em prosa poética, tal como o fazem alguns autores. A organização rítmica permite à linguagem apresentar-se prazerosa ao leitor e a pergunta a respeito do sentido vem somente após o impacto da beleza do texto. É possível afirmar que a maior conquista da obra de Lobo Antunes é sua prosódia numa linguagem livre da função exclusivamente comunicativa. O gesto faz ressignificar as descrições banais e pensamentos fugidios através da montagem de fragmentos, como peças de um brinquedo Lego, que possui apenas alguns encaixes básicos, pequenos fios entrelaçados, surgindo daí a possibilidade das mais criativas conexões.

Com uma subjectividade marcada pela linguagem poética e enredos montados por fragmentos que vão se alongando por meio da circularidade como são apresentados, tornando as imagens mais discerníveis através da sua recorrência e a revelação de novos detalhes nos múltiplos pontos de vista das diversas vozes narrativas que compõem os textos literários, Lobo Antunes procura construir sua obra tendo como pilar a proposital e complexa incompletude narrativa. Por isso, a tentativa directa de interpretação dos textos ficcionais buscando explicitar efectivamente o sentido que querem dizer, tomando como referência a estrutura e o enredo do romance clássico, seria uma actividade improfícua, dizendo muito pouco sobre o texto, uma vez que o próprio autor rejeita interpretações inequívocas de seus livros. “Não existem nas minhas obras sentidos exclusivos nem conclusões definidas: são, somente, símbolos materiais de ilusões fantásticas, a racionalidade truncada que é a nossa. É preciso que se abandonem ao seu aparente desleixo, às suspensões, às longas elipses, ao assombrado vaivém de ondas que, a pouco e pouco, os levarão ao encontro da treva fatal, indispensável ao renascimento e à renovação do espírito” disse o escritor em certa ocasião.

Um texto difícil, com sua polifonia que torna o sentido indefinido, fragmentado, seriam essas as características representativas da literatura desse novo século? Basta pensar nas discussões em torno dos conceitos de modernismo e pós-modernismo. De um lado, uma arte balizada pelo gosto pela transgressão, como retratou Peter Gay, e do outro, como caracteriza Jean-François Lyotard, uma sociedade que perdeu toda motivação ideológica e espiritual para se manter em andamento. A resposta dada pela obra de Lobo Antunes parece ser o meio caminho entre um e outro, dizendo que há mais incompreensão das possibilidades de sentido na multidão de signos que devem ser interpretados e reinterpretados que precisamente falta de esperança. Pragmatismo, iconoclastia, efemeridade de propostas, ideias e acções contraditórias, descentramento e o isolamento do sujeito na obra de Lobo Antunes surgem da incapacidade de narrar do sujeito e não de uma compreensão totalizadora da realidade contemporânea. Desse ponto central é que brilha a liberdade de uma prosa desobrigada a colocar em primeiro plano relações de causa e efeito, revendo a herança de modernidades. Essa é, talvez, a obra que mais radicalmente representa o momento de transição pelo qual passamos, quando vários modelos literários vão sendo abandonados e diversas tentativas de criar outros em substituição vêm surgindo.


Leandro Oliveira
crítico e jornalista cultural
08.02.2014

08/02/2014

Imagem da Palavra

25/07/2013 - O Imagem da Palavra apresenta entrevista gravada com o escritor português António Lobo Antunes. O autor de Eu hei-de amar uma pedra comenta sobre a influência da psiquiatria em sua obra e sobre como é escrever seguindo o fluxo da consciência. O programa também convidou um leitor, um livreiro e um crítico de literatura para relatarem a experiência de se ler Lobo Antunes

1ª parte:
 

2ª parte:


3ª parte:

07/02/2014

Pedro Fernandes: opinião sobre Auto dos Danados

Este é o sexto romance de António Lobo Antunes. E chegou-nos ao Brasil pela Editora Best Seller possivelmente em 1985 (a referência à data de publicação por aqui é coisa dura de achar pelos dados no livro e rodando a web o máximo que encontrei foi esta, 1985, portanto, que é mesmo, isso sabe-se verdadeiramente, a data de publicação em Portugal). A própria editora nem mais existe como figura independente; pelo que sondei está integrada como um selo do grande grupo editorial Record. Facto é que o livro anda esgotado nas prateleiras das livrarias brasileiras, sendo possível encontrá-lo nos santos sebos que salva (e crucifica quando o preço é salgado o que não é este o caso). Foi com este romance que o escritor português ganhou por essa época o Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores. Apesar de não [ser] este um dos livros que poderia considerar [como] o ponto alto da sua carreira, esse reconhecimento vem provar não a escrita individual de um determinado trabalho, mas o conjunto do que já este autor havia até então publicado: basta que se repita o caso de ser este o sexto romance.

Digo não ser Auto dos danados um grande romance, porque talvez esteja ainda impregnado do magma narrativo que é Fado alexandrino, livro que depois de Os cus de Judas é, sem dúvidas um experimento linguístico de primeira grandeza: o primeiro mais ainda, se levarmos em consideração que no segundo o romancista ainda se experimentava na arte de narrar. Talvez o que separa este daquele seja mesmo, para o primeiro a catedral narrativa e para o segundo o espólio temático. Como se sabe Os cus de Judas é um dos primeiros - senão o primeiro - a introduzir na cena literária de língua portuguesa os horrores da Guerra Colonial na África.

Mas, Auto dos danados é também um experimento narrativo. Se Fado Alexandrino recupera a estrutura de um fado com os versos alexandrinos (três partes com doze capítulos cada), este recupera a instância de auto. Passa na segunda semana de setembro de 1975, um ano depois da Revolução dos Cravos, elemento histórico que apesar de citado não será pano de fundo como é no livro anterior. Em Monsaraz, vilarejo medieval do Alentejo, está-se nos preparativos para os tradicionais festejos de ano que tem por tradição as touradas. A peça principal do romance, entretanto, não é festa, apesar de servir de mote temporal; é sim a morte de Diogo, um patriarca símbolo da tradicional família portuguesa, família que parece está no seu fim, como bem sonda por esse livro o narrador. Basta que se diga, como exemplo, que o dentista Nuno, o narrador da primeira parte do Auto e único que tem papel externo ao drama aí desenvolvido, é filho de um casal incomum, o pai travesti e mãe a que sustém a aparência, os luxos e a casa com dividendos conseguidos à base do envolvimento com figurões do dinheiro.

O romance, então se divide cinco sessões: "Antevéspera da festa - Nuno todo dia", "Véspera da festa - Ana à noite", "Primeiro dia de festa - À Lídia onde quer que se encontre", "Segundo dia de festa - À véspera de minha morte" e "Terceiro dia de festa - A importância da máquina de influenciar na génese da esquizofrenia". Adopta-se para cada uma dessas sessões divisões muito particulares que seguem o movimento de cada um dos seus narradores: os vários membros da família assumem o veio da narração, sendo que entre as duas últimas partes é a voz do patriarca misturada às dos filhos o que compõe a narrativa. Desse modo, Lobo Antunes não narra apenas o fim da tradicional família burguesa portuguesa, mas também instrui caleidoscopicamente pelo menos três diferentes gerações.

E o que se revela nesse magma de lembranças não é nada de enaltecedor aos nossos olhos. O escritor assume - como sempre tem vindo fazendo desde o seu romance de estreia - um lugar de crítico mordaz da realidade e um "carrasco" revelador da hipocrisia que vela os mais variados recantos da sociedade. Instalar-se agora na família, depois de já ter percorrido instituições como as forças armadas, o aparelho médico, parece uma decisão acertada. Revela-se em Auto dos danados um via de interesses escusos - enquanto morre o velho banhado nas lembranças da infância criada à base de chicote e da vida adulta criada na traição da mulher com seu irmão, amantes antes e depois de seu casamento, a filha e ex-mulher de Nuno e o genro cascavilham o testamento para manobrar a herança em seu benefício próprio e fugirem para Espanha. O genro também não é lá flor que se cheire - embora não se apresente ao longo da narrativa sua defesa, é acusado de ser amante de todas as mulheres da família, inclusive da própria filha já produto da relação sua com uma cunhada mongoloide. Evidente que entrará em cena um terceiro elemento que desmanchará todos os planos até então arquitectados: o regresso da filha do caseiro que cuidou da propriedade de Diogo assegurará à mãe a posse da herança.

Apesar do carácter dramático, Auto dos danados tem na teatralização dos acontecimentos o seu ponto culminante. Se em Fado alexandrino Lobo Antunes se apropria da estrutura usual do alexandrino para pensar uma reinvenção da narrativa e isso pouco é percebido aos olhos mais desavisados, neste livro de 1985, a reacção será outra. O trânsito entre o auto e o romance é visível, desde quando seguimos pela mão de Nuno, espécie de observador sarcástico do que se passa perto de si. O resultado é um romance primoroso que aposta novamente na reinvenção estética proposta pelo escritor já desde sua estreia literária. Sei que esses procedimentos narrativos pouco hão-de interessar os leitores comuns, mas são eles o ponto alto da proposta antuniana. A intriga, muito bem desenhada, também é um efeito à parte que não haverá de abalar os ânimos dos que não têm o tempo necessário para especulações estruturais do texto.


Pedro Fernandes
Letras.in.verso e re.verso
15.03.2013

06/02/2014

Jornal de Letras: «Lobo Antunes, as três irmãs e uma garrafa de grappa», por Ana Margarida de Carvalho

O escritor António Lobo Antunes, em Udine, na cerimónia de entrega do Prémio Nonino: encantou-se com três belas irmãs que usam o mais sofisticado marketing no seu negócio de milhões, enfadou-se com a conversa "intelectual" de figuras de referência da ciência e da literatura mundiais, ensinou anedotas embaraçosas a jornalistas italianos e até cantou...


Havia um anúncio sobre pré-confeccionados em que dois cozinheiros supostamente italianos se punham a discutir: um insistia que o segredo estava na pasta; o outro retorquia que estava no molho. No caso da grappa (uma espécie de aguardente típica do norte de itália) da marca Nonino o segredo está numa combinação rara de alquimias e destilações de um tipo de uva muito selecionado, com mais de um século de depuração (desde 1897); não, o segredo está na garrafa, no design feminino, que faz com que a "bottiglia" mais pareça um frasco de perfume do que de aguardente; não, o segredo está num marketing muito inteligente e engenhoso que conseguiu transformar uma bebida tradicionalmente associada à pobreza e ambientes rústicos num produto altamente sofisticado, caro, consumido em meios elitistas; não, o segredo está na família (ou não estivéssemos nós em Itália) matriarcal, uma "nonna", três filhas, Cristina, Antonela, Eisabetta e sete netas (apenas um neto rapaz) que toma a cargo o negócio, a imagem e a marca; não, o segredo está na criação de um prémio internacional (o prémio Nonino existe há 39 anos), que distingue alguns dos mais prestigiados vultos da literatura e da ciência em todo o mundo, alguns deles posteriormente "nobelizados" (como V. S. Naipul, Tomas Transtromer, o chinês Mo Yan ou Peter Higgs), e que acrescenta à grappa Nonino todo um gosto extra a elegância, requinte, com tanto teor de álcool como de alta cultura (e só este evento que mobiliza mundos e muitos - mas mesmo muitos - fundos vale mais do que qualquer anúncio ou publicidade); não, o segredo está em tudo isto junto. Foi assim que António Lobo Antunes (um dos premiados deste ano) veio parar a esta cidade do nordeste de Itália (numa zona rural e industrializada), pouco turística, junto a Veneza, tão perto do mar, quanto das montanhas alpinas cheias de neve nos cumes, mais conhecida pela sua grappa (lá está), por ter uma tradição secular de construção de cadeiras (exportadas para todo o mundo), pelo presunto San Daniele e que tem como prato típico o "frico": batata cozida com queijo derretido. Foi assim que Lobo Antunes, que oscilava entre a satisfação e o seu habitual ar negligé, um misto de indiferença estudada e provocação, se viu nos salões de festas faustosas, servido por famosos chefs de cozinha, nas mesas em que se sucediam pratos de haute cuisine, e até um peixe gigante inteiro, exibido triunfalmente (comentário do escritor: "olha, o peixe do Emingway"), rodeado de mulheres belíssimas de vestidos de gala ("elas são tão simpáticas, e cheiram tão bem, e não repetem a toilette; cada vestido dava para nós vivermos durante um ano, basta passar a mão pelos tecidos para se perceber..." 

Na cerimónia de entrega (sábado, dia 25) com uma assistência de mais de 600 convidados (muitos deles ilustres figuras de Itália) - comentário de Lobo Antunes: "era tão bom que toda esta gente lesse" - ante os principais meios de comunicação daquele, entre coros e dança tradicional, os fornos das destilarias e as omnipresentes garrafas de grappa, o prémio do escritor português foi-lhe entregue por Claudio Magris, com um entusiástico elogio. Juntamente com o escritor português foram premiados o filósofo francês Michel Serres (entregue por Edgar Morin), o psiquiatra italiano Giuseppe Dell'Acqua (entregue por António Damásio) e a palestiniana, activista e escritora Suad Amiry (entregue pelo poeta sírio Adonis), que dedicou o prémio também à sua cadela: é com o passaporte do cão que entra em Jerusalém.

E se a família Nonino conseguiu desarmar todas as relutâncias e aquela fleuma altiva do escritor português, "destilavam" exuberância e simpatia, com um luxo, que sem ser nada discreto, não ostentava mau gosto ou qualquer exibicionismo provinciano, os jornalistas desconcertavam-se... Eles indagavam da sua relação com escritores italianos, como Tabucchi, e António Lobo Antunes divergia e citava políticos portugueses: "Aos amigos nunca se mente. À pide e às mulheres mente-se sempre". Prefere falar de Salgari, "tive a sorte de o ler na altura certa", de Italo Calvino, "a sua morte foi uma perda para toda a gente que gosta de literatura", do amor "que é feito de atenção delicada", de sexo, "sexo sem amor dá vontade de tomar banho por dentro" e das mulheres, "não há mulheres fáceis: ou são dificílimas ou impossíveis". Detestava ser mulher, admite, "ainda tinha de aturar um parvo a dizer mentiras, convencido que era capaz de conquistar uma mulher, quando na realidade, quem escolhe são elas. E eles, feitos tontos, já foram escolhidos mas não percebem, porque elas são generosas e convencem-nos disso". Recusa a ideia de que a estrutura narrativa dos seus livros, em que muitas vezes os tempos e as vozes se cruzam, seja uma técnica literária, aliás irrita-o a "proeza técnica" ("um livro tem de ser um murro, tem de agarrar o leitor pelo pescoço"), e está cada vez está mais convencido de que não há presente, passado ou futuro: "Existe um enorme presente em que nunca abandonamos as pessoas de que gostamos. Se eu ainda hoje sinto o cheiro de casa dos meus avós, isso quer dizer que eles já não existem?". Prefere não se pronunciar sobre escritores, "porque confundimos sempre paixões com ideias e não somos capazes de abdicar das nossas paixões", volta-se, antes, para aqueles que nunca se desvalorizam na sua bolsa de valores pessoal: Ovídio, Horácio e Virgílio. E cita o general do século XVII Montecuccoli, "que sem saber fez mais pela teoria da literatura do que qualquer académico" ao dizer "é preciso agarrar a oportunidade pelos cabelos, mesmo sabendo que ela é careca". Depois de um cancro no intestino, dois em cada pulmão, uma operação e tratamentos agressivos de quimioterapia, Lobo Antunes faz como Sócrates que quis aprender a tocar lira, mesmo sabendo-se condenado. De que te serve?, perguntavam-lhe os amigos: "Serve para tocar". "O que me interessa a mim ter estátuas equestres? A minha única chance é segurar uma caneta. Talvez haja dentro de nós uma esperança de eternidade. E de que algo nos salve, e de que... olhe, de que haja manhã...". E novamente Hemingway: "A morte pode destruir-me, mas não me mata".

Sente a mágoa da partida dos amigos, "sempre gostei de homens mais velhos", acorda a chorar pelo irmão Pedro, que morreu recentemente, "parece que a família ficou coxa", confidencia, atormenta-o ter perdido parte da sua beleza física - "agora sou apenas um senhor com algum charme" -, mas está convencido que a beleza de Paul Newman "impediu que percebessem o grande actor que era". Declara, perante os jornalistas aglo desconcertados, "que se Claudia Cardinalle escrevesse, faria livros épicos". Mas tem pena das escritoras mulheres "coitadas, os homens sentem-se intimidados, e estão sempre a tirar ilações do que elas escrevem". Ainda se sente capaz de cometer loucuras, de mudar completamente a sua vida, de ter alegrias súbitas, quando se sabe traduzido no Irão ou na Etiópia. "É tão fácil dizer amo-te e nunca dizemos. E ficamos com a ternura no colo como um bebé, sem saber o que fazer dele". E logo o raciocínio se vira para o Papa Francisco: "É conservador e populista porque diz coisas que os outros não eram capazes e como andamos todos com esta sensação de sermos mal-amados, ficamos com esta ilusão de que o papa vai mudar as coisas... Não vai."

Ao fim de três dias, Lobo Antunes dá sinais de inquietação. Tanta atenção, tanta ternura e alegria também cansam. "Elas abraçam-me", consente, "mas não são abraços apertados". Está farto de jantar com gente erudita, de conversas existenciais. Apetecia-lhe citar Walt Whitman: "I like animals because they don't discuss the existence of god". Cansado de ser polido, mas seduz os locais, quando se põe a trautear músicas italianas que sabe de cor. Eles pedem um fado, dizem que a língua portuguesa é "belíssima", parece, ela mesma, "um canto". Lobo Antunes não lhes fará a vontade, mas já no aeroporto (adora passar horas nas portas de embarque a reparar nas pessoas, adora os corrimãos das passadeiras, adora comida de avião "é como brincar aos jantarinhos, deviam abrir um restaurante só disto") confessa que o jazz, que o pai lhe dava a ouvir, o ajudou a "aprender a frasear". Ainda ofereceu o primeiro livro ao pai, ele chamou-lhe "livro de principiante": "também foi o único que lhe ofereci, não levou mais nenhum". Está impaciente por chegar a casa, aquela região traz-lhe amargas recordações infantis: aos nove anos foi fazer a primeira comunhão a Pádua, e perdeu-se dos pais na Praça de São Marcos, em Veneza, deixou-se ficar sentado em cima dos leões: "Andei pelas ruas sozinho, a chorar, uma angústia terrível. Anoiteceu e lembro-me da cara dos meus pais quando me encontraram, tão aflitos que nem se zangaram comigo". Está com saudades. "Tenho saudades de Lisboa, tenho saudades do mau gosto, tenho saudades de ouvir dizer 'esta gaja é tão boa'. E o poder de síntese desta frase, já viu?"

texto de Ana Margarida de Carvalho
06.02.2014

fotograma do vídeo da cerimónia de entrega dos prémios - ver abaixo (intervenção de ALA entre os 64 e 79 min.)

02/02/2014

Do blog Pedrices: a opinião de um quase leitor

Eu, sinceramente, não sei bem o que pensar de António Lobo Antunes (ALA). Ou melhor, sei o que penso mas não sei como expressá-lo em palavras. Talvez aqui encontre, precisamente, uma das coisas importantes que posso dizer sobre ele – é que ele, se fosse eu, conseguiria dizê-lo. Serve isto para dizer que ALA consegue pôr em palavras aquilo que apenas sentimos em pensamentos. Ele consegue escrever como se pensa. Assim como David Lynch consegue filmar como se sonha (para dar um exemplo “gráfico” mas que, ainda assim, fica aquém do que pretendo exprimir).

Já li umas boas páginas de livros de ALA. Li inúmeras crónicas, um dos prazeres da Visão. Quanto a essas, as crónicas, são pedaços de puro prazer, sem grandes complicações, sem que eu fique perplexo. Dir-se-ia até que elas servem de exercício para se ler os seus romances, como conjugar verbos serve de exercício para se aprender uma língua.

Por outro lado, acompanho as suas “intervenções” públicas, na forma de entrevistas que vai dando. Onde, se parece que está sempre a dizer o mesmo, também se encontra uma profundidade de pensamento, uma capacidade de rasgar o superficial e entrar no âmago das coisas, que são invulgares e parecem do domínio do génio.

Quanto aos livros, li muito cedo o Auto dos Danados. Diria mesmo que demasiado cedo. Não me lembro de nada de substancial, já. As minhas recordações são uma impressão de um livro que me impressionou, que tinha uma história de pessoas cheias de dramas e de interesse. Lembro-me da ideia de estar perante um escritor poderoso mas, também de uma obra difícil de ler e, de certa forma, extenuante.

Depois, envolvi-me com A Morte de Carlos Gardel. Não fui longe. Tentei novamente uns anos mais tarde e voltei a não passar de um início demasiado intrincado para o conseguir acompanhar. Lá está, na estante, troçando de mim, achando-se melhor do que eu, até ao dia…

O Manual dos Inquisidores foi a tentativa seguinte, ou o fracasso seguinte. Não fiquei pelo princípio, mas também não fui longe.

Desisti durante muito tempo.

Voltei a ALA com Que Farei Quando Tudo Arde. Fui, solenemente, comprá-lo. Fiz questão de gastar dinheiro nele para me sentir obrigado. Fez companhia ao Carlos Gardel e aos Inquisidores durante meses, até que o desafiei. Mergulhei nele, passei de metade e… não consegui mais. Estava demasiado perdido para continuar.

Mas o estranho em tudo isto é que em todas estas páginas e frustrações nunca consegui sentir um momento de desagrado. Ou seja, há uma certa raiva por não perceber, por não conseguir acompanhar. Porém, a experiência de ler ALA é de tal forma intensa que se consegue tirar dali, mesmo quando não se acompanha, a sensação de que se está a explorar um qualquer canto de uma construção genial. Muitas vezes parava de ler para acalmar a respiração que se acelerara com uma ou outra frase.

A propósito do Arquipélago da Insónia, e porque havia uns cartazes no metro, só com frases tiradas desse livro, pensei que a obra de ALA talvez devesse ser vista assim, como num museu, punham-se os cartazes só com as frases e as pessoas poderiam ir passando, lendo-as e maravilhando-se. Não é muito diferente do que acontece num museu com quadros. E, a mim, parece-me que valeria muito mais do que muitos quadros.

Veja-se isto:

«(...) a pensar na quantidade de defuntos que são necessários para compor uma vida (...)»

A quantidade e força de ideias expressas numa frase como esta não é do domínio da normalidade, está acima, muito acima, do que é normal encontrar na escrita.

Mas indo para uma frase mais simples, aparentemente, até corriqueira, a do início do Arquipélago:

«De onde me virá a impressão que, na casa, apesar de igual, quase tudo lhe falta?»

O que é que se pode esperar de uma frase assim? É quase arrepiante pensar no seguimento, nas histórias ou, no caso de ALA, recortes, que poderão nascer disto. Pode vir daí uma tragédia, a solidão, o imobilismo, a inveja, o engano, a frustração, a perplexidade, tanto mais. Isto é fazer, com apenas uma frase, literatura do mais alto nível. Parece que ALA persegue a ideia de colocar entre as capas de um livro a vida toda. Eu diria que ele já consegue, numa frase, colocar lá grande parte daquilo que interessa, com uma incomparável multiplicidade.

Mas tudo isto vem a propósito da minha última incursão no mundo de ALA, o Tratado das Paixões da Alma. Pois é, voltei a tentar. Desta vez, andei por aí a pesquisar, encontrei um texto que me deixou curioso, aconselhava começar por aqui, assim o estou a fazer. O livro está dividido em 6 partes, vou tentar lê-lo assim, uma parte de cada vez. Hoje, foi a primeira. Como sempre, estou dividido entre o deleite da escrita e a perplexidade da acção. Falta-me compreender muita coisa e já não tenho esperança de vir a perceber melhor com o avançar do livro (isso já aprendi com os outros). Só que o que li até agora é tão bom que já me fez rir, já me emocionou e já me tocou de tantas formas que acredito: desta vez vou chegar ao fim.

E pronto, já está! Muitos anos depois, não sei mesmo quantos, voltei a conseguir ler um livro de António Lobo Antunes até ao fim. Para quem eventualmente siga este blog, deverá já ter pensado que eu tinha desistido, depois do post que aqui deixei sobre o autor. Não desisti e consegui. 

Fica o registo, porque sobre o livro não há muito a dizer. Creio que escrevi tudo o que havia para eu dizer sobre ele no tal post anterior. Um pensamento que me ocorreu entretanto: daqui a muitos anos, se alguém quiser ler um autor genial, António Lobo Antunes poderá ser uma referência, uma escrita única, que leva um género, o seu, até às últimas consequências (e não tanto neste mas mais nos últimos, como ele diz, desde O Esplendor de Portugal). No entanto, se alguém perguntar, que livro dele devo eu ler? A resposta poderá ser: não interessa, qualquer um, e isto diz muito sobre um autor, especialmente um que tanto fala do medo de se tornar repetitivo. Não sei se se repete ou não, mas sei que a insistência no virtuosismo literário, em detrimento da substância daquilo que é dito, poderá levar a algo parecido com a repetição, o cansaço... do leitor.

Curiosamente, numa entrevista recente, a autor declarou que os livros mais antigos, por ele, podiam ir todos para o lixo. Ainda bem que, muitas vezes, os livros conseguem fugir dos seus escritores. Mas, neste caso, talvez então António Lobo Antunes devesse escolher apenas um, para ficar publicado, é que parece que neste, ou noutro qualquer, já está quase tudo o que o escritor tem para mostrar.


Novembro e Dezembro 2008

Crónica «Nós» com reflexão sobre a sua leitura por Olga Fonseca

Nós Não precisávamos de falar. Como ele dizia – Tu sabes sempre o que eu estou a pensar e eu sei sempre o que tu estás a pensar ...