28/09/2012

Passatempo Não é meia-noite quem quer: os textos dos participantes

Conforme anunciado, e após o encerramento das participações, publicamos os textos cujos autores estão habilitados a um exemplar de Não É Meia Noite Quem Quer. Serão escolhidos três vencedores do prémio, que oportunamente divulgaremos. Seguem-se os textos, onde era solicitado que de forma criativa se dissertasse sobre um aspecto de António Lobo Antunes e a utilização aleatória das palavras não, é, meia-noite, quem e quer. Foram considerados válidos 16 textos num total de 20 participações.


As sombras de mim
Joana Martins, Póvoa de Varzim

Não, não é meia-noite, as tuas mãos dançam melhor sob a luz amarelada e ténue das velas antigas. 

Conheci o Inferno, vi o cu ao Judas e os pássaros loucos a esvoaçar no terreiro em bando, qual cenário do apocalipse, vi tudo fora do seu lugar. Quem e quer  de mim se foi, me levou inerte ao óbolo.

Não foi Caronte que duvidou, não foi o rio que não me levou, foste tu que permitiste que eu fosse ao fundo de mim, saltei para dentro de mim e engoli-me em gigante numa só golfada. Revisitei-me nos lugares em que habitámos, nas esquinas em que fumei um cigarro lânguido e sereno, nos mergulhos em mar revolto, nas ondas que me esbofetearam, nos momentos em que a brisa me cumprimentava o rosto e o cheiro a Verão se despedia melancolicamente.


Passeando pelos cantos da casa
Pedro Ribeiro Soares, Praia da Vitória

A despensa claustrofóbica trancou-se sozinha. Deambularam berros embriagados com aguardentes do passado. Enroscou-se em seus próprios braços e sentou o cu no chão frio que a empregada lavara de tarde. Balas e bombas rebentaram dos azulejos e no escritório amarrou-se um laço em volta do pescoço. Era doutor e os campos viviam cinzentos, com brancos e pretos, e as granadas substituíram os corações dos miúdos que ficaram esventrados ao Sol. Eram músculos que saltavam bem alto. Explodiam num tempo de valsa intermitente. Pum! E as luzes apagaram-se sozinhas. As paredes encolheram lentamente e o demónio por pouco não lhe fulminou os intestinos. Já se tinham absorvido tantas merdas e o relógio ainda não tinha batido na meia-noite. Quem é? Gritou ao eco da porta. Quem é? Não é ninguém, disse-lhe a mãe, baixinho. Somos só nós.

A despensa claustrofóbica trancou-se sozinha e a chave estava no sítio da granada. Quer queiramos, quer não, é sempre tempo de abrir a porta.


ainda o café
Larissa Marques, Brasília


acusa-me, amor! sim, admito, sou leviana, pueril e me prendo ao que seja leve e despretensioso. continuo cativando meus vícios por livros de António Lobo Antunes, por dormir depois da meia-noite e perambular pela casa enquanto todos dormem. posso me dar ao luxo de não ser convencional e me fazer de imbecil a maior parte do tempo. se uma xícara de chá esfria tão rápido e alguns depois de frios não conservam o sabor e a fragrância, posso ser assim. não pedirei desculpas por meus erros, ou pelo que me marca única, somos assim vãos. nada me vale mais que viver, o que me move é lembrar depois. serei uma velha chata e enquanto isso não acontece, tomo o café quente e amargo que me serviu a pouco. sua essência ainda permanecerá, pelo menos por algum tempo. e ser essência não é para quem quer.


Meia-noite (ser)
Carlos Sena, Parede

Só não quer ser meia-noite
Quem dia inteiro é.
Eu só quero, dia e noite,
Que o ALA não desista
De ser o escritor que é.

Quem quer meia-noite ser?
Eu não quero nada a meio
Quero a noite por inteiro
Com o dia todo de permeio
Para o ALA poder ler.

Não é meia-noite quem quer
Nem é meio-dia quem pode
Só o  tempo quer e pode
Mas fatiga-se 24 horas
Para dia inteiro ser.


O Meia-Noite
Paulo Leote e Brito, Albufeira

As calças presas por um baraço que lhe rodeava a cintura, umas sandálias de couro a proteger os pés nus. Na cabeça um chapéu de palha com uma fita preta a dizer Algarve, ao pescoço um babete com uma bolsa que nos dias bons abarrotava de beatas, por cima de uma t’shirt amarela onde nas costas se lia "Meia Maratona da Esperança 2004". Na frente, o símbolo da junta de freguesia do Cardoçal.

-“Meia-Noite” anda tomar os comprimidos!

-À meia-noite!
respondia invariavelmente àquela ou a qualquer outra pergunta que lhe fizessem.

À meia-noite não pode ser, já estás a dormir!
às vezes estava a dormir, quando tinha um isqueiro não estava, escrevia até o gás se acabar, enchia páginas e páginas de frases muito alinhadas numa caligrafia infantil  

-Quem é meia-noite não quer ser visto noutra hora.
respondia escapando-se para somente se deixar ver nas horas das refeições.

Um senhor tão calado quanto ele, vinha todas as terças-feiras falar com o Meia-Noite, envergava uma bata branca, no bolso um estetoscópio inútil,

Inútil, porque aquelas cabeças nunca obedeciam a ordens de estetoscópios.

duas canetas e alguns lápis dos quais o Meia Noite raramente desviava o olhar. Ficavam ali os dois silenciosos durante cinquenta minutos, um dia o senhor da bata branca deu-lhe um caderno, uma borracha e uma dúzia de viarcos nº2.

-Podes escrever o que te apetecer entre as meias-noites.

Continuou a apanhar beatas do chão e a guardá-las no bolso do babete, depois sentava-se a escrever onde ninguém o visse.

O sujeito da bata já sabia quando faltavam folhas ou lápis ao Meia-Noite, ele sentava-se na cadeira em frente da secretária e fixava o olhar no bolso onde se acomodavam as canetas os lápis e o estetoscópio inútil. Nos outros dias olhava para o chão, às vezes olhava para a porta, noutras tentava contar os cinquenta minutos no relógio do senhor da bata branca.

Numa terça-feira, o senhor da bata branca interrompeu o silêncio e perguntou-lhe

-Porque é que lhe batias, “Meia-Noite”?

pela primeira vez não respondeu de pronto,

(-À meia-noite!)

deixou passar uns segundos e devolveu outra pergunta

-Há quanto tempo ela não deixava cair uma lágrima?!

e acrescentou de imediato

-Quem é meia-noite não quer ser visto noutra hora!


O maior escritor do meu bairro
Miguel Marques, Lisboa

É meia-noite neste bairro triste, plantando de candeeiros, onde a luzes são tristes, as lâmpadas são tristes, os candeeiros são tristes. Onde o próprio escuro se põe triste. Até a água, caída das varandas e das caixas dos ares-condicionados cá para baixo, para a rua, dá a impressão de lágrimas vertidas pelas pálpebras dos algerozes, copiosos de tristeza. Abeiro-me da varanda, a minha varanda triste e chorosa, no fito de alumiar a noite de isqueiros e cigarros, e detenho-me nas esquinas dos travestis e das prostitutas que enfeitam a noite de uma tristeza diferente, feita de rímel e bofetadas. Aqui há dias, melhor, há noites atrás, ouvi uma, melhor, ouvi um, gritar alhos e bugalhos na direcção de um carro, um carro enorme, com umas colunas de som maiores do que ele, estacionado defronte da esplanada no café dos brasileiros. A mulher, creio que a mulher, no meio da estrada, mandava vir com alguém dentro do carro, alguém que não se via, enquanto gritava e chorava igual a uma marquise cujas goteiras inundassem em charco as pedras do passeio.

- Veadão, pô - disse ela. Julgo que ela. – Cê vai se ferrá, vai vê só. Vou contá pra todo o mundo. Esse negócio vai virá gerau, podicrê – continuou, e a panela de escape chispou uma ira de alta cilindrada.

O condutor, creio que o condutor, do carro limitou-se a aumentar o volume no auto-rádio, e uma música semelhante a um raide aéreo entristeceu de decibéis o pouco que restava do bairro. O bairro. O nosso bairro. O teu bairro. Moras no mesmo bairro que eu. Enquanto aqui morar, por tua causa, nunca poderei almejar sequer tornar-me no maior escritor do meu bairro. Enquanto aqui morar, serás sempre tu o maior escritor do meu bairro. Do nosso bairro. Quem quer que aqui venha, ignora que haja tamanha tristeza e solidão para lá dos estores que sobem e descem como olhos ensonados, antes de irem dormir. Eu não vou dormir. Não tenho sono. Nunca tenho sono. O relógio da sala manda-me ir deitar. Já passa da uma, diz ele, e depois vem um cuco cá fora, saído de uma porta secreta, uma porta que abre para a barriga do relógio e me faz sempre pensar em barrigas que dão horas. Nunca tenho sono. Não posso ter sono. Não me apetece ter sono só para poder escrever. Escrever melhor do que tu. É uma tristeza pensar nestes termos, bem sei, mas, mais uma menos uma, neste bairro, ninguém nota. A esta hora não estás a escrever, penso para mim. Aproveitas o dia e eu a noite, talvez por isso a tua escrita ilumine as ruas que existem em nós e os meus gatafunhos se limitem a busca-pólos procurando uma faísca de nada no escuro. E é tão difícil, iluminar o escuro. Pela janela, os berros dos polícias, das prostitutas, dos travestis, o relógio de cuco, o dono do café dos brasileiros.

- Vai embora logo, cara, deixa esse troço pra lá – diz alguém. Ia jurar que alguém.

- Ó pá, é preciso ir aí abaixo partir-te a tromba? – um vizinho. Talvez um vizinho.

- Vai dormi, pô. Larga esse treco, cê não vai ganhá nada, memo. Uma e meia daqui nada, mermão – o cuco. Sim, o cuco.

São duas horas. O cuco espreita, como que nascido das entranhas dos ponteiros das horas e dos minutos. Deixo-o passarinhar à vontade. Faz-me companhia, no fundo. A seguir, sem ele ver, escancaro a porta do relógio, de caneta na mão, e entro à pergunta de uma tomada eléctrica que me faça um bocadinho de luz.


António
Alexandra Malheiro, Porto

Meia-noite e eu a escrever sobre o António. Como se eu conhecesse o António, não conheço, ou como se escrever sobre o António – quem? – servisse de alguma coisa, não serve.
O António, o dos livros, o da mão que escreve sozinha, não o que escreve mas o que deixa a mão escrever, o que deixa que a mão escreva.
Não serve de nada tentar escrever sobre quem escreve, é como pensar sobre o pensamento ou tentar ser objectivo sobre coisas abstractas. 
Ainda assim, teimosa, eis-me aqui a escrever sobre o António.
- É doida você?
Uma pessoa não escreve só porque quer – que o diga o António – a gente pega na caneta e ela vai, ganha vida e vai.
- É doida você?
Eu podia muito bem estar a escrever sobre sombras ou aluviões e não o António e o que ele escreve. Que me interessa lá o António, a mim que nunca estive em África, não lhe conheci o pai a fumar cachimbo nos corredores do hospital, nem o vi a ele pelos corredores do hospital, a perder o olho torto no pé pendente do menino morto – diz que é para ele que escreve.
- É doida você?
Pode lá alguém escrever para um pé e de um menino já morto, disparate. Não me interesso por nada disso, não me diz respeito. Mas se nada disso me interessa porque me incomoda e me revolve por dentro o António, não o António mas o que ele escreve, ou talvez nem o António mas a mão que escreve ou a mão que o António deixa que escreva por ele.
Um dia destes deixo de escrever sobre o António e escrevo ao António. Escrevo-lhe “Doutor, deixe-me ser sua doente!”
- É doida você?


Da importância das toalhas brancas
Rui Sousa, Lisboa


Acordo. Tenho saudades dos dias em que te encontrava de manhã ao meu lado, antes de encarar o dia que me aguardava na rigidez das horas. Quem me roubou estes dias?

É desta forma que acordo após ter adormecido muito depois da meia-noite. 

Acordo. Não estás ao meu lado. Sinto o odor dos sonhos transpirados durante a noite, das ânsias sentidas antes de adormecer, enquanto me esforçava por “entrar” no último livro do António Lobo Antunes, publicitado como a “melhor obra do escritor até à data” (pergunto-me se algum autor quer ler isto sobre algum livro seu…). Sinto o cheiro dos lençóis de algodão aquecidos pela minha solidão. Sinto o hálito dos livros que também dormiram cansados de esperar por uma segunda leitura. 

Soergo-me à custa dos braços e não da vontade. Penso que podes surgir a qualquer momento após o banho matinal, com a habitual toalha branca enrolada. Sempre branca. Sempre confortável. E agora tão improvável.
Tão perto e tão longe
Maria Graça Gomes, Almada

O Verão entrou pelo Outono dentro sem pedir licença. As esplanadas em Lisboa eram lugares apetecíveis. Parei na primeira que encontrei, ali para os lados do Conde Redondo, no caminho que me iria levar ao encontro com a minha amiga. 

Sentei-me e pedi um café. Na mesa ao lado estavam três pessoas a almoçar:

– Dois homens e uma mulher. Um dos homens comia, ao mesmo tempo que ia alimentando a conversa do outro, que só falava e fumava, falava e fumava. A mulher acompanhava-o no fumo e dava-lhe toda a atenção do mundo. Lembro-me que havia uma sobremesa em cima da mesa, intacta, esquecida, à espera que a ilustre figura se dignasse saboreá-la.

Sim, ilustre figura! António Lobo Antunes em carne e osso, ali, tão perto de mim e ao mesmo tempo tão longe… Não sei se consegui camuflar a emoção que senti. A vontade de lhe falar era imensa… Era capaz de ficar ali com ele a ouvi-lo até à meia-noite … Mas a timidez… ganhou.

Lá diz o povo:

– “Quem quer vai, quem não quer manda”. Eu nem uma coisa nem outra. Fiquei paralisada. Consegui apenas, e não directamente, pedir lume – dava-me lume por favor?

Não fumei o cigarro até ao fim, faltou-me a descontracção necessária que o acto exige. Saí dali. Pelo caminho fui pensando em todas as palavras que lhe poderia ter dito e não tive coragem. 

– Como está, Sr. António Lobo Antunes! Sou apaixonada por si, pelo seu imenso talento, pela sua grandeza. O Senhor é maior do que o país que o viu nascer! É a luz que nos faz acreditar, que ainda é possível! Obrigado por ser Português, sinto um grande orgulho. 

Cuide de si.


Desistidos
Bruno Assunção, Recife

Estávamos a esperar o carro atravessados no interstício da meia-noite. Tiros e gritos. Guerra. Longe, mas como nos comoviam aqueles indícios de morte através da medula rumo aonde começa, talvez, a alma. “Faz frio” disse um de nós quando todos queríamos dizer “que porra estarmos metidos aqui, sem socorro como um bando de vira-latas a esperar afago de uma mão que não se delineou”. Adivinhávamos a solidão que a madrugada injecta nas veias quando o silêncio tem pulso na pele com a esperança de que a espera fosse um simples exercício de tensão. Podíamos estar em um livro, personagens de uma narrativa para a qual não nos tinham convidado. Talvez Lobo Antunes nos experimentasse com sua mão literária a criar vozes para concretizar o indiscernível. “Aonde é que nos levarão?” “Qualquer lugar. Quer ficar aqui?” O uivo de calafrios do vento a vazar por frestas de muros como uma sentença. Alguém devia ter desistido de nós, deixando-nos no cerne da noite em Lisboa, talvez Luanda. A guerra, uma criatura que nos farejava. “Onde estamos?”. A pergunta não podia ser essa. Ela não resumia o pavor de entranhas que nos corroía  Vozes abandonadas em suas existências nocturnas.

“Quem nos abandona neste deserto de desassossegos?”


Não me ignores madrugada
José Luís Atilano, Braga

Já não encontro o cheiro à chuva no relógio de gerações que o ontem de manhã arrastou numa guitazinha presa aos olhos, juntamente consigo. Desde que o senhor ou o doutor
(ou outra coisa desconhecida…
- Quem?)
abandonou o Miguel Bombarda, que me é difícil
(ou é-me impossível e isto não são palavras)
escrever sobre a cor da chuva que escoa em Agosto as correntes do estábulo
(às vezes lembro-me, num escurecer de lustre que a meia-noite banha…ora que estupidez, não me lembro coisa nenhuma, tenho antes a clara impressão de ver o consultório com um António lá dentro, preso nos ontens de um Antunes na parede branca ou do abrir da porta que dá mundos ao corredor dos passos, e o corredor ou os passos vazios de tudo, com um lobo a carpir
- Ele quer exortar fantasmas!)
- Tocaram à campainha
(nós que nem campainha…sem electricidade há meses)
A porta aberta ao limiar da charneira de si mesma e uma surdez de nada num cheiro a vinagre, saudade e água, com a minha avó lá fora a imolar galinhas num escambro de fim de tarde.


F(ALA)RIO
Georgina Noronha, Paço de Arcos

- Não entres tão depressa nessa noite escura, só encontrarás o Arquipélago da Insónia, onde navegam as naus que vão para os cus de Judas.
- O meu nome é Legião, e com o conhecimento do Inferno que adquiri, quem é para me dar conselhos?
- Foi porque ontem não te vi em Babilónia e porque, hoje e sempre, eu hei-de amar uma pedra, quer sejas tu, ou outra qualquer, que aqui estou.
- Que cavalos são aqueles que fazem sombra no mar?
- Segundo a ordem natural das coisas, serão cavalos marinhos, mas  à meia-noite, de uma noite escura é certo e sabido, que não fazem sombra no mar.
- Que farei quando tudo arde?
- Já vi que engoliste o Manual dos Inquisidores, mas eu vou dar-te a explicação dos pássaros: voa, qual Fénix renascida, e depois diz bom dia ou boa tarde às coisas aqui em baixo, nunca boa noite.
- Isso até parece o Fado Alexandrino “disseste bom dia e era noite lá fora”, conheces? Do meu amigo Vitorino?
- Claro que sim, sei a letra toda, tenho uma memória de elefante, sabes? Do esplendor de Portugal, à morte de Carlos Gardel, passando pelo que comi hoje, tudo está em memória.
- Se fosse a si, escrevia livros … sermões. Sei de um que escreveu um sermão aos peixes, chamava-se António, parece que era Santo.
- E eu escrevo livros, também me chamo António, não sou santo, por enquanto, e escrevi  uma exortação aos crocodilos, voilà.
- Eu também escrevi, fui escriba … escrivão … de Autos, escrevi o Auto dos Danados, e fui acusado de perdas e danos e demitido. Houve  choro e ranger de dentes. 
À boa maneira lusa, tratei de criar logo uma comissão, a comissão das lágrimas. De nada serviu e, agora, aqui estou, quer dizer, sou, um verdadeiro tratado, um Tratado das paixões da alma.


A vingança da naus
Anabela Pereira, Vila Nova de Gaia

As naus grivam desfraldadas sôbolos rios que vão 
e o vento burila gelhas nos nervos da meia-noite. 

Para onde quer que olhe, ainda é cedo. Muito cedo 
para dizer boa tarde às coisas aqui em baixo e montar
que cavalos são aqueles que fazem sombra no mar. Que 
besta do paraíso viveu a morte de Carlos Gardel
em troca da vida  de quem nos mata. Quem desceu na história 
do hidroavião para o conhecimento do inferno em que se tornou 
o esplendor de Portugal: triste arquipélago da insónia transportando 
sob um braço amputado de glória
o eterno manual dos inquisidores.

Desci à sua memória de elefante e nos seus cus de judas 
esquadrinhei, entre a ordem natural das coisas, o fado alexandrino 
que fala da saudade. Não tenho comigo o tempo do homem tratado 
das paixões da alma, da explicação dos pássaros, 
da exortação aos crocodilos. Não tenho quem chegue, 
não tenho quem parta. O seu nome é Legião e perdêmo-la
quando desenfreamos até ao alto dos danados. E procurámo-la, 
perdidos. Ontem não a vimos em Babilónia, e hoje 
mitigamos, com os dedos no rosto, a comichão das lágrimas. 

Que farei amanhã quando tudo arde e eu não entrar tão depressa 
nessa noite escura? Nessa lama cega, 
nesse odor de grito,
onde eu hei-de amar uma pedra 
em que me sentei a escrever d`este viver 
aqui,
neste papel descripto.



O António do Benfica
Simão Fonseca, Vila Nova de Famalicão


É um mimo ver o António a patinar pelas folhas de dezenas de romances, puxando do stick, não sem primeiro medir bem a intensidade e o efeito para atacar o próximo parágrafo e aí, sim, humedece a língua, coloca-la de fora, e a Bic desata a deslizar pelo ringue de páginas. Quer se queira, quer não, o outrora miúdo de olhos azuis e cabelo louro é o grande capitão das letras e o mais que digno escriba dos camões. Finta um, finta outro, segura a bola, pára, arranca rumo aos escaparates e golo pela certa: meia-noite e fazem fila para abraçarem o novo tomo.

Redigiu já quase trinta equipas, recebeu inúmeros galardões pelas suas vitórias e é candidato à Bola de Ouro Médicis. Enfim, o crónico candidato para vencer o Campeonato de Estocolmo. Quem é, quem? É o António do Benfica, pois claro.


Malmequer
Gracinda Menezes, Algés

António Lobo Antunes, além de ser fisicamente parecido com o meu primeiro e último (nem sempre sabemos o que é “o último“) amor, também me faz reviver, através de alguns dos seus livros, sentimentos, emoções, alegrias e tristezas, personagens de quem tenho saudades. Seria o meu amante perfeito, não fosse eu uma senhora de meia-idade e ele um senhor da minha ficção. “Eu hei-de amar uma pedra” foi um desses livros que devorei numa noite, em que  recordei uma história  em que a última pétala era a Bem me Quer.


Insónia
Nuno Camisa, Lisboa

É meia-noite e continuo acordado. Mais uma vez, a insónia ataca no domingo à noite. Não é a primeira vez, nem será a última. Na verdade, nenhum mal vem ao mundo por não conseguir dormir, se resolver ignorar que às seis da manhã tenho de estar a pé.
Na casa, reina o silêncio, levando a que cada acção seja praticada na mais profunda discrição. Faço mais um zapping à procura de algo, que não sei ao certo o quê. Publicidade, publicidade, novela, publicidade, telemarketing e mais publicidade. Por esta altura, sou já o menos exigente dos espectadores. Dêem-me uma série ou um filme, que para mim chega. Mais uma busca, o mesmo resultado.
Por fim, vislumbro uma cara conhecida, Anthony Bourdain e as suas aventuras gastronómicas. Problema resolvido, agora é só esperar que as imagens me levem para um qualquer local paradisíaco, enquanto o sono não me leva de vez. Mas, eu reconheço aquela ponte; e aquela rua também não me é estranha; não pode ser, eu já estive a beber copos naquele bar. Finalmente, as minhas dúvidas são respondidas, este episódio é sobre Lisboa.
Provavelmente, esta dissertação televisiva não me adiantará em nada. Devo conhecer quase todos os locais. Contudo, com o saudosismo próprio dos portugueses, sinto-me atraído por aquele retrato da minha cidade.
Já não apanhei o programa de início, mas àquela hora, até os cinco minutos finais seriam bem-vindos. Num sotaque nitidamente americano, o apresentador anuncia que vai a uma casa de fados no Bairro Alto, acompanhado por um autor português. É com algum espanto que recebo a notícia que o autor em causa se trata de António Lobo Antunes. Nunca li nada dele, e, de facto, nunca ouvi alguém falar positivamente da sua escrita. Outro episódio que me ficou marcado foi uma vez que o encontrei na feira do livro. Sentado a fumar, constantemente a revirar os olhos e com uma arrogância tal, que me deixou com náuseas. Pelo que, a minha opinião acerca dele, não era a melhor.
A princípio, fui ouvindo cada comentário seu, com a mesma impaciência de quem espera pelo metro. Contudo, houve algo que me chamou a atenção. A sua postura, naquele momento numa casa de fados, num programa reconhecido internacionalmente, era exactamente a mesma da feira do livro. A falar, pausadamente, ia dialogando com o americano ao ritmo que bem entendia. Fumando um cigarro e bebendo um copo de tinto. A realização fez questão de mostrar um sinal que dizia Proibido Fumar, mas as regras só têm o valor que lhes quisermos conferir.
Não sei bem em que momento foi, porém à medida que a cena foi decorrendo, a minha impressão acerca do autor foi mudando drasticamente. Talvez tenha sido a atitude Tou-me a lixar, ou as críticas, factuais, à ditadura do Estado Novo; contudo no fim daquele excerto fiquei boquiaberto. Pai, o que é a democracia? Cala-te e como a sopa.
No dia seguinte, peguei no livro Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra No Mar. Já tinha lido muitos autores diferentes, muitos estilos literários diferentes, contudo nenhum assim. A escrita densa e envolvente, a narrativa avançando aos solavancos, quase como o decorrer de pensamentos de cada uma das personagens, o ambiente negro e deprimente, a gramática simples e minimalista.
Não sei o que esperar do próximo livro, contudo é certo que manterá os padrões elevados do anterior. Far-me-á ficar agarrado da primeira à última página, quer queira quer não.



26/09/2012

António Lobo Antunes é o escritor homenageado na edição deste ano da Escritaria de Penafiel

Notícias na imprensa de hoje:
O novo livro de ALA será apresentado em
Penafiel durante a edição da Escritaria, este
ano dedicado ao escritor, que decorrerá de
26 a 28 de Outubro.
Escritaria em Penafiel: Lobo Antunes é o convidado e apresenta novo livro
Depois de Urbano Tavares Rodrigues, José Saramago, Agustina Bessa-Luís e Mia Couto, o ESCRITARIA é dedicado este ano a António Lobo Antunes, que apresentará em Penafiel o seu novo livro "Não é Meia Noite Quem Quer".
Penafiel será de novo em Outubro, de 26 a 28, palco do maior festival literário em torno de um escritor de língua portuguesa vivo.
O denominador comum às peças de teatro, à arte de rua, aos colóquios e a inúmeras outras actividades em Penafiel será a obra literária de António Lobo Antunes.
Haverá por exemplo declamadores da obra do Lobo Antunes pelas ruas e cafés de Penafiel, além da animação de rua e da arte de rua, patente nos edifícios, estradas e outros locais públicos.
Durante o ESCRITARIA será feita a apresentação do novo livro de Lobo Antunes, por Ana Paula Arnaut.
A TSF é, pelo segundo ano consecutivo, parceira desta iniciativa.

fonte: TSF
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O escritor António Lobo Antunes vai apresentar o seu novo livro «Não é Meia Noite Quem Quer» na edição de 2012 do Festival Literário Escritaria, em Penafiel.
António Lobo Antunes vai também ser o escritor homenageado deste certame que decorre pela quinta vez em Penafiel.
Como nas edições anteriores, o evento vai «tomar conta, de 26 a 28 de Outubro, das artérias da cidade, através do teatro, arte de rua, colóquios e inúmeras actividades em torno da obra literária de António Lobo Antunes».

fonte: Diário Digital / Lusa

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António Lobo Antunes apresenta novo livro no festival Escritaria em Penafiel
O escritor António Lobo Antunes vai apresentar o seu novo livro “Não é Meia Noite Quem Quer” na edição de 2012 do Festival Literário Escritaria, em Penafiel.
António Lobo Antunes vai também ser o escritor homenageado deste certame que decorre pela quinta vez em Penafiel.
Como nas edições anteriores, o evento vai “tomar conta, de 26 a 28 de outubro, das artérias da cidade, através do teatro, arte de rua, colóquios e inúmeras actividades em torno da obra literária de António Lobo Antunes”.
Segundo a organização, a apresentação do novo livro do homenageado vai estar a cargo de Ana Paula Arnaut.
Nas edições anteriores do Escritaria foram homenageados Urbano Tavares Rodrigues, José Saramago, Agustina Bessa-Luís e Mia Couto.
António Lobo Antunes foi distinguido em 2007 com o Prémio Camões, o mais importante prémio literário de língua portuguesa.

fonte: Jornal I

24/09/2012

Capa de «Não É Meia Noite Quem Quer» + sinopse


O enredo do livro desenvolve-se em três dias, sexta-feira, sábado e domingo. Uma mulher com perto de cinquenta anos vai passar um fim-de-semana na casa de férias da família, numa praia não identificada. A casa, modesta, foi vendida e ela quer despedir-se da casa, mas também relembrar tudo o que se passou ali - a sua infância com os pais e os irmãos, o suicídio do irmão mais velho, o irmão surdo-mudo, o complexo e dramático relacionamento dos pais, a menina da casa em frente, sua amiga do tempo de férias. Vem depois a sua vida actual, mal casada, sem filhos, professora numa escola como tantas outras, com uma relação frustrante e sem entusiasmo com uma colega mais velha... O falhanço que é a sua vida reflecte-se na casa há muito desabitada e nos sonhos de todos eles, ali irremediavelmente enterrados. A despedida da casa pode levá-la a imitar o irmão mais velho e, no domingo, atirar-se das arribas e encerrar ali uma vida sem futuro.

15/09/2012

António Lobo Antunes em reportagem do canal Arte

Este domingo, dia 16/09, às 10H45 (Lisboa), o canal Arte passa uma entrevista com António Lobo Antunes feita recentemente em Lisboa:

À Lisbonne, Vincent Josse rencontre António Lobo Antunes autour de son dernier roman La nébuleuse de l'insomnie
Figure majeure de la littérature contemporaine, António Lobo Antunes, très populaire malgré l'exigence de son écriture, ne cesse de raconter dans ses romans la société et l'histoire portugaises, les conflits coloniaux, la dictature salazariste, la révolution des Œillets, la démocratie et son lot de promesses non tenues. Rencontre avec un géant, qui veut « mettre toute la vie dans les livres », à l'occasion de la parution en juin dernier de son dernier roman La nébuleuse de l'insomnie (Éd. Christian Bourgois).
[Em Lisboa, Vincent Josse entrevistou António Lobo Antunes, que publicou recentemente (em França) O Arquipélago da Insónia. | Personalidade maior da literatura contemporânea, António Lobo Antunes, muito popular apesar da exigência da sua escrita, continua a retratar nos seus romances a sociedade e a história portuguesas, os conflitos coloniais, a ditadura salazarista, a revolução dos cravos, a democracia e as suas promessas por cumprir. Entrevista com um gigante, cuja ambição é "colocar a vida entre as capas dos livros", por ocasião da publicação em Junho passado do seu mais recente romance (em França) O Arquipélago da Insónia (edição Christian Bourgois)]

O programa será ainda retransmitido neste canal (falado em francês) no dia 22, pelas 7H00 de Lisboa. Duração aproximada: 43 minutos.

* fonte: www.arte.tv




08/09/2012

«Não é meia-noite quem quer» (crónica)


Há anos que este verso de René Char me persegue. Pensei usá-lo como título para um livro, como coda para um capítulo, fazer variações em torno dele num texto qualquer. Não fiz nada, até agora, porque me anda na cabeça mas não me aparece na mão, e só consigo escrever com os dedos, os miolos não pegam na esferográfica. Por qualquer motivo obscuro o bico da caneta não o aprova. E, no entanto, volta não volta lembro-me dele. Por exemplo quando me cruzo com a mendiga estrangeira, alemã ou holandesa, não sei, a pedir esmola no semáforo aqui perto. Dorme, com os seus sacos de plástico, na paragem do autocarro quase por baixo da minha janela, puxando trapos para si. Nunca lhe entendi a língua, mais sopros que palavras. Espera que o sinal fique vermelho e percorre os automóveis, de mão estendida, a murmurar. As pessoas dos carros fingem que não vêem, olhando, fixas, para diante: uma desgraçada, mais uma, o que não falta por aí é gente assim. O sinal torna-se verde e ela corre para o passeio, com os sacos. Um grande amigo meu, José Cardoso Pires, que não tinha muito dinheiro, que tinha muito pouco dinheiro, dava-o a todos aos infelizes que encontrava na rua. Isto era uma das coisas que eu mais admirava nele. E sentia-o, por dentro, comovido, o Zé que tentava sempre esconder as emoções. Fazia livros, como eu. Era irascível, temperamental, muitíssimo corajoso. Infelizmente a estrangeira nunca o encontrou. É em seu nome que entrego moedas à mulher

- Da parte do Zé

embora duvide que ela me entenda, ou oiça sequer. Não faz mal: oiço e entendo eu.

Não é meia-noite quem quer, que deslumbramento para mim: olha o meu pai no hospital, de bata, olha eu no hospital, a sofrer. Já não sofro: cansei-me de dar prazer à desgraça. Se acontecer alguma chatice leva-me mas não me aborreças. Na recruta, a certa altura, tinha um pé inchadíssimo, de uma queda naqueles exercícios que por lá se faziam, custava-me a andar como o caneco, mas continuava, a repetir para mim mesmo

- É só dor, é só dor

e foi aí que comecei a não ter vergonha de mim. Ainda hoje

- É só dor

e a gente aguenta. Apesar de tudo não é meia-noite quem quer, não é verdade? Há uns tempos que não encontro a estrangeira: terá mudado de poiso, terá morrido? Ninguém morre, que ideia mais idiota, morrer. A prova é que o meu pai, por exemplo, continua a andar, de bata e cachimbo, no hospital, não me tiram isto da ideia:

- Os meus rapazes

dizia ele dos filhos

- Os meus rapazes

e os seus rapazes cá estão, mais ou menos mas cá estão, olha este sol agora, a entrar casa dentro, o chão iluminado, os móveis, as paredes, as folhas das árvores com tantas cores diferentes, porque não convidá-las

- Não lhes apetece entrar?

começo a fazer esta crónica com pausas dado que a mão vazia, parece que tropeça na página, lá se recompõe, a pobre, ameaça desmaiar de novo, um livro na estante, não sei ao certo onde, à minha esquerda, acho eu, principia a conversar comigo, pergunta uma coisa que não entendo bem, não lhe respondo, faço um gesto sem destino na esperança de contentá-lo, o livro cala-se, que esquisitos os livros, tanta barulheira às vezes. Acabei o meu trabalho ontem, seguem-se os habituais meses de pousio, quando não ando às voltas com um romance o mundo torna-se estranho, devia ir para os semáforos com sacos de plástico

- Uma ajudinha, amigo

e fico aqui a ler, na mesma mesa em que rabisco as páginas, que silêncio nas coisas, que vazio, não é meia-noite quem quer, rodeio-me de pessoas que não existem, rodeio-me de vozes, sinto-me cheio de palavras que não amadureceram ainda, não palavras, larvas de palavras, imagens que surgem e se desvanecem, desfocadas, fugidias, peço a mim mesmo

- Uma ajudinha, amigo

vejo o Zé à cata de dinheiro nos bolsos, ainda me toca passar na rua dele, há-de tocar-me sempre

- Uma ajudinha, amigo

a eterna queixa do Zé

- Como é que eu consigo gramar um gajo que gosta de comida de avião?

e é verdade, gosto de comida de avião, voltar a brincar aos jantarinhos com todos aqueles plásticos com coisas dentro, folhinhas, raminhos, pedrinhas, porcarias e eu com ar solene de quem almoça a sério, gosto de pedir vinho branco e ter medo que se espantem

- Vinho branco na sua idade?

e se queixem à minha mãe

- O miúdo bebe às escondidas

a minha mãe, severa

- Que história é essa do vinho?

mesmo que experimente amaciá-la com uma lista de bêbados ilustres

- Quero lá saber do Hemingway

confesso que realmente, eu que não tomo álcool, me bato com uma garrafa de vinho branco nos aviões, a indignação dela a aumentar

- E que fazes tu nos aviões, já agora?

quando devia estar no quarto às voltas com raízes quadradas e, aqui para nós, realmente devia, demorei que tempos a perceber porque chamavam quadradas às raízes, quer dizer, percebo vagamente, o professor acha que percebo e deixa-me em paz, no fundo não percebo

- Não sei nada da vida, senhor, desculpe

e não sei nada porque não é meia-noite quem quer, raio de verso, que mal fiz eu a Deus para me perseguires, a minha mãe não desiste

- Como estamos com a mão na massa a léria de ir para os semáforos é verdade?

eu com a estrangeira, alemã ou holandesa, nos sinais vermelhos, murmurando para os carros parados, com as pessoas, surdas, a olharem em frente, agarrando o volante com mais força, lá recolhemos ao passeio quando o verde chega, os dedos dela, com um resto de luva, pesam-me no ombro, hoje não durmo em casa, durmo na paragem do autocarro, e talvez não seja má ideia de todo porque, em frente, num out-door, há uma rapariga em lingerie, lindíssima, que de vez em quando me pisca o olho.


António Lobo Antunes
crónica na Visão
Janeiro de 2011

06/09/2012

Mariana Klafke: dissertação sobre As Naus


As Naus, de Lobo Antunes: a desconstrução do império português

[...]
A obra de Lobo Antunes é classificada, digamos que “didacticamente”, em quatro ciclos, que não contemplam todos os romances, mas dão o panorama dos temas mais explorados pelo autor: 1) aprendizagem (Memória de Elefante, 1979; Os Cus de Judas, 1979; Conhecimento do Inferno, 1981); 2) anti-epopeias (Explicação dos Pássaros, 1981; Fado Alexandrino, 1983; Auto dos Danados, 1985; As Naus, 1988); 3) trilogia de Benfica (Tratado das Paixões da Alma, 1990; A Ordem Natural das Coisas, 1992; A Morte de Carlos Gardel, 1994); 4) poder (O Manual dos Inquisidores, 1996; O Esplendor de Portugal, 1997; Exortação aos Crocodilos, 1999; Não Entres Tão Depressa Nessa Noite Escura, 2000). Neste ensaio, pretendo trabalhar com um romance da fase das anti-epopeias, As Naus, procurando apontar questões referentes à desconstrução histórica presente na obra e à impossibilidade do retorno.

Em As Naus, de 1988, Lobo Antunes trabalha com uma espécie de releitura da história das glórias marítimas lusitanas, inserindo a África e questões políticas e sociais do século XX neste quadro. A problemática predominante aqui é a do retorno: no romance, dois momentos diferentes da história de Portugal, as viagens dos descobrimentos (séc. XVI) e a descolonização da África pós-25 de Abril (séc. XX), são apresentados de forma entrecruzada, em uma grande metáfora na qual tudo é possível. “O romance traz para o século XX as figuras representadas no discurso épico do registo das viagens pelo mar e as actualiza na história de Portugal, ao encenar o desfecho trágico da colonização africana, com destaque para Angola, principalmente” (OLIVEIRA, 2008).

Segundo Margarida Calafate Ribeiro (2004), com o 25 de Abril de 1974 se encerrava um período de cinco séculos de existência real e imaginada de um determinado Portugal, colonizador; se encerrava principalmente o período de um Portugal colonizador de África, processo que condicionou fortemente a política portuguesa desde o final do século XIX até à queda do Estado Novo salazarista. Ribeiro define a literatura que trata dessa experiência como “narrativas de regresso”: "Na literatura que narra estes regressos das margens ao país imaginado – a que chamei “narrativas de regresso” do pós-25 de Abril (Ribeiro, 1998: 132) – assistimos a um movimento de repensar a nação, que, entre o espaço aberto pela revolução e a revisitação das ruínas do império, da guerra, do exílio, da ditadura ou da nossa própria história, tenta reimaginar o centro, já não enquanto espaço monolítico de representação de uma ficção nacional unificadora, mas no sentido em que Jacques Derrida o define, ou seja, como função aglutinadora de uma série de imagens diversas, polifónicas e fragmentárias que compõem o retrato precário da nação que se dispersou (apud Hutcheon, 1996: 60)" (RIBEIRO, 2004, p. 236).

Boaventura de Sousa Santos afirma que “a relação colonial protagonizada por Portugal impregnou de modo muito particular e intenso as configurações de poder social, político e cultural, não só nas colónias como no seio da própria sociedade portuguesa” (SANTOS, 2008, p. 228). A questão colonial é essencial na literatura portuguesa. De forma particular, essa experiência da guerra colonial foi transformada em uma linha narrativa cuja função passou rapidamente de individual (escrita terapêutica) à colectiva (reescrita do processo que culminou no fim do colonialismo português). A literatura cumpriu o papel de romper com o silenciamento social e político que se seguiu à libertação das últimas colónias africanas, tratando de elaborar colectivamente a experiência, bem como refletir sobre a identidade portuguesa e o novo lugar de Portugal na ordem mundial (RIBEIRO, 2004).

Em As Naus, os retornados de Angola, ex-colónia portuguesa que se tornou independente após um violento processo que se estendeu de 1961 a 1975, carregam os nomes de personagens relacionados ao período das conquistas marítimas portuguesas: Pedro Álvares Cabral, Luis de Camões, Diogo Cão, (São) Francisco Xavier, Manoel de Sousa Sepúlveda, Vasco da Gama, entre outros, figuram no romance como personagens híbridos, que carregam a identidade histórica cujo nome indica, mas também trazem histórias de vida de portugueses comuns que deixaram Portugal em busca de oportunidades. Híbrido também é o próprio encaminhamento do enredo, cujo tempo oscila entre século XVI e século XX, se passando a narrativa em algum lugar híbrido entre a Lisboa da partida e a Lisboa do retorno (OLIVEIRA, 2008).

Recheado de experimentalismos de linguagem e subversivo em relação às instâncias narrativas canónicas (tempo híbrido, construção fragmentária do narrador etc.), As Naus desconstrói a tradição épica portuguesa e o discurso histórico oficial através da sátira, desmistificando figuras históricas através do rebaixamento. Conforme Urbano Cavalcante da Silva Filho (2007, p. 50), “Lobo Antunes, fazendo uso do que a crítica canadense Linda Hutcheon cunhou de metaficção historiográfica, problematiza o discurso histórico e permite uma reflexão acerca da constituição identitária do indivíduo na contemporaneidade”. Trata-se ainda de um processo de carnavalização, no sentido do conceito elaborado por Bakhtin: As Naus aborda a história e a cultura do povo português utilizando efeitos cómicos e paródicos, buscando ao mesmo tempo o riso e o grotesco.

O romance se constrói em torno dos dramas de portugueses, ex-colonos, que retornam a Portugal, sem, contudo, poderem se reintegrar à pátria. São pessoas degradadas, doentes, envelhecidas, mentalmente confusas, que retornam à pátria que já não reconhecem e pela qual já não são reconhecidos. Em certa altura, uma prostituta de Luanda, apaixonada e à procura de Diogo Cão em Lisboa, afirma: "Nunca encalhei, no entanto, em homens tão amargos como nessa época de dor em que os paquetes volviam ao reyno repletos de gente desiludida e raivosa, com a bagagem de um pacotinho na mão e uma acidez sem cura no peito, humilhados pelos antigos escravos e pela prepotência emplumada dos antropófagos" (ANTUNES, 1988a, p. 200).

Trata-se de uma nova epopeia para os colonos de África do século XX, esta a do retorno; porém, mesmo sendo retorno para sua pátria, ainda assim é um encontro com o desconhecido, com tanto choque, estranhamento e contraste quanto fora a chegada nas colónias. O homem chamado Luís, Camões, declara: "[...] palavra que imaginava uma enseada repleta de naus aparelhadas que rescendiam a noz-moscada e a canela, e afinal encontrei apenas uma noite de prédios esquecidos a treparem para um castelo dos Cárpatos pendurado no topo, uma ruína com ameias em cuja hera dormiam gritos estagnados de pavões" (ANTUNES, 1988a, p. 92)

O autor elaborou um interessante procedimento de diálogo entre passado (período quinhentista) e presente (período da descolonização, no século XX) e de oscilação entre real (referências históricas) e ficcional. Ao dar aos personagens de As Naus nomes de figuras históricas que fazem parte do inconsciente colectivo luso e localizá-las em ambientes actuais e degradados, Lobo Antunes desmistifica o passado português e insinua a revisão dos mitos. Esse procedimento é característico da tendência pós-moderna, que trabalha com tensões entre ficção e história, presente e passado, particular e geral (SILVA FILHO, 2007).

A mistura entre dois tempos históricos perpassa todo o romance, sendo essencial na construção desse sentido paródico que o mesmo carrega. "Passando por uma placa que designava o edíficio incompleto e que dizia Jerónimos esbarrámos com a Torre ao fundo, a meio do rio, cercada de petroleiros iraquianos, defendendo a pátria das invasões castelhanas, e mais próximo, nas ondas frisadas da margem, a aguardar os colonos, presa aos limos da água por raízes de ferro, com almirantes de punhos de renda apoiados na amurada do convés e grumetes encarrapitados nos mastros aparelhando as velas para o desamparo do mar que cheirava a pesadelo e a gardênia, achamos à espera, entre barcos a remos e uma agitação de canoas, a nau das descobertas" (ANTUNES, 1988a, p. 10).

Neste trecho, a narrativa combina duas realidades temporais, ao referenciar elementos próprios do período histórico quinhentista das navegações (almirantes de punhos de renda, grumetes encarrapitados nos mastros, nau das descobertas) no mesmo espaço e momento em que se encontram elementos do século XX (petroleiros iraquianos).

Outro ponto interessantíssimo da construção de As Naus está na narração, que oscila entre primeira e terceira pessoas constantemente. Lobo Antunes constrói uma narrativa em que várias vozes se manifestam, em contraponto ao que seria uma visão única da História portuguesa. Para exemplificar esse processo, um trecho em que Pedro Álvares Cabral procura a esposa prostituída, a essa altura já amante de Manoel de Sousa de Sepúlveda, para pedir dinheiro; há mudança de terceira para primeira pessoa na narração sem qualquer espécie de mediação: "Cabral viu a esposa erguer-se da sua tábua de melhoramentos plásticos, idêntica às imagens das igrejas de manhã, pulverizadas pelo sol rebentado como um fruto nos vitrais de degolações de mártires da nave principal, de forma que se levantou, estarrecido, de tornozelos embaraçados na espada, avançou um passo lento, como se caminhasse sobre a água, para aquela aparição de beata laica preparada para a visita hebdomadária do senhor Sepúlveda da moldura do piano, e perguntei a medo, roçando com a ponta dos dedos a sua inacessível atmosfera de perfume e pó de arroz, Tens por acaso doze contos e quinhentos que me emprestes?" (ANTUNES, 1988a, p. 173).

É importante também a escolha de termos como Lixboa e Reyno, na grafia quinhentista, chamando a atenção assim, através do plano linguístico, para uma atitude passadista na mentalidade portuguesa. Por um lado o romance traz referências ao passado em personagens, caracterizações, cenários e até mesmo na grafia arcaica, e por outro, o presente se manifesta em referências à Revolução dos Cravos e às descolonizações africanas, marcando a decadência dos sonhos e mitos e o não cumprimento das promessas de um Portugal grandioso e glorioso (TAVARES, 2009). O período da Guerra Colonial parece ser na narrativa uma espécie de contraponto ao momento quinhentista das descobertas, construindo uma crítica ao discurso de louvor ao passado português, discurso este que passa por Os Lusíadas, se aporta no mito sebastianista, chega em Mensagem, enfim, discurso que é uma longa e sólida tradição lusitana (OLIVEIRA, 2008). Lobo Antunes inclusive já declarou considerar As Naus o “decrescendo” que faltava d’Os Lusíadas: "Era a história dos retornados – portanto, a primeira história era menos ambiciosa. Era só a história da volta a Portugal (que horror, isto assim dito parece conversa de ciclismo). [Risos] Mas depois é que me começou a surgir a ideia de que podia fazer a segunda parte d’ Os Lusíadas: enquanto Os Lusíadas é um crescendo, eu faria o decrescendo. O livro até estava dividido nas partes d’ Os Lusíadas: Proposição, Invocação, Dedicatória e Narração. Bom, depois a determinada altura isto foi muito subvertido. Também porque este foi o primeiro livro que escrevi sem um plano muito definido, muito minucioso…" (ANTUNES, 1988b)

Mais do que tratar de um presente depreciativo de Lisboa, Lobo Antunes parece refletir sobre uma história que prometeu muitas glórias e conquistas e muito pouco se cumpriu, ou ao menos se pode dizer que em degradação geral resultou. Sob diversos pontos de vista, mas em especial político, económico e social, Portugal foi uma falsa promessa.

O romance se estrutura através de sete núcleos narrativos, que giram em torno de personagens, em maioria, históricos: Pedro Álvares Cabral (navegador português, chegou ao Brasil), “homem chamado Luís” (Camões, escritor português), Francisco Xavier (jesuíta que serviu no Oriente, “apóstolo das Índias”), Diogo Cão (navegador português, realizou o reconhecimento da costa ocidental africana), Manoel de Sousa Sepúlveda (fidalgo e militar português, serviu na Índia), Vasco da Gama (navegador português, descobriu caminho marítimo para Índia) e um casal de idosos retornados de Guiné (ficam logo muito marcados pela repetição de “eu não pertenço aqui”). É curioso que sejam estes últimos os únicos personagens realmente centrais anónimos. Em entrevista (ANTUNES, 1988b), Lobo Antunes afirmou que nas primeiras versões, As Naus era somente uma história de retornados, com nomes normais, e que esse casal restou assim anónimo dessa versão primeira.

Pedro Álvares Cabral é um retornado de Angola, na miséria, com o filho e a esposa mulata que é obrigado a prostituir para se instalar no Residencial Apóstolo das Índias, para onde é mandado ao chegar. Francisco Xavier é retratado como aliciador de mulheres para prostituição e dono da terrível Residencial Apóstolo das Índias, paródia ao título dado ao personagem histórico São Francisco Xavier: trata-se de uma espécie de pensão decadente na qual se amontoam seres humanos em ambiente de absoluta degradação. Em certa altura, Francisco Xavier é apresentado como um “falso santo”, “que adquirira o hábito de colar à nuca uma auréola de santo decorada por lampadazinhas de várias cores que lhe forneciam o aspecto equívoco do anúncio de uma marca de pilhas [...]” (ANTUNES, 1988a, p. 230). No romance, São Francisco Xavier não converte homens ao cristianismo, mas mulheres à prostituição. "Se fossem necessárias provas, a certeza acabada de que Deus está comigo é que mandei segunda-feira, embelezadas de lantejoulas e de xailes, trinta e oito africanas para as discotecas da Avenida Almirante Reis e do Martim Moniz, sem falar, ó servos do Senhor, nas que espalharam as ancas demoradas pelos jardins e pátios da cidade, de Belém à Ajuda, fumando no passeio Marlboros pacientes. Em pouco tempo, e graças à bênção do Pai, um desmesurado rebanho de convertidas à Fé ocupava todos os bairros de Lixboa até às docas de Alcântara" (ANTUNES, 1988a, p. 106).

O homem chamado Luís, Camões, retornado de África para enterrar o pai, circula boa parte do romance com seus restos mortais e acaba por livrar-se dele como adubo, em episódio grotesco com personagem chamado Garcia da Orta, em referência ao médico e naturalista português. O homem chamado Luís está escrevendo seu poema, Os Lusíadas, e só termina após livrar-se dos restos mortais paternos. Vasco da Gama é um jogador inveterado, às voltas com o rei D. Manuel, ambos decadentes, relembrando passado, até serem presos (ao lado da cela de António José da Silva, o Judeu!) sem que os reconheçam, e metidos em um hospício. Na cena do julgamento, há referências interessantes à situação do povo português: "[...] os levaram, de barba por pentear, sem terem tomado banho nem escovado os dentes, sem se perfumarem das essências da sua condição de nobres, sem se despedirem do batoteiro dos dois canos entretido com uma nova farsa de robertos, a uma sala de estuque leproso chamada de Tribunal de Polícia, munida de vários bancos compridos de sacristia em que se sentava um público de curiosos e desempregados, o vosso povo, o pobre povo de Lixboa, Senhor, o que em mil quatrocentos e noventa e oito se amontoou na praia do Restelo para me ver partir, aquelas caras sérias lavradas pelo desengano da desgraça, aqueles olhos sem esperança, aquela roupa gasta, o povo que não esperava nada de Vós ou de mim por não esperar nada de ninguém nem de milagre algum e me fitava com a expressão sem expressão com que se observam os filhos antes de os entaiparem nas urnas, a vossa raça de heróis e marinheiros, majestade, a que definha de diarreia de leite de coco na Guiné, vagueia, a beber água choca, nas dunas de naufrágio de Moçambique e ferve nas tabernas da Madragoa e do Castelo a discutir histórias de escunas [...]" (ANTUNES, 1988a, p. 188).  

Diogo Cão é retratado como um bêbado alienado, fascinado na procura por sereias, alheio ao mundo que o cerca. Manoel de Sousa Sepúlveda é envolvido com comércio ilegal, prostíbulos, boîtes, bares, um milionário fora da lei; pior do que tudo, gosta de observar meninas de liceu. Sepúlveda lida com todo tipo de negócios obscuros e/ou degradantes: "Emprestou dinheiro a D. João de Castro para urbanizar Goa, forneceu a Camões a possibilidade de uma edição de bolso de Os Lusíadas, com bailarinas nuas na capa, publicada numa colecção de romances policiais, ajudou o poeta lírico Tomaz António Gonzaga na benfeitoria do seu comércio de escravos, e envolveu-se na Guerra das Rosas, tomando partido pelas duas famílias, na esperança de casar-se com o inglês de Linguaphone de uma duquesa ruiva" (ANTUNES, 1988a, p. 106).

O casal retornado da Guiné não tem mais qualquer perspectiva de futuro: enquanto a mulher afirma “Eu não pertenço aqui” (ANTUNES, 1988a, p. 54), o marido coloca: “Já não pertencemos nem sequer a nós” (ANTUNES, 1988a, p. 54). A esposa acaba louca e o esposo sozinho, esquecido.

Para além destes núcleos narrativos, o romance é recheado de muitas mais referências a personagens históricos, que aparecem, em maior ou menor grau, deslocados e satirizados enquanto personagens do romance, assim como acontece com os personagens históricos que compõem os núcleos narrativos supracitados: Afonso de Albuquerque (fidalgo, militar, segundo governador da Índia portuguesa), Almeida Garrett (escritor português), Antonio José da Silva (dramaturgo e escritor luso), Bartolomeu Dias (navegador português), D. Dinis (sexto rei de Portugal), D. Francisco de Almeida (dupla referência: vice-Rei da Índia e governador de Angola), D. Fuas Roupinho (nobre português), D. Henrique (infante português, importante figura do início da era das descobertas), D. João de Castro (fidalgo português), D. Manuel (rei português), Federico Garcia Lorca (poeta e dramaturgo espanhol), Fernão de Magalhães (navegador português), Fernão Lopes (cronista português), Fernão Mendes Pinto (aventureiro e explorador português, escreveu Peregrinação), Gago Coutinho (oficial da armada, geógrafo, historiador, matemático e pioneiro da aviação), Garcia da Orta (médico e naturalista português que viveu na Índia no século XVI), Gil Vicente (dramaturgo português), Gomes Leal (poeta e crítico literário português), Luis Buñuel (cineasta espanhol), Lutero (religioso alemão, referência na Reforma Protestante), Miguel de Cervantes (escritor espanhol), Miguel de Vasconcelos (Secretário de Estado da duquesa de Mântua, vice-rainha de Portugal, em dependência do rei de Espanha; colaborador da dominação filipina), Nuno Álvares Pereira (militar português), Oscar Wilde (escritor irlandês), Pe. Antonio Vieira (religioso, escritor e orador português), Pêro Vaz de Caminha (escrivão da armada de Pedro Álvares Cabral), Sá de Miranda (poeta português), Tomaz António Gonzaga (escritor luso-brasileiro).

Além dessas referências que se realizam mais em termos de personagens da narrativa, mesmo que de passagem, há uma referência cómica ao poeta Fernando Pessoa: “[...] dezenas de Fernandos Pessoas muito sérios, de óculos e bigode, a caminho de empregos de contabilista em prédios pombalinos de beirais de loiça [...]” (ANTUNES, 1988a, p. 159). O autor ainda traz à tona algumas histórias, mitos e lendas importantes para o imaginário português, como o caso de Inês de Castro, a lenda do aio Egas Moniz e muitas referências a D. Sebastião e ao mito sebastianista. Nesse sentido, o final do romance é muito sintomático. Retornados de África, entre eles Camões, que foram instalados em um hospital de tuberculosos desocupado pelo governo, mas que é referido no capítulo também como hospício e traz a descrição de doentes presentes, crêem na volta gloriosa de D. Sebastião, elaboram um plano para restauração da independência, pois acreditam estar sob domínio espanhol, e rumam fugidos para a praia a esperar: "Esperámos, a tiritar no ventinho da manhã, o céu de vidro das primeiras horas de luz, o nevoeiro cor de sarja do equinócio, os frisos de espuma que haveriam de trazer-nos, de mistura com os restos de feira acabada das vagas e os guinchos de borrego da água no sifão das rochas, um adolescente loiro, de coroa na cabeça e beiços amuados, vindo de Alcácer Quibir com pulseiras de cobre trabalhado dos ciganos de Carcavelos e colares baratos de Tânger ao pescoço, e tudo o que pudemos observar, enquanto apertávamos os termómetros nos sovacos e cuspíamos obedientemente o nosso sangue nos tubos do hospital, foi o oceano vazio até à linha do horizonte coberta a espaços de uma crosta de vinagreiras, famílias de veraneantes tardios acampados na praia, e os mestres de pesca, de calças enroladas, que olhavam sem entender o nosso bando de gaivotas em roupão, empoleiradas a tossir nos lemes e nas hélices, aguardando, ao som de uma flauta que as vísceras do mar emudeciam, os relinchos de um cavalo impossível" (ANTUNES, 1988a, p. 247).

O romance de Lobo Antunes parece ser uma grande paródia, que desconstrói a história oficial portuguesa e critica um povo que vive demasiadamente ligado a um passado fantasiado e transformado em mito, eternamente à espera de um messias vindo do nevoeiro que lhe restitua um período de grandezas. Os portugueses parecem perdidos em uma luta identitária por se definir em relação ao que foram, ao que são e ao que podem ser. Além disso, no que se refere mais especificamente ao processo de descolonização, As Naus aponta para a impossibilidade do retorno dos portugueses espalhados pelas colónias a um Portugal que já não reconhecem e no qual são considerados cidadãos de segunda classe. As Naus apresenta um Portugal perdido entre passado e presente, que não se volta para o futuro, e para o qual o trauma da descolonização foi um golpe certeiro na identidade que o definia por séculos, como império ultramar.  

REFERÊNCIAS

ANTUNES, António Lobo. As Naus. Lisboa: Dom Quixote, 1988a.

ANTUNES, António Lobo. O regresso das caravelas (As Naus). [1988b]. Entrevista concedida à Revista Ler. Disponível em: . Acesso em: 23 jun. 2012. 

OLIVEIRA, Silvana. As Naus do discurso em António Lobo Antunes. In: XI Congresso Internacional da ABRALIC: Tessituras, Interações, Convergências – USP, 2008, São Paulo (SP). Disponível em: Acesso em: 14 mai. 2012. 

RIBEIRO, Margarida Calafate. Uma história de regressos: Império, Guerra Colonial e Pós-colonialismo. Lisboa: Afrontamento, 2004. 

SANTOS, Boaventura de Sousa. A gramática do tempo: por uma nova cultura política. 2ª ed. São Paulo: Cortez, 2008. 

SILVA FILHO, Urbano Cavalcante da. Identidade, história, paródia e desterritorialização: uma viagem n’As Naus de António Lobo Antunes. In: III SEMINÁRIO DE TEORIA E HISTÓRIA LITERÁRIA: Convergências Literárias – UESB, 2007, Vitória da Conquista (BA). Disponível em: Acesso em: 14 mai. 2012. 

TAVARES, Enéias Farias. O desencanto histórico e religioso no romance As Naus, de António Lobo Antunes. Nau Literária: Revista eletrônica de crítica e teoria literária, Porto Alegre, v. 05, n. 02, jul/dez 2009. 


por Mariana Klafke
Ler e (des)construir
13.08.2012

05/09/2012

Pedro Fernandes: opinião sobre Conhecimento do Inferno


[...] Faz poucos dias que findei a leitura do terceiro romance do António Lobo Antunes, Conhecimento do Inferno, publicado em 1980, e que fecha uma trilogia iniciada com Memória de Elefante e Os Cus de Judas, ambos publicados um ano antes, quando o escritor voltou da Guerra Colonial na África, largou a carreira nas artes médicas e fixou-se, de vez, nas artes literárias. Devo dizer que é a primeira vez que leio a obra de um escritor pela linearidade das publicações. E o bom desse trajecto é o de acompanhar o desenvolvimento ou aperfeiçoamento das técnicas de escrita da parte do autor. Se os dois primeiros romances são aparentemente simples, exigindo do leitor uma reaprendizagem linguística para se pôr diante do texto, aqui o esforço não se resumirá a esse processo. Terá agora de conseguir fazer imensas fendas textuais e conseguir por através delas palmilhar um caminho mais ou menos seguro para chegar até o desfecho da narrativa e poder dizer em quatro palavras: o romance trata disto.

Os dois primeiros livros têm seus traços eminentemente autobiográficos como já terá sondado boa parte da crítica, seja pela proximidade profissional das personagens que vão narrando os factos, seja pelo desenvolvimento de algumas situações epocais: como a estadia na África no período da Guerra Colonial. Sendo que, no primeiro, estamos diante do narrador a remoer memórias soltas, muitas delas revistas e desenvolvidas no segundo romance. E o segundo romance deter-se na experiência da guerra. Agora, reduzindo em poucos dizeres, o terceiro, é uma volta para ler simultaneamente os acontecimentos desenvolvidos nos dois primeiros romances. Isto é, a trilogia desenhada por Lobo Antunes cumpre um itinerário que não é linear – sim, porque nada nesses romances obedece a linearidades – e, sim, um movimento que é como um jogo de memória espiralado. O movimento narrativo desse último romance parece ser a peça-chave para o entendimento geral da trilogia. Os três se desenham em torno dos mesmos temas e enxergam cada um no determinado instante de visão.

Se adentrarmos ao Conhecimento do Inferno notaremos que a narrativa transcorre em três instâncias: a vida pessoal, a vida profissional e a estadia na guerra. Se em Memória de Elefante sobressai a vida pessoal e em Os Cus de Judas a estadia na guerra, nesse sobressai a vida profissional. Quero com isso dizer que o narrador elege como ponto de vista a posição do profissional para remoer as mesmas questões que são desenvolvidas nos outros romances. Aqui, as referências autobiográficas são nitidamente explícitas. Damos com um médico psiquiatra que revê sua actuação profissional no instante em que está escrevendo um livro intitulado por Memória de Elefante, ou damos com uma personagem nomeada por António Lobo Antunes, enfim, mutretas linguísticas para deixar o leitor encalacrado no jogo de espelhos construído pelo narrador. E os factos que transcorrem são todas rememorações desenhadas pelo próprio personagem-narrador, de modo que o externo se confunde com as elucubrações mentais, de um parágrafo a outro, por vezes no interior da própria frase cabendo ao leitor as distinções.

Nesse caudal de pensamentos que desfilam feito a viagem de carro empreendida pelo personagem – trilha que vai se desenhando no texto pelas marcações no mapa (Algarve, ponto de partida, passando por Albufeira, Messsines, Santana, Aljustrel e Lisboa, ponto de chegada) – prevalece o seu contacto com a profissão nobre e mãe das outras profissões médicas, a psiquiatria, desde seu primeiro contacto com o manicómio até sua actuação médica no Hospital Miguel Bombarda, um claustro dos loucos. Aqui o lugar “inferno” marcado no título da obra se confirma pela presença deslocada do sujeito nesse universo em que a loucura é tratada como uma patologia clínica a ser manipulada pelo isolamento social, os sedativos, os electrochoques e toda sorte de tratamentos que reduzem a persona do louco ao estágio do mais baixo grau de selvageria.

Se nos romances anteriores, o escritor parece querer confrontar o leitor com a própria linguagem, usando da descrição seca e das torrenciais de vocábulos pesados, levando a presenciar o travelling mental ou a experiência do horror, aqui a linguagem e a montagem do enredo comungam para que o leitor se dê ao conhecimento da experiência vivida pelo próprio escritor. É necessário pensar que este romance pode actuar como instrumento de matéria histórica pelo modo como a prática médica e o tratamento dado à loucura são aí retratados. Ou ainda, como instrumento de denúncia, cujo interesse está em expor, pela via da experiência, e pelo tratamento irónico conduzido pelo escritor à profissão psiquiátrica que é camuflado pelo ideal de normalidade condicionado socialmente. 


por Pedro Fernandes
15.08.2012

01/09/2012

Do leitor José Alexandre Ramos: «muralha»

muralha
para António Lobo Antunes
Deixo o dia abater-se contra o muro: mil pedaços se formam no horizonte futuro, antevendo amanhãs desmoronados. E dos escombros se abrirá caminho, lentamente, até onde o chão poderá verdejar, e as feridas dos meus pés fecharão. Sílaba a sílaba és tu quem constrói o novo caminho e por vezes fico sem palavras perante o alinhamento perfeito do destino das tuas frases. É no teu trabalho sobre a pedra que as palavras te exigem, sob o cansaço dos dias te espremendo em hesitações, alegrias e angústias, que reergues a muralha onde nos pouparemos abrigados dos ataques verborreicos dessas gentes em falsos pedestais teimando
(como se qualquer um fosse capaz de construir um muro, uma casa, rasgar ruas e avenidas, alargar aldeias e cidades)
teimando em afirmar que escrevem livros.


Parabéns, António. Um abraço.


por José Alexandre Ramos
Vila Nova de Gaia

Crónica «Nós» com reflexão sobre a sua leitura por Olga Fonseca

Nós Não precisávamos de falar. Como ele dizia – Tu sabes sempre o que eu estou a pensar e eu sei sempre o que tu estás a pensar ...