30/04/2012

Dia 3 de Maio: Lançamento e Mesa-redonda - Colecção António Lobo Antunes – Ensaio


Lançamento e Mesa-redonda - Colecção António Lobo Antunes – Ensaio (Texto Editora)
Local: Auditório da Biblioteca Municipal de Tomar
Data: 3 de Maio de 2012, 17h30
No âmbito do evento BIBLIOTECANDO EM TOMAR 2012
Leituras Migrantes. Identidade e alteridade
Programa do Lançamento
Programa da Mesa redonda: António Lobo Antunes – Ensaio: com a participação de Maria Alzira Seixo (CEC, Directora da colecção), Agripina Carriço Vieira (Comissão Organizadora Bibliotecando em Tomar 2012), e dos autores Ana Paula Arnaut, Felipe Cammaert (CEC), Norberto do Vale Cardoso, Catarina Vaz Warrot
Nesta ocasião, serão apresentadas as duas primeiras obras da colecção, publicadas em 2011, assim como os próximos volumes a serem publicados.
- vol. 1: Felipe Cammaert (org.), António Lobo Antunes: A Arte do Romance
(publicado com o apoio do Centro de Estudos Comparatistas ao abrigo do protocolo de edição com a Leya) - descarregar índice do vol. 1

- vol. 2: Norberto do Vale Cardoso, A Mão-de-Judas. Representações da guerra colonial em António Lobo Antunes - descarregar índice do vol. 2
Programa completo do evento :
http://www.bibliotecandoemtomar.ipt.pt/?p=17&s=24

[por cortesia de Maria Alzira Seixo]

27/04/2012

Encontro de Juan Marsé e António Lobo Antunes, notícia Rádio Renascença

texto e foto: Rádio Renascença

"Estamos nas mãos dos grandes grupos editoriais"
ALA com Marsé na Buchholz, em Lisboa, 26.04.2012
António Lobo Antunes critica as imposições das leis do mercado editorial. O escritor falava esta quinta-feira na apresentação do livro "Caligrafia dos Sonhos", do catalão Juan Marsé. Numa sessão em Lisboa, que juntou os dois autores ibéricos, trocaram-se impressões sobre o ofício da escrita e ouviram-se as críticas.
Quando dois grandes escritores se encontram conversam sobre livros. António Lobo Antunes pediu licença para falar em espanhol para que Juan Marsé o entendesse, mas foi para o mercado editorial português que apontou baterias.
“Estamos nas mãos dos grandes grupos editoriais para quem só o dinheiro e as vendas contam. Esta é a verdade. Olhem à vossa volta, se houver cinco livros bons na livraria já não é mau. Esta é a verdade”, declarou o autor de “Memória de Elefante”.
Lobo Antunes escreveu o prefácio de "Caligrafia dos Sonhos" o novo livro do catalão Juan Marsé, um amigo e admirador do escritor português.

“Se consigo salvar um par de linhas sinto-me satisfeito. Custa-me muito trabalhar. Quando te leio tenho a sensação que te sai, como aos poetas, tens uma inspiração ou algo assim”, referiu.
Sobre Juan Marsé, Lobo Antunes diz que usa as palavras precisas em "Caligrafia dos Sonhos", um livro que tem como cenário quatro bairros de Barcelona. Territórios ficcionais, como os de Lobo Antunes, explica.
Os dois amigos escritores partilharam durante uma hora de conversa dores do ofício da escrita. Até quando um tradutor faz das suas: “Esse tradutor tinha tanta confiança que quase rescreveu o romance. Eu quando o li pensei, bom, está melhor do que o meu, mas eu não escrevi isto”.
Talvez por isso Lobo Antunes diz preferir as suas traduções chinesas e vietnamitas, porque não as pode ler.

Traduzido para português está "Caligrafia dos Sonhos", o novo livro de Juan Marsé.

(Maria João Costa)


25/04/2012

«Pensamento positivo, meu amigo, pensamento positivo»

A última crónica publicada na Visão. António Lobo Antunes continua a falar do estado do país, mas desta vez mais nas entrelinhas. E continua a falar-nos de si, que o ouvimos:

Nunca me foi tão difícil escrever uma crónica: três dias a rasgar papel. Normalmente fico uma hora ou isso, de caneta suspensa, e depois as palavras começam a sair sozinhas. Esta não, e já estou farto de deitar frases para o lixo. Julgo que se deve ao facto de ter demasiadas coisas dentro de mim, de viver uma altura difícil, de me achar melancólico e revoltado. Melancólico com a minha situação, revoltado com a situação do meu país. É raro o dia em que não me pedem
- Não me arranja um emprego?
a mim, que não possuo poder nenhum, e lá fico a ouvir histórias desesperadas e tristes. Os portugueses estão a sofrer muito, e o sofrimento dos portugueses é mais importante que o meu: que direito tenho de me queixar seja do que for? Quanto a mim não consigo fazer nada, quanto aos outros a minha importância colectiva é nula. Um amigo médico, por exemplo
- Fale do que se está a passar na Saúde
como se aquilo que eu escrevesse mudasse alguma coisa. Não muda. Sou apenas um homem que faz livros, preso por um contrato que assinei sem ler, como de costume, a uma editora que me não agrada. Não tenho grandes ilusões. Nem pequenas, aliás. A árvore, em frente da minha janela, perdeu as folhas: ramos torcidos, sombras de pássaros nem sonhar. Eu reflectido no vidro, sentado a esta mesa. Esferográficas, páginas, uma lupa, porque as primeiras versões são numa letrinha minúscula que, por vezes, me custa ler. Trago uma espada no peito. Volta e meia torce-se nos pulmões. E lá está a crónica a resistir. Não quer ser feita, tem a consciência de não valer grande coisa. E, mesmo que valesse grande coisa, o que valia? Não há imortalidade: há o silêncio que se vai espessando à volta de um nome, até o nome desaparecer por inteiro. E, até desaparecer, tanta inveja, tanta mesquinhez, tanta patetice. Para quê?
A nossa existência é um pequeno evento pedestre: quem se rala? Os outros, por muito que nos queiram, estão de fora. E, depois, partem, construindo-se uma nova alma. Aqueles de quem gostei tornaram-se ausências que se estreitam. Continuo a lembrar-me deles: vai doendo menos. Vai doendo menos? Vai doendo menos. Quem se lembrará de eu pequeno?
- Fale do que se está a passar na Saúde
e qual saúde, Zé? A nossa, a dos outros? Lembro-me que na primeira urgência interna que fiz no Hospital de Santa Maria, depois do curso, morreram seis doentes. Um médico, no dia seguinte 
- Eh pá você bateu o record
e eu, que era um miúdo, atarantado com a minha proeza.
- Não me arranja um emprego?
porque o subsídio acaba daqui a nada e depois o que faço eu, diga lá? Ao quarenta e cinco anos quem me dá trabalho? Ninguém, claro. É capaz de haver uns contentores do lixo com restos de comida, e também se podem comer os filhos, como propunha Swift para combater a fome na Irlanda. E quando os filhos se acabarem coma-se a si mesmo. Ossinhos nos dedos chupados um a um.
Nunca me foi tão difícil escrever uma crónica. Olhe, já agora experimente comê-la embora deva saber mal como rabo de gato e não alimente nada. Estou a compor isto enjoado de mim, embora tenha batido um record. Seis pessoas é obra. Aguenta mais um mês, António, e logo sabes. Talvez te comam numa urgência interna.
- Como se chamava aquele?
- Não me vem agora o nome mas escrevia livros.
- Desses que a gente gosta?
- Não, dos complicados, dos que dão trabalho.
Livro que não falavam, ouviam. Eu prefiro coisas que distraiam, para maçadas basta a vida. Conselho de um editor
- Publique histórias leves, histórias que distraiam
E tem razão, para maçadas basta a vida, dêem-me episódios que me divirtam, que chumbada pensar.
- Não me arranja um emprego?
um emprego, um empregozinho, dinheiro para pagar as contas, seja o que for preferível a esta angústia, tudo é preferível a esta angústia. E tem razão. Tudo é preferível a esta angústia, tudo é preferível a esta miséria.
- Fale da Saúde
fale da saúde, da electricidade, dos transportes, da prestação da casa, da prestação do carro, da prestação da máquina de lavar, dos preços no supermercado, dos sapatos que o meu marido precisa, da penúria em que ando. Isto não é uma crónica, é um gemido indistinto, a minha mãe
- Não compraste umas hortaliças, filho?
o carro parado há dois meses que não há para a gasolina. Já não haverá mais para a gasolina. Talvez para uma garrafinha de petróleo
(pode ser que exista quem fie)
verter a garrafa em cima de mim e chegar-lhe um fósforo. Depois uns tempos na enfermaria até as queimaduras do terceiro grau resolverem o assunto. E não é preciso emprego. Quer dizer, já não é preciso emprego. Quer dizer, já não é preciso preocuparmo-nos com a saúde. Já não é preciso comer o filho. Já não é preciso comer nada. Nem acabar esta crónica. Nem rasgar papel. Nem deitar períodos para o lixo. Nem estar à espera do exame no mês de abril. Nem ter demasiadas coisas dentro. Nem de não estar satisfeito com a editora que, essa sim, ficará satisfeita dado que quando um escritor pifa vende mais e é maçador falar nisto mas vender é importante. A cultura é muito bonita porém, como deve calcular, como suponho que calcula, como calcula com certeza, é necessário ganhar a vidinha. Nunca lhe foi tão difícil escrever uma crónica? Pois olhe, já a terminou, vê, você lamenta-se, lamenta-se, mas acaba por cumprir o trabalho. Muito gostam os artistas de choramingar.

Revista Visão nº 998
19.04.2012

22/04/2012

ALA that jazz, por António Bettencourt (*)


Você era de certeza o único pai que pregou no quarto de um filho o retrato de Charlie Parker.”
 (“Você” in Terceiro Livro de Crónicas)


Memória da infância, presença assídua na obra, o retrato de Charlie Parker terá sido talvez uma das primeiras imagens do jazz na vida de António Lobo Antunes (ALA). Um retrato que o pai decidiu colocar no quarto dos dois filhos mais velhos, como um profano crucifixo 



(“E os olhos de Charlie Parker tristíssimos nas fotografia.”)

Charlie Parker uma e outra vez, insistentemente repetido nos romances e nas crónicas, como variações de um mesmo tema: 

“Charlie Parker interrompeu uma vez uma gravação atirando com o saxofone aos gritos
-Já toquei isto amanhã
e ninguém foi capaz de convencê-lo a continuar.”

Também esta convergência dos tempos (amanhã igual a ontem) preenche a quase totalidade dos romances do escritor.

António Lobo Antunes será porventura o escritor português que mais referências ao Jazz faz na sua obra, um género musical que acompanha de perto a sua vida e a sua escrita. Ambicionou sempre ”escrever como Charlie Parker tocava, à custa do mesmo sofrimento, a fim de oferecer prazer e alegria aos que lêem”, pois para ALA, como constantemente afirma, também a escrita é fruto de um processo doloroso mas afinal gratificante, um sofrimento que se torna júbilo.

“O Charlie Parker fraseava maravilhosamente, aprende-se muito a ouvi-lo”

Desde as primeiras obras, e sobretudo nessas, as referências jazzísticas são inúmeras. Logo em Memória de Elefante o autor/narrador menciona o arrepio que sente nas costas sempre que escuta “o saxofone de Lester Young em These Foolish Things, correndo ao longo da música à maneira de dedos sábios por nádega adormecida” e cria uma imagem que, pelo seu arrojo, o leitor não espera, num tipo de figura estilística que se tornará característica dominante dos seus romances. O mesmo Lester Young e a mesma composição “onde cada nota parece o último suspiro de um anjo iluminado”serão referidos em crónica publicada muitos anos mais tarde.




Ainda neste romance, referindo-se à angústia existencial, o omnipresente “saxofone de Charlie Parker, a crucificar-nos de súbito num solo desesperado que resume toda a inocência e todo o sofrimento do mundo no sopro lancinante de uma nota”.

Em Os Cus de Judas, ao chegar a África, terra matriz do jazz, e perscrutando ao longe Luanda, ainda no navio que o transportava para a guerra, os negros no cais “observando-nos com a distracção intemporal, ao mesmo tempo aguda e cega, que se encontra nas fotografias que mostram os olhos voltados para dentro de John Coltrane quando sopra no saxofone a sua doce amargura de anjo bêbedo, e eu imaginava adiante dos beiços grossos de cada um daqueles homens um trompete invisível…”

Já no mato, no cenário de todos os horrores, “os batuques dos Luchazes eram concertos de corações pânicos, taquicárdicos”. Os Luchazes cujo “riso súbito e orgulhosamente livre… estala junto de mim como o trompete de Dizzie Gillespie, esguichando do silêncio num ímpeto de artéria que se rasga.

Essa mesma África cuja “inesgotável vitalidade” do povo contrapõe a uma Europa agonizante. Uma vitalidade que “entrevira, anos antes, no trompete solar de Louis Armstrong, expulsando a neurastenia e o azedume com a musculosa alegria do seu canto.” Ou nos soldados acocorados “a conversarem numa esquisita linguagem que eu entendia mal mas se aparentava ao saxofone de Charlie Parker quando não grita o seu ódio ferido pelo mundo cruel e ridículo dos brancos”.

A dimensão racial do jazz é também, algumas vezes, explorada por ALA: “Bessie Smith. Lady Day. Bessie Smith de novo. Morreu à porta de um hospital: não a deixaram entrar por ser preta. Iluminou-me a vida. Continua a iluminá-la”.



Além deste tipo de referências, o jazz serve também a ALA para comparações audaciosas e paródicas tal como quando chega ao Chiúme “uma companhia inteira de negros pequeninos e cabeçudos, de lenço vermelho ao pescoço, cujos bigodes por ajardinar lhes conferiam a aparência falsamente intelectual dos saxofonistas do Festival de Jazz de Cascais, génios da semifusa que o mínimo Ben Webster excomungaria”.



Com o amadurecimento literário e consagração do escritor, os romances vão abandonando as referências a escritores, músicos, pintores, etc. e, como tal, as referências ao jazz irão também rarear. É nas crónicas, textos muitas vezes menosprezados pelo autor, que continuaremos a encontrar inúmeros momentos em que o jazz é aludido ou mesmo tema central. No entanto, há uma outra dimensão em que os romances continuam a jazzar. É precisamente no coração da escrita de ALA que podemos encontrar processos próximos da composição e improvisação jazzística:

“Julgo que para um miúdo que resumia toda a sua ambição em tornar-se escritor Charlie Parker era de facto a companhia ideal”. Porque foi “com o que aprendi com os saxofonistas de jazz, principalmente Charlie Parker, Lester Young e Ben Wesbster” que me achei “capaz de compor por conta própria”. É com Ben Webster que “se entende mais sobre metáforas directas e retenção de informação do que em qualquer breviário de técnica literária”. E Lester Young, “esse, ensinou-me a frasear”.

A polifonia (muito apontada por críticos e especialistas como uma das características fundamentais do discurso de ALA, onde a cada momento emergem vozes), o ritmo sincopado, as repetições, a variação, a improvisação, no fundo muito daquilo que faz a essência do jazz, são também os registos da escrita e da enunciação de António Lobo Antunes. A ruptura do Bebop na história do jazz é semelhante à ruptura de ALA na história do romance português.

Quando, na comemoração dos 25 anos de vida literária, o interrogaram sobre quem gostaria que estivesse presente na festa, António Lobo Antunes solicitou Thelonious Monk, Charlie Parker e Lester Young.



  “Cresci com um enorme retrato de Charlie Parker no quarto.” Como evitá-lo, se Deus é afinal um apreciador de jazz?


por António Bettencourt
Publicado originalmente em Jazz.pt, nº30
Maio/Junho de 2010


Bibliografia:

Romances: Memória de Elefante, Os Cus de Judas, Conhecimento do Inferno.

Crónicas: “De Deus como apreciador de Jazz”, “Você”, “Virginia Woolf, os relógios, Claudio & Bessie Smith”, “Já escrevi isto amanhã”.

Outros: “Arte”, in Maria Alzira Seixo (dir.), Dicionário da Obra de António Lobo Antunes, vol. II, Lisboa, INCM, 2008, Catarina Vaz Warrot, “António Lobo Antunes: da escrita romanesca à enunciação musical – o texto como tecido sonoro e visual” (comunicação apresentada na Jornada Comemorativa dos 30 anos de Memória de Elefante).

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(*) António Bettencourt é o actual revisor filológico dos livros de António Lobo Antunes, na continuidade da edição ne varietur da obra.

20/04/2012

Damian Kelleher: opinião sobre Fado Alexandrino

edição em inglês Grove/Atlantic, 1995
É noite avançada, em Lisboa, Portugal, e cinco homens do exército convivem no décimo aniversário do seu regresso da guerra em Moçambique. Desde o horror vivido em África, alguns destes homens  foram promovidos, outros se divorciaram , casaram, voltaram a casar, rebaixados, demitidos, iniciaram negócio próprio, cuidaram dos seus familiares, enterraram outros. Discutem as suas vidas sobre o vinho, as línguas enrolando à medida que o álcool vai fluindo. Em poucas horas, um dos homens será morto, assassinado, apunhalado pelas costas por um dos outros soldados.

Para reduzir a intriga à sua pura essência, o parágrafo acima pode resumir Fado Alexandrino. Porém, este difícil, extravagante e aberto romance  abrange muito mais com cada uma das suas quase quinhentas páginas. O impacto deste romance não está no que é relatado, mas na maneira como é relatado, a forma com que António Lobo Antunes consegue tecer cinco vidas diferentes num todo coerente, abarcando mais que uma década.

Lobo Antunes recorre a um interessante estilo de parágrafos extremamente longos, quebrados por raros pontos finais, mas carregados de vírgulas. Num só parágrafo - e isto não é raro - uma personagem começa por pensar em algo, os seus pensamentos são desencadeados por um comentário à margem, a sua mente vai divagando até cinco ou dez anos no passado, ou sobre o dia anterior, e o ponto central da narrativa alterna para novos cenários, com novas personagens, sem mudar de tempo, continuando no "presente"; então outras personagens começam a pensar, e vão tomando conta da cena, direccionando o parágrafo para outro espaço e tempo, tornando-se à vez no ponto central. Isto acontece repetidamente, constantemente se muda do tempo remoto em que os soldados eram novos e inexperientes, para um tempo intermédio, com as suas mulheres e filhos, felizes ou não, até ao "presente", o convívio, em que alguns já são velhos e outros apenas mais velhos, mas todos esgotados de qualquer forma. Mas funciona. É uma marca da habilidade literária de Antunes, a de nunca nos perdemos completamente, há sempre um fio para nos mantermos no caminho, mesmo com uma repentina e não anunciada mudança do ponto de vista da personagem, de cenário, de tempo, de ponto central, conseguimos continuar a par do curso narrativo e compreender o que se vai passando. [...]

A razão principal de isto funcionar vem da Revolução, um tempo conturbado na história de Portugal, quando o socialismo e o comunismo ameaçavam tomar o poder, em que a violência, estupro e carnificina eram comuns [*]. O romance é dividido em três partes, Antes da Revolução, A Revolução, e Após a Revolução. Geralmente, ao saltar na narrativa, conseguimos dizer o que se está a passar devido à proximidade das situações, tempo e personagens aos acontecimentos em Lisboa. Reconhecidamente, embora o tempo possa mudar tão repentina e dramaticamente, durante a parte Antes da Revolução toda a analepse é dentro do tempo de antes da revolução, e o mesmo se passando com as outras duas partes. É quase como se a personagem principal do romance fosse a Revolução, um turbilhão que envolve os cinco soldados, torcendo e dando voltas com as suas vidas.

António Lobo Antunes possui um fantástico sentido de imagética, habilidade para descrever situações e ambientes como ninguém que eu tivesse conhecido. É muito orgânico nas suas descrições, a boca de uma mulher é "um gomo de laranja", as sua coxas abertas "como um pólipo marinho", etc. Considerando que o núcleo do romance é a Revolução os seus terríveis e deletérios efeitos sobre a nação portuguesa e, em particular, sobre a cidade de Lisboa, os temas sobre a morte e a decadência são basilares na escrita. Por isso, à luz do dia, com o sol expondo cruelmente as fendas, a sujidade, a falta de tinta, e as feridas da pobreza que as luzes disfarçam, tudo parece mais pequeno, feio, muito deprimente, e absolutamente pobre. Infelizmente, este traço doentio e obsceno da escrita - tão eficaz quando retratando uma nação em decadência - é mais difícil de ler quando se refere às mulheres. Não existe uma única personagem feminina positiva na Lisboa de Lobo Antunes, todas elas são ora egoístas, ora insípidas, ora obscenas, ora decadentes, ora velhas, ora fracas, ora autoritárias, ora... a lista é vasta. Ainda assim, pode argumentar-se - quase correctamente, creio - que estas características negativas serão inerentes à percepção das coisas que os soldados carregam. Em Moçambique, foram habituados à violação e à prostituição - tanto masculina como feminina - e é fácil imaginar que tenham desenvolvido preconceitos para com as mulheres e o sexo por essa razão.

Há um senão neste livro que vale a pena mencionar. O penúltimo capítulo é o único completamente centrado numa personagem, e é o único capítulo em que o narrador é uma mulher. É uma reminiscência ao monólogo de Molly, do Ulisses de Joyce, com grandes e corridas frases que ocupam um longo parágrafo inteiro, com descrições detalhadas de sexo e luxúria, pensamentos à solta e ideias, etc. O capítulo está escrito com uma habilidade fantástica, mas a questão é que na realidade não combina com o resto do romance. O tom é diferente, o ritmo é diferente, o estilo é diferente, e pouco acrescenta. Ainda assim, é uma leitura agradável. Um interessante dilema.

Ao acabar este difícil e denso romance, fica-se com uma sensação de alívio por ter-se chegado ao fim, um sentimento de dever cumprido. Porém, existe a lástima, porque, com Fado Alexandrino, fui capaz de cair tão completamente num mundo violento e decadente que voltar de lá tornou-se difícil, coisa rara de acontecer com um romance. O efeito foi tão poderoso, quase físico, enquanto o lia, que não recomendo que se leiam dois títulos de António Lobo Antunes de uma assentada. Maravilhoso, mórbido, complexo, difícil, estruturalmente supreendente e intricadamente detalhado, Fado Alexandrino bem vale o esforço.


por Damien Kelleher
Literary reviews and essays
18.11.2006
[tradução do inglês por José Alexandre Ramos]

[*] é a interpretação do autor do artigo sobre o período do 25 de Abril, obviamente desfasada da realidade, talvez por conhecimento incorrecto dos factos.

18/04/2012

Do leitor Rui Sousa: «Obrigado por escrever para mim»


Caro António,
Obrigado por escrever para mim.
Conheci-o em 1991. Tinha eu 17 anos e devorava livro atrás de livro na biblioteca municipal da minha terra. Biblioteca a estrear, antes até de estrear que a inauguração só no ano seguinte quando um Sr. Politico por lá passou.
Biblioteca Municipal Raúl Brandão - Guimarães

No primeiro dia que lá entrei, subi ao 1º andar, e decidi: vou ler a começar daqui (início da prateleira central onde estavam os escritores Portugueses), pelo menos um livro de cada autor.
E assim foi.
Nunca percebi a ordem porque estava organizada a dita prateleira, não era alfabética, não era cronológica, talvez não houvesse ordem.
Comecei na tal ponta. Sempre que acabava um livro passava os olhos pela estante e olhava os seus. Como não olhar? Para um miúdo de 17 anos "Os Cus de Judas" dá nas vistas. Os seus estavam na outra ponta da estante. Apesar da curiosidade respeitei a regra de pelo menos um de cada e antes de chegar a si passei por Júlio Dinis; Antero de Quental; Urbano Tavares Rodrigues; Manuel da Fonseca; Eça; Cardoso Pires; etc etc etc.
Finalmente num dia de verão (recordo-me a T-shirt e a sensação de conforto do Ar condicionado) peguei no "Os Cus de Judas" e instalado na sala ao lado comecei a ler.
Não é fácil explicar o que sucedeu então. A surpresa foi tão grande que não parava de olhar para os lados tentando perceber se de alguma forma era uma partida muito bem preparada que me faziam; a excitação foi tão grande que o conforto do AC desapareceu e ficou calor e frio; o tempo desapareceu; o livro acabou antes de me poder levantar e ainda no mesmo dia comecei as "Memória de Elefante". Como era possível? Aqueles livros eram escritos para mim.
O ritmo das frases, as imagens criadas, a minha forma de pensar, o meu ritmo de pensar.
A partir daí leio cada um dos seus livros. Sempre com medo de um dia aparecer o primeiro que não seja escrito para mim, mas de cada vez que inicio um novo, a nova surpresa de ainda mais "meu ser".
Não que os temas se aproximem da minha vivência, de todo; mas nos seus livros que construímos os dois enquanto os leio eu apareço cada vez mais inteiro, cada vez mais eu.
Obrigado por me ajudar a mostrar-me a mim próprio.


por Rui Sousa
Porto
e-mail de 18.04.2012

12/04/2012

Teolinda Gersão: recensão crítica a Explicação dos Pássaros na Colóquio Letras nº 72 de Março de 1983 – pp. 102 a 104

esta recensão, de 1983, debruça-se
sobre a 1ª edição de 1981
«As asas batiam num ruído de folhas agitadas pelo vento, [...] eu estava de mão dada contigo e pedi-te de repente Explica-me os pássaros. [...] tu sorriste e disseste-me que os ossos deles eram feitos de espuma da praia, que se alimentavam das migalhas do vento e que quando morriam flutuavam de costas no ar, de olhos fechados como as velhas na comunhão».

Este diálogo representa para a personagem um momento privilegiado da infância, o momento em que o pai é poeta e Rui S. se assume como seu filho. Na harmonia cúmplice das mãos dadas, ambos partilham o mistério das coisas, e passa de uma mão para a outra a chave do universo que é também - os poetas sabem disso - a chave do seu próprio ser.

Este momento, ao qual a personagem sempre de novo, obsessivamente, regressa, não existiu contudo, provavelmente, nunca: apenas houve uma série de equívocos. Desde logo porque os poetas são rigorosos, e quase tudo, nessa frase, é falso. O homem que disse essas palavras (ou nem sequer disse, talvez, e a cena foi apenas sonhada) provou só que não era, jamais seria, poeta. Mas Rui S. escuta, por detrás das palavras erradas, outras, exactas e belas; sobre o verdadeiro rosto do pai imagina outro - o rosto que lhe permitiria assumir - encontrar - o seu próprio.

Debalde, todavia. A realidade do pai, que ao longo de todo o texto se impõe, é - e é só - a do universo da Lapa, a grande casa burguesa, a família patriarcal com a sua «dignidade distante», o seu dinheiro e os seus contratos, as suas aparências e hipocrisias, as suas missas e as suas bavaroises, os seus casamentos frustrados e as suas louças da Companhia das Índias, um universo repressivo e concentracionário, mesmo quando se julga elegantemente permissivo, em que o desespero, como os sofás e os cortinados, aparece forrado de veludo. Mas nem por isso mata menos. Porque afinal é o pai, representante desse universo, que no fim espetará a personagem na folha de papel, tal como fez a outros elementos da família, e, como o texto insinua, é o culpado, se não directamente da morte da mãe, pelo menos da sua outra morte, do desespero e do vazio de uma existência feita de jogos de canasta e de obrigatória compostura.

Universo que Rui S. recusa - e que o recusa, porque todos os dissidentes são olhados de alto, como incapazes - mas do qual não consegue evadir-se; assim, por exemplo, a profissão de historiador não é escolhida «positivamente», por si mesma, mas «negativamente», como oposição ao universo paterno, que a não admite; e do mesmo modo, o outro «mundo» para onde parte, e que existe em contraste e oposição a este, é olhado com os olhos da Lapa, e também não é, portanto, assumido.

Campolide surge como um submundo de estreiteza e mau gosto, feito de mobílias baratas, «cortinas de pintas» e «quintalecos», e é para a personagem ao mesmo tempo um desafio à Lapa e uma punição. E por isso mesmo um desafio não ganho. Se o amor não existe na Lapa, onde as relações são frustradas e falsas, também é falsa a relação com Marília: «[...] eras bem do meio de onde vinhas», pensa Rui S, olhando-a, «nunca topei com pés tão grandes como os teus». Assim pensa a Lapa. O meio, a classe dela, é ele que lhos aponta. A distância entre ambos, é ele que a mantém e a faz sentir.

O amor de Marília é posto em dúvida (não se trata, afinal, de militância política?) e não é retribuído com amor algum - Rui S. «utiliza-a», inconscientemente, como compensação pela partida da mulher e como contestação à Lapa; pelo grupo político de Marília não é, evidentemente, aceite, porque para ingressar nele lhe falta tudo: a capacidade de acreditar numa causa, e a capacidade do dom de si próprio.

Que Marília entenda que se tratou de um equívoco e queira deixá-lo, funciona para a personagem (não para o leitor) como um efeito de surpresa. «Abandonado», Rui S. tentará por todos os meios agarrar-se a ela, porque sente a terra fugir-lhe debaixo dos pés e vai ser obrigado a encarar o que não quer ver: que é um ser que não pertence a parte alguma, e que, para estabelecer uma relação válida com os outros, terá primeiro de se encontrar a si mesmo. Tema que, dentro da metáfora obsessiva dos pássaros, se cristaliza na metáfora do voo frustrado, da impossibilidade do voo; ou no tema da viagem sem rumo: Aveiro em vez de Tomar, por uma súbita mudança - ausência - de objectivo.

A imagem da ria, envolvente, fascinante, um «enorme, ilimitado espaço claro unicamente habitado pelos gritos roucos das gaivotas», adquire uma força crescente. A ria é o grande espelho narcísico onde se procura um rosto, a resposta à pergunta inicial, não resolvida - quem sou? - e lugar onde se desiste da procura, atravessando a superfície das águas, cedendo ao apelo da morte, a que se mistura a morte da mãe, desde o princípio anunciada e suspensa.

A paixão de Rui S. (elementos como «6ª, sábado e domingo», o contraste noite-manhã, não são apenas casuais) é uma paixão sem ressurreição; dela ficará um corpo que flutua, na superfície lisa da ria, «cor das pálpebras por dentro», um corpo como o cadáver de um pássaro - a morte como um regresso ao ovo, a negação ou a impossibilidade do voo.

Outra metáfora - a terceira grande metáfora do texto - se mistura a esta: o circo, em que a personagem, ao mesmo tempo actor e espectador, encena a sua vida e a sua morte, transformando-as em espectáculo, numa visão amarga, irónica, cruel, voluntariamente desmistificadora da visão do circo como círculo mágico da infância. A imagem do circo assenta na visão alienada, canibal, da arte que é a dos jogos circenses e a da sociedade de consumo: a morte de Rui S. é um espectáculo oferecido e pago pela publicidade, o artista existe - é pago para - divertir o público, ser por este devorado, gasto, como qualquer outro produto consumível. Na mesma relação de ódio que, a todos os níveis, se mantém subjacente ao texto.

Caberia ainda falar da técnica narrativa, da pluralidade dos pontos de vista (que não quebram, todavia, a visão da personagem), da intromissão de vozes múltiplas, do entrelaçamento dos tempos, do caos voluntário dos movimentos e oscilações da memória. Mas limitar-me-ei a sublinhar o que considero os dois pontos mais altos do romance: a construção e a autenticidade. Explicação dos Pássaros é um livro conseguido (embora o domínio das palavras nem sempre o seja). A acção é levada coerentemente de um ponto a outro ponto, e no meio fica um percurso convincente. O que não é pequena virtude, quando tantas vezes os romances, mesmo dos chamados «autores consagrados» pecam por falta de construção. Por outro lado, este, como os outros livros de A. Lobo Antunes, passam através de uma experiência, uma pele, um corpo. Por isso são vivos. O que também não é pequena virtude, quando tão grande parte da literatura actual, não só aqui como no resto do mundo, é apenas feita de palavras e disfarça com alibis intelectuais a sua incapacidade de tocar na vida.


Teolinda Gersão
Colóquio Letras 72
Fundação Calouste Gulbenkian
Março de 1983

05/04/2012

«Nação valente e imortal»

Crónica na Visão desta semana. Boa demais para deixar passar sem partilhar aqui:

Agora sol na rua a fim de me melhorar a disposição, me reconciliar com a vida. Passa uma senhora de saco de compras: não estamos assim tão mal, ainda compramos coisas, que injusto tanta queixa, tanto lamento. Isto é internacional, meu caro, internacional e nós, estúpidos, culpamos logo os governos. Quem nos dá este solzinho, quem é? E de graça. Eles a trabalharem para nós, a trabalharem, a trabalharem e a gente, mal agradecidos, protestamos.

Deixam de ser ministros e a sua vida um horror, suportado em estóico silêncio. Veja-se, por exemplo, o senhor Mexia, o senhor Dias Loureiro, o senhor Jorge Coelho, coitados. Não há um único que não esteja na franja da miséria. Um único. Mais aqueles rapazes generosos, que, não sendo ministros, deram o litro pelo País e só por orgulho não estendem a mão à caridade. O senhor Rui Pedro Soares, os senhores Penedos pai e filho, que isto da bondade as vezes é hereditário, dúzias deles. Tenham o sentido da realidade, portugueses, sejam gratos, sejam honestos, reconheçam o que eles sofreram, o que sofrem. Uns sacrificados, uns Cristos, que pecado feio, a ingratidão. O senhor Vale e Azevedo, outro santo, bem o exprimiu em Londres. O senhor Carlos Cruz, outro santo, bem o explicou em livros. E nós, por pura maldade, teimamos em não entender. Claro que há povos ainda piores do que o nosso: os islandeses, por exemplo, que se atrevem a meter os beneméritos em tribunal. Pelo menos nesse ponto, vá lá, sobra-nos um resto de humanidade, de respeito. Um pozinho de consideração por almas eleitas, que Deus acolherá decerto, com especial ternura, na amplidão imensa do Seu seio. Já o estou a ver
- Senta-te aqui ao meu lado ó Loureiro
- Senta-te aqui ao meu lado ó Duarte Lima
- Senta-te aqui ao meu lado ó Azevedo que é o mínimo que se pode fazer por esses Padres Américos, pela nossa interminável lista de bem-aventurados, banqueiros, coitadinhos, gestores que o céu lhes dê saúde e boa sorte e demais penitentes de coração puro, espíritos de eleição, seguidores escrupulosos do Evangelho. E com a bandeirinha nacional na lapela, os patriotas, e com a arraia miúda no coração. E melhoram-nos obrigando-nos a sacrifícios purificadores, aproximando-nos dos banquetes de bem-aventuranças da Eternidade.
As empresas fecham, os desempregados aumentam, os impostos crescem, penhoram casas, automóveis, o ar que respiramos e a maltosa incapaz de enxergar a capacidade purificadora destas medidas. Reformas ridículas, ordenados mínimos irrisórios, subsídios de cacaracá? Talvez. Mas passaremos sem dificuldade o buraco da agulha enquanto os Loureiros todos abdicam, por amor ao próximo, de uma Eternidade feliz. A transcendência deste acto dá-me vontade de ajoelhar à sua frente. Dá-me vontade? Ajoelho à sua frente indigno de lhes desapertar as correias dos sapatos.
Vale e Azevedo para os Jerónimos, já!
Loureiro para o Panteão já!
Jorge Coelho para o Mosteiro de Alcobaça, já!
Sócrates para a Torre de Belém, já! A Torre de Belém não, que é tão feia. Para a Batalha.
Fora com o Soldado Desconhecido, o Gama, o Herculano, as criaturas de pacotilha com que os livros de História nos enganaram.
Que o Dia de Camões passe a chamar-se Dia de Armando Vara. Haja sentido das proporções, haja espírito de medida, haja respeito. Estátuas equestres para todos, veneração nacional. Esta mania tacanha de perseguir o senhor Oliveira e Costa: libertem-no. Esta pouca vergonha contra os poucos que estão presos, os quase nenhuns que estão presos como provou o senhor Vale e Azevedo, como provou o senhor Carlos Cruz, hedionda perseguição pessoal com fins inconfessáveis. Admitam-no. E voltem a pôr o senhor Dias Loureiro no Conselho de Estado, de onde o obrigaram, por maldade e inveja, a sair. Quero o senhor Mexia no Terreiro do Paço, no lugar D. José que, aliás, era um pateta. Quero outro mártir qualquer, tanto faz, no lugar do Marquês de Pombal, esse tirano. Acabem com a pouca vergonha dos Sindicatos. Acabem com as manifestações, as greves, os protestos, por favor deixem de pecar. Como pedia o doutor João das Regras, olhai, olhai bem, mas vêde. E tereis mais fominha e, em consequência, mais Paraíso. Agradeçam este solzinho. Agradeçam a Linha Branca. Agradeçam a sopa e a peçazita de fruta do jantar. Abaixo o Bem-Estar.
Vocês falam em crise mas as actrizes das telenovelas continuam a aumentar o peito: onde é que está a crise, então? Não gostam de olhar aquelas generosas abundâncias que uns violadores de sepulturas, com a alcunha de cirurgiões plásticos, vos oferecem ao olhinho guloso? Não comem carne mas podem comer lábios da grossura de bifes do lombo e transformar as caras das mulheres em tenebrosas máscaras de Carnaval.
Para isso já há dinheiro, não é? E vocês a queixarem-se sem vergonha, e vocês cartazes, cortejos, berros. Proíbam-se os lamentos injustos. Não se vendem livros? Mentira. O senhor Rodrigo dos Santos vende e, enquanto vender, o nível da nossa cultura ultrapassa, sem dificuldade, a Academia Francesa. Que queremos? Temos peitos, lábios, literatura e os ministros e os ex-ministros a tomarem conta disto.
Sinceramente, sejamos justos, a que mais se pode aspirar? O resto são coisas insignificantes: desemprego, preços a dispararem, não haver com que pagar ao médico e à farmácia, ninharias. Como é que ainda sobram criaturas com a desfaçatez de protestarem? Da mesma forma que os processos importantes em tribunal a indignação há-de, fatalmente, de prescrever. E, magrinhos, magrinhos mas com peitos de litro e beijando-nos uns aos outros com os bifes das bocas seremos, como é nossa obrigação, felizes.


in Revista Visão
05.04.2012

Crónica «Nós» com reflexão sobre a sua leitura por Olga Fonseca

Nós Não precisávamos de falar. Como ele dizia – Tu sabes sempre o que eu estou a pensar e eu sei sempre o que tu estás a pensar ...