30/01/2010

José Alexandre Ramos: Os Cus de Judas - a primeira angústia, 2º capítulo


É generalizada a ideia de que Os Cus de Judas (de 1979, publicado uns meses depois deMemória de Elefante) é um livro sobre a guerra colonial em Angola. Está correcto se considerarmos que é o principal assunto trazido à catarse feita na trilogia dos três primeiros livros publicados (que eu designo pessoalmente como os três capítulos da primeira angústia de António Lobo Antunes), mas não é apenas e tão só sobre a guerra. Trata-se do capítulo seguinte de Memória de Elefante em jeito de prequela, uma vez o leitor vai aprofundar o conhecimento sobre factos da vida da personagem (que podemos considerar a mesma) que no livro anterior são ainda ligeiramente abordados: a sua experiência e terrores da guerra, o deslocamento de ter saído de um país (Angola em conflito) que não era o seu e regressado a uma pátria (concretamente a Lisboa e aos seus habitantes) que já não reconhece e, consequentemente, a sua solidão. Aliás, ambos os livros, por abordarem temas tão intrínsecos à personagem que têm em comum, poderiam ser um só livro.

Porém, ao contrário do que aconteceu em Memória de Elefante, cujo discurso surge quase todo na terceira pessoa, Os Cus de Judas é um longo monólogo de uma só personagem/narrador, ligeiramente modulado pelas reacções do seu interlocutor mudo – uma mulher que encontra num bar e com quem vai passar a noite. Menos rendilhado de metáforas, é ainda um texto muito mais maduro que o do livro anterior, em que o discurso na primeira pessoa permite partilhar com o leitor de forma muito mais directa toda a efusão de sentimentos que sai do depoimento da personagem: a procura de afecto, a frustração de um amor perdido, o desespero e os fantasmas da memória, a dificuldade em readaptar-se no seu próprio país, e a esperança de um alento que ansiosamente procura, para recomeçar a vida perdida entre os três anos passados na guerra e alguns após o seu regresso.

Para além da tragédia pessoal da personagem que monologa com uma mulher, é um dos primeiros gritos de atenção para aquilo que parecia ter passado despercebido no seio da sociedade portuguesa: que homens partiram para uma guerra que não reconheciam como sua, que regressaram com mazelas, a culpa, a vergonha e os remorsos dos seus actos em nome de um conceito de pátria duvidoso. Tudo parecia esquecido ou todos queriam esquecer essa nódoa. Assim, Os Cus de Judas acaba por ser também uma crítica social e política não só a quem urdiu e alimentou o conflito mas também aos novos donos do poder e a uma sociedade indiferente a tudo isso, de um tempo perturbado com o fim dessa guerra e os distúrbios de uma revolução recente.

Sem outras palavras que possa ou saiba acrescentar para dizer mais sobre este livro, vou citar um longo trecho do penúltimo capítulo (tem 23, ordenados de A a Z) que destaco por considerar resumir a sua essência:

«Pode apagar a luz: já não preciso dela. Quando penso na Isabel cesso de ter receio do escuro, uma claridade ambarina reveste os objectos da serenidade cúmplice das manhãs de julho, que se me afiguraram sempre disporem diante de mim, com o seu sol infantil, os materiais necessários para construir algo de inefavelmente agradável que eu não lograria jamais elucidar. A Isabel que substituía aos meus sonhos paralisados o seu pragmatismo docemente implacável, consertavas as fissuras da minha existência com o rápido arame de duas ou três decisões de que a simplicidade me assombrava, e depois, de súbito menina, se deitava sobre mim, me segurava a cara com as mãos, e me pedia Deixa-me beijar-te, numa vozinha minúscula cuja súplica me transtornava. Acho que a perdi como perco tudo, que a sacudi de mim com o meu humor variável, as minhas cóleras inesperadas, as minhas exigências absurdas, esta angustiada sede de ternura que repele o afecto, e permanece a latejar, dorida, no mudo apelo cheio de espinhos de uma hostilidade sem razão. E lembro-me, comovido e suspenso, da casa do Algarve rodeada de ralos e figueiras, do céu morno da noite tingido pelo halo longínquo do mar, da cal das paredes quase fosforescente no escuro, e da violenta e informulada paixão das minhas carícias que pareciam deter-se, irresolutas, a centímetros do rosto dela, e se dissolviam por fim num afago indefinido. Penso na Isabel, e uma espécie de maré, tensa de amor, indomada e vigorosa, sobe-me das pernas para o sexo, endurece-me os testículos em crispações de desejo, alarga-se-me no ventre como se abrisse grandes asas calmas nas minhas vísceras em batalha. Percorremos de novo os antiquários poeirentos de Sintra à procura de móveis de talha, entramos no aquário azul da boîte onde pela primeira vez toquei, maravilhado, a sua boca, inventamos um fantástico futuro de filhos morenos numa profusão de berços, e sinto-me feliz, justificado e feliz, ao abraçar o seu corpo na vazante dos lençóis, de que as pregas formam como que ondas a caminho da praia branca da almofada, onde as nossas cabeças, a tua escura, a minha, clara, se juntam numa fusão que contém em si os germens estranhos de um milagre.
Pode apagar a luz: talvez não fique tão sozinho como isso neste quarto enorme, talvez que a Isabel ou você voltem um dia destes a visitar-me, eu ouça a voz ao telefone, a voz miudamente precisa pelos furos de baquelite do telefone, o olá dela e o seu olá a entrarem-me na orelha na oleosidade agradável e morna dos pingos de tirar a cera da minha infância, a vá buscar no emprego, esperando dentro do carro numa impaciência de cigarros, a corrigir o nó da gravata, em bicos de nádegas, no espelho, ela ou você se instale no meu lado no automóvel às escuras, me sorria, se debruce para colocar o cassete da Maria Bethânia no gravador, e me passe ao redor da nuca os firmes cotovelos da ternura. Deixa-me beijar-te. Deixe-me beijá-la enquanto se veste, enquanto aperta o soutien nas costas em gestos cegos e canhotos que lhe tornam as omoplatas salientes como as asas de um frango, enquanto procura os anéis de prata na mesinha de cabeceira com uma ruga de atenção infantil, vertical, na testa, enquanto luta com a escova contra a resistência ondulada do cabelo, o cabelo excessivo que a minha calvície inveja, num ciúme feroz a que não consigo fugir. Todas as manhãs penso quando começarei a fazer a risca na orelha, puxando trabalhosamente uma madeixa esfiada pelo cocuruto nu, e principio a ler sem ironia os anúncios de postiços do jornal, acompanhados pelas fotografias de hirsutos carecas satisfeitos, sorrindo risos peludos de gorilas. Afasto-me dos retratos do ano passado como um barco do cais, e parece-me às vezes assemelhar-me a uma esquisita caricatura de mim próprio, que as rugas deformam de um arremedo de trejeitos. Deixa-me beijar-te: que criatura vai querer beijar a paródia triste do que fui, o estômago que cresce, as pernas que se afilam, o saco vazio dos testículos cobertos de longas crinas cor de couro? Reflectindo melhor, não apague a luz: quem sabe se esta manhã oculta dentro de si uma noite mais opaca do que todas as noites que até agora atravessei, a que vive no fundo das garrafas de uísque, das camas desfeitas e dos objectos de ausência, uma noite com um cubo de gelo à superfície, três dedos de líquido amarelo por baixo, e um silêncio insuportável no interior vazio, uma noite em que me perco, a tropeçar de parede a parede, tonto de álcool, falando comigo o discurso da solidão grandiosa dos bêbados, para quem o mundo é um reflexo de gigantes contra os quais, inutilmente, se encrespam.
Não apague a luz: quando você sair a casa aumentará inevitavelmente de tamanho, transformando-se numa espécie de piscina sem água em que os sons se ampliam e ecoam, agressivos, retesos, enormes, batendo-me violentamente contra o corpo como se as marés do equinócio na muralha da praia, rolando sobre mim espumas foscas de sílabas. De novo escutarei a fermentação da geladeira, a ronronar o seu sono de mamute, os pingos que se escapam do rebordo das torneiras como as lágrimas dos velhos, pesadas de conjuntivite ferrugenta. Hesitarei na camisa, na gravata, no terno, e acabarei por bater a porta da rua como se abandonasse atrás de mim um jazigo intacto onde a morte floresce nas jarras de vidro facetado e nos caules podres dos crisântemos. Bater a porta da rua, percebe, como bati a porta de África de regresso a Lisboa, a porta repugnante da guerra, as putas de Luanda e os fazendeiros do café em torno dos baldes de champanhe, reluzentes como as caixas forradas de lantejoulas dos ilusionistas, fumando cigarros americanos de contrabando na penumbra de um tango. A porta de África, Isabel: um médico homossexual, cujas pestanas se enrolam em nós como os tentáculos de um polvo, acolitado por um cabo trocista, de patilhas, ao qual se deve unir de pensão em pensão num suspirozinho exausto de ventosa, examina-nos o mijo, a merda, o sangue, para que não infectemos o País do nosso pânico da morte, da lembrança do rapaz louro coberto por um pano no meu quarto, dos eucaliptos de Ninda e do enfermeiro sentado na picada de intestinos nas mãos, a olhar para nós num espanto triste de bicho. Trazemos o sangue limpo, Isabel: as análises não acusam os negros a abrirem a cova para o tiro da PIDE, nem o homem enforcado pelo inspector na Chiquita, nem a perna do Ferreira no balde dos pensos, nem os ossos do tipo de Mangando no telhado de zinco. Trazemos o sangue tão limpo como o dos generais nos gabinetes com ar condicionado de Luanda, deslocando pontos coloridos no mapa de Angola, tão limpo como o dos cavalheiros que enriqueciam traficando helicópteros e armas em Lisboa, a guerra é nos cus de Judas, entende, e não nesta cidade colonial que desesperadamente odeio, a guerra são pontos coloridos no mapa de Angola e as populações humilhadas, transidas de fome no arame, os cubos de gelo pelo rabo acima, a inaudita profundidade dos calendários imóveis.
Às vezes, sabe como é, acordo a meio da noite, sentado nos lençóis, inteiramente desperto, e parece-me ouvir, vindo do banheiro, ou do corredor, ou da sala, ou do beliche das miúdas, o apelo pálido dos defuntos nos caixões de chumbo, como a medalha identificativa que trazemos ao pescoço pousada na língua à maneira de uma hóstia de metal. Parece-me ouvir o rumor das folhas das mangueiras de Marimba e o seu imenso perfil contra o céu enevoado do cacimbo, parece-me ouvir o riso súbito e orgulhosamente livre dos Luchazes, que estala junto de mim como o trompete de Dizzie Gillespie, esguichando do silêncio num ímpeto de artéria que se rasga. Acordo no meio da noite, e saber que tenho o mijo, a merda e o sangue limpos, não me tranquiliza nem me alegra: estou sentado com o tenente na missão abandonada, o tempo parou em todos os relógios, no do seu pulso, no despertador, na telefonia, no que a Isabel deve usar agora e não conheço, no que existe, desconexo e palpitante, na cabeça dos mortos, o pólen das acácias envolve-nos de leve de um ouro sem peso e sem ruído, a tarde arrasta-se no capim numa moleza animal, levanto-me para urinar contra o que resta de um muro e tenho o mijo limpo, percebe, o mijo irrepreensivelmente limpo, posso regressar a Lisboa sem alarmar ninguém, sem pegar os meus mortos a ninguém, a lembrança dos meus camaradas mortos a ninguém, voltar para Lisboa, entrar nos restaurantes, nos bares, nos cinemas, nos hotéis, nos supermercados, nos hospitais, e toda a gente verificar que trago a merda limpa no cu limpo, porque se não podem abrir os ossos do crânio e ver o furriel a raspar as botas com um pedaço de pau e a repetir Caralho caralho caralho caralho caralho, acocorado nos degraus da administração.» *

Termino dizendo que considero este livro como a primeira obra-prima de António Lobo Antunes, onde se nota com evidência o amadurecimento da sua técnica e um grande passo no avanço do seu inconfundível estilo.

Os Cus de Judas, Dom Quixote, 25ª edição, 2004, pp 186-189

José Alexandre Ramos
30.01.2010

Filipa Melo: sobre Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra No Mar?


Arena de fantasmas

Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra no Mar?, vigésimo primeiro título de ficção para 30 anos de produção literária publicada de António Lobo Antunes. Prepare-se: são 375 páginas, sete partes e 22 capítulos para uma lide de morte entre o escritor e um curro de nove personagens, uma longa polifonia de monólogos. A estrutura perfeita para uma corrida que inclui tércio de capote, de varas e bandarilhas, faena e sorte suprema (títulos do que chamamos partes). No final, encerrada a corrida, as vísceras do touro (afinal, o autor ou as personagens?) no centro da arena, o seu fim anunciado. E uma pergunta: como envelhece um escritor que deu a hipótese da vida à escrita como quem vende a alma ao Diabo? Um autor que não aceita calar as vozes que o acompanham desde sempre, vozes, afinal, só (d)ele. Insiste em que as continuemos a escutar, nós, os leitores fiéis (os outros muito dificilmente resistirão ao atrito do caminho), extenuados por suspensões, elipses e ataxias sintáticas, monólogos entrecortados e discordantes, inserções parentéticas e descontinuidades tipográficas, nós, os leitores fiéis, como um cônjuge num matrimónio assimétrico e desgastado por reminiscências e redundâncias, a desesperar pela surpresa da pontuação numa narrativa linear, de algo que ainda justifique o esforço e a atenção desmedidas. Uma personagem diz: «se me calar acabo». E outra, nas últimas linhas do romance: «e mal as vozes se calarem levanto-me e regresso a casa. Quer dizer não sei se tenho casa mas é a casa que regresso.» O dia do romance é um chuvoso domingo de Páscoa, final do jejum, e não haverá outro, como na Ressurreição.
 
Situe-se: Há uma quinta no Ribatejo, com gado, azinheiras e cavalos e um empregado que é filho bastardo do patrão e de quem ninguém na Família pode dizer o nome («Nasci assim sou sozinho»; podia dizer como o escritor um dia, «sinto uma enorme orfandade porque a minha origem não me interessa e as pessoas de que gosto pertencem a outra classe que me olha com desconfiança»). Há a casa de Lisboa e, nela, prevê-se que às seis da tarde, morrerá a Senhora Maria José Marques (tem 66 anos, quase 67, como o autor enquanto termina o livro), aos cuidados da criada velha, Mercília («um passo de lagosta e avental e bengalas», «o nariz dos Marques», a pobre esperança de ternura para todos). Enquanto se aguarda a morte da Mãe, falam todas as personagens do livro, incluindo as já encerradas nos álbuns de retratos (o Pai, jogou a fortuna na roleta do Casino; a filha Rita, «sorria para a lua», morreu de cancro), mas sobretudo os filhos vivos: Beatriz (a única colocada pelo pai na garupa do cavalo, envergonhou a família, «num estacionamento frente ao mar contando as ondas e as luzes dos barcos»), Francisco (nasceu «para ser cruel», «roeu os ossos da família», quer a carne que resta), Ana («tão feia», «a filha que se droga», «o que sobra de nós quando não existimos») e João («queria ser menina é verdade», resta-lhe «o parque à noite e os rapazes à espera», «escolhendo o mais novo, o mais pequeno, o mais parecido comigo», e «a doença a doença a doença» - a Sida, não o cancro, que corrói tantos no livro).
 
Desta vez, Portugal é uma referência breve: «isto é um país de cachorros, tudo ladra senhores». O tempo é o das memórias de cada personagem (afinal, o do autor?), tempo perdido, o da infância, da «gaveta dos mortos», do relógio (o escritor a revelar, numa crónica de 2003: «Na mesa de escrever o relógio do meu bisavô [doente de cancro, suicidou-se com um tiro na cabeça]. É uma ferradura vertical […] No topo da ferradura uma cabeça de cavalo»). O tema mais explícito serve de epicentro da obra desde o primeiro romance (Memória de Elefante, 1979): a relação entre os pais e os filhos (já se verá, será também a relação entre o autor e as suas personagens, como a entre Deus, o Filho e os homens?). O livro, esclareceu o escritor em crónica de 2008, nasceu do título, «que cavalos são aqueles que fazem sombra no mar», verso de uma modinha de Natal do século XIX, de camponeses analfabetos que nunca viram o mar. Procure-se nele a explicação dos pássaros para o voo ambiciosíssimo deste romance.
 
A surpresa vem da presença manifesta do autor no texto, referido e interpelado pelas personagens como «António Lobo Antunes» ou «o que escreve». A criação, «o livro» como faena de confissões e memórias, é obra a que o autor força as personagens («se tento parar numa esperança de resposta o que faz o livro esporeia») até à revolta final (continuam a falar as personagens: «sou uma pessoa, não uma invenção nem uma marioneta, vocês que lerem isto respeitem-me», «chegando ao final deste capítulo evaporo-me», «que maçada de relato me impingiram»). E uma delas diz: «Continua vivo que teima». Confunde-se a voz autoral com a de cada personagem («este é um romance de espectros, quem o escreve por mim», «as vozes do meu medo»). E há momentos de striptease do processo de escrita: «como me aborrece o que escrevo», «como me perturba o que escrevo», «se o António Lobo Antunes batesse isto no computador carregava em teclas ao acaso, não importa quais, até ao fim da página (…) com vontade de encostar por seu turno a cara a mim [Mercília], tapar os ouvidos, não continuar o livro», «não me apetece escrever o que falta», «(lá estou com conversas a passear na página)», «se reescrevesse o episódio […] mudava a prosa toda», «(comprovem se já mencionei a quinta, mal acabo uma página roubam-na)».
 
Expliquem-se os cavalos, as sombras e o mar, simbólicos. Os cavalos conotados com Eros, o desejo e a pulsão erótica, reprimida, castrada na existência de todas as personagens. Cavalos a correr com o freio nos dentes e sobre o mar, o símbolo da consciência profunda de si mesmo, a infância de tudo, exposta, escancarada por todos no «livro». E «que livro é este senhores onde perguntas sem fim»? O filho e irmão bastardo, enquanto todos aguardam uma morte, entra por fim na casa paterna. O romance é, como todos os outros do autor, alimentado pela sua memória do eu, um longo monólogo interior transferido para as personagens que ele não cala nunca, maior o medo de um dia não as manipular. Ao contrário de Pessoa, que projecta outros para fora de si, com biografia e existência próprias às quais se submete, os outros de Lobo Antunes são todos introspectivos, introversos, são reflexos-sombras que morrem sem ele. Não é o país que se autopsia na página; é ele, autocomplacente, mas suicida, o escritor-médico que envelhece escrevendo, autopsiando-se em vida, ne varietur, com revisão filológica.
 
A última linha de O Esplendor de Portugal (1997) repete-se, reafirma-se em Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra no Mar?: «Finis Laus Deo» (chegamos ao fim, um louvor a Deus). E podia ser, finis coronat opus (o fim coroa a obra), se como o poeta, Lobo Antunes deixasse todos no seu «regresso a mim» (Pessoa). Mas este homem, o escritor, escreve contra as sombras (o silêncio), contra a morte. Assim: «podia terminar neste parágrafo e não termino, prossigo, mesmo que tentem impedir-me prossigo, não morro, quanto mais me desejarem a morte eu mais vivo onde não sabem quem sou nem se importam comigo, um senhor na mercearia em que mal se repara e se perde em seguida sem fazer sombra em parte alguma / — Que senhor é aquele que não faz sombra em parte alguma?»


Filipa Melo
28.01.2010
(crítica publicada na revista Ler de Outubro 2009)

Alfredo Monte: Miasmas familiares em Que cavalos são aqueles que fazem sombra no mar?

“começo a pensar se é que se pode chamar-se pensar a um ressentimento antigo…” (António Lobo Antunes, Eu hei-de amar uma pedra)

Além de ser uma obra-prima, Eu hei-de amar uma pedra (o trecho acima pode ser encontrado na pág. 316 da edição brasileira, pela Alfaguara) tem um título que é emblemático da visão de mundo que sustenta a obra de Lobo Antunes. Só não gosto, nesse romance, de um detalhe, que não chega a atrapalhar, mas que me parece “sobrar” na tessitura geral. Na pág. 127, lemos: “ou sou eu que imagino ou o António Lobo Antunes julgando que devo imaginar a fim de que o romance melhore”.

Creio que ele usa esse recurso a uma “janela” metalinguística de forma mais feliz e consequente no seu mais recente romance, QUE CAVALOS SÃO AQUELES QUE FAZEM SOMBRA NO MAR? (ninguém pode ser pego de supetão para dizer esse título, vai se embaralhar todo). Os narradores debatem com “o que faz este livro”, com a chamada instância autoral com o próprio Lobo Antunes, cuja participação também é problemática, pois, além de ser interpelado pelas suas criaturas, afigura-se-nos que ele está numa corrida contra o tempo. Ele já afirmou que após os 70 anos (e, nascido em 1942, portanto está quase lá) ninguém produz nada que preste. Então pode-se ler o seguinte nas págs. 108-109 do novo livro:

“o que pensará minha mãe nesta altura, aposto que não há há espaço nela para pensar (…) e no entanto suponho que gorjeios, risinhos, uma palavra feita pedido de esmola ao telefone
Por quê?
porque o mundo não se incomoda com a gente senhora (…)
Por quê?
numa parte da minha mãe que nem estou certa que exista, o que sobeja quando não existimos, em que pensarei eu, este livro é seu testamento António Lobo Antunes, não embelezes, não inventes, o teu último livro, o que amarele por aí quando não existires…”

Como se sabe, nesta última década, talvez premido pelo “prazo” que decretou com suas declarações sempre um tanto dogmáticas, ele se lançou a uma tarefa ciclópica, quase assustadora (parece até que ele é um pactário, um Adrian Leverkühn), de lançar um após o outro uma série de livros “totais”, de uma amplidão que não deixa margem a dúvidas sobre quem é o maior nome da ficção em língua portuguesa dos nossos dias. Assim tivemos depois de Eu hei-de amar uma pedra (2004): Ontem não te vi em Babilónia (2006), Meu nome é Legião (2007) e O arquipélago da insónia (2008).

E agora mais um tour-de-force. A Alfaguara tem optado por manter a grafia de Portugal nas suas edições de Lobo Antunes, como outras editoras que estão fazendo o mesmo com seus lançamentos de autores lusitanos, entretanto não será essa a maior dificuldade do leitor que não está acostumado à sua linguagem peculiar, seus parágrafos que começam com letra minúscula (como se acompanhássemos um fluxo que não começa nem acaba) e se interrompem, os inúmeros parênteses que se abrem, as frases-refrões que surgem e ressurgem na boca dos mais diversos narradores, os fatos que parecem muito concretos e realistas e depois se tornam irreais e fantasmáticos… Na minha opinião, a obra dele é tanto um projeto modernista, no sentido de buscar a totalidade (como fizeram Joyce, Proust, Mann, Faulkner, Guimarães Rosa, Hermann Broch), quanto um projeto pós-modernista, no sentido de sombrear essa totalidade com seus escombros (o projeto modernista de Musil, que ficou inacabado, gigantesco fragmento, os autores pós-Beckett, que não acreditam mais em enredo, em personagens, no próprio real…

Ainda assim, Que cavalos são aqueles que fazem sombra no mar?, por incrível que pareça, é mais fácil de ler que os anteriores (em O arquipélago da insónia, o efeito emaranhado era acentuado pela perspectiva de um autista), com uma tessitura de fatos menos intrincada: acompanhamos os últimos momentos de vida da matriarca da decadente família Marques, e os depoimentos dos parentes mais próximos (e uma empregada fiel, ainda que desprezada, Mercília), especialmente dos filhos Francisco, Beatriz, Ana e João (há uma irmã que morreu, Rita, e um outro sobre o qual ninguém fala): Francisco está roubando dos outros herdeiros os restos que conseguiu salvar da bancarrota; Beatriz é que nos dá a imagem de potência e plenitude que justifica o título (e que é retomada e/ou posta em dúvida pelos demais); Ana é viciada; e João é a vergonha da família, devido ao homossexualismo (na verdade, ele seria mais um pedófilo, caçando menininhos num parque) e ao fato de ter AIDS.

Por mais histórias do gênero que já tenham sido escritas, poucas terão a visceralidade e radicalidade dessa investigação dos miasmas familiares que compõem nossa individualidade, essa “estranha idéia” que “viaja pela nossa carne”, como Drummond (autor muito importante para Lobo Antunes) tão bem colocou.

A leitura às vezes é exasperante, sobretudo porque, assim como Faulkner, nos vemos aprisionados numa visão de mundo em que o tempo como sucessão é anulado: o passado e o presente estão ali juntos, num círculo vicioso de impotência e paralisia. Não sou eu que o digo, é o próprio autor, veja-se outro trecho de Eu hei-de amar uma pedra, talvez sua obra maior: “pensando em como estas coisas se pegam a um homem, teimam, ficam tal como o passado continua a acontecer em simultâneo com o presente”. Mas mesmo quem recusar essa visão fatalística não poderá negar: Lobo Antunes é um narrador incomparável.


Alfredo Monte
26.01.2010

29/01/2010

António Bettencourt: sobre Que Cavalos São Estes Que Fazem Sombra No Mar?


«Como esta casa deve ser triste às três horas da tarde.»

A frase, convocada, logo no início, pela memória da personagem Beatriz foi um dos pontos de partida para este livro e uma memória do autor, citação do seu primeiro romance e recordação da sua infância. Assim se define uma das temáticas centrais do livro, a passagem do tempo, onde tudo se orienta e tudo se constrói a partir da morte da mãe, que origina o labirinto de memórias individuais de uma vida familiar desagregada e disfuncional, onde as relações e manifestações de ternura e afecto são sempre difíceis ou inexistentes e onde as personagens procuram na alienação ou no delírio mitigar o deserto da sua dificuldade emocional, e da carência que dela decorre.

Um discurso que se exerce na técnica polifónica, onde múltiplas vozes se entretecem à volta de uma dominante, vozes que configuram, muitas vezes, apenas ecos distantes da recordação de situações ou objectos.

As frases reiteradas, como que figurações de temas com inúmeras variações ou modulações de tonalidade, formam uma filigrana narrativa depurada segmento a segmento, palavra a palavra, por vezes mesmo letra a letra, num exercício de composição que confere à escrita de António Lobo Antunes um carácter de palavra essencial.

Estamos perante uma escrita que, na sua ambiguidade, nos interpela e nos fascina a cada momento, mas que obriga a que o leitor reconstrua dentro de si toda a teia lógica do romance, num esforço plenamente recompensado pela genialidade da arte de António Lobo Antunes que, a um tempo, intensamente nos perturba, mas fortemente seduz.

Que Cavalos São Aqueles que Fazem Sombra no Mar? é um romance de sombra e sol em que os cavalos, sob a luz, vão ludibriando a morte que se anuncia,

“Chegam os cavalos que fazem sombra no mar e assim que o mar emergir do escuro desaparecemos para sempre.”


António Bettencourt
29.01.2010

23/01/2010

Mary Ellen Farias dos Santos: sobre O Esplendor de Portugal


O real, o imaginário e as lembranças

edição brasileira Rocco

A estética da capa de O Esplendor de Portugal é bastante simples, apesar da cor bastante chamativa. No entanto, o diferencial deste não está fora, mas sim em seu interior, isto é, o texto do escritor português António Lobo Antunes.

Neste, o 13º romance de Antunes, o belo e o cruel de Angola, África, são retratados de maneira inteligente. Outro ponto interessante é o jogo com o leitor, seja na questão do narrador ou nas disposições de certos trechos da obra.

Com um "Q" de Roberto Drummond, Lobo Antunes inclui em sua história personagens com bastante veracidade e outros pouco ficcionais. A história é de uma família de portugueses, brancos, abastados, que vivem do plantio do algodão em Angola.

O pai, por azar dos filhos, é um pobre coitado, alcoólatra e completamente fraco. Sua mulher tenta sobreviver, pois seus três filhos são criados em meio a violência do preconceito. Em meio a flashbacks o leitor conhece estes filhos: o primogênito Carlos, bastardo e mestiço, Clarisse, uma mulher completamente mundana e Rui, epiléptico que sempre está internado em um hospício.

Tudo (aparentemente) começa em 24 de dezembro de 1995, da seguinte maneira: "Quando disse que tinha convidado os meus irmãos para passarem a noite de Natal conosco / (estávamos a almoçar na cozinha e viam-se os guindastes e os barcos a seguir aos últimos telhados da Ajuda) / a Lena encheu-me o prato de fumaça, desapareceu na fumaça e enquanto desaparecia a voz embaciou os vidros antes de se sumir também / - Já não vês os teus irmãos há quinze anos".

Um leitura bastante diferente das que muito (para não se dizer, sempre) se vê por aí. Não há como negar o quanto é difícil ler este livro de uma "tacada" só, mas é ainda mais fácil dizer que apesar da dificuldade, o texto e seu contexto são fatores primordiais que seguram e chamam o leitor para dentro da obra, criando rapidamente um vínculo entre leitor e obra. É simplesmente fantástico mergulhar neste universo de lembranças e versões de uma mesma história. Por tanto seja rápido, aproveite e arrisque-se nesta boa leitura!


por Mary Ellen Farias dos Santos
[não datado]

17/01/2010

Milu: opinião sobre O Esplendor de Portugal


O Esplendor de Portugal é um romance da autoria de António Lobo Antunes que desenrola com admirável mestria o cenário, qual quadro impressionista, da colónia de Angola, no apogeu da colonização e no degradante período pós-colonial. Através das suas personagens, nomeadamente aquando do seu papel de narradores, somos levados a viajar no tempo e no espaço do que foram as suas vidas.

António Lobo Antunes usa de um estilo próprio que faz dele um género único, que se caracteriza por um tipo de escrita densa e enfática, muito propícia a adensar os dramas humanos que projecta nas personagens por si criadas, tornando-as deste modo e inequivocamente, em perfeitos candidatos a utentes de um consultório psiquiátrico. Sem dúvida que António Lobo Antunes alia as suas duas facetas profissionais. O profissional de medicina psiquiátrica caminha de mãos dadas com o profissional da escrita.

Este livro centra-se na história de uma família que se desmembra quando os filhos de Isilda, o Carlos, o Rui e a Clarisse fugidos à violência e aos horrores da guerra civil em Angola, demandam para Portugal e se refugiam no pequeno apartamento da Ajuda, em Lisboa, até que chegou um dia em que, Carlos, o irmão mestiço, dominado pela intolerância e pelo ressentimento dos traumas antigos, expulsa os irmãos de casa. Porém, no dia 24 de Dezembro de 1995, Carlos sente-se invadido por uma profunda nostalgia, que lhe traz à memória os seus dois irmãos, e sem mais nem para quê, dá por si a ansiar que estes o acompanhem na noite da consoada. Na demora e na incerteza da presença dos irmãos, embrenha-se num mundo de recordações do que foi sua existência em Angola.

Através dos sentimentos e traumas desta família, avó, pais e filhos, personagens que vão emergindo no decorrer da acção, que ora avança, ora recua no espaço temporal, vamos tomando conhecimento de quão horrível foi a guerra civil de Angola, que a deixou transformada numa colossal poça de sangue, tão devastada que “já nem Deus lhe podia valer”.

A carcomida avó, mãe de Isilda, é-nos retratada como alguém que nutre um profundo ódio aos pretos, que se estende ao Carlos, o seu neto, que não era neto, mas mestiço. Contudo, no seu leito de morte foi à preta Josélia a quem dedicou aquele que seria o seu derradeiro sopro de vida. Despeitada e amargurada pelos desgostos da vida, sofreu na pele a humilhação de ter sido rejeitada pelo marido, que fugia dela como o diabo foge da cruz, privando-a dos ansiados consolos conjugais, refugia-se dos frequentes embaraços no seu tão peculiar gesto de contar as gotas para a tensão, e fá-lo com tal meticulosidade, que todos os que este acto presenciam, dão por si a contá-las também.

A mãe, Isilda, que comprou o Carlos, fruto da traição do marido que se havia envolvido com uma preta e de cuja insídia se vingará entregando-se ao chefe da polícia, ali mesmo no escritório da sua casa, ao alcance da curiosidade dos filhos e perante as barbas do desditoso marido, que transformado num bandalho, se auto-destrói numa profunda dedicação aos gargalos e ao gorjeio do tilintar de copos. A filha, Clarisse, toda ela vaidade e só com olhos para os homens. Tão absorvida nos ensejos da sedução, que foi incapaz de perceber que o farrapo humano que era o seu pai, a amava imensamente, para quem Clarisse sempre foi a sua doce menina, ela que só tinha ouvidos não para os apelos paternos, mas para as buzinadelas que da rua a chamavam. O Rui, que para sua desgraça nasceu epiléptico, em contrapartida, o único da família que era feliz, talvez por ser doido. Ele e a sua espingarda de chumbinhos eram a dupla mais temida das redondezas, já que teimava em apontar a tudo quanto mexia.

O Esplendor de Portugal, que a mim me pareceu o esplendor da vergonha é, enfim, uma obra que alberga no seu coração, as cruas e nuas imagens do horror, do sofrimento, da solidão, do desencanto e da desesperança. Do pior que a vida tem.


por Milu
09.01.2010

09/01/2010

Ismahêlson Luiz Andrade: A memória entre a guerra e o sublime

António Lobo Antunes é uma presença marcante no campo memorialístico da Literatura Portuguesa e Internacional, com a sua impactante obra literária, a saber, os seus romances e as suas crônicas. Por meio de uma narrativa com cenários compostos por narradores vinculados a recordações contundentes, lembranças aguçadas, densas e sublimes, o leitor é seduzido a acompanhar os seus narradores com as suas lembranças impregnadas de fantasmas, fragmentos discursivos, imagens traumáticas. Enfim, (re)construções, na memória, de um tempo passado e entrelaçadas num tempo presente.

A partir das características narrativas proporcionadas por Antunes, a proposta do nosso artigo é, considerando o percurso dos seus narradores, pela memória, realizar uma breve leitura de abordagem memorialística da sua obra, tendo em consideração seus romances e crônicas, designadamente “D`este viver aqui neste papel descripto – Cartas da guerra”. Trata-se de uma compilação das cartas escritas para a sua esposa, compiladas por suas filhas, e que compreendem o período de Janeiro de 1971 a Janeiro de 1973, quando o escritor esteve na guerra colonial em Angola. Um cenário, portanto, que percorre entre o espaço de guerra e o espaço de amor, revelando sentimentos distintos: a hostilidade e o amor, a solidão e a vida.

Para a nossa análise, tomaremos como referências principais algumas considerações de Paul Ricoeur, resultado de suas investigações sobre a memória e apresentadas em A memória, a história, o esquecimento.

Organizado por Maria José Lobo Antunes e Joana Lobo Antunes, D`este viver aqui neste papel descripto: Cartas da Guerra revela uma coletânea de textos do, posteriormente, escritor português António Lobo Antunes, e nos é apresentado sem qualquer percurso ou nuances de ficção. É ele, ali, personagem real, presente em suas palavras penetrantes, que funcionam como agulhas que costuram sentimentos que lhes são tão íntimos e sucessivos, os quais, são expostos num gesto que emendam duas faces antagônicas: o amor e a guerra. Tratam-se de cartas que podem ter sido escritas sem qualquer preocupação literária, onde as formas, o estilo, ou a mais exata utilização da palavra e frase não estavam propositalmente presentes nos artifícios do escritor, entretanto, é inegável que linhas, traços, perfis da sua escrita permeiam em cada carta, formando um fio condutor que interliga, de uma maneira ou de outra, toda a sua obra.

Muito se tem dito e muito se dirá, certamente, da obra de António Lobo Antunes, estudos e críticas garantidos pela sua ininterrupta evolução, quando cada novo lançamento é aguardado com a expectativa de um novo labirinto do ser a ser trilhado. Discursos que se encontram, que se assemelham, dados que se repetem em meio a dados consecutivamente novos, e nada é velho quando se trata da sua obra carregada dos referenciados labirintos, pois são caminhos que podem até ser repetidos, mas sempre apresentam novas perspectivas de leituras, um novo olhar, uma nova imersão na profundidade do ser. Instantes que se fragmentam e que se completam, entrelinhas que emitem discursos objetivos e plurais ao mesmo tempo. D`este viver aqui neste papel descripto é tudo isso, carta a carta, como o são os demais livros, livro a livro.

Cartas da guerra foram escritas durante o período da Guerra Colonial Portuguesa, para a então esposa do remetente, quando, aos 28 anos, ele foi convocado para combater, no Leste de Angola, na fase final daquele marco da história de Portugal. Assim, casado em Agosto de 1970, partiu em 6 de Janeiro de 1971 rumo à guerra na África. São cartas que tiveram três momentos de interrupções, marcados por três períodos bem próximos e curtos e por acontecimentos determinantes. O primeiro se deu nas suas férias em Lisboa, durante 35 dias em Setembro de 1971; o seguinte, entre Abril e Julho de 1972, com a chegada da família a Marimba, até que a sua esposa adoece com hepatite e é hospitalizada em Luanda; e o último período se dá entre Agosto de 1972 e Janeiro de 1973, com o regresso da família a Marimba. Dados que nos são apresentados no Prefácio do livro, datado em Lisboa, Março de 2005, pelas filhas do escritor, organizadoras do livro e que realizam a publicação pela “vontade expressa” (Antunes, 2005, p.10) da destinatária das cartas.


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05/01/2010

Maria Celeste Pereira: Uma leitura íntima de Ontem Não Te Vi Em Babilónia


Terminei, finalmente, a leitura do livro de António Lobo Antunes “Ontem não te vi em Babilónia”.

Foi, seguramente, um dos livros que mais tempo me levou a ler, mas também um daqueles que mais profundamente me marcou.

Quando, logo no primeiro parágrafo desta resenha, utilizo a palavra “finalmente”, não quero com isto significar um “até que enfim”.

Não, não foi nada de penoso nem tampouco me custou lê-lo.

É exactamente o oposto. É o finalmente de quem lhe custa deixar o livro mas tem de o fazer; de quem lê e relê diversas vezes muitas das partes do romance (?), as mais das vezes por puro deleite. Outras, porém, porque precisei mesmo de o fazer. Precisei de entender bem as palavras das personagens que, numa noite de insónia (é todo o tempo que dura este livro, da meia noite às cinco da manhã e com um fim previamente anunciado), se vão desnudando dizendo muito do que querem ocultar e ocultando outro tanto do que querem dizer.

O registo destas palavras é sempre pesado, sofrido, frágil, visceral, humano…
O próprio autor intervém , por vezes, obrigando-as a expor-se ou então obrigando-as a refugiarem-se no silêncio.

O silêncio, o que não se diz, o que apenas se vislumbra, o que se diz e se nega, o que nos deixa dúvidas, é, incontestavelmente, uma parte crucial desta ficção.

Esta intervenção directa do autor, esta manipulação das personagens não tem intenção de criar uma história (daí o ponto de interrogação que utilizei acima a seguir à palavra romance. Será mesmo um romance no sentido tradicional do termo?).

Isso, na minha leitura, não lhe interessa. Interessa sim a experiência da palavra, o seu manusear, o jogo de a colocar e de a retirar de seguida para, surpreendentemente, a recolocar mais além, ali mesmo, onde fazia falta (ou irá ainda escamoteá-la?).

E com estes jogos magistrais que lhe são tão aparentemente simples cria pedaços de texto literário verdadeiramente fabulosos e únicos os quais leio e releio e volto a ler sempre com o mesmo prazer.

Talvez este livro me tenha puxado para a sua leitura numa má ocasião. A minha própria vida, neste momento, encontra-se pejada de aspectos negativos que se sucedem sem me dar tempo a criar novo alento. Estou emocionalmente fragilizada. Por isso considero que, lê-lo agora, foi também um acto que revelou uma razoável dose de coragem pois muitas vezes me deixou melancólica, triste e deprimida uma vez que assimilava alguns dos sentires das personagens.

Dava por mim em profundas meditações pretendendo (como se fosse o autor) arrogar-me direitos de intervenção naquelas vidas, naquelas ausências, naqueles sofreres. ..

Contudo, é também verdade, que essas reflexões, essa análise de sentimentos que se escondem, que se revelam, que não existem, que se desconhece se existem, que se deixam vislumbrar, foram, por si só, uma enorme ajuda.

Há, seguramente, nas palavras de A. L. A. um efeito indelével sobre o leitor.

Atinge-o por vezes de forma provocadora, hostil até, mas sempre honesta.

Enfim, não me vou alongar mais nesta minha opinião. Nada mais tenho para dizer. Tudo o que dissesse agora seriam variações mais ou menos bem conseguidas de
tudo o que já referi.

Talvez apenas uma breve alusão ao “testemunho” de uma das personagens que faz referência a um contexto político passado, porém, bem presente nas memórias de muitos, terrivelmente feio e vergonhoso; as acções da PIDE sobre os prisioneiros. Neste caso em Peniche.

Agora é a sério. Termino mesmo.

Um conselho: leiam-no e saboreiem-no.
 

por Maria Celeste Pereira
05.01.2010

Crónica «Nós» com reflexão sobre a sua leitura por Olga Fonseca

Nós Não precisávamos de falar. Como ele dizia – Tu sabes sempre o que eu estou a pensar e eu sei sempre o que tu estás a pensar ...