20/12/2009

Manuel Cardoso: opinião sobre O Arquipélago da Insónia


Memórias de uma infância feita de fantasmas vivos, vidas entrelaçadas numa insónia única, a tristeza por todo o lado, porque dela se alimenta a vida e a terra, esperanças nenhumas, sonhos ausentes, apenas memórias…

Um poço que sepulta talvez um irmão, talvez um pai, talvez uma memória ou um desejo, uma planície que os sepulta a todos, vivos na insónia, na vida igual, no trabalho igual, na dor igual.

E a morte, por todo o lado, poderosa e indiscreta, brincando com o destino da gente, ora aqui ora ali, atacando descarada depois escondida, disfarçada, tão presente que por vezes nem se sabe quem morre (o que é que isso interessa?) a morte é mais forte que os mortos, estes calados obedientes respeitosos… os mortos que morrem mas vivem, teimam porque a memória persiste. Esperança nenhuma nem Deus, só a memória, só os mortos que persistem…

Três gerações, um tempo só, indefinido, único no entanto, sem início nem fim como a tristeza.

Memórias, esquecimento, revolta, solidão, nunca futuro, nunca esperança porque o tempo não é o que será, o tempo ri, não sorri, apenas desdenha, pérfido, implacável, aborrecido mas trocista do destino da gente…

O tempo que gasta o amor que nunca existiu (que disparate amor, talvez respeito, talvez obediência como a dos bichos), amor palavra vã, ausente, sem sentido… a não ser Maria Adelaide, sim, Maria Adelaide (“com vontade de levar-te para onde ninguém nos conhecesse e pudéssemos, por assim dizer, estar em paz… não me atrevo a sugerir que felizes”)… mulher, amor, sonho algum, talvez ilusão de vida que não foi, vida apenas pensada, sonhada sem esperança. Ou talvez amor a mãe e o avô, a mãe e pai, a mãe e o padre, o avô e a avó, o avô e a cozinheira: talvez amor ou vingança ou ódio, tanto faz…

E Maria Adelaide: o amor que não conhece voz, não existiu sendo real, distante, tão distante dos pulsos das empregadas que o avô agarrava – chega aqui – amor não, qual amor, antes carne viva entre mortes e lágrimas…

E a mãe a chorar, Maria Adelaide sem voz, o pai idiota, a filha do feitor a chorar, a avó como um pires que treme na chávena… talvez tudo isto uma insónia de Deus – como pode o neto estar em paz e afinal que é ele, quem somos? Sombras de Deus?

Um pouco mais que uma mão cheia de personagens que são ilhas desertas, formando arquipélagos onde as ilhas se mudam como as estrelas, ilhas que trocam de lugar, porque tanto faz, uma no lugar da outra e a vida é igual a desgraça igual a terra igual, talvez o nome diferente, (que diferença faz?) a morte igual, a morte que é de cada um e é de todos, morremos à vez, como na dança das cadeiras, aqui as cadeiras da solidão.

E a espera. A espera que é a insónia. Talvez ânsia de paz na alma da gente (ou fantasmas? Os fantasmas têm nome?).

Uma mão cheia de fantasmas dançando ao som do silêncio ensurdecedor da tristeza.

E um livro sem beleza.

De beleza só a escrita. Nem a estória porque as vidas não têm estórias, apenas talvez espera e insónia.
 

por Manuel Cardoso
enviado por e-mail
20.12.2009

14/12/2009

Germán Gullón: opinião sobre Mi Nombre Es Legión


Autor de livros onde não cabem nem a utopia nem a esperança de um futuro melhor, António Lobo Antunes (Lisboa, 1942) regressa com este romance aos subúrbios miseráveis de Lisboa. Ali, os habitantes vivem fora da fronteira que separa o bem do mal, segundo a linhas marcadas pelo direito. Os romances do português fazem raras concessões ao leitor, já que o escritor apenas se preocupa em encher os espaços vazios da narrativa, que salta de uma personagem para outra, de um tema para o seguinte. Se o público não está disposto a centrar-se no texto, tentando preencher os vazios, deixará o livro de lado. Lobo Antunes nunca oferece uma simples leitura, trata-se de literatura em estado puro.

É sempre mencionada a profissão de psiquiatra de Lobo Antunes pela utilidade em explicar o seu peculiar modo de narrar. De facto, os seus textos parecem confissões de divã. Aqui trata-se de uma história contada a várias vozes, a partir de diversas perspectivas, um polícia, Gusmão, uma prostituta branca, uma mestiça, e um delinquente, que tomam a palavra cada um à sua vez. O texto começa quando o polícia escreve um relatório da sua última missão. "Os suspeitos em número de 8 (oito) e idades compreendidas entre os 12 (doze) e os 19 (dezanove) anos abandonaram o Bairro 1º de Maio situado na região noroeste da capital e infelizmente conhecido pela sua degradação física e inerentes problemas sociais às 22h00." (pág. 11). Uma folha depois começa o polícia a incluir observações menos profissionais. Acrescenta o facto de que apenas um dos oitos delinquente é branco. Os restantes eram "semi-africanos e num dos casos negro e portanto mais propensos à crueldade e violência gratuitas o que conduz o signatário a tomar a liberdade de questionar-se preocupado" (pág. 12), e, a seguir, procede colocando em questão a política nacional de imigração. Um par de páginas depois dá um salto maior, às suas lembranças, e acaba misturando os detalhes objectivos do relatório, as malfeitorias que cometem os miúdos, com memórias da vida pessoal, iniciando com um episódio onde estão o seu padrasto e a mãe.

O resto do romance supõe uma descida a esse inferno de desejos impuros que bem podiam denominar-se Legião, viagem narrativa que nos deixa com a triste convicção de que acaba por ser impossível alcançar o ideal humano que deveria reger a sociedade. Sobra tudo quando a história fala do progresso do homem. Talvez as páginas mais impressionantes do romance sejam as que se dedicam a contar a vida e o destino de uma mulher mestiça (págs. 159-207). Desfilam pelo texto a vaidade da juventude, a injustiça do destino, ou as falsas promessas da sedução.

Porém, o melhor do texto acaba nesse fluir de uma consciência que compõe a história narrada, onde os feitos do argumento não surgem ordenados mas justapostos. Forma que provoca um dramatismo mais profundo que a narrativa linear. O romance oferece a emoção do grito de Munch ou do conto "O homem morto" de Horacio Quiroga. Por exemplo, no episódio onde cai morto o irmão (pags. 206-207) misturam-se com o ruído de um balde que cai na rua, a visão do irmão em criança correndo atrás dos escaravelhos, o ruído metálico da caçadeira de canos serrados a chocar com o pavimento quando cai abatido pelos polícias, e muito mais. Lobo Antunes regista, como gosta de fazer, o momento na sua plenitude sensorial através da palavra.

 
Germán Gullón
citado de El Cultural
05.06.2009
[traduzido do espanhol por José Alexandre Ramos]

12/12/2009

Carla Ribeiro: opinião sobre Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra No Mar?


São irmãos e a mãe está às portas da morte. Esta é a história deles, do passado e do presente, das memórias, das emoções, dos amores e dos ódios. Pequenas e grandes coisas, rasgos de emotividade e crueldade, silêncios e palavras. E, neste livro, cada um deles tem voz, desde o que pretende roubar tudo aos irmãos, à que tem um rosto estranho e, por isso, não tem ninguém.

Este foi o meu primeiro encontro com a escrita de António Lobo Antunes e devo confessar que também uma das opiniões mais difíceis de transmitir em palavras. A escrita do autor tem um estilo muito próprio, como se divagasse pelos sentimentos e memórias das personagens, transcrevendo-as à medida que surgem, por vezes aleatoriamente. O lado positivo deste aspecto é a visão clara e quase palpável do que se passa na mente das personagens. O negativo é que a história fica, a maior parte das vezes, perdida entre as divagações e reflexões, tornando este livro numa obra difícil de acompanhar.

Sabendo de antemão que a escrita deste autor é do género que desperta ódios e paixões, foi-me, contudo, difícil estabelecer uma opinião clara. Se, por um lado, a forma como a narrativa se desenrola, de forma fragmentária e envolvida pelas múltiplas camadas dos pensamentos dos protagonistas, torna difícil compreender em pleno o livro e acaba por se tornar, por vezes, um exercício de esforço, existem, ao longo do texto, vários momentos e metáforas de impacto, deixando a vaga sensação de que estamos perante uma imagem que perturba na sua soberba construção.

O que dizer, pois, deste livro? Num balanço final, foi uma leitura que apreciei, de que tirei momentos muito bons e que me deixou com suficiente curiosidade para ler outras obras do autor. Não o recomendaria, contudo, a todos os leitores, já que o seu estilo particular é, como parece ser a opinião geral, tão capaz de conquistar como de afastar de si o leitor.


Carla Ribeiro
12.12.2009

06/12/2009

Paulo Neto: Para um começo da leitura de Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra No Mar?


Para um começo da leitura de
Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra No Mar?

Boa pergunta, embora a posteriori saibamos ser verso de toadilha de infância.

O título do último livro de António Lobo Antunes.
Os cavalos, a sombra e o mar.
Uma família ribatejana.
A mãe que aguarda a morte à hora marcada, um pai finado, marialva também dado ao jogo e os filhos: 3 raparigas e outros tantos rapazes.
Todos com sua cruz.
Ana é toxicodependente.
Rita que um cancro matou.
Beatriz que os homens deixam para trás.
João é pederasta.
Francisco consome-se em ódio.
O bastardo que é invisível.

Mas… o que me ocorreu de imediato foi a isotopia da morte.
Não inúsita, em LA.
Pelo contrário, desde sempre de atalaia.
E o desde sempre remete para há 30 anos, aquando da saída de “Memória de Elefante” e “Os cus de Judas”.
Mas aqui, a morte mistura-se com a “Fiesta”.
E esta lembra E. Hemingway, aquele que não exorcizou a morte, embora a tentasse desalmadamente.
E onde está a “fiesta”?
Na organização do romance.
Senão vejamos:

Um curto capítulo introdutório:

- antes da corrida.

Quatro capítulos em sequência:

- tércio de capote.
- tércio de varas.
- tércio de bandarilhas.
- a faena.

Todos eles se dividindo em quatro subcapítulos, assim como o antepenúltimo:

- a sorte suprema.

Fecha como abre, com um curto capítulo de conclusão:

- depois da corrida.

Assim, entre um antes e um depois, desenrola-se a lide espanhola.

E chegando a Espanha, chegamos a Frederico Garcia Lorca.
E a um dos meus títulos preferidos, da morte do “matador”:
  

Llanto por Ignacio Sanchez Mejia


Que se divide assim:

  1. La cogida y la muerte.
  2. La sangre derramada.
  3. Cuerpo presente.
  4. Alma ausente.

Estes quatro momentos fundem-se no verso:

“Estamos com un cuerpo presente que se esfuma…”

Ainda assim, no momento 1, lemos:

“lo demás era muerte y solo muerte”

No momento 2, lemos:

“la luna de par en par.
Caballo de nubes quietas…”

No momento 3, lemos:

“Yo quiero ver aqui los hombres de voz dura.
Los que que doman caballos y dominam los rios…”

No momento 4, lemos:

“No te conoce el toro ni la figura,
Ni caballos ni hormigas de tua casa.”

E, perante tanta recorrência, da morte, dos cavalos, dos rios, e da (tua) casa, temos enunciado o microcosmos da diegese deste romance de LA.
Ou então, neste imenso mosaico de Kristeva, onde todos os textos se interpelam, a intertextualidade coincidiu com rigor.

Este seria o primeiro passo, passo pioneiro no enfoque, para ler esta obra.
Sempre, um ponto de partida.
Ou mais um ponto de partida, de entre as infindáveis visões dos plurais leitores.
Aqui vo-lo deixo.
Nesta teia há sempre, pelo menos, duas pontas.
Enrolai esta no indicador direito e ide à cata de mais pontas…


Paulo Neto
enviado por e-mail
06.12.2009

05/12/2009

Daniel Benevides: opinião sobre O Meu Nome É Legião


Em "O Meu Nome é Legião", António Lobo Antunes dá mais um passo para mudar a literatura

edição Alfaguara, Brasil
Mudar a literatura, criar uma nova linguagem. Simples assim, e bastante ambicioso, é o objetivo do português António Lobo Antunes, que veio ao Brasil no início do último mês de julho para a Flip.

Não se pense porém que o escritor, sempre lembrado para o Nobel, é um mero arrogante. Na verdade sua postura é até meio espartana e relativamente modesta, a julgar por outras declarações. Obstinado, fica feliz quando consegue escrever uma página em um dia -- para ele, "ficção é trabalho árduo". Corrige incansavelmente tudo o que faz até sentir que descobriu o "som" do texto. E, num lance de anti-vaidade (que também pode ser uma vaidade), divide a responsabilidade com os leitores, considerando-os "co-autores".

Tudo isso fica mais ou menos evidente em "O Meu Nome é Legião", livro de 2007, agora lançado no Brasil (juntamente com "Explicação dos Pássaros", de 1981). Mais ou menos porque o papel do leitor é um tanto difícil, exige dedicação e tenacidade.

Ainda que Antunes considere seus livros fáceis, fato é que sua escrita tem a densidade e o emaranhamento de uma selva profunda, com poucas clareiras. Mas também é verdade que, ao se aventurar pelas frases incomuns de seus romances, o leitor chega ao final recompensado por uma experiência literária única, estimulante.

"O Meu Nome é Legião" é uma verdadeira polifonia de vozes, tempos e registros diferentes. Começa na forma de um relatório policial sobre os crimes cometidos por uma gangue de garotos da periferia de Lisboa: "um branco, um preto e seis mestiços (...) de idades compreendidas entre os 12 (doze) e 19 (dezanove) anos". Há muita violência e a forte sugestão de ódio racial, o que remete ao período colonial. Aos poucos, o policial em final de carreira que anota os fatos deixa-se levar por memórias e pensamentos aparentemente aleatórios.

A narração então se esparrama por vias de curvas quase impossíveis e cruzamentos bruscos. A impressão é que o livro ganha vida autônoma, toma as rédeas para si. A pontuação se rebela, os parágrafos são cortados no meio por estranhos parênteses, as falas surgem inesperadamente, confundindo-se com os fluxos de consciência, nem sempre com o habitual travessão. Imagens variadas passam pelos olhos à medida em que as vozes e testemunhos se alternam e/ou se sobrepõem.

Ora sabemos o que pensa a mãe de um dos criminosos, o chamado Miúdo, ora a irmã de outro, o Hiena; ora deparamos com o depoimento íntimo de uma prostituta branca, amante do Gordo, o mais silencioso da gangue, ora mergulhamos nas impressões de um avô desencantado.

Nesse meio tempo, a polícia vai fechando o cerco e matando alguns dos delinqüentes com requintes de crueldade.

Perto do final, "ouvimos" a versão dos miúdos, de como foram mal amados, maltratados, excluídos na infância. O livro que tratava das desigualdades -- raciais, sociais, geográficas --, da violência urbana extremada e, em última instância, do Mal que nos invade como demônios, fala agora de Amor, amor pela humanidade, compaixão. É assim que o próprio escritor vê seu romance, que considera um de seus melhores.

O título, resumo simbólico do enredo, surgiu para Antunes só no final da escrita. Vem de um episódio no Evangelho de São Lucas. Jesus se encontra com um homem nu e desfigurado, possuído por espíritos malignos, e pergunta por seu nome. "O meu nome é legião", responde o infortunado, "porque somos muitos".


Daniel Benevides
27.07.2009

03/12/2009

Márcia Valadares disserta sobre O Esplendor de Portugal


Antunes, António Lobo. O Esplendor de Portugal. Rio de Janeiro: Rocco, 1999.

A obra do escritor português António Lobo Antunes (também psiquiatra e ex-combatente na Guerra de Angola) não é, ainda, muito conhecida no Brasil, onde somente sete de seus dezenove romances foram publicados até o momento.


Pouco a pouco, entretanto, vemos surgir ações que contribuem para a difusão de sua obra em nosso país, como é o caso, por exemplo, da presença de seu segundo romance,Os cus de Judas (lançado em Portugal, em 1979), entre os livros indicados para o vestibular 2006 da UNICAMP.

Romance após romance, percebemos que a perplexidade e horror frente a guerra e a sociedade contemporânea ganham corpo não só nas situações narradas – que envolvem ex-combatentes ou pessoas comuns que seguem sua vida sem estímulo, abandonadas pelas instituições nas quais confiavam; como também na linguagem e na estrutura dos textos, principalmente com o uso do disfemismo como procedimento de escrita predominante.

No contato com o conjunto da obra desse autor, observamos que o romance O esplendor de Portugal ocupa lugar central por trazer, de forma explícita, esses procedimentos de escrita desenvolvidos de forma bastante complexa e com notável habilidade.

Em O esplendor de Portugal, o ponto de vista principal é o dos portugueses nascidos em Angola, gerações que cresceram e viveram toda sua vida dentro do (ou sob o) pensamento colonialista, e que subitamente se viram frente ao violento processo de independência da colônia, desprezados e rejeitados por suas duas “pátrias”. E esse sentimento de rejeição atravessa toda a história, explicitado de maneiras diversas no discurso de quase todos os principais narradores – Isilda, Rui, Clarisse e, principalmente, no de Carlos (o filho mais velho de Isilda, adotivo e mestiço), em cujo relato verificamos sentir-se rejeitado tanto pela mãe verdadeira – Carolina – que o vende à esposa do pai; como pela mãe adotiva – Isilda – como se esta o houvesse obrigado a partir para Portugal por sentir vergonha de sua origem mestiça; e até mesmo por sua própria esposa, Lena, que, segundo ele, se recusa a engravidar de um mestiço.

Como já nos referimos anteriormente, em O esplendor de Portugal um procedimento de escrita é muito utilizado para explicitar e ressaltar as emoções, memórias e medos dos narradores: o disfemismo, o ataque verbal direto, sem meias-palavras, utilizado de forma tão forte, singular, expressiva e poética na escrita de Lobo Antunes e que pode ser relacionado tanto ao objetivo do autor de revelar toda a crueldade da guerra e do sistema colonizador português, quanto ao fato de sua condição de médico, que vê o avesso de tudo o que vive.

Daí a predominância do feio, do asqueroso, da doença, do ridículo, da ferida, do sangue, da rejeição, que caracterizam o vocabulário de O esplendor de Portugal, esse “romance que não conhece a expressão lateral, ou, se a utiliza, a volve de negatividade.”

O trecho que reproduziremos a seguir é um dos melhores exemplos existentes no romance da utilização cruel e poética do disfemismo:

Devia ter desconfiado que Angola acabou para mim quando mataram as pessoas duas fazendas a norte da nossa, o homem de pescoço para baixo nos degraus, isto é, pregado aos degraus por um varão de reposteiro que lhe atravessava a barriga, a mulher nua de bruços na desordem da cozinha, muito mais nua do que se estivesse viva, sem mãos, sem língua, sem peito, sem cabelo, retalhada pela faca de trinchar com um gargalo de cerveja a espreitar-lhe das pernas, a cabeça do filho mais velho fitando-nos de um ramo, o corpo que a serra mecânica decepara em fatias espalmado no canteiro, o filho mais novo nos fundos(...) misturando as tripas com as tripas do cão, dedadas de sangue nas paredes, os tarecos tombados, as molduras em pedaços, as cortinas das janelas abertas varrendo o silêncio e o cheiro das vísceras...


Para concluir, gostaríamos de ressaltar que em O esplendor de Portugal seus diversos narradores apresentam versões diversas de uma mesma história, sem, entretanto, contradizerem-se uns aos outros. Cada nova versão retoma a anterior, acrescentando a ela (e por conseqüência, ao romance) uma riqueza de detalhes e nuances que nos aproximam dos sentimentos dos personagens de forma raramente encontrada na literatura ocidental.



Márcia Valadares
(Mestre em teoria da Literatura pela Faculdade de Letras da UFMG. Directora executiva do Centro de Estudos Cinematográficos de Minas Gerais - Brasil)
em  TXT
[não datado]

Crónica «Nós» com reflexão sobre a sua leitura por Olga Fonseca

Nós Não precisávamos de falar. Como ele dizia – Tu sabes sempre o que eu estou a pensar e eu sei sempre o que tu estás a pensar ...