25/10/2009

Uma volta pela cabeça de António Lobo Antunes


Ípsilon, suplemento do jornal Público - entrevista de Alexandra Lucas Coelho
23.10.2009


Uma volta pela cabeça de António Lobo Antunes

A gente quer andar mais pela rua. Ouvi-lo com o merceeiro, a cabeleireira, o flautista da GNR, a dona do quiosque, mas ele dá-nos a volta. Conde de Redondo, Gomes Freire, Gonçalves Crespo, Conde de Redondo. Quando damos por isso estamos outra vez em casa. A casa é como a cabeça dele: livros, livros, livros.


1. A casa

Em que pensa um lisboeta quando lhe falam no Conde de Redondo? Em travestis. Na Judiciária. Numa daquelas ruas cheias de autocarros para cima e para baixo, com pensões de passagem e montras de bairro. Uma rua onde não se passeia, a não ser quem lá mora.
 
Agora mora lá António Lobo Antunes. Mudou-se há dois anos para uma casa que por fora é Conde de Redondo e por dentro podia ser Nova Iorque ou Zurique. Prédio recuperado por um arquitecto, átrio em pedra escura, ferro, madeira, luzes a acender conforme andamos. Um elevador silencioso e, quando a porta desliza, uma espécie de antecâmara do templo: António Lobo Antunes em alemão (a propósito de "Manual dos Inquisidores"), António Lobo Antunes em francês ("António Lobo Antunes et le livre total"), António Lobo Antunes tão novo (ele diria: "quando eu era bonito"), cada poster na sua moldura e por cima a assinatura manuscrita a preto na parede do patamar: António Lobo Antunes.
 
A porta de casa abre-se e aqui está ele - quase novo, quase magro, metade do que estava antes do cancro, aquele olho azul vagueante.
 
Cumprimenta, faz entrar, começa a mostrar tudo.
 
- Gosto desta casa porque é aberta para dentro.
 
O Conde de Redondo é mesmo lá fora, até se vê uma nesga do prédio em frente, encardido, cheio de marquises, e ouve-se, porque a janela está aberta. Mas a casa parece estar fora da cidade, suspensa. Um casulo muito amplo e alto, forrado a livros, todo branco, cinza e ocre, luz coada, linhas rectas sem um grão de pó - e nem uma conta da água, um casaco numa cadeira, um maço de SG Gigante, uma beata, nada.
 
É como se António Lobo Antunes se tivesse mudado para aqui ontem com a roupa que traz no corpo: ele, algumas imagens emolduradas e muitos milhares de livros.
 
- Isto estava na rua - diz, pondo a mão numa formidável mesa de carpinteiro, ainda com os armários de ferramentas e o torno de ferro, que faz as vezes de aparador entre a sala e a cozinha.
 
E a cozinha, virgem, imaculada, espera um chefe que a inaugure, com a mesa de jantar ao fundo e uma estante à cabeceira.
 
De resto, há livros ao longo de todas as paredes, livros de lombada partida, meticulosamente arrumados até à beirinha em estantes claras e sólidas, pouco profundas, sem espaço de sobra para aquelas coisas que as pessoas acumulam em frente aos livros.
 
- Quem lhe fez estas estantes?
- Foi um amigo - atalha. Portanto, era uma pergunta indiscreta, quase como perguntar-lhe por Deus.
 
Eis a biblioteca de um leitor compulsivo, maníaco. Enquanto os repórteres a vêem de perto, ele recua de mãos nos bolsos, mas aqui e ali avança para corrigir uma lombada.
 
- Não gosto de ver as coisas fora do sítio.
 
Que imaginavam? Caos e fumo? É que nem fumo, apesar de António Lobo Antunes ter sempre um cigarro aceso.
 
Mas quem já viu as folhas onde ele desenha as letras (ele gosta de dizer que desenha as letras), talvez reconheça esta disciplina de quem foi educado num mundo antigo (sem cotovelos em cima da mesa).
 
Está com 67 anos, o primogénito Lobo Antunes, e as vezes que fintou a morte, desde a tropa em Angola.
 
No livro que acaba de publicar, "Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra no Mar", a morte é a matéria de toda uma família - uma filha que morre de cancro, um filho que tem "a doença, a doença, a doença", uma mãe que sempre foi gorda e de repente a roupa está-lhe larga, vai morrer às seis em ponto da tarde, como num poema de Lorca.
 
É um livro com toiros ao fundo (António Lobo Antunes escreve toiros, à antiga).
 
Toiros, azinheiras e uma quinta a alternarem com a casa de Lisboa, o baldio de Lisboa onde uma filha compra droga de injectar, o parque de Lisboa onde um filho compra sexo com meninos, mas tudo isto mesmo lá ao fundo, porque na verdade (como sabe quem o lê) o livro não se passa em lado algum a não ser na cabeça de quem o escreve.
 
E António Lobo Antunes vai aparecendo mais uma vez com o seu próprio nome, invocado, descomposto por pai, mãe e filhos enquanto "aquele que escreve o livro".
 
E mais uma vez este será "o último livro", "o testamento", neste caso dividido nas etapas da corrida de toiros, até que o autor declara "finis laus deo", fim, graças a deus.
 
E quando o leitor vê isto fica a saber que, claro, não é o fim, pois se aquele livro não acabou com António Lobo Antunes, António Lobo Antunes começará outro, mais uma vez.
E assim foi.
 
No começo de 2009, mal acabou de rever "Que Cavalos..." (título, diz ele, de uma canção rural do século XIX), pôs-se a escrever mais uma resma com letras desenhadas. [...] Está em fase de revisão.
 
Lá chegaremos, à resma e à poesia, ali uns degraus acima, numa espécie de pequena mezanine onde o autor agora trabalha.
 
Cá em baixo, junto à janela, a primeira estante tem toda uma prateleira de Odisseias e Ilíadas em várias traduções, depois uma prateleira de Bíblias, Corões e livros sobre religião, e antes de passarmos à terceira prateleira já Lobo Antunes se adianta pela sala.
 
- Quem é este? - desafia, agarrando uma edição francesa, com o polegar firmemente em cima do nome do autor. Só se vê o título: "Carnets". E a fotografia da capa mostra um homem jovem de chapéu e feições finas. A gente pensa em Ezra Pound mas já passou o tempo:
 
- Sua ignorante - diz o autor, movendo o polegar.
É Tchekov, muito novo, sem a cara redonda dos retratos posteriores.
 
A gente diz que está parecido com Ezra Pound, mas o autor acha que está parecido com Johnny Depp - o que vai dar ao mesmo porque Ezra Pound também é parecido com Johnny Depp (ou vice-versa). E entretanto o autor já foi buscar um álbum de fotografias de Tchekov para mostrar como era bonito em todas as fases.
 
Não é comum nos heterossexuais da sua geração, mas quando António Lobo Antunes fala de um homem bonito diz que ele é bonito, de Luandino Vieira a Le Clézio, e muitas vezes começa mesmo por aí.
 
Talvez por também isso não lhe ter faltado - ser bonito.
 
Mas sigamo-lo, porque ainda faltam as fotografias antes de sairmos para o Conde de Redondo, tal como lhe foi proposto.
 
- A estante dos favoritos é aquela - resume.
 
A saber: uma prateleira de Tolstois; outra de Joyces e Pounds; outra de Shakespeares e Dantes; outra com Gogol, Tchekov, Lewis Carroll, William Gaddis; outra com Conrad...
 
- Isto é uma primeira edição que fanei em Chicago.
 
... e Salinger; ou ainda: Rabelais, Cervantes, Eugene O'Neill, Stendhal, Doistoievski, Flaubert.
 
- Não são todos os que gosto, faltam alguns. As Bröntés, a George Eliot estão no corredor...
 
Contorna os sofás.
 
- Isto é do Ikea - gesto largo. - Mas também tenho Philippe Starck.
 
Sobe os degraus para a mezanine e aponta uma pequena mesa quadrada com quatro cadeiras.
 
- Não parece mas é confortável, sente-se lá.
 
A gente senta-se. Muito confortável, com a vantagem - qual Philippe Starck - de termos à mão mil páginas de letras redondas, infantis. Papel, caneta, um cinzeiro-espelho de tão limpo. E na parede mesmo à direita, só poesia.
 
António Lobo Antunes espeta o dedo num Auden.
 
- Este tipo é um grande poeta. Deste também gosto muito [William Carlos Williams]. Esta é uma primeira edição [Lorca, obras completas]. Tem isto? Vale mesmo a pena [Blake, obras completas]. Até aqui tenho poetas de segunda como o Neruda.
 
Da mezanine vai-se para os quartos, passando pela estante dos ingleses: Jane Austen, Virginia Woolf, muitos Graham Greene muito lidos. Em frente, há ensaios; dobrando a esquina, policiais - edições de bolso amolgadas.
 
- Isto é só uma escolha - acentua ele, explicando que muitos caixotes não chegaram a vir.
 
Depois, o primeiro quarto tem centenas de livros e um único autor: António Lobo Antunes.
 
- São as traduções - Uma parede inteira de línguas e alfabetos, de todos os tamanhos e géneros. Há capas feitas sobretudo com letras, e capas como a da edição americana de "Que Farei Quando Tudo Arde", com uma boca de "pin up" entreaberta (uma das favoritas do autor, até está em poster na sala).
 
E finalmente António Lobo Antunes entra no seu próprio quarto "en suite", onde também há estantes altas e baixas. As baixas mantém-se vazias, à espera. Nas altas acham-se os autores portugueses, desde as crónicas medievais.
 
A cama está desfeita.
 
- Peço desculpa.
 
Mas é a prova da existência do homem. E em frente à cama, a grande luz de Marilyn, a rir de perfil.
 
- Uma publicidade para a Chanel - fanada algures, conta ele.
 
Linda.
 
2. A rua
 
E saímos, sim, saímos - como diria Cesariny.
 
No elevador, António Lobo Antunes fala no estado ideal para escrever (entre sono e acordar, ou quando se está cansado), e a gente lembra-se de ele já ter falado disto.
 
Mas o problema com quem deu milhares de entrevistas, e acaba agora de ver sair um livro com mais algumas ("Uma Longa Viagem com António Lobo Antunes", de João Céu e Silva), é que já a gente já não sabe quando algo é novo. Provavelmente, nem ele.
 
Pára no átrio para abrir o correio. Há uma revista estrangeira.
 
- Quer? - oferece o autor. - Para saber se deito fora.
 
Quando a porta da rua se abre, é como levar um estalo. Cá está a cidade, autocarros a deslocarem massas de ar. Mas dobrando a esquina, uma aldeia.
 
- Gosto deste bairro, porque são merceariazinhas, padariazinhas, lojinhas, parece que estou em Benfica outra vez. Costumo sair para comer aqui à volta, e depois voltar a casa é um sentimento de paz. Eu trabalhava na Gonçalves Crespo, havia um letreiro aqui a dizer-se "Vende-se" e vim ver com a Tereza.
 
Tereza Coelho, sua editora na Dom Quixote. Morreu em Janeiro.
 
- Faz-me muita falta, a Tereza. Era uma óptima leitora. A divisa dela era a dos marines americanos: "Se fosse fácil não era para nós." E tinha a felicidade de ter um marido [Rui Cardoso Martins] que é um homem único. Tenho a maior admiração pelo Rui. É um homem que eu beijo.
 
Viramos para a Gomes Freire.
 
Raparigas indianas no quiosque onde António Lobo Antunes compra sempre, e hoje também.
 
- Olá, bom dia, doutor - diz a vendedora.
 
Ele sorri-lhe, de mãos no mar, nem uma palavra, ela volta costas e sai um pacote de 10 maços de SG Gigante.
 
- A gente já se entende sem falar.
 
Jornais e revistas, népias.
 
Voltamos à direita e ele aponta uns azulejos por cima de uma porta.
 
- Olhe, este painel encantava-me. Ainda pensei vir aqui fanar isto à noite, e depois descobri que havia muitos iguais.
 
É um Camões retratado em 1907, com a evocação: "E vós, tágides minhas..." Agora, do outro lado da rua tem um Club Welness.
 
Entretanto Lobo Antunes está a falar mal de Musil.
 
- Não gosto. Tal como há livros maus de que gosto, há livros bons de que não gosto. Musil, Thomas Mann...
 
Thomas Mann também?
 
- Tirando a "Montanha Mágica" e passagens do "Doutor Fausto", chateia-me de morte.
 
Para onde estamos a ir?
 
- O carteiro deixa-me correio numa merceariazinha.
 
A casa nova tem só dois anos, mas a ligação a este bairro é antiga. António Lobo Antunes costumava escrever na garagem-atelier de um parente, ali adiante, e é à mercearia ao lado que agora vai ver do correio, e tratando o merceeiro pelo nome:
 
- A sua senhora não está? Então dê-lhe os bons dias por mim. Quando é que vai à doutora? Olhe que eu na quarta-feira venho cá buscar os iogurtes.
 
Para o pequeno-almoço, a única refeição que toma em casa.
 
E, chave na mão, abre a garagem-atelier, a esta hora deserta.
 
- Venho aqui uma vez por semana - explica, a apanhar envelopes do chão.
 
Cada bairro é um xadrez, com os seus reis, e é disso que António Lobo Antunes agora fala, da malandragem. A gente sabe como ele gostava de ter sido o Cisco Kid, e já viu o que ele leu de policiais.
 
Entretanto, o sol, aquece as nossas costas, quase meio-dia, e é sobre folhas caídas que caminhamos, aquele leve crepitar na calçada. Claro que este sol, estas folhas, estas árvores já entraram em algum livro de António Lobo Antunes, porque os livros dele são debulhadoras.
 
Mas se lhe perguntamos:
 
- Nunca toma notas?
 
Ele responde:
 
- Não. Porque não escrevo sobre nada.
 
E não podemos dizer que é mentira. Não escreve sobre nada porque escreve sobre tudo. Não toma notas porque tem aquela memória monstruosa. Agora, por exemplo, está a citar Guilherme de Aquitânia quando aparece uma jovem loura a saudá-lo.
 
- Olá, está bom?
 
Ele apresenta:
 
- É a dona daquele cabeleireiro ali.
 
Cortou-lhe o cabelo no outro dia. Agora só daqui a dois meses.
 
- Nem quero outra pessoa já.
 
O charme.
 
Quanto a populares, as coisas estão a correr-lhe bem. Dizemos-lhe mais ou menos isso e ele:
 
- Deste algeroz para cima sou famoso.
 
E assim medido o horizonte ficamos com uma daquelas pensões de passagem à vista.
 
- Aquilo é a taxímetro. Há várias.
 
Travestis?
 
- Os travestis são mais para lá - aponta para baixo.
 
E volta aos populares:
 
- É óptimo. Uma pessoa não tem guarda-chuva e eles emprestam.
 
Claro que depois, além do algeroz, há milhares de pessoas hipnotizadas, por exemplo, a festa Literária de Paraty, Brasil.
 
- Diziam "Fica, fica, fica". Tive de sair de lá com segurança e polícia.
 
A propósito, como é que depois foram parar aos jornais as rosas que levou à brasileira Raquel Cristina dos Santos, quando ela aterrou no aeroporto de Lisboa, alegadamente para se casarem, - as rosas e ele próprio, a recebê-la?
 
- Saiu uma notícia no "Globo", na véspera.
 
E adiante, adiante. Não quer falar mais disso.
 
Nem de propósito, um cavalheiro faz agora o jeito de o cumprimentar a meio da calçada.
 
- Bom dia, sôtor - palmadinha no braço.
- Este senhor toca flauta, é artista - explica António Lobo Antunes.
- Já fui - retorque o cavalheiro, modesto.
- Estava esta senhora a perguntar se as pessoas no bairro sabem quem eu sou. O que é que faço?
- Escreve.
- Ah, achava que não sabia.
 
Palmadinha no braço.
 
O cavalheiro prossegue em sentido contrário.
 
- Era flautista da banda da Guarda Republicana - remata o autor.
 
E depois conta que torceu o nariz a jantar com Kundera, ainda há dias, porque ia ser uma chatice.
 
Também torce o nariz a que lhe falem de personagens, a propósito deste último livro (de qualquer um).
 
- São símbolos de verdades mais profundas, não são pessoas. O que interessa são as palavras. Se eu quisesse contar histórias, contava.
 
É por isso, diz, que a crítica portuguesa o aborrece.
 
- Ainda é muito cedo. Não é nada disto que eu queria, a maneira como as pessoas falam dos livros.
 
A gente, por exemplo, fala-lhe na família deste último livro e ele vai às urtigas.
 
- Famílias! Todos os livros são famílias. Olhe o Tchekov. Não se passa nada mas ele consegue dar as emoções todas. É uma viagem ao interior de nós mesmos. O que são "As Meninas" do Velázquez? As pessoas pensam que são as infantas. Nada disso. Um bom leitor é aquele que pergunta: onde está o livro? O livro só começa quando a gente acaba o livro.
 
E de repente, parando a olhar o passeio, diante da Clínica de Todos os Santos, conta a história de um tio que esteve ali internado.
 
- Era um homem de uma elegância. Eu vinha visitá-lo e o pijama dele estava mais engomado que a minha roupa. E nunca era grosseiro, reles.
 
Estamos a chegar à rua do Conde de Redondo, um sol quase de Verão, já Outubro passou de meio.
 
A propósito, era em França que António Lobo Antunes estava quando o Nobel foi anunciado. Conhecia Herta Müller?
 
- Não, e os franceses também não.
 
Mas um dos prémios que ganhou e gostou de ganhar foi o Prémio Jerusalém, que só é dado de dois em dois anos, e tem vencedores como Borges. Ganhar implica ir lá, Lobo Antunes foi. E então?
 
- Nunca andei sozinho. Não consegui ir ao bairro árabe. De cada vez que eu ia a algum lado, era logo um problema de segurança.
 
Não quer falar mais disto. Em geral, não quer falar do mundo. Começamos a falar-lhe do mundo e quando damos por ele está a falar de livros.
 
Ok.
 
Este livro termina com graças a Deus, e numa das suas últimas crónicas diz que é Deus que lhe guia a mão.
 
- Acho que sim. É uma relação muito íntima.
 
Responde com uma história:
 
- Já perto do fim do meu pai, que era patologista e nunca falou de Deus, perguntei-lhe se acreditava em Deus, o que é uma pergunta muito íntima. E ele respondeu: "O nada não existe na biologia."
 
Isto, ainda vamos nós na Gonçalves Crespo.
 
- Está a ver? Um poeta tão pequeno para uma rua tão grande.
 
E depois de uma pausa:
 
- Tão pequeno, é injusto.
 
Uma mulher põe moedas no parquímetro, outras falam debaixo de uma árvore:
 
- ... tu.
- Tu...
- ... tu...
 
Podia ser um livro de António Lobo Antunes. Ele desenhava logo as letras que faltam.
 
A gente a pensar nisto e ele entretanto a pensar no que pensa - nos livros que escreve.
 
- Não sei de onde é que aquilo vem. Sei que está bem por uma espécie de exaltação interior que às vezes chega às lágrimas.
 
Invoca Beethoven:
 
- A Terceira Sinfonia... pam pam papapa. A melhor crítica que teve foi dizerem: isto não é música, é ruído.
- " pá, pára lá! - grita uma mulher de saia justa ao telemóvel.
 
Caricas Sagres espalmadas na calçada, desce um rapaz com um barril de Super Bock. Cheira a fritos. A croquetes fritos.
 
Lobo Antunes fala do pianista Alfred Brendel e dos seus favoritos.
 
- Não são pianistas sinistros como o Glenn Gould.
 
O Glenn Gould é sinistro?
 
E assim, sem darmos por isso, já António Lobo Antunes está a subir a caminho de casa, e com uma boa razão além dos livros. A filha Joana está quase a ter um bebé. Vai ser outra vez avô.
 
- É esquisito, não é? Ainda agora nasci.
 
3. A cabeça

A porta da rua fecha-se e silêncio. Parado no átrio, António Lobo Antunes reflecte sobre aquele assunto, o Nobel.
 
- Toda a gente sabe quem deve ganhar o prémio da Literatura e o prémio da Paz...
 
Não lhe vamos perguntar pelo Obama. Não lhe vamos perguntar.
 
- ... mas nunca deram o prémio ao Gandhi! Não deram ao Tolstoi!
 
Tenta repetir como um russo:
 
- Tâââlstói.
 
E depois:
 
- Dasssetaiévski.
 
Pausa.
 
- Ando a aprender russo sozinho.
 
Subimos no elevador e cá está a bela casa, a pairar.
 
- Depois, à noite, os livros bons não dormem. Ficam a olhar para nós. Olhe, "Os Irmãos Karamazov" ficam a olhar para si toda a noite. Os livros maus é que dormem. Por isso é que não tenho muita literatura portuguesa contemporânea.
 
Cartão amarelo. Livre. Livre para os que não jogam em casa.
 
Mas ele segue para penalti, atira-se ao resto do mundo:
 
- Diga-me cinco grandes escritores. Não encontra.
 
É preciso chateá-lo:
 
- Em Portugal?
 
Pára fulminado.
 
- Em Portugal?! Está a brincar comigo.
 
Senta-se num dos sofás Ikea, mas de caminho acerta um dos livrinhos que tem em cima da mesa de apoio, porque estava um milímetro mais para a esquerda.
 
É uma colecção de novelas eróticas espanholas "retro".
 
O anfitrião puxa de um SG. De volta a casa, deixou de ter pressa. Quer conversar. E é isto:
 
- Se o Steiner não tem razão ao atacar o Gaddis, e eu acho que não tem, se calhar também está enganado a meu respeito, quando diz que sou o melhor escritor do mundo.
 
Pausa. O olhar vagueia.
 
- Olhe, o seu amigo Pound está ali.
 
Cinco anos. Cisco Kid.
 
E de volta aos pensadores:
 
- Sabe de onde vêm os intelectuais? Do caso Dreyfus.
 
O famoso judeu preso por espionagem que dividiu a Europa em debates apaixonados no início do século XX. Um dos seus mais célebres defensores foi Émile Zola, em "J'Accuse". Dreyfus é um símbolo do ponto a que chegou o anti-semitismo nessa época.
 
- Um grupo de mil pessoas que assinaram por Dreyfus definiram-se cmo intelectuais por oposição a quem trabalhava com as mãos. Depois a palavra foi-se desvirtuando.
 
Por causa de Dreyfus, a gente puxa Proust (o caso atravessa "Em Busca do Tempo Perdido"), mas Lobo Antunes puxa para outro lado e vamos dar à poesia.
 
- Leio mais poesia agora. Aprende-se mais.
 
Portugueses?
 
- Não necessariamente. Mas acho que se alguma coisa temos de bom, pessoas vivas e a escrever, é a poesia.
 
Tem-lo dito, e repetido.
 
Poetas?
 
- Vasco Graça Moura. António Franco Alexandre. Manuel António Pina. José Tolentino Mendonça.
 
E apaga o cigarro dentro do maço. Eis como os cinzeiros desta casa se mantêm.
 
E mulheres poetas?
 
Pensa.
 
- Rosalía de Castro. Emily Brontë.
 
Portuguesas?
 
Pensa.
 
- Temos o António Nobre, apesar de tudo - sorri à Cisco Kid. - O "Só" é um grande livro.
 
Desata a recitar:
 
- " minha terra cheia de sol, ó campanários.
 
A propósito ou não, este "Sôbolos Rios" tem o quê em fundo, que cenário?
 
- Uma vila que não é nomeada e um hospital de Lisboa. Mas isso não é cenário, é plateia.

Lá está ela com o cenário. É como perguntarem: de que é que trata o teu livro? Resposta de D. Francisco Manuel de Melo: trata do que vai escrito nele.
 
Mais um SG, e muda para Hermann Broch.
 
- "A Morte de Vergílio" é espantoso. Aquela chegada dos barcos...
 
De caminho, diz que não gosta de Cervantes.
 
- Mas um dia abri ao acaso e encontrei isto: não podemos fazer nada contra a vontade do céu, sobretudo se está a chover. Passei logo a gostar. O Quixote tem imensos truques, como quando o próprio Cervantes aparece como personagem.
 
Neste ponto, o sol bate nas janelas em frente, reflectindo a rua, e a gente tenta mais uma vez puxá-lo para fora, falar do mundo. Mas ele não ouve, continua a falar.
 
- ... dizia-se que o Vergílio escrevia como as ursas a parir. O parto é difícil e elas levam que tempos a lamber o bebé. O escritor deve trabalhar 10 horas por dia, dizia Horácio, duas para escrever, oito para corrigir.
 
Quando um autocarro trava lá fora, António Lobo Antunes está a falar de Ovídio.
 
- ...custa-me a leveza com que se aborda estas coisas. Um livro tem de ser lido de joelhos. O Proust, por exemplo. O homem leva uma vida inteira a fazer aquilo, depois um caramelo lê e debita sobre aquilo.
 
Podia viver isolado no campo, ou precisa da cidade, deste bairro, de sair à rua, de ver o merceeiro e a cabeleireira?
 
- Não preciso. Dei a voltinha por causa de si. Não é com essas pessoas que escrevo.
 
Ao mesmo tempo também não quer estar com "os que escrevem".
 
- Apetece-me lá. Já não estão cá o Zé [Cardoso Pires], o Eugénio. Sobra o Eduardo [Lourenço]. O Eduardo escreveu sobre mim talvez das coisas mais inteligentes em português. Tenho ali uma fotografia dos dois em que parecemos um casal de namorados.
 
E o que é que anda a ler?
 
- Tenho na mesa de cabeceira a biografia do García Marquéz. Aí está um escritor que gosto de ler mas detestaria ter escrito aqueles livros - tal como o Simenon, o Greene.
 
E García Marquéz dá passagem a isto:
 
- Não há uma cena de sexo num livro meu.
 
O que é verdade, e volta a ser verdade neste último livro. António Lobo Antunes consegue pôr um pedófilo a falar e em tudo aquilo há sempre um pudor profundo.
 
- Não é por uma questão de pudor. É que não é necessário.
 
Já a morte, é atrás dela que andam sempre as palavras.
 
- O que se sente com o cancro é um vazio imenso. Dizem que estou curado. Olhe, aí aprendi muita coisa sobre a vida. E que a maior parte das pessoas são melhores do que eu.
 
Fala na dignidade das pessoas com quem se cruzou na quimioterapia.
 
- Talvez a grande função da arte seja dignificar o homem, e talvez seja o triunfo sobre o sofrimento, a dor, a morte. Em face disto... Agora estou a ficar comovido e é uma gaita...
 
Pára. Olha em volta.
 
- ... não me venha falar de personagens. E como todos nós sofremos tanto, e como nós estamos tão sozinhos. No fundo o que é a fama? Uma soma de equívocos à volta de um nome. Quem é o António Lobo Antunes? Uma soma de equívocos. E depois deixa de ser um nome, uma pessoa, para ser uma marca registada.
 
Acerta os livros da colecção de novelas eróticas, que na verdade não se tinham mexido. Acende mais um SG.
 
- Tive tudo. Deram-me tudo. Nasci numa família boa, com imensa beleza física. Nasci inteligente. Quantos prémios ganhei importantes? Mais de 20, fora os que recusei. Ainda agora, disseram-me que tinha ganho o grande Prémio do Canadá e por momentos pensei que era um piloto de Fórmula 1.


23.10.2009

24/10/2009

Helena Vasconcelos: sobre Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra No Mar?


Estocada final

Seria irónica (in)justiça poética que o ruído criado em torno da personalidade do autor distraia o leitor do ritmo ardente das palavras e da tragédia que estas convocam.

Uma terra quente de toiros e mantilhas, pó e moscas, perdizes e abelhas, com cavalos entre roseiras e azinheiras, um espaço aberto e solar, propício a desmandos e paixões, mas no qual se encravam casas sombrias de longos corredores, portas fechadas e salas a abarrotar de móveis e objectos que se impõem na escuridão, lugares onde se encerram pessoas, as quais, por sua vez, vivem enclausuradas em si próprias, vítimas voluntárias ou involuntárias da velhice, das febres, da demência, da doença, da mentira, de vícios, de traições e de segredos. Nesta cosmogonia caótica, as mulheres, os filhos(as), a criadagem, os animais, todos os mundos - o animal, o vegetal e o mineral - pertencem ao pai e senhor, um facto perfeitamente entendido pelos empregados que "não se enganavam nos garraios, recitavam de cor as famílias, as descendências, os laços... (pág.16). Aqui, neste "Que Cavalos são Aqueles que Fazem Sombra no Mar ?", como no resto da obra de Lobo Antunes, cada um ocupa o seu lugar e tem direito a um quinhão do território geográfico, moral e afectivo onde se desenrolam as comédias e os dramas que o autor redesenha indefinidamente numa espiral vertiginosa cada vez mais intricada. Mas desengane-se o leitor que procura apenas "mais um Lobo Antunes", uma vez que este romance, passado entre Lisboa e o Ribatejo, embora retome as histórias familiares e os lugares habituais do escritor, tem, contudo, a particularidade de se centrar num único tema, que é a Morte, criteriosa, insistente e cruel que se atarda na sua aproximação, nos seus sinais, na sua chegada e nas suas devastadoras consequências, e domina imperiosamente as personagens que se debatem em vão contra as longas doenças, a penosa velhice, a catastrófica perda de faculdades e o esvair das forças. Não é por acaso que a narrativa é marcada por capítulos que remetem para os momentos da tourada - "antes da corrida", "os tércios de capote, de varas e de bandarilhas", "a faena", "a sorte suprema" e "depois da corrida" - com a sua estocada final, violenta e misericordiosa. O terror do toiro antes da lide, esse medo animal e antiquíssimo, surge como leitmotiv. Tal como os estados crepusculares que antecedem o fim - da vida, do dia, do amor -, enfatizados por imagens recorrentes como "a tristeza da casa às três da tarde", "a sombra que os cavalos fazem no mar", a escuridão dos arbustos no Parque Eduardo VII, o porco pestes a ser rasgado de cima abaixo, o cão a ser atropelado e um rol de cenas em que a violência, a humilhação e o exercício do poder sobre os mais fracos (dos homens sobre as mulheres, das mulheres sobre os homens, das mulheres sobre as mulheres, dos homens sobre os homens, das mães e pais sobre os filhos, dos filhos sobre os pais e irmãos, dos seres humanos sobre os animais) completam ciclos de força, fecundidade e morte, simbolizados pelo sentido ritual da tourada.

É este o universo de uma família, feita de pedaços desconexos, que se entrega ao amor e ao ódio em igual proporção: o pai, um marialva amante de mulheres, jogo e corridas que "desarruma o passado"; a mãe, terrível Héstia, fria, sem amor, sem medo e sem remorso; os filhos, Beatriz, abandonada por dois maridos, que toma conta da mãe, Francisco, o mal amado e desprezado, de índole gananciosa e violenta que se sente imbuído de um espírito justiceiro em relação aos irmãos, os quais, segundo ele, delapidaram os bens paternos, Ana que gasta o dinheiro em drogas e João que prefere despendê-lo em rapazinhos. E há Marcília, a figura da eterna criada, sem irmãos nem (aparentemente) família que priva estreitamente com todos e é dona de todos os segredos, como uma pitonisa tão cruel quanto piedosa, tão humilde quanto altiva, tão serva quanto senhora. Aqui, como na vida, o mundo é feito de desordem e de abalos, e todas estas vozes, que falam incessantemente com uma intensidade maníaca, parecem acossadas por uma tal urgência de contar que é difícil não as "colar" ao próprio autor. Tal como no conto tradicional em que uma menina calça os proibidos sapatos vermelhos e é impelida a dançar até à morte, também Lobo Antunes parece sofrer dessa compulsão, desse desejo extenuante - no seu caso, o objecto mágico é a caneta - que o obriga a escrever palavras atrás de palavras, qual oráculo em tempo de catástrofe.
 
Funcionando como um todo auto-significante, este romance pode ser abordado da mesma forma como se "lê" um tríptico de Bosh ou uma cena de Brueghel, uma vez que Lobo Antunes constrói uma teia intrincada e cerrada feita de pensamentos, palavras e olhares (perspectivas) de um grupo de pessoas situadas num espaço que se alarga e contrai, num movimento entre o passado e o presente, entre o imaginado e o real. A construção da narrativa deve muito a Virgínia Woolf em "As Ondas", com as diversas vozes solitárias e desesperadas a funcionarem em polifonia, à medida que revelam factos e exploram os conceitos da individualidade, do "eu" e da comunidade, formando, no entanto, a "gestalt" de uma consciência colectiva escondida e silenciosa.
 
É ainda em Woolf, e em especial no conto "Uma Casa Assombrada", que é possível detectar os antepassados destas personagens fantasmagóricas, que passam de quarto em quarto empurradas pelo vento, as mãos vazias, perante espelhos que não lhes devolvem qualquer imagem. Lobo Antunes vai ainda buscar a Tchekov a obsessão pelos detalhes e pela descrição de objectos - os lustres, os boiões de compota, os números da roleta, o verniz das unhas, etc., etc., - bem como a tendência para alternar acontecimentos triviais com grandes temas - em mudanças bruscas de ritmo e de humor - no intuito de criar a sua própria e muito particular "comédia humana".
 
A convivência de Lobo Antunes com a morte confere-lhe uma autoridade hierática que ele exerce construindo um "panteão" feito de palavras impregnadas por um sopro divino e com um tom profético a que não deve ser alheia uma leitura atenta dos livros do Antigo Testamento, em especial o Eclesiastes. O facto da edição ser ne varietur, por ordem expressa do escritor, confere-lhe esse carácter de "texto sagrado", não passível de ser tocado ou alterado. Seria uma irónica (in)justiça poética que o ruído criado em torno da personalidade de Lobo Antunes - para o qual o autor contribui com bastante afã - abafe o verdadeiro sentido deste livro e distraia o leitor do magnífico ritmo ardente das palavras e da tragédia que estas convocam. É verdade que Lobo Antunes parece estar preso no seu labirinto sem ver a utilidade do fio de Ariane, embrenhando-se cada vez mais numa busca que desdenha a hipótese de uma saída. Aqui, o desabafo final "Finis Laus Deo" parece querer traduzir um grande alívio, o descarregar de um pesado fardo. Resta saber para onde se dirigirá Lobo Antunes "quando tudo arde" depois de destruir todas as pontes atrás de si.


por Helena Vasconcelos
suplemento Ípsilon
(Público)
21.10.2009

21/10/2009

JL: A vida toda


Jornal de Letras
Entrevista de Luís Ricardo Duarte
07.10.2009



Um novo romance, Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra No Mar?um retrato falado, Uma Longa Viagem com António Lobo Antunes, de João Céu e Silva, e um documentário inédito, Escrever, Escrever, Viver, de Solveig Nordlund, que [passou] no DocLisboa. Como em anos anteriores, António Lobo Antunes, 67 anos, é um dos escritores em destaque nesta rentrée. Estatuto ainda mais reforçado quando passam precisamente três décadas sobre a sua estreia literária, com Memória de Elefante (que [tem] uma reedição especial, juntamente com Os Cus de Judas). Pretextos suficientes para uma conversa sobre livros e literatura, buscas e conquistas. Sobre uma vida inteira dedicada à escrita.


Abre-se a porta e ali está ele. O homem por detrás do mito. O escritor de livros difíceis. O autor de temperamento imprevisível. A pessoa que, como Oscar Wilde, pouco tem a declarar do seu génio. Inesperadamente, o sorriso é rasgado. Tem estado  a escrever desde as sete horas da manhã, como faz todos os dias, excepto ao domingo. Só agora, perto das 11, abandona o seu paraíso terrestre. Porque é na escrita  que António Lobo Antunes se realiza, como dirá nesta entrevista, combinada há meses por telefone. «Falamos em Outubro», garantiu-me.

Ao fechar a porta, revela-se a enorme sala da sua casa. Primeiro as estantes, de ponta a ponta, de alto a baixo, cobrindo as paredes. A seguir, a arrumação metódica e impecável. Os gregos e latinos de um lado, os russos noutro, os catálogos de pintura ao meio,  livros em português, em inglês, em francês e em espanhol. Uma biblioteca infindável e de respeito, que denuncia o leitor que divide o tempo com o escritor.

A um canto, uma mesa pequena, afastada da janela, ainda na sala, mas já perto de outras divisões - um quarto e um escritório. O candeeiro está aceso e ilumina o tampo. Em cima, as folhas de hospital que Lobo Antunes tem vindo a escrever a sua obra, já constituída por 21 romances, sem contar com os três volumes de crónicas. Num rápido olhar, antevemos a famosa letra azul, miudinha, redonda, apertada, que apenas ele percebe. E é nesse universo literário, íntimo e pessoal, em que mergulhamos. Gravador na mão, várias perguntas sobre Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra No Mar? [...] E perguntas também sobre os 30 anos  de vida literária que assinala este ano. Em 1979 protagonizou uma das estreias mais fulgurantes da literatura portuguesa com a dupla publicação de Memória de Elefante e Os Cus de Judas. E desde então nunca mais abandonou a ribalta.

Mas o motivo que nos junta aqui é também outro, um amigo comum: o José Manuel Rodrigues da Silva, jornalista e editor do JL, falecido em Janeiro deste ano. É que foi ele o primeiro a entrevistar Lobo Antunes. Não se conheciam, nem frequentavam os mesmos círculos. Mas o romance de um e o faro jornalístico de outro proporcionaram esse encontro. A conversa ocuparia as páginas de Cultura do Diário Popular em dois números seguidos, feito inédito (e provavelmente irrepetível) para um estreante. Foi um tiro no escuro, mas certeiro. E o início de uma bela amizade.

«O Zé Manel era um homem de qualidades muito raras. E também um jornalista único, com todos os seus defeitos e qualidades. Uma pessoa de paixões, excessivo, parcial, mas estruturalmente bom, de uma grande bondade e disponibilidade para com os outros. Tinha por ele uma enorme amizade, admiração, respeito e amor», confessa-me Lobo Antunes. E acrescenta: «Vamos fazer isto em homenagem ao Zé Manel». Vamos.


Este parece ser um livro de imagens, repetidas muitas vezes. A do título, claro, mas também esta, em que a morte de um touro que vive à margem do romance convive com o drama psicológico das personagens: «os joelhos dobram-se, o corpo dobra-se sobre os joelhos, a cabeça dobra-se sobre o corpo, tomba de banda sem acreditar que tombou  e no momento em que tomba não acredita, esquece-se». Porque razão escolheu o universo da tourada como pano de fundo de Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra No Mar?
Há muito tempo que me apetecia dividir um livro em várias partes de uma corrida de touros. Tentei com anteriores, mas não deu. Neste encaixou na perfeição, o que foi um dos milagres do livro. Há uma voz que fala no início e no fim, antes e depois da corrida. Depois há outras vozes, ou a mesma, não sei dizer.

O que encontrou de tão apelativo no universo das touradas para querer associá-lo num romance?
A tourada enquanto paralelo da vida, nas suas várias dimensões. É muito difícil falar de um livro. Talvez a única maneira seja escrever outro.

Mas é uma espécie de arena de emoções? De espectáculo da vida e da morte?
Não estava especialmente interessado na morte. Queria pôr tudo lá dentro. Nunca achei este livro, ou qualquer outro, triste. Um grande amigo, o José Cardoso Pires, dizia-me: «Divirto-me muito a ler os teus livros». Ficava contente com isso, porque eu também me divirto (pelo menos na primeira versão). Da mesma forma, nunca percebi por que razão as pessoas dizem: o livro é difícil. Para mim é tudo muito claro e evidente. Se uma pessoa ler estes livros segundo as suas leis, não terá dificuldade nenhuma em entrar naquele universo. Aquilo somos nós.

«Aquilo somos nós», diz-me, como quem pede uma opinião. O olhar demorado confirma a intuição. Aceito o repto, inicio uma interpretação pessoal sobre as regras dos seus romances. Quando me perguntam a opinião sobre os seus livros associo-os sempre à música clássica, a uma sinfonia ou a uma melodia que se repete. Penso na Sonata a Kreutzer, de Beethoven, que nos faz desejar o regresso dos mesmos acordes e em que a memória de alguns compassos ecoa durante toda a sua audição.

Leio os seus livros com essa vontade de repetição, sem medo de só perceber algumas passagens mais tarde.
É curioso que tenha dito isso, porque fiz três livros - Tratado das Paixões da Alma, A Ordem Natural das Coisas A Morte de Carlos Gardel - que tinham esquemas sinfónicos. Até certo ponto, julgo que isso continua a acontecer: pode-se ver nas diferentes vozes diferentes instrumentos, como o oboé ou o fagote. As pessoas têm de abordar aqueles livros como se fossem uma sinfonia, uma missa ou um requiem. Não há uma história, nem uma intriga. O livro não tende para um fim concreto. Além disso, muitas vezes o significado não está no interior do livro, mas à roda dele. Esse é o único caminho. Por exemplo, há livros que gosto de ler mas que não gostaria de escrever. O Steiner tem razão quando diz que o melhor contador de histórias é o Simenon. E eu gosto das suas histórias. Porém, não é isso que me interessa. Quero fazer outra coisa.

O quê?
Há anos, li uma crítica sobre o tenista Bjorn Borg, que que o jornalista dizia que os outros jogavam ténis, mas ele jogava outra coisa. É essa outra coisa que me interessa. Quando estou a ler A Morte de Ivan Ilitch, de Tolstoi, não é a história que me interessa, mas o que está além disso. O que é inapreensível. É difícil de explicar, porque o que está além disso sou eu. Nós todos. Tenho a sensação que aquilo foi escrito para mim, que há um diálogo  entre nós, que ele me compreendia totalmente. Claro que é sempre preciso uma estrutura, cuja explicação tem pouca importância  e só maça os leitores. O importante é que a mesa esteja feita, não como o marceneiro a fez.

Antigamente costumava planear os seus livros. Já não o faz?
Não trabalho com plano há muito tempo. Cada vez sei menos de onde vêm os livros. Quando começo normalmente não tenho nada. Neste, tinha aquelas duas frases. O livro foi quase todo ditado. Ao escrevê-lo estive sempre a obedecer a uma espécie de voz. E só na fase de correcção é que me surpreendi: eu não escrevo assim tão bem. De onde me veio isto tudo?

Esta perplexidade também tem expressão no romance. São várias as interpelações que as personagens fazem ao autor, e vice-versa. Alguns exemplos: «Eis o António Lobo Antunes a saltar frases não logrando acompanhar-me» (pp. 22). Ou: «Este livro é o teu testamento António Lobo Antunes» (pp. 123). Ou ainda: «Há por aí alguém com um resto de compaixão que acabe o meu discurso por mim eu que mal existo no livro, uma dúzia de frases que o António Lobo Antunes aprove e de que não sou capaz» (pp. 231). Ou também: «Quem escreve o livro não tem o direito de decidir por mim» (pp. 335).

No entanto, o seu papel como maestro é particularmente visível neste livro.
Já acontecia em livros anteriores e acaba por ser inevitável. É um problema que se me põe cada vez mais: quem é que escreve o livro? Sou eu? Tenho dúvidas. O Eduardo Lourenço aflorou isso num artigo. Apresentava-me como um transmissor entre duas instâncias. Mas questiono-me: até que ponto temos o direito de nos intitularmos autores de um livro, sobretudo um como Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra No Mar?Porque numa história normal é evidente quem é o autor. Aquilo passa-se na espuma das coisas. Os grandes livros, pelo contrário, são anónimos, são escritos por todos nós.

A certa altura, uma personagem pergunta: «Quando fala por mim detesta o que escreve?» Há vozes com as quais é mais difícil lidar?
Escrever é um trabalho. E ao princípio raramente o associava ao prazer. Mas, por exemplo, a voz de um pedófilo. Foi um milagre. Porque não sei o que é um pedófilo, o que pensa ou o que quer. O mesmo dilema já se tinha colocado com os universos dos travestis e dos homossexuais em Que Farei Quando Tudo Arde?. E também em relação às mulheres, em Exortação aos Crocodilos. O que sabemos nós, homens, sobre as mulheres? Muito pouco. Nessa altura, tinha a impressão de estar a aprender coisas à medida que ia escrevendo. Porque eu não faço pesquisa, nem tiro notas.

Joga tudo no instinto?
Se estou realmente a escrever um livro, ele sabe como se organizar. Aos poucos, começa a ficar autónomo, com a sua fisionomia e estrutura. e tenho de ir atrás dele. A cabeça tem de estar vigilante, sobretudo para as correcções. Num primeiro momento, há muitas parvoíces, redundâncias, toda a espécie de erros. Mas o livro já lá está, debaixo daquele amontoado de palavras. Enterrado ali em baixo. Só é preciso limpar.

O seu papel é evitar becos sem saída?
Eles aparecem em cada passo. Mas até que ponto um livro não é sempre um beco sem saída? Até que ponto não começamos a libertar-nos do livro só depois de o entregar à editora? Eu nunca leio os meus livros, como não leio as traduções - a maior parte das línguas não conheço, são tantas. Por isso, para me esquecer dele, começo outro, sem saber se dará um livro. Essa é a angústia permanente. Será que vou fazer outro livro?

A experiência não lhe permite perceber isso?
Os livros só me ensinaram a ser humilde em relação ao nosso trabalho. Porque pensamos que mudamos a literatura. Mas cada grande escritor muda a literatura, pois há mil e uma maneiras de o fazer. Quase todos os que aqui estão [António Lobo Antunes levanta o olhar para a estante, como se se confrontasse com a História. Ergue o braço para abarcar todos os livros que tem pela frente] mudaram a literatura. Mas, depois, comigo, é sempre o mesmo sentimento: ainda não é isso, ainda não é isto, tenho de ir mais fundo, tenho de ir mais fundo. Por vezes tenho a sensação de estar a começar. Que não sei nada.

Nada?
É evidente que sei do ofício, como os marceneiros, os carpinteiros e os cirurgiões percebem do seu. Mas na literatura as coisas vêm de zonas nossas que não entendemos. O material vem em bruto. E ao lidar com emoções, o escritor trabalha com algo que antecede às palavras. A força com que sentimos as coisas é por definição inexprimível. O desafio é tentar colocar essas sensações em palavras, embora a distância entre a intensidade da emoção e o que fica no papel seja enorme. Todo o meu trabalho é no sentido de aproximar esses dois pólos.

Este ano assinala três décadas de vida literária...
... Eu comecei a fazer isto com cinco ou seis anos. Escrevia e destruía tudo. Não me interessa publicar. Só escrever. A Memória de Elefante foi publicada por acaso.

A história é conhecida. Em pequeno, António Lobo Antunes compunha sonetos a Cristo que depois vendia à avó. Também o pai lhe recitava poesia em vez de aspirinas. E, aos poucos, descobriu o caminho para a escrita. Muitos anos mais tarde, Daniel Sampaio foi  a sua casa e encontrou o manuscrito de Memória de Elefante. Perguntou-lhe o que era. «Um romance», respondeu desinteressadamente. «E não queres publicar?», acrescentou o conhecido psiquiatra. Perante a indiferença do amigo, Daniel Sampaio assumiu a tarefa de apresentar o livro a várias editoras. Depois de algumas recusas, foi aceite pela Vega. Lançado em Julho, depois do Verão já era um dos livros do ano. Portugal descobria uma nova voz, confirmada pela publicação, ainda em 1979, de Os Cus de Judas. Para trás ficava uma dura experiência de guerra em Angola, como médico e sob o comando de Melo Antunes, que alimentou a sua prosa durante muitos anos. Gradualmente, também a psiquiatria, área em que se especializou depois de regressar a Portugal, foi perdendo lugar em relação à Literatura, à medida que ia concluindo o acompanhamento dos seus pacientes. Há muitos anos que vive só da escrita.

O que mudou na sua vida?
De repente, vi-me apanhado numa rede enorme. Eu não sabia nada acerca do meio literário. Surgiram editores, agentes, convites. Foi tudo muito súbito. Hoje em dia espanta-me que esses livros continuem a vender tanto. Ao mesmo tempo, foi bom porque abriu portas a outros escritores. Ficou-se à espera de um novo António Lobo Antunes. Tornou-se mais fácil para quem começava a escrever. Porque, embora as editoras andem sempre à procura de um bom autor em língua portuguesa, começar não é fácil. Além disso, estamos muito longe de uma Idade de Ouro, como a que se viveu no século XIX, quando havia 30 génios ao mesmo tempo. Agora, encontrar cinco bons escritores em todo o mundo já não é mau.

A publicação regular é um dos traços do seu percurso.
Pois. Mas também não tenho desculpa, não faço mais nada. Alem disso, acabo sempre os livros com a sensação de que não é isto que eu quero, que estou a seguir caminhos que outros já seguiram. Quero fazer o que mais ninguém fez. Às vezes penso que se voltasse atrás apagava todos os livros até O Esplendor de Portugal [o seu 12º romance, de 1997]. Mas é um pensamento completamente idiota, porque se não fossem os primeiros livros eu não existia. Agora que tenho autorizado a tradução dos meus primeiros livros, dizem-me que já lá estava tudo. É possível, não sei. Talvez em bruto. Mas o facto é que mudou muito. E espero que continue a mudar de livro para livro. Que me aproxime cada vez mais do que desejo e nunca chegarei a fazer.

É difícil não o admitir: António Lobo Antunes tem sido coerente com essa vontade. Entrega-se à luta, mesmo se às vezes parece que está sempre a escrever o mesmo romance. Por vezes, atravessa a fronteira. Lemo-lo mas não temos referências. A paisagem não se deixa descobrir. Porém, o escritor continua. Prossegue o combate. Tenta concretizar a sua ambição.

Essa busca não tem fim?
O meu problema é simples: «Você não vai ser capaz de escrever um livro melhor que este», disse agora a minha editora [Maria da Piedade Ferreira]. Não sei, vamos ver. Se não for para ser melhor, para quê escrevê-lo? Neste momento, ainda estou às voltas com uma primeira versão. Talvez venha a ser do tamanho de O Arquipélago da Insónia.

Tem algum ponto de partida concreto?
Um homem que vai ser operado a um cancro do qual pode vir a morrer. Mas quero fazer isto de uma forma completamente diferente. Não está dividido em partes e, ao contrário dos últimos, é escrito na terceira pessoa. Ou seja, há um ele que tem dentro de si o eu, o tu, o nós.

Tem, na mesma, muitas vozes?
De momento sei que há um homem internado no hospital e que está ao mesmo tempo na sua vila. O Arquipélago da Insónia passa-se no Alentejo, Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra No Mar? no Ribatejo, este que estou a escrever no Norte, que eu conheço melhor. Por isso, no hospital, no quarto, entram carroças, há pinheiros, a Serra da Estrela. É um livro muito ambicioso.

O cancro parece ser um tema cada vez mais presente na prosa de António Lobo Antunes. Em Março de 2007, o escritor surpreendeu toda a gente ao revelar, numa crónica na revista Visão, que tinha um cancro no intestino e que tinha sido operado de urgência. «Não acreditava que um dia destes chegasse», desabafou. «E agora veio com a brutalidade de uma explosão no peito. Não imaginava que fosse assim, tão doloroso e, ao mesmo tempo, tão pouco digno como a velhice e a decadência. Tão reles. O olhar de pena dos outros, palavras de esperança em que não têm fé». E sobre a doença, acrescentou: «Mói, e mata. Mata. Mata. Mata. Mata. Levou-me tantas pessoas que mais queria. E eu, já agora, quero-me? Sim. Não. Sim. Não - sim.» Se o cancro é tema do manuscrito que está a escrever, com o título provisório Babel e Sião, está também presente em Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra No Mar?.

Este é  o primeiro livro que escreve depois de ter sido operado. O Arquipélago da Insónia estava a meio quando foi internado. Sente-se a revisitar a sua história recente?
Nunca tinha pensado nisso... Porque a doença é usada como metáfora. A fortuna que o filho mais velho procura não tem a ver com dinheiro, nem com poder, mas com amor. É uma procura de amor e afecto. No fundo, é a nossa inextinguível necessidade de ternura e amor.

Mas a experiência do cancro está presente na sua escrita?
Foi uma experiência muito radical. Um espanto. Uma surpresa. E uma conquista lenta. Fala-se muito em vencer a doença, mas ninguém vence uma doença. Todos temos medo de morrer... A única coisa que me preocupava era, porém, o trabalho incompleto. Não sei se é compreensível, mas era como uma missão, algo que me foi dado e que eu tinha de fazer. Muitas vezes dizem que eu reclamo que os livros em Portugal são maus.

De facto, reclama muitas vezes...
Mas não é isso que está na minha cabeça. Eu gosto muito de ler. É um prazer, sempre foi. Mas é terrível para mim ler um livro, sobretudo aquilo a que se chama ficção. Não é assim que se escreve isto. Tem de se ir mais fundo.

Ir mais fundo, até onde?
Não sei. Eu gostava que fosse uma explicação do mundo. A vida toda.

A vida na sua vivência quotidiana?
Nas perguntas que nos pomos constantemente acerca do sentido da vida, do tempo. A angústia do Homem. Queria atingir aquele núcleo que todos temos dentro de nós, aquele negro impartilhável que julgamos inacessível aos outros.

Recusa a ideia de grandes feitos, de uma visão épica da vida? A própria Ilíada é desencadeada por interesses pessoais.
E a vida é feita de pequenas coisas. Também a Odisseia se podia chamar Tenho a Minha Mulher à Espera. Mas ao mesmo tempo é curioso, porque os clássicos são westerns, são epopeias, histórias aos quadradinhos. Está lá tudo. É aí que temos de chegar. Não podemos ser complacentes connosco enquanto fazedores de livros. Se não for para ser o melhor, não vale a pena escrever. Se não for para dizer coisas que nunca foram ditas, não vale a pena escrever. Lembrei-me agora do que diz o profeta Isaías: «Eu anuncio coisas novas, ilhas cantai um canto novo». Se alguém quer ser mesmo escritor, é isto que tem que fazer: trazer um canto novo, falar do que existe dentro de nós e nunca foi falado.

Consegue perceber o que trouxe de novo?
Não sei, parece-me que ainda é muito cedo para perceber. Qual é a sua opinião?

A minha opinião? Não é fácil de explicar. Diria talvez que trouxe a exacta reprodução do pensamento humano, das suas pulsões, das suas hesitações, da sua falta de linearidade. Como diz, a certa altura, uma das vozes de Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra No Mar?: «Não consigo contar as coisas por ordem dado que as misturo em mim, ao atravessarem certas zonas da minha cabeça perco-as e ao recuperá-las alteram-se». É o que nos acontece todos os dias.

Contudo, a sua resposta será sem dúvida mais interessante.
Quando se está a viver, dentro da nossa cabeça há muitas contradições. Por que razão quando contamos uma história não tentamos isso também? A nossa vida não é uma história que possa ser contada, porque está cheia de afluentes e subafluentes. Mas essa opção não foi voluntária, antes progressiva, lenta e penosa. Escrever é muito difícil. E custa muito. Põe-se tempo e saúde, mas ao cabo e ao resto são os livros que são importantes.

Reconhece esse cunho pessoal?
Não sei dizer. Porque agora uma coisa é aquilo que eu faço, outra é a avalanche que se tem passado à minha volta, com prémios e mais prémios, traduções e mais traduções, livros e mais livros. Nem me estou a referir a Portugal. No mundo inteiro.

Na Feira do Livro de Guadalajara, como se vê no documentário de Solveig Nordlund, chega a falar de uma «marca registada».
Isso era uma boutade sobre o barulho à minha volta, que é sempre a melhor forma de anular um escritor. Até há alguns anos ninguém falava de mim, porque eu não apareço. Não vou a lançamentos. A minha vida social é restringida. Tenho quatro ou cinco amigos. As pessoas não sabem onde moro, nem o meu número de telefone. Ultimamente têm-me feito coisas incríveis nos jornais, de mentira e baixeza.

Sem querer falar do assunto, refere-se a manchetes e notícias que recentemente foram publicadas na imprensa. A sua relação com uma jornalista brasileira, as revelações íntimas que voluntariamente fez a João Céu e Silva, no livro Uma Longa Viagem com António Lobo Antunes (uma edição Porto Editora), com referências a tendências suicidas, à vida amorosa, à experiência da guerra e à literatura portuguesa, entre muitos outros assuntos.

Sente que agora há uma curiosidade crescente?
Não dou por isso. Claro que as pessoas do bairro me conhecem. Mas muitas nem sabem o que faço. Tratam-me por senhor António, que no fundo é o que sou. Tirando os livros, se calhar não existo. E o sucesso é cada vez menos importante. No princípio somos sequiosos de reconhecimento, porque somos inseguros. Falo por mim. Claro que eu queria, com os primeiros livros, trazer coisas novas, dar entrevistas provocadoras. Tudo tinha de ser feito de maneira diferente. Mas não serve de nada pôr-me em bicos de pés e gritar. As pessoas não entendem e continuam a fazer da mesma maneira. Dá a ideia que se trazemos livros importantes temos de ensinar os leitores a lerem-nos. Portanto, esta unanimidade que agora se gerou à minha volta, com o Steiner conciliado com o Bloom, foi um processo lento e cheio de equívocos. Depois há sempre um crítico que está a começar e que normalmente me dá porrada, o que também faz parte. Para se afirmar tem de estar contra. Eu também funcionava assim.

Ao longo dos anos foi sempre uma figura polémica.
Nunca me viu discutir com ninguém.

Mas as suas declarações sempre foram fortes e provocatórias. Basta passar os olhos pelas manchetes dos JL dedicadas a Lobo Antunes, a título de exemplo, para encontrarmos frases como: «Muitos escritores têm-me um pó desgraçado» (nº 23), «Estou farto de ser bem comportado» (nº 72), «Isto é um ofício das trevas» (nº 176), «Se não ganhasse [o Prémio APE] ficava chateado» (nº 197), «A pensar no Nobel» (nº 538) ou «Emissário de um rei desconhecido» (nº 941).

Aliás, logo na primeira entrevista ao JL, em 1982, dizia que se sentia uma criança que desejava chatear os adultos.
Disse isso?

Está escrito.
Pois. De facto, quando comecei sentia-me quase um menino entre os doutores. E para ser totalmente sincero, tirando dois ou três nomes, não tinha respeito pelo que se escrevia no nosso país. Continuo a não ter. O que não exclui que haja escritores sérios, honestos e com talento.

Em entrevistas recentes, fala na hipótese de deixar de publicar livros.
Sim. Não tenho problemas em relação a isso. Foi o que fiz sempre. No início, escrevia livros e destruía-os. Não era importante que fossem publicados.

Mas anunciar isso não é uma forma de provocação?
Provocar porquê? Eu não tenho nenhuma importância colectiva. Só faço livros.

É um escritor consagrado, com muitos leitores.
A partir de certa altura... Não quero estar a dizer mal, nem nomes, mas assistir à impotência criativa de um artista é um espectáculo horrível. A pessoa está a sofrer tanto, tanto, tanto. Não é melhor parar quando se é capaz? Porque isso pode acontecer a qualquer momento, em qualquer idade.

Teme que possa vir a acontecer consigo?
Claro que tenho pavor disso. É mesmo o grande medo da minha vida: não ser capaz de escrever. Construí-me todo para isso. Não sei fazer mais nada, nem me interessa fazer mais nada.

Receia que faça um mau livro e que, até chegar às bancas, ninguém lho diga?
Se eu fizer um mau livro é terrível. Em Portugal não teria muita importância, mas em termos mundiais a mesa é pequena e de poucos lugares. Para uma pessoa se sentar lá tem de tirar quem lá está. Se se faz um mau livro é complicado.

A intransigência em relação aos outros é a que também tem em relação a si?
De facto, às vezes acho que sou um bocado cruel comigo mesmo. São tantos livros e tantas páginas deitadas fora. E tenho pena, porque chego a passar um dia com uma frase, com uma palavra. É preciso trabalhar com um rigor extremo. E não ter pressa.

Nestes 30 anos de vida literária, consegue identificar momentos chave?
Tenho a impressão que tudo forma uma espécie de contínuo. Mas não sei. Não estou habituado a falar sobre isso porque não li os livros. Só os escrevi. Li o Que Cavalos..., e pensei: «Bolas, que grande livro. Tenho a vida justificada». Mas não fiquei vaidoso. Fiquei surpreendido. Porque não há motivo para a vaidade. Os livros não são nossos.

Este livro também não deixará de surpreender os leitores. Sobretudo pela multiplicidade de olhares que se adivinham na leitura. A de Beatriz, que tem um filho e dois relacionamentos falhados. A de Francisco, que teve de gerir os (maus) negócios da família e que tem vontade de vingança. A de Ana, toxicodependente e frequentadora habitual do Casal Ventoso. A de João, pedófilo e cliente nocturno do Parque Eduardo VII. A de Rita, que morreu com um cancro. E a mãe, o pai, a empregada, Mercília, uma variegada galeria de personagens que se sobrepõem, dialogam, cruzam perspectivas e partilham sentimentos.

Sente que tem influenciado muito jovens escritores?
Não me cabe a mim dizer.

Não tem tido esse feedback?
As pessoas dizem-me que sim. Não só em Portugal, mas também em Espanha, França, Alemanha... É mais ou menos inevitável. Mas se são realmente escritores têm de escrever contra o autor de que gostam. Encontrar a sua voz. Só assim podem fazer o que ainda não foi feito. Eu demorei tempo a encontrar a minha voz.

Não se preocupa com isso, nem com o facto de ter perdido ou conquistado novos leitores de livro para livro?
Nesse sentido, sou um autor muito cómodo, que não discute quanto vende, nem pede nada. O importante para mim é poder escrever. Se as pessoas gostarem tanto melhor, se não, hão-de gostar mais tarde. É uma questão de tempo. E aí acho que o tempo joga a meu favor. Vamos ver daqui a 50 ou 100 anos, embora não esteja cá ninguém para ver.

A sua obra pode vir a ser entendida como paradigma de uma época ou precursora de algo?
Eu não quero ser precursor de nada. Eu quero realizar. E o que espero da vida é só isso: mais alguns livros. Nesse aspecto, não mudei. Só peço tempo para escrever e acabar o meu trabalho. Mas já que fala nisso, só posso deixar a pergunta: «Depois destes livros poder-se-á escrever da mesma maneira?»

Tem resposta para essa pergunta?
Não. Só que cheguei mais longe do que alguma vez imaginei. E que gostava de ter tempo para chegar ainda mais longe.  


in Jornal de Letras, nº 1018
07.10.2009

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