15/03/2008

Ente Lectual: opinião sobre Ontem Não Te Vi Em Babilónia


Um ensaio a duas partes sobre um livro que escrevi e me recuso a ler

1ª parte - o que não diria

“Perante uma obra destas, difícil delinear um início, esboçar uma continuação, entabular em duas linhas que sejam um diálogo entre personagens. Impossíveis resumos” - um dos mais velhos e vis truques de quem tenta resumir ou criticar um pedaço de arte, de literatura. Tudo mentira, não fosse o caso da sua indubitável aplicabilidade neste caso concreto.

(Ah, os casos concretos, outro truque da cartilha...)

Saltando aquela parte em que o crítico critica os outros menos sagazes críticos, contar-te-ei de um livro que um dia escrevi. Ontem não te vi em Babilónia.

Se, leitor, procuras uma obra de agradável, de cabeceira ou canto da secretária, lenitiva ou narcotizante, própria para insónias e descargos de consciência, tardes ou noites bem passadas de pés para a lareira, gato no colo, fá-lo noutro lado. Esta não é uma história agradável. Não é uma história. (Ponto). É triste, mas verdade.

Poder-lhe-ia dar um ar intrigante, uma trama que se move, narradores e personagens, aspectos cativantes. Poder-te-ia falar de Ana Emília, habitante de Lisboa, viúva, trespassada pelo suicídio da filha, recorrentemente visitada por um antigo agente da PIDE. Poder-te-ia falar das alusões subtis a espaços geográficos concretos como Évora, Lisboa ou aquele quarto que associo ao da minha avó

(também tu, se um dia escreveres este livro, o associarás a um remoto lugar que nebulosamente conheces)

à situação política de um Portugal de cicatrizes ainda mal fechadas, de uma guerra lá longe, de ideias revolucionárias, de uma - crítica de costumes’, retratos de personagens que em todas as ruas encontramos.

Explicar-te-ia também, fosse esta uma crítica séria e lavada que este livro é composto por cinco capítulos – cinco horas da noite. Da meia-noite às 5 da manhã, quatro narradores se vão revezando, fazendo turnos ao longo dos quais uma meada se desfia: o resultado, diria, de uma insónia impossível e um sono improvável.

Mencionaria ainda, já vestido o chapéu de apreciador de recursos estilísticos, uma a uma, as aliterações, personificações, passando por metáforas, comparações, oxímoros, hipálages. Das metáforas geniais através das quais se torna desnecessário nomear Aborto, Democracia, Comunismo, etc. E mesmo da ironia, não aquela que conheces do teu Eça, a ironia de um velho combatente, vagamente médico e erudito, que te controla há mais de trezentas páginas. Que te ridiculariza, a ti e à tua linguagem de origens jornalística.

Usaria uma das expressões da moda: sobre ‘a polifonia desta obra’, ‘riqueza dos personagens’ e outras que se não me escarrapacharam na lembradura (para usar uma também na moda, lá para freixo d’espada à cinta).

Tudo o que nunca diria sobre ontem não te vi em Babilónia.

1. (“Na telha que falta não há céu”)

Só o título forneceria matéria-prima para numerosas prelecções de carácter literário ou extra-literário, muita tinta correria, mãos e gargantas a trabalharem energeticamente, botões de punho, gravatas coloridas, na análise de cada um dos elementos e aventaçãode cada uma das possíveis interpretações resultantes da sua combinação. Não o faço, o título desta obra é o fim e não o início, é a conclusão, constringência com a qual se deparam tantos quantos construíram o texto, o livro se preferirem, num esforço quase épico. Bom, comecemos antes por um princípio.

Só me recordo de um ‘fio condutor’ da trama (caso tal coisa exista): a noite — o céu que não existe para lá da telha que falta; uma insónia prolongada em cima de um colchão e uma barriga que voltada para cima e uns olhos que abertos nada vêem e, por sobre a noite, a noite interminável. Cinco horas, cinco vidas que vão passando, confrontando um pretenso actor principal, mero espectador — o leitor. O fio condutor é a vigília insone, viagem impertinente, desautorizada, através de pretéritos sem dono.

“O céu faz economia de estrelas”, diz o narrador de Machado de Assis num dos seus contos, também neste Ontem de Lobo Antunes, não se lobriga uma estrela para amostra, apenas azul mortiço e indecifrável, cúmplice com um silêncio tortuoso, que ninguém se atreve a quebrar, que ninguém consegue interromper.

Há, nesta obra, uma intromissão constante do leitor no dever do escritor, vice-versa, em que ambos se servem da inépcia narrativa de uns, a dificuldade em ler correctamente de outros – e é assim que se desfia uma meada perdida que conduz a um novelo, a um tumor. A um temor. É esta a história do livro, a minha ou a tua história, uma história como qualquer outra, contada numa hipócrita 1ª pessoa, não a história passada — amontoado de traumas e infortúnios que deixaram, mais que pegadas, cadáveres nas enseadas do que somos, lambidos pelo salgado do mar —, não a história do que foi, a história do que é: desta sonolência que prende como que com tenazes e força o passado a uma continuidade pelo presente dentro.

2. (A história do hoje, antes de se tornar ontem quando já é amanhã.)

Menti.
Em ontem não te vi em Babilónia há de facto um ontem: há de facto a luta interior com espectros antigos, imagens que ora deslizam em slide, ora se perpetuam num sffumatovagaroso e sofrido e impelem o personagem a pedir auxílio, a desejar que sido não tivesse. Outra constante: o desejo de anular o passado, ou, pelo menos, anular a sua vinda esporádica ao presente, o que vai dar no mesmo.

(Maria Emília, exemplo, a páginas tantas confessa ’A quantidade de episódios que gostava de deitar fora’, essa mesmo que adiante revela uma cicatriz, antes úlcera?, provocado por ‘Nunca ter beijado o meu pai’).

Caso tenha utilizado o substantivo personagens, peço permissão para o substituir. Por pessoas. Personagem alguma neste livro, pois que é escrito por mim que o leio, pois que é erguido a força de lágrimas, suor, intermitências e cobardias, tão humanas quanto eu, quanto as formas que avultam nos 4 sujeitos noctívagos.

3. A fragilidade sujeitos vestidos de personagens

(“Se soubesses quanto dói a chuva…”)

Tudo nas pessoas disfarçadas de personagens é indubitavelmente humano, titubeante, frágil e diáfano — a Maria Emília basta a recordação das alturas em que o mar tão sereno, basta o mar em Agosto e emociona-se logo; ao antigo oficial da PIDE, que insiste em visitar o cemitério dos choupos, onde jazem vivos os caprichos da memória inclinada à celebração de alegrias idas, que aborrecem, que magoam, resta o lamento de não ter tido alguém em quem confiar. Noutros casos, o leitor-escritor penetra na intimidade

(que outra prova maior da veracidade dos ‘personagens’ senão terem intimidade?)

e depara-se com a belicosidade interior de Alice, o 3º sujeito, por oposição ao “corpo em paz para quem visse de fora”, na qual a amargura pela não existência de Deus, cuja prova, diz, é o céu desabitado.

4. Explicação do título

Como referido, o título desta obra não será nunca um início, antes uma verdade que vem crescendo de encontro ao leitor, como indicação no fundo da estrada que aumenta progressivamente as suas dimensões, e que chega sem concessões ou fugas fáceis. Ontem não te vi em Babilónia significa para um leitor atento, (em Lobo Antunes não existe outro tipo de leitor) mais do que um curioso artefacto que comprova uma coloquialidade surpreendente em tempos tão distantes, a injunção de uma ausência.

Injunção de ausência? Ora bolas. Explicando melhor: é a prova material de que o difícil confronto com cada uma das muitas páginas reporta, remonta e remete a uma ou várias ausências. A chave para a compreensão dos personagens que são pessoas é a falta, a supressão natural ou forçada de alguém, alguma coisa e a sua reacção perante esse silêncio e essa noite. Perante esse ontem onde não o ou a vimos. Não (te) ter visto ontem em Babilónia, acrescento, implica ainda um outro factor ou característica da ausência: ela ser prolongada, de segunda geração, por assim não dizer, por se referir a um pretérito anterior à “imediatidade” do ontem.

A Babilónia de Antunes, a do leitor, é portanto mais distante do que um ontem. É, talvez, um anteontem?

por Ente Lectual
07.09.2007

06/03/2008

Júlio Conrado: Recensão crítica na Colóquio Letras nº 157/158 de Julho de 2000 – pp. 411 a 413


A popularidade e a ressonância dos romances de António Lobo Antunes terão hoje de ser procuradas à margem das coordenadas do bem escrever, pois vários são os sinais da existência de certo «problema» da escrita na oficina de um autor que admira Céline, gostaria de se rever no estilo de Cardoso Pires e tem «inveja», neste particular, de Mário Cláudio. Num pequeno exercício de leitura crítica de Exortação aos Crocodilos, procurarei isolar duas ou três linhas de força que ilustrem sumariamente o que precede. Pelo volume da obra, a sua penetração num vasto público, o seu renome, ambos, obra e Autor, merecem a observação, de perto, do modo como um produto manifestamente não encantatório e de escassa ludicidade consegue, em todo o caso, ganhos de sociabilidade só ao alcance de textos em que o prazer da cumplicidade estética na partilha da leitura do mundo por via escritural é uso atingir-se a partir de outros padrões de realização. Enigmático? Vamos por partes.

Talvez como em nenhum dos anteriores romances de Lobo Antunes da fase mais recente[o recenseador estava em 2000] - aquela em que o Autor se compraz em executar alguns exercícios «formais». supostamente irreverentes, que marcam a diferença em relação à compostura sintáctica dos primeiros livros - seja tão evidente a aposta num efeito de pulverização do discurso como em Exortação aos Crocodilos. Esse efeito é obtido através do dispositivo verbal que estimula o levitar de pequenas fracções do texto num espaço narrativo restrito onde concorrem sobretudo para a criação de atmosferas em detrimento de fluxos contínuos de sentido lógico. A demonstração desta «técnica» nas primeiras páginas deixa perceber uma premeditação de caos ao arrepio de nexos gramaticais e linguísticos conservadores que a lenta evolução da intriga acabará por naturalizar, graças a procedimentos de recorte iterativo-redundante a que o narrador recorre sem qualquer embaraço. Desde logo dá nas vistas a personagem surda e isso explicará, quando em intervenção mediúnica o narrador «por ela» discorre na primeira pessoa, o corte abrupto das palavras, a incompletude das representações, o défice de associações e equivalências correspondentes ao que no campo visual vai captando. Surpreendentemente, porém, essa personagem - a mulher de um «patrão» terrorista - , em lapsos fulgurantes de lucidez, consegue contextualizar, racionalizando, o que se passa à beira dela, de tal modo que as suas intermitentes reflexões se tornam, desde cedo, um dos traços credenciadores do recado que se pretende fazer passar, a «voz» de que o narrador se serve para, em apoio dos próprios desígnios, estabelecer na desordem vocabular e de conteúdos um princípio de organização espacio-temporal.

A partir desta linguagem «surda» de retalho, dinamitada por fracturas, interrupções bruscas, cortes, elipses, silêncios e falas sibilinas de conspiração, ganha gradualmente nitidez a ligação do operacional terrorista à hierarquia da Igreja Católica (não por acaso a acção tem por centro geográfico o Patriarcado), empenhada numa guerra santa, ao lado de generais inconformados com o estado das coisas e do embaixador norte-americano - guerra santa cujo aparato rapidamente coloca o receptor no miolo de um esquema do tipo de rede bombista. Outros comparsas entretanto se intrometem, outros elementos de distúrbio atrapalham, outros cenários alternam com miúdos relatos de odisseias pessoais, como por exemplo a vida conjugal de Celina e seu epílogo violento. De sublinhar que a maioria dos eus da história se expressa do ponto de vista do feminino - Mimi, Simone, Celina ou Fátima (o que revela uma tendência de Lobo Antunes já visível noutros escritos, veja-se O Esplendor de Portugal). A leitura terá de continuar em esforço porque a clareza expositiva no vermelho deriva do que tende a consolidar-se como «estilo». Se o Autor não é capaz de escrever bem e claro embora os temas o reclamem, porque não fazer da falta de estilo «o estilo»? Ou será o instinto de autodefesa a impor o não estilo como medida de precaução, não vá o diabo tecê-las?

À medida que o romance avança, afrouxa ligeiramente o ritmo da fragmentação. As atmosferas adensam-se com o correr da intriga, mas percebe-se que, a dado passo, o Autor sente a necessidade de começar a explicar-se ao leitor - aligeirando certos truques de mistério, suspense, obstrução lexical. Essa explicação passa por um discurso já não tão prolixo e pelo acumular de informações que remetem para um tempo específico da história portuguesa recente («um levantamento de católicos ao norte, o roubo de armas numa caserna, uma bomba na moradia de um deputado de Souzel», p. 147) e para uma definição mais precisa do relacionamento das personagens entre si e do que lhes vai acontecendo ou daquilo que os seus comportamentos vão determinando.

O tom é de disforia. Não sobra um nico de optimismo, uns laivos de amor ou de ternura aliviando a pressão de quotidianos sem luz, sufocantes de medos e de casos clínicos sem o colorido das perspectivas de cura. O clima é de guerra santa vivida em espaços interiores, frequentados por gente marcada, altos dignitários, antigos polícias, mulheres que colaboram, na sombra, nas acções, mas cujo testemunho é crucial na configuração da trama. A tónica no inventário minucioso de mobiliário, adereços, bibelôs, naperons, reposteiros, talheres, salvas de prata, argolas de guardanapo, abajures, contadores, loiças chinesas, jarras de porcelana, arcas japonesas, etc., numa obsessão pelas coisas que vem do Novo Romance e é recorrente na prosa do Autor, ajuda a situar socialmente todos aqueles nostálgicos de um regime que caiu de podre e que agora encontram nova razão para se sentirem vivos - a cruzada contra os comunistas, com algumas variantes: a relação de Fátima com o «padrinho» no capítulo dezoito é dada com requintes de crueldade, a que não escapa a forte carga simbólica do nome, em episódio que se inscreve como dos melhores instantes no livro de horrores que é Exortação aos Crocodilos.

Sempre com as mulheres conduzindo os fios da intriga numa «fala» segmentada por recordações da infância, reminiscências da fase adolescente, memória de relações familiares conturbadas, identificadas às vezes por frases sobreviventes ou de choque (este é um romance sem diálogos e de precária vocação coloquial, ainda que verbalmente chão), tais como «Livra-te de te coçares agora», «Pára com a choradeira rapariga», «Se o teu pai coitadinho sonhasse...», «Voar Celina voar», «Deslarguem-me», etc., chega-se à consumação do atentado para que a subjectividade do texto vinha apelando. Assim se consagra uma estratégia romanesca de condenação da guerra santa que todavia não chega a ser guerra suja (talvez por falta de condições concretas para tal), mas sem a tendência da escrita se inverter por forma a que o sentido se encaminhe para uma síntese de conto moral capaz de criar empatia e colocar o leitor a favor ou contra o que a história, não obstante, propõe, dificuldade resultante dos níveis de ambiguidade em que essa proposta é literariamente objectivada.

Como «justificação» do sucesso de livros como este, excluindo as campanhas demarketing e promocionais que pouco têm a ver com a literatura, só encontro, por um lado, as fidelidades de leitura que vêm dos tempos de Memória de ElefanteOs Cus de JudasConhecimento do Inferno e Explicação dos Pássaros, e por outro a coragem com que António Lobo Antunes aborda os temas social e politicamente explosivos do nosso tempo e que insolitamente tão pouco eco encontram na produção da esmagadora maioria dos ficcionistas portugueses. Eram tempos, aqueles, em que Lobo Antunes escrevia por prazer e muitos sentiam prazer em lê-lo. Depois, tornou-se escritor profissional, estrito senso, com a obrigação de pôr cá fora uma ficção «genial» de doze em doze meses, mais coisa menos coisa. Exortação aos Crocodilos é sem dúvida o romance mais exuberantemente depressivo, no seu tricô exasperado de ódios, sombras e desastres, desta segunda, estranhíssima, fase.


Júlio Conrado
Colóquio Letras 157/158
Fundação Calouste Gulbenkian
Julho de 2000

Crónica «Nós» com reflexão sobre a sua leitura por Olga Fonseca

Nós Não precisávamos de falar. Como ele dizia – Tu sabes sempre o que eu estou a pensar e eu sei sempre o que tu estás a pensar ...