29/09/2007

Agripina Vieira: sobre O Meu Nome É Legião


Uma voz que diz... o mal

Numa já longa e espantosa carreira literária, que tem o seu início, como todos sabemos, em 1979 com a publicação de Memória de Elefante, António Lobo Antunes tem vindo a convidar os seus leitores a entrar em mundos ficcionais cada vez mais densos e complexos. Se por um lado, cada novo romance seu se inscreve indubitavelmente num contínuo narrativo, por outro lado constitui-se igualmente como uma novidade em relação a tudo o que já tínhamos dele lido. Quero com isto dizer que estamos perante uma obra de tal forma rica e complexa, que se torna difícil  definir ou periodizar. Em vez de balizas temporais, ocorre-me, para a caracterizar, uma metáfora musical, muito a jeito, aliás, do universo romanesco antuniano (para além de inúmeras letras de cantigas pontuarem os textos, dos títulos com conotações musicais, o autor em várias entrevistas tem-se referido à estrutura sinfónica dos seus romances): diria que a obra de Lobo Antunes é uma longa composição onde o tema, ou seja, a ideia melódica, me matiza de variações, o que me leva a concluir que estamos perante uma obra que se inscreve simultaneamente sob o signo da continuidade e da inovação.

Com efeito, as balizas periodológicas, dentro das quais os críticos ou estudiosos intentam «arrumar» os romances de Lobo Antunes, vão mudando consoante os parâmetros de análise que elegermos. Senão vejamos: parece consensual que os três primeiros romances formam um todo coeso de pendor mais autobiográfico; no entanto, do ponto de vista temático, Os Cus de Judas e O Conhecimento do Inferno encontram prolongamento discursivo em As NausFado Alexandrino e, obviamente, Boa Tarde Às Coisas Aqui Em Baixo, livros onde se problematiza os horrores da guerra. Mas, de um outro ponto de vista, podemos afirmar que O Meu Nome É Legião, o seu novo romance, retoma e desenvolve aspectos já enunciados em O Conhecimento do Inferno, de 1980. Não será por acaso que, nesta brevíssima apresentação, um título regressa incessantemente: O Conhecimento do Inferno. Ao invés, a reiteração resulta antes da importância fulcral que este romance ocupa na produção romanesca de Lobo Antunes, importância para a qual o autor já tinha chamado a atenção, quando disse, numa entrevista ao Público, em 2003: «Muitas das coisas que faço agora estão em botão no Conhecimento do Inferno». E, de facto, assim é: O Meu Nome É Legião regressa à questão fulcral da representação da violência, à volta da qual o entrecho do terceiro livro de Lobo Antunes se constrói, apresentando-se ambos como uma reflexão sobre o mal.

Se em 1980 o autor problematizou a infinita dor dos homens que viveram a violência absurda da guerra e a violência desumana do internamento no hospital psiquiátrico, neste romance o leitor é confrontado com um outro tipo de realidade, marcada pela violência urbana vivida nas sociedades contemporâneas e apreendida no seu estado mais absoluto de crueldade. A variação reside, pois, no modo particular e inovador de dar conta das falas das personagens. Ao longo das perto de quatro centenas de páginas, distribuídas por 19 capítulos, que compõem o romance, assistimos a um jogo peculiar de intensificação e diluição das vozes narrativas, por meio da utilização ou da ausência de travessões a antecederem as falas, alteração que se produz em cada três capítulos, à excepção dos últimos seis, onde se respeita o uso normativo do travessão. Esta técnica discursiva cria um curioso efeito de diluição e, por vezes, de indefinição, no maga textual, das várias vozes narrativas, que surgem como se fossem conduzidas por uma voz interior, que reafirma ocasionalmente a sua presença, como na seguinte expressão: «Já garanti ser uma voz que dita umas ocasiões tão depressa que não a acompanho e outras silêncio horas a fio e eu de bico no papel».

A questão da voz é particularmente importante neste romance: múltiplas vozes povoam o silêncio da comunicação, outras há, como anteriormente referi, que conduzem a narrativa. Mas uma fundamental abre a narrativa e dá título ao romance: é a voz do mal corporizado no homem interpelado por Jesus, que orgulhosamente afirma «o meu nome é legião, referindo-se às inúmeras formas e designações que o mal toma.

O Meu Nome É Legião conta a história de um grupo de oito jovens: «Um branco, um preto e seis mestiços [..]/ de idades compreendidas entre os 12 (doze) e 19 (dezanove) anos», organizados em bando que se dedica a actividades criminosas, sobretudo roubos. O Ruço, O Gordo, O Capitão, o Miúdo, o Galã, o Cão, o Hiena e o Guerrilheiro moram no Bairro 1º de Maio (nome fictício, sob o qual podemos adivinhar e reconhecer outros, esses bem reais, que são assunto de notícia na nossa comunicação social), nos subúrbios de Lisboa, amplamente descrito, uma vez que se constitui como ponto de ancoragem dos jovens delinquentes, que aí regressam após realizarem os inúmeros e violentos assaltos.

As suas viagens permitem-nos construir uma cartografia da grande área metropolitana de Lisboa: do Bairro 1º de Maio a Sintra, de Sintra a Lisboa, do Bairro a Lisboa, do Bairro à primeira área de serviço na auto-estrada do Norte, regressando até Santarém, passando depois perto de Alenquer, de Benfica até Amadora e Brandoa. As deambulações dos jovens por esses espaços, que vão sendo descritos pelos vários narradores que alternadamente tomam a palavra, num exercício de verbalização sempre difícil e doloroso, permitem pôr a nu os contrastes, a heterogeneidade e até o antagonismo de espaços que, do ponto de vista físico, se tocam mas que um fosso social separa.

Este romance constrói-se, mais uma vez, sobre a figura do inquérito, neste caso pelo viés de relatórios policiais e transcrições de depoimentos e testemunhas, sempre entrecortados e preenchidos pelos pensamentos das personagens. A narrativa inicia-se com o texto do polícia a quem foi atribuída a investigação, Gusmão, um polícia já em fim de carreira, que ninguém respeita no serviço, cuja existência era caracterizada por um enorme sentimento de solidão e abandono, até ao momento em que, a mando do seu chefe, vai viver para o Bairro sob disfarce, de modo a obter informações mais precisas das actividades quotidianas e criminosas dos jovens. O relatório circunstanciado das ocorrências presenciadas é, por isso, incessantemente interrompido para dar lugar à expressão dos seus sentimentos mais íntimos ou recriminatórios das práticas da instituição a que pertence.

O texto, que lentamente se constrói, em simultâneo com a nossa leitura, dá conta, de uma forma fragmentada e penosa, das actividades do bando, mas também da sua solidão, da indiferença da filha, do carinho e companheirismo do padrasto em contraste com a impaciência da mãe. A missão, que agora lhe confiam, leva-o a alterar as suas práticas costumeiras, uma vez que vai viver para o Bairro,  para casa de uma mestiça. Embora tenha relutância em reconhecê-lo, devido a convicções racistas muito arreigadas, paulatinamente vai olhando para a mulher com quem vive de modo diferente, transformando-se a repulsa inicial em carinho e desejo de protecção. Nunca o confessando, nem mesmo em pensamento, sente afeição pela mulher de quem recusa pronunciar o nome, insiste em chamar-lhe preta, por isso é ele que vai abrir a porta aos colegas aquando da investida policial contra o bairro, permitindo-lhe, deste modo, a fuga.

Ao relatório do polícia seguem-se os depoimentos das várias testemunhas, ou seja, das personagens que com eles conviveram: a prostituta branca, amante do Gordo; o padrasto; a mãe e o avô do Miúdo; a irmã do Hiena; o branco companheiro da irmã do Hiena; as mestiça que vive com o polícia; o denunciante, dono de um armazém onde guardava e comercializava as mercadorias roubadas; um dos polícias que participou no assalto ao Bairro. Só no final do romance, nos capítulos 15 e 19, a narrativa é entregue pela primeira vez aos jovens, que em discurso directo apresentam uma outra versão dos acontecimentos, dando conta de outras dores, as que forma por eles sofridas: sabemos dos maus-tratos familiares, da ausência da mãe, da falta de afectos, dos actos violentos praticados a mando dos familiares, dos abusos sexuais ocorridos na instituição a que foram confiados pelas pessoas que deveriam protegê-los (um médico com a conivência e apoio de um vigilante).

O sofrimento do abuso sexual narrado nos dois capítulos referidos traz-nos à memória histórias actuais bem reais: reconhecemos as práticas de pedofilia praticadas por pessoas influentes em instituições para jovens, as viagens até uma casa em Évora, a tentativa de protecção inglória do mestre da carpintaria. Estes jovens, apesar da violência condenável dos actos praticados, carregam histórias irremediavelmente marcadas pelas mesmas misérias, dores e ausências, e que por esse motivo se confundem numa amálgama de sentimentos e dores indizíveis, circunstância que do ponto de vista textual se consubstancia numa indefinição das vozes narrativas, apenas rotuladas no relatório do polícia.

Num capítulo de uma grande beleza de escrita, Hiena (cuja morte foi anteriormente narrada pela irmã), o mais jovem do bando, toma a palavra, pelo recurso da analepse, e mostra-nos que não há verdades absolutas, que o bem e o mal, o medo e a valentia, coexistem em cada homem.

O Meu Nome É Legião narra-nos um universo povoado de seres dilacerados e estilhaçados, que vivem um conflito interior travado entre as várias facetas das suas personalidades, em luta contra os fantasmas e as obsessões que teimam em surgir e põem a nu fragilidades inconfessáveis e sofrimentos inomináveis.


Agripina Vieira
em Jornal de Letras, edição nº 965
26.09.2007

04/09/2007

Ricardo Turnes: opinião sobre Os Cus de Judas


Felizmente que a tropa há-de torná-lo um homem.
Esta profecia vigorosa, transmitida ao longo da infância e da adolescência por dentaduras postiças de indiscutível autoridade, prolongava-se em ecos estridentes nas mesas de canasta, onde as fêmeas do clã forneciam à missa dos domingos um contrapeso pagão a dois centavos o ponto, quantia nominal que lhes servia de pretexto para expelirem, a propósito de um beste, ódios antigos pacientemente segredados.

Um bombardeamento ideológico, quase como uma lavagem ao cérebro. Pega-se no livro (neste, no anterior), algumas páginas volvidas e estamos mentalmente esgotados, enjoados e enojadas pelo realismo cru da abordagem. O bombardeamento é implacável, constante, não nos deixa - não há espaços para - descansar, e pousar o livro não chega. Serve-se de palavras duras, agressivas, de frases excessivamente longas, sórdidas, carregadas de adjectivos e referências culturais dispersas, construídas de forma a nos empurrarem a atenção para o fundo de um labiríntico poço de funcionalismos metafóricos. Bem-vindos ao início do inferno da escrita de Lobo Antunes. Se ainda por lá não passaram, façam o favor.

Conhece Santa Margarida? Digo isto porque, às vezes, na messe dos oficiais decorada com o mau gosto impessoal da sala de espera de um dentista de Moscavide (flores de plástico, oleografias imprecisas cujos arabescos monótonos se confundem com o papel de parede, cadeiras hirtas semelhantes a quadrúpedes desirmanados pastando num acaso sem simetria as franjas gastas dos tapetes), a majores em reboliço abandonavam os copos de uísque, de cubos de gelo substituídos por dados de póquer, para, erectos como soldados de chumbo barrigudos, saudarem a entrada de uma senhora que qualquer coronel subitamente urbano comboiava, deixando atrás de si, perceptível na tremura dos galões, um rasto cochichado de cio de caserna, que se cristalizaria em esquemas explicativos no mármore venoso dos urinóis, destinado à alfabetização dos faxinas.

Um homem, o narrador, alguém que se confunde com o próprio autor do livro a ponto de acreditarmos que são a mesma pessoa, fala para uma mulher enquanto a tenta seduzir. O tema do monólogo é a guerra colonial, a sua participação como médico de campanha em Angola, 1971, as recordações, os efeitos devastadores que permanecem para a posteridade, para sempre, na memória de quem esteve no Ultramar - uma fusão que não separa o passado do presente, como que a dizer: somos ainda aquilo que um dia fomos obrigados a ser. Os capítulos são as letras do alfabeto, e o fio condutor leva-nos por todos os recantos da recordação: eis aqui a vergonha na sua totalidade, contada em todas as letras, para que não haja dúvidas, para que nada fique esquecido. Para Lobo Antunes, a experiência da guerra significa uma espécie renascimento: os homens que regressaram vivos voltaram a nascer pelo útero de uma puta chamada Pátria. Terão, de futuro, de reaprender a viver em conformidade com toda uma nova percepção da realidade.

Porque camandro não se fala nisto? Começo a pensar que o milhão e quinhentos mil homens que passaram por África não existiram nunca e lhe estou contanto uma espécie de romance de mau gosto impossível de acreditar, uma história inventada com que a comovo a fim de conseguir mais depressa (um terço de paleio, um terço de álcool, um terço de ternura, sabe como é?) que você veja nascer comigo a manhã na claridade azul pálida que fura as persianas e sobe dos lençóis, revela a curva adormecida de uma nádega, um perfil de bruços nos colchão, os nossos corpos confundidos num torpor sem mistério.

O personagem é o mesmo de "Memória de Elefante", a época abordada também, a perspectiva é que mudou o objecto focado: a família, a esposa e filhas, que eram o centro do mundo no primeiro livro, vêm-se substituída pelas explosões de minas e morteiros, pelo sangue escuro e vísceras dos soldados desafortunados, pelos cheiros da terra, do vómito, do esperma, e da fruta de África, pela carne ferida, decepada e amputada, pelo sexo exposto ao abuso da violação, pelas prostitutas de cabarés rascas das cidades decrépitas de Angola, pela Pide e pelo Estado Novo, pelos crimes de guerra e pelas vítimas do medo, por uma vivência de absurdo completo em que nada parece fazer sentido e de onde não há como escapar - só pela morte ou loucura.

Não sucede o mesmo consigo? Nunca teve vontade de se vomitar a si própria?
...
Não, a sério, a felicidade, esse estado difuso resultante da impossível convergência de paralelas de uma digestão sem azia com o egoísmo satisfeito e sem remorsos, continua a parecer-me, a mim, que pertenço à dolorosa classe dos inquietos tristes, eternamente à espera de uma explosão ou de um milagre, qualquer coisa de tão abstracto e estranho como a inocência, a justiça, a honra, conceitos grandiloquentes, profundos, e afinal vazios que a família, a escola, a catequese e o Estado me haviam solenemente impingido para melhor me domarem, para extinguirem, se assim me posso exprimir, no ovo, os meus desejos e protestos de revolta.

Em Mangando e Marimbanguengo, vi a miséria e a maldade da guerra, a inutilidade da guerra nos olhos de pássaros feridos dos militares, no seu desencorajamento e no seu abandono, o alferes em calções espojado pela mesa, cães vadios a lamberem restos na parada, a bandeira pendente do seu mastro idêntica a um pénis sem força, vi homens de vinte anos sentados à sombra, em silêncio, como os velhos nos parques, e disse ao furriel enfermeiro, que desinfectava o joelho com tintura, É impossível que um dia destes não tenhamos para aqui uma merdósia qualquer, porque, sabe como é, quando homens de vintes anos se sentam assim à sombra, num tão completo desamparo, algo de inesperado, e estranho, e trágico acontece sempre, até que me vieram informar do rádio Um tipo deu um tiro em Mangando, e eu corri para o carro onde a escolta me aguardava a aprontar-se ainda, e seguimos aos saltos para o norte pela picada que a chuva destruíra.

Aos poucos e poucos, como se imagens de objectos de que nos aproximamos no meio de um nevoeiro espesso e pesado, começamos a vislumbrar detalhes daquilo que mais tarde, em futuros romances, viria a ser uma das marcas de referência no estilo de António Lobo Antunes: parágrafos intermináveis onde não há um ponto final senão ao fim de algumas páginas. Por enquanto, e porque é apenas de uma segunda obra de que se trata, e na primeira ainda não havia destas coisas, essa abordagem estilística radical é utilizada muito ao de leve, dir-se-ia que experimentalmente, timidamente, as palavras ainda aparecem ordenadas segundo um sentido perceptível, e encontramos apenas alguns destes trechos escondidos no meio de tudo o resto (leia-se, o resto do romance), sendo que neste caso tudo o resto, mesmo assim, já se nos apresenta como estando nos limites das regras gramaticais da escrita de português. É um passo em frente utilizando a formatação da palavra.

Escute. Olhe para mim e escute, preciso tanto que me escute, me escute com a mesma atenção ansiosa com que nós ouvíamos os apelos do rádio da coluna debaixo de fogo, a voz do cabo de transmissões que chamava, que pedia, voz perdida de náufrago esquecendo-se da segurança do código, o capitão a subir à pressa para a Mercedes com meia dúzia de voluntários e a sair o arame a derrapar na areia ao encontro da emboscada, escute-me tal como eu me debrucei para o hálito do nosso primeiro morto na desesperada esperança de que respirasse ainda, o morto que embrulhei num cobertor e coloquei no meu quarto, era a seguir ao almoço e um torpor esquisito bambeava-me as pernas, fechei a porta e declarei Dorme bem a sesta, cá fora os soldados olhavam para mim sem dizer nada, Desta vez não há milagre meus chuchus, pensei eu, fitando-os, Está a dormir a sesta, expliquei-lhes, está a dormir a sesta e não quero que o acordem porque ele não quer acordar, e depois fui tratar dos feridos que se torciam nos panos de tenda, nunca os eucaliptos de Ninda se me afiguraram tão grandes como nessa tarde, grandes, negros, altos, verticais, assustadores, o enfermeiro que me ajudava repetia Caralho caralho caralho com pronúncia do Norte, viemos de todos os pontos do nosso país amordaçado para morrer em Ninda, do nosso triste país de terra e mar para morrer em Ninda, Caralho caralho caralho repetia eu com o enfermeiro com o meu sotaque educado de Lisboa, o capitão apeou-se na Mercedes num cansaço infinito, segurava a arma à laia de uma cana de pesca inútil, o povo da sanzala espreitava receoso lá de baixo, escute-me como eu escutava o rápido latir aflito do meu sangue nas têmporas, o meu sangue intacto nas têmporas, pelos buracos da varanda via o capitão a passear de um lado para o outro apertando o viático de um copo de uísque contra o peito, falando sozinho, cada um conversava sozinho porque ninguém conseguia conversar com ninguém, o meu sangue no copo do capitão, tomai e bebei ó União Nacional, o corpo do morto crescia no quarto até rebentar as paredes, alastrar pela areia, alcançar a mata em busca do eco do tiro que o tocou, o helicóptero transportou-o para Gago Coutinho como quem varre lixo vergonhoso para debaixo de um tapete, morre-se mais nas estradas de Portugal do que na guerra de África, baixas insignificantes e adeus até ao meu regresso, o furriel arrumou os instrumentos cirúrgicos na caixa cromada, os canivetes, as pinças, os porta-agulhas, as sondas, sentou-se ao meu lado nos degraus do posto de socorro, espécie de vivenda pequenina para férias dos reformados melancólicos mordomos idosos, governantas virgens, os eucaliptos de Ninda não cessavam de aumentar, estamos os dois aqui sentados como eu e ele nesses tempo, Abril de 71, a dez mil quilómetros da minha cidade, da minha mulher grávida, dos meus irmãos de olhos azuis cujas cartas afectuosas se me enrolavam nas tripas em espirais de ternura, Foda-se, disse o furriel que limpava as botas com os dedos, Pois é, disse eu, e acho que até agora nunca tive um diálogo tão comprido com quem quer que fosse.

Adore-se ou deteste-se, e porque, tal como a guerra, é um livro feito de excessos e absurdos, quem o lê não o esquece tão depressa. Revelava-se e afirmava-se um Autor maior, nesse ano de 1979.

 
por Ricardo Turnes
23.08.2007

03/09/2007

Leandro Oliveira: opinião sobre Eu Hei-de Amar Uma Pedra


O Amor no Livro de António Lobo Antunes

O amor idealizado é um tema que marca a tradição literária portuguesa desde a lírica trovadoresca, com as antigas cantigas de amor entoadas a musas inalcançáveis, até os principais autores portugueses contemporâneos como António Lobo Antunes. São os ecos dessa tradição que dão título ao lançamento do escritor, o romance Eu Hei-de Amar uma Pedra, um verso de um antigo cancioneiro português. A ligação da tradição portuguesa feita no título realça o trabalho ousado de Lobo Antunes ao renovar a literatura portuguesa e mundial, mesmo ao falar mais uma vez da impossibilidade de certas relações amorosas, um tema recorrente, mas que pelas mãos do escritor conseguimos perceber novos detalhes. Apoiado no passado, a obra é poeticamente construída e marca o leitor com um texto montado a partir de estilhaços da memória.

António Lobo Antunes é um exímio escritor que cada vez mais se tem destacado não somente pelos prêmios literários acumulados, mas principalmente por uma obra que apresenta uma produção consistente, que se recusa a propor facilidades ao leitor. Numa de suas crônicas, reunida em seu Segundo Livro de Crónicas e ironicamente intitulada Receita para me lerem, o escritor diz que suas obras são compostas "apenas por largos círculos concêntricos que se estreitam e aparentemente nos sufocam. E sufocam-nos aparentemente para melhor respirarmos." Tal sufocamento, apesar do hermetismo que inicialmente se apresenta ao leitor, produz o que o autor diz ser um "contágio por uma doença" que faz o leitor "convalescer após a última página".

As obras do escritor se caracterizam por essa tentativa de contagiar o leitor, sendo bem-sucedido em maior ou menor grau, equilibrando suas expectativas e as expectativas de um leitor mais exigente. Na sua primeira fase, a trilogia Memória de Elefante, Os Cus de Judas e Conhecimento do Inferno, os livros são quase uma catarse, com o tema da guerra na África sendo atravessado pela linguagem (Lobo Antunes serviu como médico militar na guerra de Angola durante quase três anos), dum modo que chama a atenção do leitor mas cujo 'contágio' parece ainda reticente. Daí, em Boa Tarde às Coisas Aqui em Baixo, há ainda uma preocupação em exibir seu domínio da linguagem e o resultado é um livro excessivamente hermético, onde o leitor quer se deixar 'contagiar', mas muitas vezes é afastado. Sendo assim, é possível dizer que Eu Hei-de Amar uma Pedra é mais bem-sucedido em atingir esse objetivo, um livro que conseguiu equilibrar sua maneira de evocar o passado à bela linguagem, apresentando dificuldades, mas não de maneira gratuita, resultando no reconhecimento do leitor e produzindo enfim seu 'contágio'.

Na primeira parte, o narrador introduz o leitor na história através da descrição de fotografias, onde cada detalhe serve para fazer com que o passado venha à tona e seja invadido por vozes que tentam recompô-lo. Uma voz masculina apresenta ao leitor sua infância, sua participação como soldado em Guiné-Bissau, seu casamento, suas filhas e um amor da juventude interrompido pela internação da mulher num sanatório em Coimbra. No entanto, resumir a história somente a esses fatos pode dar uma idéia errônea do romance, já que é na linguagem utilizada que a recordação do passado se transforma em algo tão sublime. À medida que a leitura avança, o leitor percebe que há uma circularidade em sua narrativa. Como rodas dentadas de um relógio, onde cada dente representa um personagem, a narrativa dá voltas, apresentando em cada volta estilhaços da história, que aproximam alguns personagens, mas que no momento seguinte são afastados por um novo estilhaço. Lobo Antunes consegue fazer com que primeiro sintamos a beleza da linguagem para depois compreendermos o significado da narrativa. Ou seja, enquanto os autores ruins procuram esconder sua incapacidade de cuidar da linguagem através de uma história que chama atenção do leitor, o escritor faz justamente o contrário: realça o domínio que tem da linguagem bela e poética, fazendo com que a história sempre permaneça em segundo plano. Um recurso ousado que somente os grandes escritores podem se dar ao luxo de utilizar.

Um outro recurso que contribui para embaralhar o entendimento do leitor sobre a história é o de mudar o ponto de vista narrativo em meio aos acontecimentos narrados. Por exemplo, em determinado trecho a narração é feita por um personagem masculino e subitamente percebemos que uma mulher assume o relato, fazendo com que o leitor pare e reordene a compreensão que tinha da história até ali, tentando discernir que fatos se referem a um personagem e que fatos se referem ao outro.

No entanto, a maior dificuldade desse romance surge quando uma voz de narrador consciente aparece misturando tudo e colocando em xeque todo o entendimento que possuíamos. Apesar de tudo ser ficção, geralmente, quando nos são apresentados personagens, cada um possuindo um passado e com um ponto de vista, construímos em nosso imaginário aquele mundo descrito. Mas daí vem o narrador consciente de seu papel e diz: "Não se empolgue, isso é apenas uma história de ficção que procura dominar suas emoções!" Por exemplo, na página 127 do romance, a voz masculina solta a frase:

"(ou sou eu que imagino ou é o António Lobo Antunes julgando que devo imaginar a fim de que o romance melhore)"

Há, portanto, um narrador que se reconhece como um narrador de ficção. Avançando, novamente encontramos a figura tecendo comentários sobre detalhes da história contada até ali:

"ia dizer abanando a cabeça mas não caio num lugar-comum tão grosseiro, a queixar-se em silêncio, de cabeça bem firme, da ingratidão da filha, não da Alemanha
(que teimosia)
que desgaste para mim obrigarem-me a repetir que na Bélgica, que esforço idiota, e não em Bruxelas nem em Bruges
(tão pouco caio nessa)
em Gand, que isso contaram ao alfaiate
(com a história de lhe terem contado resolvo a questão)"

Passamos então a conhecer não somente os detalhes da história, mas também os embates que o narrador passa a encontrar para narrá-la da melhor forma. A circularidade, portanto, que víamos na história passa a penetrar até mesmo no conceito que possuíamos do texto que estava sendo lido. Antes era um texto de ficção, agora passa a ser uma ficção sobre o que é escrever um texto de ficção, inserindo mais uma camada de dúvidas e questões literárias. Tantas questões e tantos recursos fazem com que o leitor passe pelas mais de quinhentas páginas do livro sem perder o interesse, pelo contrário, ao chegar à última página a vontade é de recomeçar a leitura para apanhar os detalhes que não foram percebidos. Sensações que se misturam, assim como a história, resultando num livro delicado e complexo, leve, porém, marcante. Para o leitor que ainda não conhece a obra, o convite para se contagiar está dado.

 
por Leandro Oliveira
30.07.2007

Crónica «Nós» com reflexão sobre a sua leitura por Olga Fonseca

Nós Não precisávamos de falar. Como ele dizia – Tu sabes sempre o que eu estou a pensar e eu sei sempre o que tu estás a pensar ...