31/12/2005

Rogério Santos: O livro de António Lobo Antunes


D'este viver aqui neste papel descripto é um livro de amor que decorre com a guerra colonial como pano de fundo. Os aerogramas (ou cartas) que o alferes miliciano Lobo Antunes mandava para a mulher Maria José (Fonseca Costa) Lobo Antunes são a expressão do amor à distância e relata o dia a dia da vida de um militar destacado em Angola durante a guerra, no caso dele entre 1971 e 1973.

O livro lê-se como um romance pleno de acção, mesmo que muitas das cartas contenham versões minimais de outras. A repetição das cartas tem a ver com a monotonia dos dias, longe dos familiares e dos amigos queridos e afastado do conforto de uma cidade (Lisboa), onde o autor vivia. Mas há três ou quatro temas que, embora se repetindo ao longo das cartas, ilustram uma progressão. É como a nossa vida quotidina: fazemos gestos semelhantes todos os dias, mas vamos alterando um pouco esses gestos, porque envelhecemos ou ganhamos experiência.
 
A saudade da mulher (e da filha que vai nascer aqui em Lisboa quando ele está lá longe, em Gago Coutinho - o nome de então de uma vila angolana perto da fronteira com a Zâmbia). Daí que as cartas comecem sempre com "minha jóia querida" e acabem com "gosto tudo de ti". Outra linha constante é a referência à sua necessidade de escrever, ele que debutava e seria bastante mais tarde reconhecido como grande escritor. Escrevia ele a 5 de Abril de 1971 (p. 117): "Tenho continuado a história, agora a caminho da página número 70, vamos a ver se consigo que fique boa". A 21 de Maio do mesmo ano (p. 171): "Entretanto lá vou empurrando a história para a frente". No dia 8 de Julho (p. 232) escrevia: "Acabada a primeira parte, eis-me a trotar na segunda".
 
O atraso de correspondência era outra constante da vida do seu dia a dia: "Desde 4ª feira passada (hoje é 3ª) que não recebo notícias tuas e que nada sei a teu respeito" (6 de Abril de 1971, p. 118) . Muitas vezes, considera que o amor entre ele e a mulher está a chegar ao fim, pois ela não lhe responde. Mas das suas cartas percebe-se que ela se queixava do mesmo. Cada aerograma demorava muitos dias, devido aos circuitos complexos de correio no interior de Angola. Hoje, tais lamentações não seriam possíveis, graças ao telemóvel e, em especial, a internet [há poucas semanas, uma reportagem de televisão mostrava os soldados destacados em missão internacional no Afeganistão com uso de internet e envio de imagens fotográficas. O tempo de demora reduziu-se a instantes].
 
O dia a dia sem motivos novos levava a um remoer constante das mesmas ideias. Mas o autor não assumia que nelas pensava todos os dias: "Há muito que não falo da criança [a mulher ficara grávida quando ele embarcou para Angola], mas tenho pensado muito nela" (26 de Abril de 1971, p. 140). Lobo Antunes abordara a situação no dia anterior. Depois, é o seu conselho quanto ao nome da criança a nascer; querendo uma rapariga, propõe o nome de Maria José, o que virá a acontecer .
 
Um tema marginal, mas que retoma com alguma regularidade é o da compra de bebidas brancas a preços baixos: "A propósito de oficiais, cada um tem direito por mês a 3 garrafas, duas de uísque e uma de conhaque, de marcas estupendas, a preços de cerca de 100$00. [...] Embora não goste de nada disso (e tenho pena) ficamos cheios de alcoóis para os visitantes do nosso quimbo" (carta de 29 de Março de 1971, p. 109.Quimbo em umbundo, a língua da região, significa casa). Já a 20 de Janeiro de 1972 (p. 338), dá conta de uma alteração: "já não vendem mais garrafas aos senhores oficiais, por aqueles preços convidativos". E, por mais de uma vez, conta que militares de visita a Portugal serão transportadores de algumas dessas garrafas.
 
Retenho ainda da leitura do livro: 1) o conhecimento que ele adquiriu com o capitão Ernesto Melo Antunes, comandante de uma das companhias do seu batalhão (certamente aí colocado depois de, em 1969, ter sido o único oficial das Forças Armadas portuguesas a fazer parte de uma lista oposicional à linha do regime, ele que seria um dos oficiais do 25 de Abril de 1974 e que assumiu uma posição de liderança, com o Documento dos Nove, uma posição moderada após a radicalização à esquerda do regime em 1975 e 1975. Melo Antunes, homem culto, emprestava livros e revistas como o Nouvel Observateur e jogou xadrez com Lobo Antunes, ensinando-lhe várias entradas, como o livro indica); 2) a tomada de consciência política (apesar de, numa primeira fase, parecer favorável à situação, vai-se distanciando da posição oficial); 3) a leitura das bibliotecas (fracas) dos outros colegas quando os seus livros já tinham sido lidos; 4) os boatos (ficar na frente de combate todo o tempo da comissão e não rodar para um sítio mais calmo; uma segunda comissão); 5) as mortes de soldados, a que se acresce o facto de, como médico, acompanhar todos esses casos de modo directo.

 
por Rogério Santos
16.12.2005

27/12/2005

Eduardo Alves: opinião sobre O Manual dos Inquisidores

Por entre uma salada russa feita de ingredientes sociais com bêbedos, pobres, oportunistas e simples sonhadores surge um conjunto restrito de pessoas. Escolhidas pelo autor para constarem como personagens de monta num livro histórico e intemporal. O burburinho social que se vive logo após o mês de Abril do ano de 1974 serve de sustentação a este retrato colectivo que António Lobo Antunes imprime na chapa da escrita. Como uma foto feita de palavras, o médico-escritor, narrador por excelência, transforma-se na consciência de um povo que tinha acabado de cair por terra e começa agora a erguer-se do chão.

O fascismo aparece como grande herança do regime salazarista. Isto porque, na óptica deste antigo combatente, a sociedade mal se transformou com a revolução, apenas se maquilhou para surgir com uma outra imagem, mas da mesma forma. Desigual, carregada de vícios e sustentada por jogo de poder. Um dos ministros de Salazar ganha mesmo o estatuto de personagem principal em dezenas de páginas do romance. A crueldade das decisões vai contrastando com a capacidade de bem-querer a alguns. Poder e liberdade de acção extravasam para alguns, enquanto a maioria, os pobres que já estavam na miséria, sentiam na pele e no corpo os malefícios destas políticas. Para aqueles que levantavam a voz, a polícia vinha com “estalos evangélicos” colocar o tom de voz num timbre mais baixo. Leitura intemporal, que ainda hoje encontra muitas semelhanças com a realidade.

por Eduardo Alves
Universidade da Beira Interior
Novembro de 2004

18/12/2005

Arancha Oña Santiago: Heróico anti-herói

Memória de Elefante é a primeira obra da galardoada carreira literária de António Lobo Antunes; entre os múltiplos prémios recebidos destacam-se: o Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores, o Prémio Rosalía del Castro do PEN Club Galego, o Prémio de Literatura Europeia do Estado Austríaco, o Prémio União Latina de Escritores e o Prémio Jerusalém.

No presente romance, a personagem principal comunica com a voz grave de débeis ressonâncias a partir da subjectividade mais profunda do seu ser, através de uma prosa poética plena de analogias artísticas insuspeitas e surpreendentes, angustiadas metáforas, alegorias, paradoxos, diálogos opacos e fustigantes monólogos existencialistas, numa ambiguidade dualista plena de incerteza, dirimindo entre a banalidade e o transcendental.

Fugindo do excessivo e exuberante racionalismo matemático, do pragmatismo, da autoridade idealista e positivista, do por vezes presunçoso espiritualismo e do avassalador materialismo, em suma, contra qualquer autoridade, o protagonista apresenta-se num mundo de desorientação, de confusão e de uma crise fertilíssima.

Como processo iniciático e por trás da claridade ofuscante do excessivo racionalismo tradicional, o protagonista lança um grito desesperado de sinceridade no concavo espaço do silêncio, sem arrogância, questionando a realidade sem receber uma resposta convincente, pendendo sem equilíbrio algum e contorcendo-se sobre si mesmo numa corda entre o determinismo e a liberdade, entre a fé e o agnosticismo, entre o absoluto e o relativismo moral.

Exorta o inanimado e o animado, metamorfoseando a existência para a compreender, jogando com a fantasia e a realidade da percepção, formando um puzzle de elementos congruentes e incongruentes. Evoca o caos dentro de uma ordem aparente e uma ordem dentro do caos, expulsando tudo isso através desenlaçado novelo da liberdade.

Psiquiatra de profissão, sendo um fardo por vezes difícil de carregar, a personagem principal apresenta-se como um indivíduo frágil por condição mas duro por necessidade, desterrado à vida de cabeça ajudado por fórceps, exaltado na análise do seu instável projecto de existência face à aparentemente titânica essência do passado. Projecto de existência individual que só encontrou estabilidade no útero materno e que existe no ermo de um mundo em que não entende as leis da sua harmonia e para o qual são inúteis os ecos harmónicos da tradição.

Na sua subsistência, desliga-se melancolicamente de qualquer memória de autoridades geométricas e ressonâncias de leis universais, sendo incapaz de erguer com suas intenções outra jurisdição que o guie em sua dispersão, aceitando uma desordem que o leva à quase perversa aniquilação do seu próprio ser. Desesperançado perante o rosto de uma realidade a que é incapaz de fazer um diagnóstico definitivo, conforma-se com meros e aproximativos juízos, acalmando a dor com leves analgésicos cujo excesso o leva ao atordoamento, sem encontrar um medicamento contundente que a elimine de raiz.

Enfrentando a realidade com uma vontade dilacerantemente individual agredida por um trágico pessimismo, defende sem muita contundência e com eterna e angustiada dúvida o seu fado de sinuosos acontecimentos, entre os quais a sua participação numa guerra; incorporado de uma solidão dissonante, desmoronada como uma estátua da antiguidade e dissimulada dos fedores do passado.

A nossa personagem enfatiza de forma literária a unicidade da sua pessoa e a sua luta pelo significado da lua liberdade, uma liberdade sem bússola, que ao  mesmo tempo que o oprime, o converte num ser singular e individual, separado da ordem cósmica, permitindo-lhe ajustar a sua identidade sobre a base do sofrimento e do tormento, comunicando existencialmente com a alteridade.

Liberdade cuja cruz é a responsabilidade pela qual sofre uma angústia e uma ansiedade existencial gerada como mecanismo de defesa perante a construção da sua identidade e do seu destino em harmonia ou dissonância com a liberdade dos demais, e como resposta às ameaças e tensões que sofre no seu sistema de valores.

O nosso protagonista é singular na medida em que actua e se realiza com algum pessimismo na conquista e na imputação dos seus próprios actos. Escolhe o seu caminho sem se deixar levar por modelos universais e objectivos, escolha livre unicamente limitada pelas circunstâncias que o rodeiam, pela implicação com compromissos e responsabilidades sem garantias.

Sem uma predisposição ou predestinação prévia, o protagonista experimenta a responsabilidade das suas acções e a subjectividade da sua existência se reconstrói e configura em si mesmo, sobre a base do tormento, reconhecendo tenuemente a alteridade, e na busca da aparentemente prismática verdade. Alteridade na qual de sujeito se converte em objecto, de onde se reflecte um mundo de incompreensíveis estereótipos humanos, alguns confinados ao psiquiátrico, outros na liberdade de movimentos pela vida, mas todos sem manual de instruções.

O nosso psiquiatra luta pela procura de uma linguagem universal que o faça comunicar com a realidade e com os outros, pela saída do labirinto da sua existência. Sensação e experiência linguística mantida única e exclusivamente com a sua saudosa ex-mulher a quem continua amando e não consegue esquecer, mas paradoxalmente não consegue dizê-lo. Experiência que nem sequer teve com sua mãe, que quase morria depois do seu parto, além de sofrer de uma surdez metafórica ou real que o levou à sua incompreensão.

Como os castigos míticos da condenação a uma eternidade infernal, o nosso protagonista sente-se condenado a uma existência angustiosa e incompreensível, através dos rígidos parâmetros da razão herdada.

Submerso nas águas do dualismo, entre a existência e a essência, entre a racionalidade e suas consequências, entre a credulidade e incredulidade, o nosso protagonista vai vogando sobre a decadência da razão, sem forjar ilusões e tocando o fundo do desencanto da existência, encalhando na dor e na crueldade da realidade sincera que marca o seu destino até... ao nada?

por Arancha Oña Santiago
Novembro 2005
(traduzido do espanhol por José Alexandre Ramos)

17/12/2005

Sara Belo Luís: Romance em aerogramas


Com o delicioso mau-feitio que se lhe conhece, António Lobo Antunes dirá porventura que as cartas recolhidas em D'este viver aqui neste papel descripto não terão grande importância. Serão - como as crónicas - material «menor», quando comparadas com os romances, género no qual ele tem vindo a trabalhar ardilosamente. O autor que me desculpe, mas (se de facto assim for) não tem razão. Porque estas cartas de amor - como todas as cartas de amor que da vero o são - nunca se reduzirão a formas mais ou menos rebuscadas de dizer o amor.

As cartas que, de 1971 a 1973, António Lobo Antunes escreveu de Angola à sua primeira mulher são muitas coisas mais para além dos diminutivos carinhosos (os quais ele, aliás, também usa) e das declarações de amor incondicional. São cartas de um oficial que preferiu a guerra ao exílio parisiense. São cartas de um médico branco que dá assistência a uma população negra. São cartas de um homem de 28 anos que vive longe da mulher que ama. São cartas de um pai que não está presente no nascimento da sua primeira filha. São cartas de um filho que confessa que se sente desconfortável com o registo das missivas da mãe. São cartas de um escritor que acredita no seu valor e que não desiste de o querer ser. São cartas de leitor que devora romances para saber como é que os outros o estão a fazer. São cartas de um homem solitário no meio de uma terra que não lhe pertence.

São cartas, aqui se escreveu. A classificação do género epistolar será, porém, demasiado redutora para falar deste livro. Porque nele se mantém o fio condutor de uma narrativa romanesca. Apesar de existirem algumas lacunas (umas voluntárias e atribuíveis ao autor; outras, atribuíveis à censura militar que fez «desaparecer» algumas das cartas), D'este viver aqui neste papel descripto conduz o leitor num romance com um enredo, muitos episódios, meia dúzia de personagens e até algum suspense. O que é senão isso as conversas acerca da casa, das garrafas de bebidas alcoólicas e do dinheiro necessário para comprar um Fiat? O que é senão isso o dilema do remetente no toca à vinda de férias a Lisboa («devo morrer antes disso»)? O que é senão isso a ponderação do casal se todos (pai, mãe e filha mais velha) se deverão juntar em Angola?

Da guerra propriamente dita tem-se, a partir D'este viver aqui neste papel descripto, uma perspectiva loboantuniana. Apesar de não esconder as suas discordâncias ideológicas (e, neste campo, são inesquecíveis os manuais de alfabetização do MPLA), Lobo Antunes não se demora longamente em considerações de carácter político. Nem tal seria de esperar uma vez que se sabia que algumas cartas eram lidas: «Percebes o que eu quero dizer, não percebes?». A guerra - e, sobretudo, o absurdo da guerra - revela-se muitas vezes pela descrição (sucinta) das acções militares, do seu trabalho como médico e, sobretudo, pelo seu quotidiano aparentemente banal. Como seria natural, Lobo Antunes não se estende nos pormenores violentos das amputações, da cólera, das minas e das saídas para o mato. Tudo isso - no qual depois o escritor se baseou para escrever Os Cus de Judas - fica dito em poucas linhas para proteger a destinatária das cartas de preocupações inúteis.

O que, do ponto de vista literário, impressiona no romance D'este viver aqui neste papel descripto é a elegância de uma prosa escrita ao correr da pena no espaço reduzido dos aerogramas editados pelo Movimento Nacional Feminino e transportados gratuitamente pela TAP para a Metrópole. Maria José e Joana Lobo Antunes, as filhas de António Lobo Antunes e responsáveis pela organização do volume, dizem no prefácio que apenas corrigiram as gralhas e actualizaram a ortografia. Aquelas cartas estão como se fossem massacradas como agora sabemos que são massacrados os romances de António Lobo Antunes. Escritos e reescritos, lidos e relidos, riscados e emendados numa obsessão como um ostinato rigore que o autor não esconde. O que se estranha é que nenhuma daquelas cartas parece possuir uma hesitação sobre uma só palavra, uma frase rasurada ou sequer castigada. Ao autor, toda aquela torrente como que lhe é - usemos o adjectivo, correndo os imensos riscos que ele contém - como que instintiva.

Lobo Antunes expõe-se nestas missivas que ele nunca pensou que, algum dia, pudessem vir a ser lidas por mais do que uma pessoa. É o escritor que vacila perante o seu próprio talento (umas vezes) e o escritor que ousa achar-se genial (outras vezes). É o marido que está seguro de que é amado (umas vezes) e o marido que, à distância, tem dúvidas sobre a correspondência do seu amor (outras vezes). É por esta razão que D'este viver aqui neste papel descripto contém, mais do que tudo, um homem lá dentro. Um homem que no Portugal dos '70 não tem vergonha de chamar «pratinho de arroz doce» à sua mulher. Um homem sem pachorra para ler as Matchs que as suas tias zelosamente lhe enviam. E um homem muito mais frágil do que aquele que se vê nas entrevistas a fazer afirmações seguríssimas. Que, diga-se em abono da verdade, apenas desconcertam os mais desprevenidos.


por Sara Belo Luís
citado do Jornal de Letras
Novembro 2005

Crónica «Nós» com reflexão sobre a sua leitura por Olga Fonseca

Nós Não precisávamos de falar. Como ele dizia – Tu sabes sempre o que eu estou a pensar e eu sei sempre o que tu estás a pensar ...