20/12/2004

Rosemary Gonçalo Afonso disserta sobre Não Entres Tão Depressa Nessa Noite Escura


Instantâneos na noite escura de António Lobo Antunes

Não entres tão depressa nessa noite escura é o 14º romance de António Lobo Antunes. Dividida em 35 capítulos e sete sequências, ordenadas conforme os dias da criação do mundo, a narrativa reúne um conjunto de vozes que se cruzam, entrecortadas por fragmentos de diálogos, monólogos incompletos e frases inacabadas, reveladores de uma instigante viagem através da memória.

A doença do pai das irmãs Ana Maria e Maria Clara desencadeia as reflexões que evidenciam a insatisfação pessoal das personagens e o sentimento de fracasso que as domina.

As formas de expressão escolhidas pelo autor são as visitas ao psicólogo e o diário de Maria Clara, dona da voz mais frequente que se percebe na polifonia de vozes que percorrem a narrativa. Sem nenhuma ordem aparente na sequência cronológica dos acontecimentos, a memória impõe-se como o único fio condutor da estória.

Uma vez que a cronologia e a veracidade dos fatos são pouco importantes, percebemos que tornar críveis as personagens não é uma prioridade, e sim mostrar as experiências que as marcaram mais profundamente. Esse aspecto da narrativa mostra que o enredo é o que menos interessa ao autor, reiterando o que afirmou durante uma entrevista para o jornal "Folha de São Paulo": Para mim, muitas vezes a intriga não é mais do que o prego no qual se penduram os quadros. Ou ainda, citando Clarice Lispector: As palavras são apenas anzóis, para apanhar o que está nas entrelinhas.[1]

Embora o valor da intriga seja minimizado, não podemos ignorar que as situações descritas nos revelam, sutilmente, um retrato da sociedade portuguesa daquele período, cobrindo um espaço desde os primeiros anos após a Revolução de 25 de abril de 1974 e o fim dos anos 90, quando alguns benefícios da integração à Comunidade Europeia passaram a fazer parte do dia-a-dia dos portugueses.

São esses dois aspectos: a viagem pela memória e os instantâneos da realidade exterior, que pretendemos destacar no presente trabalho.

A viagem pela memória é sugerida desde o capítulo inicial, que começa com lembranças, preenchidas pela imaginação: O meu pai nunca me deixou entrar aqui. Devia sentar-se na cadeira de baloiço e olhar do postigo o jardim lá em baixo, o portão, a rua, eu pequena a brincar às fadas com a minha irmã no rebordo do lago[2].

Mais do que saudades da infância, de um tempo em que os problemas parecem tão distantes, a frase revela que a repressão foi um aspecto marcante na educação de Maria Clara. Embora o uso do imperativo seja frequente entre os portugueses, mesmo em situações de total descontração - e o romance deixa transparecer essa característica pela repetição das frases: Cala-te![3] ou Calem-se[4] -, é significativa a intensidade com que as frases imperativas povoam a memória da personagem: Pede desculpa ao teu avô Maria Clara.[5] Precisamos ter uma conversa menina.[6] Vá para casa Clarinha.[7].

Em sua interpretação filosófica do pensamento de Freud, Marcuse nos lembra que, de acordo com a teoria deste

a história do homem é a história da sua repressão. A cultura coage tanto a sua existência social como a biológica, não só partes do ser humano, mas também a sua própria estrutura instintiva. Contudo, essa coação é a própria precondição do progresso. Se tivessem liberdade de perseguir seus objetivos naturais, os instintos básicos do homem seriam incompatíveis com toda a associação e preservação duradoura: destruiriam até aquilo a que se unem ou em que conjugam.[8]


Submetida à repressão constante, a natureza do homem é inevitavelmente transformada, assim como os seus "valores", para garantir o bem-estar da sociedade.

Ao nascer, os instintos do homem conduzem-no à busca da concretização imediata de todas as suas necessidades, ou seja, à busca do prazer. Ao controlar esses instintos, para satisfazer às exigências da sociedade, o homem transforma o princípio de prazer, sugerido por Freud, em princípio de realidade. (...) O indivíduo chega à compreensão traumática de que uma plena e indolor gratificação de suas necessidades é impossível.[9]

Essa "compreensão traumática" nem sempre é consciente. O conjunto de regras impostas pelas diferentes instituições presentes na sociedade - família, escola e igreja, entre outras - impedem a realização imediata das necessidades individuais, mas não eliminam essas necessidades. Para viver em sociedade, o indivíduo concorda apenas em adiar a realização dos seus desejos, ou em fazer concessões, transformando-os. Quando o cotidiano não satisfaz aos seus anseios ele sente-se burlado, perdido. E, sobretudo, muito só.

A insatisfação com o momento presente, a solidão e o ensimesmamento são as afinidades que se percebem entre personagens do romance. Os fragmentos de diálogos mostram que apenas assuntos superficiais e pequenos problemas imediatos são discutidos entre os familiares. As personagens não conseguem expor abertamente as suas angústias: se eu pudesse conversar com alguém e podendo conversar com alguém se conseguisse falar[10]. A dificuldade de comunicação faz com que se sintam aprisionadas.

No último capítulo, Maria Clara, sufocada pela rotina, é assaltada pelo impulso de fugir, literalmente.


Hoje estava capaz de me ir embora: as paredes da casa apertam-me, tudo me parece tão pequeno, tão inútil, tão estranho. Entrar na cozinha. Fazer o almoço. Servi-lo. Esperar pela refeição seguinte. Apagar o fogão. Servi-la Atender a meio da tarde a voz do meu marido a saber como estou, receber as cartas da Ana de que não compreendo o endereço. Abandonar as cartas de Ana de que não compreendo o endereço. Abandonar os telefonemas e as cartas também. Hoje estou mesmo capaz de me ir embora antes que fique louca como os cães, correndo em círculos na noite[11].


Nada ingênua, Maria Clara não se vai embora. Sabe que não pode fugir de si mesma tão facilmente: "o diário a persegue". Precisa empreender a viagem interior, enfrentar os seus "fantasmas", percorrer "os atalhos entre o que deixamos e o que esperamos encontrar", mencionados na nossa epígrafe. Tentar descobrir quando foi que se afastou da menina que "brincava às fadas com a irmã no rebordo do lago".

Não é por acaso que a epígrafe do romance foi retirada de um tratado de psicologia. Embora já não exerça com frequência a profissão de psiquiatra, o autor não o é impunemente. Ele próprio afirma, em entrevista ao Jornal de Letras:

[...] o que os estrangeiros dizem que trago para a literatura não é mais do que a adaptação à literatura de técnicas de psicoterapia: as pessoas iluminarem-se umas às outras e a concomitância do passado, do presente e do futuro.[12]


Respeitando as técnicas de psicoterapia, a narrativa dá livre curso aos corredores da memória e é a fantasia que domina. Como afirma Marcuse:

A libertação psicanalítica da memória faz explodir a racionalidade do indivíduo reprimido. À medida que a cognição cede lugar à recognição, as imagens e impulsos proibidos da infância começam a contar a verdade que a razão nega. A regressão assume uma função progressiva. O passado redescoberto produz e apresenta padrões críticos que são tabus para o presente. Além disso, a restauração da memória é acompanhada pela recuperação do conteúdo cognitivo da fantasia.[13]


As personagens são construídas e desconstruídas frequentemente, modificadas pelo conteúdo cognitivo da fantasia durante o exercício de restauração da memória. Talvez seja tudo fruto da imaginação de Maria Clara, mesmo as vozes que não lhe pertencem, como é sugerido no penúltimo capítulo em frases como: Deixei de me inquietar porque afinal está tudo como sempre foi, a moradia intacta, o meu pai connosco,[14] ou ainda, na cave, no sótão, atrás do guarda-fato, mas qual guarda-fato, no compartimento com porta para a escada, mas qual escada[15].

Os fatos são questionáveis, mas deixam perceber os tabus que assombraram Maria Clara, e que assombram a sociedade, entre eles: as dúvidas sobre a sexualidade (duas frases a perseguem): - A Maria Clara é o homem da casa.[16] e (amor entre mulheres normalidade ou doença: o ponto de vista dos[17]; o envolvimento de familiares com atividades ilegais (o pai é traficante de armas): -Quais armas? / um baú de facturas no sótão, morteiros, bazucas, revólveres, minas, a minha mãe se eu lhe contasse / (descanse pai, não conto)[18]; e os sentimentos pouco nobres (como a inveja): (...) a expressão da Ana ao zangar-se comigo, um grito de raiva a aumentar-lhe a boca, a beleza que me fazia sofrer e eu odiava, o cabelo loiro e o meu quase preto[19]

Tentar descobrir o momento em que perdemos o rumo da nossa própria vida, eis uma proposta antiga do autor. Em seu livro Memória de Elefante um personagem angustiado avalia o seu passado, buscando respostas para a pergunta que o persegue e que deixa tão evidente a sua sensação de fracasso: Quando é que eu me fodi?[20].

Em Não entres tão depressa nessa noite escura o autor consegue se superar e vai muito além de sugerir essa busca, indica caminhos: a viagem interior; nunca desvinculada da avaliação dos acontecimentos externos ou dos hábitos de comportamento que se verificam na sociedade que nos cerca. Uma grande interrogação, porém, permanece: o meio será causa ou consequência das nossas crises existenciais?

Na busca de respostas para o seu próprio conflito interior o autor expõe o seu país: também Portugal está em causa no romance.

Um Eça de Queiróz contemporâneo, assim consideramos Lobo Antunes. Retratar a sociedade portuguesa é sua outra proposta, sem alegorias, confirmando o que declarou ao jornal "Folha de São Paulo" durante uma entrevista: "não sou Deus, não invento nada"[21].

Vive imaginando as suas personagens e até sonha com elas. O contacto com a sociedade dá-se através de uma janela virada para o Tejo, numa casa que tem pouco mais do que o indispensável. Aquele é o ponto de observação do 'psiquiatra social'. E o que observa ele? Um mundo doente, demente, vazio, desesperado, apático, sem sinais de esperança — uma catástrofe. Mas de tanto olhar através do vidro de uma janela, acabou por colher o seu reflexo. António Lobo Antunes transformou-se numa personagem do microcosmos lusitano, digna de um dos seus romances.[22]

Menos acusador do que em obras anteriores, mas igualmente crítico, Lobo Antunes aguarda o "salto qualitativo" que nem a Revolução de 25 de abril de 1974 nem a adesão à Comunidade Europeia, em 1986, proporcionaram aos portugueses. Talvez, em nenhuma de suas obras anteriores tenha sido tão benevolente com os seus compatriotas. Retrata-os com uma surpreendente sensibilidade e mostra um notável cuidado com a linguagem, tornando viável a categoria de poema que ele mesmo atribui ao romance. Criar uma certa confusão na categoria aponta, com certeza, para a crise de gêneros que se percebe nos romances contemporâneos, mas também nos prepara para passagens indiscutivelmente poéticas, como a seguinte:

não pedia auxílio, não chamava ninguém, limitava-me a escutar o Tejo e os ramos em torno do Casino inventando uma brisa que não existe em julho e uma desordem de morcegos que o rio despedira há séculos para as faldas da serra[23]

A realidade exterior e os momentos históricos vividos pelo país são reproduzidos exaustivamente. Passamos a destacar alguns desses instantâneos:

Ao extinguir os abusos praticados pelo Estado Novo (regime ditatorial imposto por Salazar) a Revolução foi traumática para uma parte da população, que viu os seus privilégios cerceados e sua estabilidade econômica abalada. A decadência obrigou-os a alterar sensivelmente o seu estilo de vida para sobreviver com as novas limitações financeiras. Como nos lembra Joaquim Vieira: A elite dirigente do antigo regime, a sua oligarquia económica e a classe média alta são, na realidade, as vítimas da revolução.[24]

Exemplificando esse aspecto, lembramos o envolvimento do pai de Maria Clara com o tráfico de armas, apesar dos riscos envolvidos, para manter o padrão de vida a que a família estava habituada. A ausência do dinheiro proporcionado por esse comércio seria, seguramente, o fim de uma série de luxos até então rotineiros:

Nesta casa esvaziada de tudo excepto de reposteiros que envelhecem e lembranças de grandeza, a minha mulher obrigada a vender pratos, tremós, a mandar embora o chofer, a descuidar os canteiros, o jardim transformado num matagal de ervas ruins açucaradas pelas cordas que sobram (...) o escritório aberto a livrá-las do relento dos árabes e pretos incrustado nos estofos, nos móveis, o dinheiro deles a permitir à minha mulher que o chofer e os canteiros, que a modista, que as compras, [25]


A revolução proporcionou mudanças rápidas mas, apesar do ideal de liberdade, não conseguiu eliminar os inúmeros preconceitos de uma sociedade altamente estratificada, como o era (e ainda é) a sociedade portuguesa. Tanto os preconceitos raciais como os de classe social são evidenciados no decorrer da narrativa; a própria história do pai de Maria Clara, possivelmente de origem humilde, deve ser esquecida: o teu pai não tem família quando nos conhecemos já não tinha família.[26] e eu danada com as generosidades do meu pai (...) os cuidados dele com os pobres, nunca diante de nós, às ocultas, como se pertencesse à mesma raça e era óbvio que não pertencia apesar das peúgas de risquinhas e do modo de pegar nos talheres.[27]

A estratificação social foi mantida pelo antigo regime com tanta naturalidade, que fazia lembrar o período da monarquia. Essa prática acentuou preconceitos que não serão facilmente ultrapassados:

(...)

não sei defini-lo mas farejo-o à légua
que vocês, sem dar por isso, nos pegam, é a
miséria que cheira, não são os corpos nem a roupa,
a miséria que cheira como a vida cheira, qualquer coisa desagradável que
carregam convosco[28]


Outra consequência da agitação que se verificou logo a seguir ao 25 de abril foi a invasão de propriedades. Como nos lembra Joaquim Vieira, em suas Crónicas do séc XX.

Descobre-se a ocupação como uma eficaz arma de contestação à posse ou orientação tradicionais do que é ocupado. Ocupam-se palacetes, quintas, terras, matas, fábricas e outras empresas, residências, restaurantes, escolas, clubes, órgãos de informação, câmaras municipais, juntas de freguesia, casas do povo, ministérios e até hospitais. A ocupação torna-se uma actividade rotineira em 1975, quase sempre com o beneplácito e proteção dos militares.[29]

No romance, essa situação é também lembrada:
 
Os motoristas, os carregadores, os operários
A baterem a sola no chão como se enxotassem um bicho
- Vá-se embora senhora
Donos da gente como sempre que os pobres
Quando foi da revolução ocuparam-nos as casas[30]

Perdidos num emaranhado de crises, as personagens nos dão conta da realidade que se alterara. Sejam elas frutos da imaginação de Maria Clara ou não, mostram a dificuldade de adaptação de uma grande parte da população à nova realidade do país. Destacamos a avó, que saía todos os dias às ocultas, a seguir ao almoço, de boininha ridícula no cocoruto, a bolsa de retrós e as suas jóias falsas, para jogar na roleta do Casino.[31] ; a empregada Adelaide, sombra protetora da patroa a quem chamava de menina e que tinha como tesouro uma moldura quebrada com elas duas novíssimas, ou que a empregada jurava serem as duas, dissolvidas numa mancha castanha[32]; e ainda o avô, que uma tarde trancou-se no cubículo que prolongava o escritório e quis matar-se com a pistola descarregada[33]

Entre aqueles que já eram adultos em 1974, os mais velhos no século atual, ainda é possível detectar a atitude de fuga da realidade por parte dos privilegiados do antigo regime; e a subserviência dos menos favorecidos, resultante da dependência e idolatria que desenvolveram pelos seus patrões no passado.

Não entres tão depressa nessa noite escura nos revela a narrativa contemporânea com todos os seus impasses: a fragmentação, o desaparecimento da trama e dos personagens (que são desconstruídos), a ausência do narrador, a contestação política (mostrando os valores decadentes, a crise dos valores burgueses e a crítica ao lado social). Aponta ainda para a crise dos valores estéticos ao chamar o romance de poema.

Espelho da sociedade portuguesa, o romance é uma tentativa do autor de encontrar a si mesmo através da arte. A viagem interior que sugere seria o exercício indispensável para tentarmos compreender as nossas próprias angústias.

Na circularidade que a narrativa oferece, proporcionando o diálogo com o passado na busca de um sentido para o momento presente, voltamos à epígrafe escolhida por Lobo Antunes para abrir o seu trabalho e fechamos com ela o nosso:

Los locos van libres por las salas y pasillos o
por las habitaciones de los hombres, sin que
ello inspire el menor recelo de evasión o
desorden. Incluso algunos de ellos,
pertenecientes a familias distinguidas,
acompañan a las visitas, hacen los honores de
la casa. Guardan las más suaves formas de
cortesía y buena educación.[34]

1] ELEK MACHADO, Cassiano. "Fado' ensaia todo Lobo Antunes, diz crítica. Jornal Folha de São Paulo, 03 ago. 2002, p. E12.
[2] LOBO ANTUNES. Não entres tão depressa nessa noite escura. 5 ed. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2000, p.15.
[3] Idem, p.517 e 519. [4] Idem, p.45. [5] Idem, p.60. [6] Idem, p.113. [7] Idem, p.525.
[8] MARCUSE, Herbert. Eros e Civilização — uma interpretação filosófica do pensamento de Freud. Rio de Janeiro: Zahar Editores,1968, p.33.
[9] MARCUSE, Herbert. Op.cit., p.34.
[10] LOBO ANTUNES. Op. cit., p. 388. [11] Idem, p. 551.
[12] LOBO ANTUNES. " A constância do esforço criativo". Jornal de letras, artes e idéias. Ano XVI/n.677. Lisboa: 25 set. — 8 out, 1996, p.14.
[13] MARCUSE.T. Op cit., p. 39.
[14] LOBO ANTUNES. Não entres tão depressa nessa noite escura, p. 527. [15] Idem, p. 527. [16] Idem, p. 30. [17] Idem, p. 237. [18] Idem, p. 45. [19] Idem, p. 47.
[20] LOBO ANTUNES, António. Memória de Elefante. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1991, p.25.
[21] ELEK MACHADO. Op. cit., p. E13.
[22] HALPERN, Manuel. "Personagem de Romance". Jornal de Letras, artes e idéias. Ano XX / nº783. Lisboa. 04-17 out. 2000.
[23] LOBO ANTUNES. Não entres tão depressa nessa noite escura, p.196.
[24] VIEIRA, Joaquim. Portugal séc. XX — crónica em imagens 1970-1980. Lisboa: Círculo de Leitores, 2000, p. 163.
[25] LOBO ANTUNES. Não entres tão depressa nessa noite escura, p. 207.
[26] LOBO ANTUNES. Não entres tão depressa nessa noite escura, p. 42. [27] Idem, p. 264. [28] Idem, p. 143.
[29] VIEIRA. Op. cit., p. 164.
[30] LOBO ANTUNES. Não entres tão depressa nessa noite escura, p.237. [31] Idem, p.17. [32] Idem, p.21. [33] Idem, p.24. [34] Idem, p.09.

 
por Profª Rosemary Gonçalo Afonso
Janeiro - Março 2004

17/12/2004

Ängela Beatriz Faria disserta sobre O Esplendor de Portugal


O ESPLENDOR DE PORTUGAL, de António Lobo Antunes: "o desencantamento do mundo e a desrazão"
Um povo que não reflecte sobre a própria
história arrisca-se a perder a identidade.
("A guerra distante" - Joaquim Vieira)

O conhecimento do mundo exterior, sem o conhecimento
de si mesmo, desertifica o mundo e não nos traz felicidade.
( Vestígios: escritos de filosofia e crítica social - Olgária Matos)
O esplendor de Portugal, décimo segundo romance de António Lobo Antunes, publicado em Lisboa, em 1997, referencia o entrecruzamento da perspectiva história e da configuração de subjetividades presentes nas epígrafes selecionadas por nós.
O título, sarcástico e instigante (bem ao gosto do autor), veio a ser retirado de um dos versos da letra do Hino Nacional, da autoria de Henrique Lopes de Mendonça, erigido como epígrafe do novo romance e apresenta um diálogo intertextual com o Hino adotado pela República ("Contra os bretões, marchar, marchar!") e seu sentido antibritânico incutido por causa do Ultimatum, como tão bem assinalou Carlos reis, no ensaio crítico publicado no JL e intitulado "Um romance repetitivo":
Heróis do mar, nobre povo,
Nação valente e imortal,
levantai hoje de novo
o esplendor de Portugal!
Dentre as brumas da memória
ó Pátria sente-se a voz
dos teus egrégios avós
que te há de levar à vitória.
Às armas, às armas,
sobre a terra e sobre o mar!
Às armas, às armas,
pela Pátria lutar!
Contra os canhões marchar, marchar!
Este texto fundador de uma nacionalidade, uma vez recontextualizado em um período pós-colonial, leva o leitor a refletir sobre uma das questões formuladas pelos romances portugueses contemporâneos e que diz respeito ao vazio existencial, decorrente do colapso das grandes narrativas de transformação social como o comunismo e o socialismo, que eram, de algum modo, sistemas éticos transformados em projetos políticos. Finda a utopia revolucionária político-social, instaurou-se uma antiutopia, marcada pelo "desencantamento do mundo e pela desrazão".
É exatamente isto que surge na plenitude criativa da escrita de Lobo Antunes: "brumas" recentes da memória e da História serão desveladas neste romance, que se configura como um diário (não canônico) de membros de uma família, seu poder e decadência em África, em períodos que antecedem a guerra colonial e após a independência das colônias. Neste tempo assinalado historicamente e cuja aventura é partir ou ficar, o leitor atento observará, segundo o ensaísta citado há pouco, a "refutação das mitologias públicas e privadas, como a pátria e seu esplendor, a família e seus rituais". O fulgor ou resplendor1, a grandeza ou a suntuosidade característicos de um momento solar e eufórico do Império português cederão lugar a um tempo pós-colonial e a espaços degradados: Angola destroçada, referenciada em ruínas e ocupada pelo FNLA, pela UNITA, tropas "fandangas" do Governo, sul-africanos, mercenários russos, americanos, cubanos, belgas, franceses e ingleses; os musseques e Luanda, a cidade inacabada e dos "defuntos"; Lisboa a desprezar e rejeitar os colonos recém-chegados, "despaisados" e desterritorializados na geografia do exílio (OEP, 256-7).
Esta discursiva da pós-colonialidade, epopéia às avessas, inscreve uma "simultaneidade de sentires, filamentos de memórias refletindo-se no espelho quebrado da perda das identidades"2 ou da sua busca. Assim, as vozes múltiplas que preenchem as páginas dos diários se auto-definem e ao processo histórico, assinalando a sua condição de marginalizadas pela sociedade: Carlos, filho bastardo e mestiço, à espera inútil dos irmãos que expulsara de casa, em uma noite de Natal; Rui, epiléptico e isolado da família em uma casa de saúde, por transgredir regras de bom comportamento; Clarisse, fixada à imagem do pai e considerada prostituta, cujo meio de sobrevivência consiste em relacionar-se com vários homens, para manter o luxo a que se tinha acostumado; Isilda, mãe dos três, colonizadora expulsa da própria fazenda em África, ao ser inaugurada uma nova "ordem" social, sempre acompanhada de uma empregada africana – Maria da Boa Morte –, errante pelas picadas de Marimbanguengo, com "um pano do Congo amarrado à cintura e matacanhas nos dedos" (OEP, 177), na sua "sina de inventar um presente que deixou há anos de existir" (OEP, 87).
Nesta epopéia às avessas, prenhe de armadilhas, Isilda insiste em recusar a realidade (julga que Maria da Boa Morte representa a própria morte e ordena que levante do chão, em que jaz ensangüentada – OEP, 367) e, em sua fuga, empreende uma viagem em busca de salvação (e não mais de riqueza, como no tempo da expansão ultramarina). Ela e sua tripulação jamais alcançarão a Ilha dos Amores, ficarão no meio do caminho, pois irão deparar-se com os soldados – adamastores bem sucedidos que concretizam a ameaça. Encontram, em sua navegação existencial e à deriva, o Cabo das Tormentas e não o da Boa Esperança. Ao pressentirem a trágica morte que se aproximava, compreendem que "estavam inchadas como os cadáveres da guerra à espera que o capim se fechasse sobre elas depois da partida dos pássaros" (OEP, 329).
Ao referir-se ao seu ofício de escrever, durante uma entrevista, Lobo Antunes pronunciou-se:
[...] o que os estrangeiros dizem que trago para a literatura não é mais do que a adaptação à literatura de técnicas de psicoterapia: as pessoas iluminarem-se uma às outras e a concomitância do passado, do presente e do futuro. "A escrita é um delírio controlado" – já lá dizia Antero e antes dele, Horácio: "Uma bela desordem, precedida de furor poético, eis uma ode."3
Esta singular escrita do autor torna-se capaz de revelar a crise da subjetividade coerente, o ensimesmamento e a "escrita de si", característica do período finissecular. Ao se pronunciarem, autobiograficamente, através de monólogos interiores ou solilóquios, na pseudo-escrita de um diário, as personagens iluminam-se umas as outras, através do fluxo da consciência. Desejos, emoções e paixões surgem como categorias políticas e, como afirma Olgária Matos,
É por não ser nunca idêntica a si mesma, que a identidade se apresenta na grande metáfora da viagem – deslocamento mo espaço e no tempo, referida mo território interno do próprio viajante; nela arriscamos nossa própria transformação.4
Na configuração deste diário não ortodoxo (que não obedece a uma sucessão cronológica e nem contém confissões de uma única personagem, mas sim de várias), observa-se a fixação de memórias estilhaçadas e fragmentárias, imagens repetitivas e vozes entrelaçadas, passíveis de superpor tempos e espaços diferenciados. Há uma voz – a da Lena – única capaz de aludir a uma precisa sucessão temporal. Há uma data central e redundante – o 24 de dezembro de 1995 – que concentra solidões individuais e personagens interiorizados sobre si próprios. As evocações de Carlos, Rui e Clarisse ocuparão, respectivamente, cinco capítulos cada, distribuídos seqüencialmente pelas três partes que compõem o romance e ocorrerão do dia do natal, data simbólica do nascimento do Deus-menino, considerado, pela teologia cristã, "infinitamente perfeito, criador e regulador do universo, causa necessária e fim último de tudo o que existe." Portanto, não será gratuita, a inscrição irônica – FINIS LAUS DEO –, no último capítulo do romance, também assinalado por esta data, e que nos relata o assassinato da mãe, Isilda, esquecida pelos filhos, espoliada da fazenda de arroz, girassol, algodão e milho. No entanto, no momento da morte, em que é impossível "marchar contra os canhões" ou metralhadoras "dos tropas do Governo de gravatas coloridas, óculos escuros espelhados de armação metálica como se fosse de prata" (OEP, 395), torna-se capaz de vivenciar o simulacro ou o símile enganador da harmonia desejada. Vejamos:
[...] mas não tinha medo por ser dia, os tropas, mesmo o dos botins de verniz não iam roubar-me nem levar-me com eles nem fazer-me mal, não havia um só quarto às escuras em Malange, erguiam as metralhadoras, fixavam-me com a mira, desapareciam atrás das armas, o modo como os músculos endureceram, o modo como as bocas se cerraram e eu a trotar na areia na direcção dos meus pais, de chapéu de palha a escorregar para a nuca, feliz, sem precisar de perguntar-lhe se gostavam de mim. FINIS LAUS DEO (OEP, 395)
É interessante observar que as outras datas aleatórias que surgem no romance descrevem um percurso fragmentário (de 24 de julho de 1978 a 7 de setembro de 1995) e são preenchidas pela voz desta personagem feminina que descreve o apogeu econômico do início da colonização em África e sua derrocada gradativa, as relações entre as diferentes raças e classes sociais, a violência, o desamor, a traição, a coerção e os genocídios praticados.
Sua enunciação discursiva é reiteradamente marcada por determinadas frases significativas, como, "a casa está morta" (OEP, 92), "por que sou mulher" (OEP, 108) e "Angola acabou para mim" (OEP, 237) ou "A tua casa é do povo camarada" (OEP, 87). Além disso, esta personagem, cujo ego reconstituído para uma satisfação narcísica busca escapar da morte cruel, ao vivenciar o desalento tematiza a questão do espelho e viaja dentro de sua própria interioridade:
Quando à noite me sento ao toucador para tirar a maquilhagem pergunto-me se fui eu que envelheci ou foi o espelho do quarto. Deve ter sido o espelho: estes olhos deixaram de me pertencer, esta cara não é a minha, estas rugas e estas nódoas na pele serão manchas da idade ou ácido do estanho a corroer o vidro? Dantes, no tempo do meu pai...(OEP, 51)
Esta freqüente intersecção de planos temporais, evidenciada no exemplo citado, percorre toda a narrativa e permite aos personagens angustiados e desamparados a ilusão de assumirem-se como demiurgos ou possíveis deuses da criação, ao paralisarem o tempo e fixarem imagens ou sons obsediantes, como por exemplo, a associação feita por Carlos entre o bater do pêndulo do relógio e o do coração:
[...] quando eu não tinha adormecido, não podia adormecer, nunca poderia adormecer, tinha de ficar horas e horas de olhos abertos, quieto no escuro para que ninguém morresse dado que enquanto qualquer coisa no meu peito oscilasse da esquerda para a direita e da direita para a esquerda continuávamos a existir, a casa, os meus pais, a minha avó, a Maria da Boa Morte, eu, continuaríamos todos, para sempre, a existir. (OEP, 77)
Constata-se, no entanto, que no mundo pós-moderno e pós-colonial, o desamparo virou desalento, pois os sujeitos da escrita vivem permanentemente numa condição de risco e de perda dos referenciais que funcionavam como interlocutores. Ao especularem sobre o próprio destino, vêem-se refletidos no espelho do país e suas identidades surgem estilhaçadas e tornam-se simulacros, em meio a fragmentos e ruínas reais ou simbólicas.
Em O Esplendor de Portugal, Lobo Antunes define o labirinto crítico da situação política e econômica da colonização portuguesa em África, através da voz de uma das personagens evocadas pela filha:
O meu pai costumava explicar que aquilo que tínhamos vindo procurar em África não era dinheiro nem poder mas pretos sem dinheiro e sem poder algum que nos dessem a ilusão do dinheiro e do poder que de facto ainda que o tivéssemos não tínhamos por não sermos mais que tolerados, aceites com desprezo em Portugal, olhados como olhávamos os bailundos que trabalhavam para nós e portanto de certo modo éramos os pretos dos outros da mesma forma que os pretos possuíam os seus pretos ainda em degraus sucessivos descendo ao fundo da miséria, aleijados, leprosos, escravos de escravos, cães, o meu pai costumava explicar que aquilo que tínhamos vindo procurar em África era transformar a vingança de mandar no que fingíamos ser a dignidade de mandar, morando em casas que macaqueavam casas européias e qualquer europeu desprezaria considerando-as como considerávamos as cubatas em torno, numa idêntica repulsa e idêntico desdém... (OEP, 255)
No entanto, o fim deste longo processo de desterritorialização colonial suscita, como nos aponta Boaventura de Souza Santo, em Pela mão de Alice: o social e o político na pós-modernidade, diferentes movimentos de reterritorialização (o país retoma, depois de cinco séculos, os limites de seu território). E, em decorrência disto, invertem-se os papéis antes definidos, o que obriga os personagens, expulsos de Angola, a sentirem-se excêntricos e marginalizados em sua própria pátria.
Este mesmo procedimento pode ser observado no romance As naus, publicado em 1988, em que figuras emblemáticas da História-pátria tiveram suas identidades de base redimensionadas e, carnavalizantemente, minimizadas. Se antes eram pessoas autênticas em relação ao seu desejo, de acordo com projetos existenciais definidos, agora apresentam-se combalidas pela dor e pela solidão, brutalmente afetadas em seu cotidiano expectante e vazio, impossibilitadas de viver como desejariam.
Todas essas subjetividades malogradas vivenciam a perda das certezas e da estabilidade adquirida. Ao privilegiar o reflexivo, o desdobramento e a consciência infeliz, os autores contemporâneos configuram a antiutopia, capaz de deflagrar, segundo Baudrillard, a "contra-razão, a desterritorialização, a indeterminação do sujeito e da linguagem, a neutralização de todos os valores, da morte da cultura."5
Em O esplendor de Portugal, isso evidencia-se, inclusive, através da delação e da perda dos valores humanistas. Em uma das cenas mais chocantes, Isilda indica, friamente, aos tropas do Governo, o amante e chefe de polícia escondido dentro de um tronco de árvore, o que o leva a ser sumariamente executado. Observa-se, no espaço romanesco, a impiedade das personagens, que se ferem umas às outras sem o menor escrúpulo.
No entanto, o que nos fascina nos romances de Lobo Antunes é que qualquer registro trágico surge acompanhado de uma atitude carnavalizadora e transgressora, fazendo com que o leitor desate a rir. Mas convém lembrar que, dentro do contexto de O esplendor de Portugal, isto transforma-se no grotesco, como atestam, particularmente, duas cenas: o noivo bêbado estatelado no carpete a proteger-se do futuro sogro "que lhe tocava com o bico do sapato, intrigado, a assegurar-se que o embrulho de linho sujo respirava e vivia" e a dizer: "– Onde diabo desencantaste este palhaço Isilda?" (OE, 57) e o menino Rui a destroçar todos os brinquedos de corda encontrados em uma retrosaria ("ursos de feltro, patos de plástico, pingüins, girafas, sapos"), a julgar que troçavam dele, transtornado com um "panda que pestanejava vagidos mecânicos" e dizia, sem parar, "My name is Jimmy", ao passo que a vendedora, atônita, perguntava-se: "– O que é isto?", enquanto uma "velhota de luxo carregado acompanhada do neto gordo e assustadiço de calções", ordenava: "– Telefone à polícia menina Graciete que é um doido". (OEP, 169)
O humor, portanto, torna-se uma forma de auto-irrisão, método de distanciamento e forma de compensação, o que nos possibilita afirmar o primado do "freudiano princípio do prazer que tenta vingar-se de um adverso princípio da realidade."6
Em As naus, por exemplo, há relatos que configuram o riso libertador e autocomplacente que se sobrepõe a um desgostoso e desgastante real. O casal anônimo, que verbaliza a situação dos retornados de África, após a descolonização, e que se considera "múmias sem préstimo espantadas", torna-se capaz de carnavalizar a situação opressora.
Na ficção de Lobo Antunes, a energia criadora alia-se ao conhecimento técnico das palavras, revelando uma maturidade de escrita absoluta, capaz de comover o leitor, fazê-lo rir e sentir-se cada vez mais perto da vida.
Esta forma cultural portuguesa de estar no mundo revela que o esplendor de Portugal, numa época de "desencantamento do mundo e de desrazão", reside, magistralmente, no espaço da escrita.

Referências bibliográficas
ANTUNES, António Lobo. O esplendor de Portugal. Lisboa: Dom Quixote, 1997.
------. As naus. Lisboa: Dom Quixote, 1988.
BAUDRILLARD, Jean. América. Trad. de Álvaro Cabral. Rio de Janeiro: Rocco, 1986.
REIS, Carlos. António Lobo Antunes. Um romance repetitivo. JL: Jornal de letras, artes e ideias. Lisboa: 705. 22 out-4 nov., 1997.
SANTOS, Boaventura de Sousa. Pela mão de Alice: o social e o político na pós-modernidade. Porto: Ed. Afrontamento, 1994.
 Notas
1. REIS, Carlos, António Lobo Antunes – Um romance repetitivo. JL: Jornal de Letras, artes e idéias. Ano XVII, nº 705, 22 de out. a 4 de nov., 1997. P. 24.
2. SILVA, Rodrigues da. Do outro lado do céu... Ensaio publicado no JL, Ano XVI, nº 677, 25 de set. a 8 de out., 1966 sobre O manual dos inquisidores, de António Lobo Antunes.
3. LOBO ANTUNES, António. A constância do esforço criativo. JL, Ano XVI. nº 677, 25 de set. a 8 de out., 1996, p. 14.
4. MATOS, Olgária. Vestígios: escritos de filosofia e crítica social. São Paulo: Palas Athea, 1998. p. 151.
5. BAUDRILLARD, Jean. América. Trad. de Álvaro Cabral. Rio de Janeiro: Rocco,1986. p. 84
6. TEIXEIRA, Rui de Azevedo. A guerra colonial e o romance português. Lisboa: Editora Notícias, 1998. p. 213

por Ängela Beatriz Faria
(UFRJ)
[não datado]

08/12/2004

Ana Margarida Ramos disserta sobre As Naus


A ficção de uma viagem de regresso à pátria. Um olhar sobre As Naus de António Lobo Antunes
   
Resumo
«Era uma vez um pequeno povo europeu que, embarcado há cinco séculos, depois de muito viajar pelas sete partidas do Mundo, regressa, enfim, à casa tão pobre quanto partira - e deita contas à vida, indeciso ainda quanto ao rumo a traçar. Que fazer, agora? Ou antes: como refazer-se a si próprio numa situação nova, original, em cinco séculos de história volvida?» (Serrão 1989:34)
«Imagine que os retornados voltaram nas naus que sobraram aos naufrágios, e que os caixotes que se acumulavam em Alcântara tinham escritos nomes destes: Luís de Camões, Vasco da Gama, Pedro Álvares Cabral, Diogo Cão, Francisco Xavier, Manuel de Sepúlveda.» (Pedrosa 1988:70)

Inserindo-se numa linha ficcional que reflecte a contemporaneidade portuguesa ou a sua história mais ou menos recente, António Lobo Antunes, em As Naus, recria, de uma forma original pelo recurso à paródia e à desconstrução, o conceito de Portugal e a especificidade de ser português. O romance em questão tem como ponto de partida duas histórias diferentes de um mesmo país (a contemporânea e a de há cinco séculos) que são entrecruzadas e metaforizadas de tal modo que tudo é possível. O fio condutor para a leitura da obra As Naus passa por uma visão negativa e pessimista da sociedade portuguesa dos nossos dias. A parodização de figuras e acontecimentos funciona, de acordo com Hutcheon (1985), como uma aproximação afectiva aos elementos retratados e como um afastamento crítico desses mesmos objectos. Aqui também só se parodia aquilo que se ama, se admira e às vezes quase se venera. A história de Portugal (aqui história de Lisboa) apesar de pintada a tons carregados e amargos, dá grandes lições de amor, de orgulho e de patriotismo. Às vezes, é pelo lirismo da alma e da poesia que encontramos a definição de um povo: «pareceu-me que o Tejo cheirava ao odor do teu corpo quando acorda, indiferente ao meu amor por ti» (Antunes 1988: 187) ou «a tonalidade das ondas contra a pedra mudara, agora transparente e doce como o som dos teus olhos» (idem, ibidem: 22).

Esta é, pois, uma história de regresso a casa, ou melhor, de retorno à pátria, dos habitantes dos países africanos recém-independentes, após a «revolução de Lixboa» (Antunes 1988:228). Mas, nem o Portugal que encontram é o mesmo que deixaram anos (ou séculos?) atrás, nem estes retornados são, na sua totalidade, a gente anónima que, em número superior ao meio milhão, desembarcou em Lisboa, no cais de Alcântara, ou fez o trajecto através da ponte-aérea.

É então de descolonização e de retorno que se fala, mas também da partida de navegadores e heróis há cinco séculos atrás. Aliás, os tempos da partida e da chegada ligam-se e misturam-se de tal maneira que estão sempre presentes no imaginário dos retornados aqui transformados em personagens de romance. A própria concepção do tempo neste romance levanta-nos alguns problemas, se tentarmos encontrar no tempo uma linha condutora do romance.

Apesar da ironia na escolha das personagens e do cómico patente em algumas situações, fruto do jogo com tempos e personalidades diversas, o que ressalta deste romance é uma imagem de Portugal profundamente desiludida e dolorida. Tudo parece ter acontecido em vão. O que resta de tantas viagens, descobertas, partidas, naufrágios, epopeias e poetas é um grupo de tuberculosos que, sentados numa qualquer praia, olham o mar e esperam que dele venha a salvação nacional. Portugal surge aqui sem presente nem futuro e parece até perder os vestígios de um passado que muitos querem, à viva força, glorioso.

Por outro lado, a desmitificação das figuras históricas permite a sua humanização e consequente aproximação. Ao pegar em Camões amargurado às voltas com a sua epopeia na gare de Alcântara, em D. Manuel com a sua coroa de plástico, ou ainda em D. Sebastião esfaqueado em Marrocos, o autor persegue a alcança objectivos distintos: critica um povo que vive, ainda hoje, demasiado ligado ao passado; parodia um género literário (romance histórico) também ele excessivamente utilizado, ao mesmo tempo que recorre a alguns dos seus condimentos; reflecte sobre a actualidade de Portugal e desmitifica uma história e alguns mitos (D. Sebastião e Alcácer-Quibir), esvaziando a memória nacional e chamando um país à realidade que continuava a ignorar. É como se Portugal tivesse adormecido durante longos anos (séculos) e fosse agora necessário acordá-lo rapidamente e retirá-lo do adormecimento e da letargia em que se encontra de qualquer forma.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ANTUNES, A. L. (1988): As Naus, Lisboa, Publicações Dom Quixote
HUTCHEON, L. (1985): Uma teoria da paródia, Lisboa, Edições 70
MATTOSO, J. (1993): História de Portugal (VIII volume), Círculo de Leitores
PEDROSA, I. (1988): "Entrevista com António Lobo Antunes" in Revista Ler, nº 2
SERRÃO, J. (1989): Temas da Cultura Portuguesa II, Lisboa, Livros Horizonte

 
por Ana Margarida Ramos
Revista da Universidade de Aveiro - Letras, nº 18, Aveiro, pp. 7-18 (2001)

Crónica «Nós» com reflexão sobre a sua leitura por Olga Fonseca

Nós Não precisávamos de falar. Como ele dizia – Tu sabes sempre o que eu estou a pensar e eu sei sempre o que tu estás a pensar ...